Perdidos
3 O Mistério
O dia já havia raiado. Já havia se passado um dia inteiro desde a chegada dos calouros da UFGRS ao Pantanal. Os alunos terminavam de tomar seu café da manhã, conversando sobre os jacarés que conheceram no final da tarde anterior, e a clássica noite da fogueira num dos arredores mais afastados da fazenda.
Um grupo conversava, relembrando os relatos.
— O melhor foi quando resolveram contar aquelas histórias de terror ao redor da fogueira! — Wesley comentou, soltando uma risada divertida, olhando diretamente para Guilherme e Nathália, que tiveram problemas pra dormir devido às histórias.
— Não, o mais divertido foi ver a Amanda caindo naquele lamaçal. — Deise apontou descaradamente para a loura, como uma criança querendo puxar briga.
— Cala a boca! — a garota respondeu num tom arrogante. — Desculpa, mas nada se compara à Henri morrendo de medo de chegar perto dos jacarés! — a loura comentou, lançando um olhar divertido para o garoto.
— Mas você também estava com medo! — retrucou Henrique, franzindo o cenho para os amigos, que começaram a rir diante este comentário.
— Mas você tava realmente com medo, Henri. Não tem como negar. — Thiago disse, batendo com a mão nas costas do amigo.
A turma continuou conversando animadamente. Mas logo a conversa foi interrompida por Raquel, que entrou no refeitório, chamando a atenção de todos.
— Bom dia, galera! — o tom na voz da morena era alegre, o que deixava os alunos cada vez mais contagiados. — Hoje teremos uma aventura diferente. Ao invés de ficarmos na fazenda, e falar, novamente, dos nossos famosos jacarés, o que vocês acham de fazermos uma trilha?
A indagação pegou todos de surpresa. Os murmúrios começaram a ficar mais alto. Claro que muitos estavam animados com a ideia. Mas nem todos pareciam estar gostando.
— Sair andando no meio desse mato? — o tom de nojo era mais que perceptível na voz de Amanda. — Vamos pisar em lama, vai ter bichos nos picando por tudo quanto é canto. Argh!
— Pare de ser chata! — Deise falou, fazendo com que Amanda se calasse.
— Eu acho muito legal! — Thiago era o mais animado do grupo. Sua voz carregava um tom quase infantil, como se tivesse ganhado um presente maravilhoso de aniversário.
— Eu também acho interessante. Assim posso explorar melhor a fauna e a flora. — Guilherme comentou, recebendo um olhar reprovador de Deise.
— Você acabou de fazer a trilha virar um passeio chato de escola. — a morena comentou, apoiando o queixo na mão.
— Tecnicamente, Dê. Isso aqui é um passeio de estudo. — Wesley se pronunciou.
— Bom, eu acho que seria uma aventura inesquecível. — finalmente a voz de Nathália foi ouvida.
Henrique ficou quieto. Algo ainda lhe incomodava. A sensação ruim de ontem ainda não lhe abandonara, e então, um frio subiu pela sua espinha dorsal, fazendo-o se encolher todo.
A voz de Raquel novamente imperou no ambiente. Falando que os interessados deverão esperá-la após o almoço na frente dos dormitórios. E que eles deveriam levar em uma mochila, uma muda de roupas, água, e qualquer item que achassem necessário para a trilha.
Com o fim do café da manhã, os alunos tiveram suas atividades básicas. Recebendo instruções de como funcionavam uma fazenda de criação, a importância dos jacarés-do-pantanal para a fauna brasileira. E também, descobriram que na fazenda "Bastos de Mello" eles também criavam outras espécies. Como rãs, sapos e até mesmo serpentes.
O começo de tarde foi chegando, e logo após o almoço, uma boa parte dos alunos estavam em frente aos dormitórios, devidamente prontos.
Nathália entregava para seus amigos um repelente, afinal, ela havia sido a única no grupo que havia se lembrado que repelente num lugar de flora era mais que essencial.
— Estão prontos? — a voz do professor Octávio se fez presente, e ao lado do mesmo, estavam Raquel e o senhor Marques. — Uma regra importante: nunca se separem, fiquem próximos do grupo. Caso vocês se percam, não saiam do lugar, façam uma fogueira, por que assim veremos a fumaça e os encontraremos. Entendido? — o coro respondeu afirmativo.
Todos começaram a andar no meio da flora. Observando todas as espécies de plantas e flores que existiam naquela região. A voz idosa de senhor Marques sempre era ouvida, falando algo sobre os "mistérios" que assombravam o Pantanal, mas Raquel o interrompia com educação.
— Esses papos de mistérios estão deixando isso aqui mais divertido. — Wesley comentou animado, tomando cuidado para não pisar em falso.
— Argh, eu quero é voltar para a fazenda logo. Prefiro os jacarés do que ficar enfurnada no meio desse mato. — Amanda reclamava, sempre dando chilique quando algum inseto voava sobre o rosto dela.
— Acho que devo estar com febre, mas estou concordando com a Amanda. — Deise se pronunciou. — É muito mato, e esses insetos são enormes! — a morena tentava acertar algum pernilongo que voou sobre sua face.
— Cuidado! Isso é um ****, é uma espécie rara! — Guilherme se exauriu, segurando o braço de Deise.
— Pare de ser chato, Gui! — Deise comentou. — Ei, Henri, Nath, Thi, por que vocês estão tão quietos? — a morena virou o rosto, mas tudo o que vira fora a trilha por onde passaram. Nenhum sinal de seus amigos. — Gente... — o tom de voz de Deise se tornou desesperado.
— Deise, se você ficar para trás a gente vai acabar se perdendo. — Wesley comentou virando o rosto para o morena, mas se assustou quando viu a expressão de desespero no rosto dela. — O que houve?
— Cadê o Thi, o Henri e a Nath? — Amanda perguntou alto.
— Eles sumiram... — foi a única coisa que Deise conseguiu responder.
— Como? — desta vez foi Guilherme que se exaltou. — Mas eles estavam atrás de nós! Professor, parece que... — o garoto de óculos se calou, na sua frente não havia ninguém. Apenas diversas plantas altas. — Eles desapareceram! — o grito saiu da garganta do jovem.
Wesley, Amanda e Deise olharam para frente, se assustando ao não verem ninguém.
— Mas eles estavam na nossa frente há poucos minutos! Não poderiam ter sumido desse jeito! — a loura também gritou, bufando de raiva e desespero.
— Calma! Precisamos manter a calma! — a voz de Wesley era baixa e tranquila, como se tentasse transmitir a calma que tanto pedia.
Deise abriu a mochila, pegando seu celular, mas o coração da morena falhou uma batida ao perceber que a barra de sinal indicava "sem serviço". Agora a ficha havia caído para ela. Eles estavam perdidos, mas não sabiam como aquilo se causou.
— Será que é um dos mistérios que senhor Marques falava? — perguntou para si mesma, levantando o rosto, vendo a discussão que se formava entre Wesley, Amanda e Guilherme.
Numa outra parte da floresta, Henrique, Nathália e Thiago estavam andando em círculos, não conheciam nada daquele local, e todo o cenário parecia ser o mesmo. Se Guilherme estivesse com eles, talvez conseguissem descobrir as espécies de plantas que viam, assim, podendo dizer se realmente já haviam passado por ali.
— Como fomos nos perder? Estávamos logo atrás deles! — Henrique se lamuriava, por fim, ficando parado diante uma árvore.
— Acalme-se, é super normal ocorrer perdas em trilhas. Eles já devem ter sentido nossa falta e estão nos procurando. — Thiago falava calmo.
— É verdade, Henri. O Thi entende das coisas! — Nathália falou no mesmo tom de voz calmo.
Henrique nada respondeu. Infelizmente, todos seus pressentimentos ruins acabaram acontecendo. Sabia que aquela viagem traria problemas.
— Alguém trouxe fósforo ou isqueiro? — Thiago indagou. Henrique virou o rosto, vendo que o moreno já estava com alguns pedaços de madeiras nos braços.
— O que você está fazendo? — o garoto perguntou, levantando uma sobrancelha intrigado.
— Lembra do que professor Octávio falou? Caso nos perdêssemos montar uma fogueira, assim poderiam nos encontrar. — Thiago respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Mas se montarmos uma fogueira não terá risco de incêndio? — desta vez foi Nathália que perguntou, ao mesmo tempo em que entregava um isqueiro para o moreno.
— Não tem perigo! — Thiago respondeu animado. — A região aqui é toda alagada, o fogo se apagaria antes de se espalhar. — a garota soltou um sorriso. Estava surpresa em como Thiago entendia sobre sobrevivência, sabia que ele fora criado numa fazenda em Minas, mas jamais imaginava que ele tinha tanto conhecimento. — Mas por precaução, melhor colocar pedras ao redor da fogueira. Henri, poderia pegar algumas? — o moreno pediu, quando por fim, o fogo se ascendeu.
Henrique começou a pegar as pedras médias que encontrava no chão. Estava com um nó na garganta, a sensação ruim ainda não o abandonara. Ia pegar mais uma pedra, mas seus olhos arregalaram quando viu algo que se destacava no chão.
— Thi, Nath! Venham ver isso! — ele gritou, ao mesmo tempo em que a dupla apareceu atrás de si. — Estão vendo isso? — ele apontou para uma parte do chão que estava amassada, era uma pegada. O rastro no chão mostrava que alguém havia andado por aquele local à pouco tempo. Seguindo para o centro da floresta.
— A trilha ainda está muito recente. — Thiago analisou.
— Será que é do nosso grupo? — Nathália indagou.
— Não. Parece que foi só uma pessoa, nosso grupo tinha muita gente. — o moreno coçou a barba que crescia. — Seja como for, acho que é melhor seguirmos. Quem sabe possa nos ajudar. Vamos pegar as coisas.
— Mas a gente pode se perder no meio desse matagal de novo! — Henrique ressaltou, e o temor era notável na voz do rapaz.
— Acho que mesmo de longe, podemos ver a fumaça da fogueira, não é? — Nathália formou uma teoria, e recebeu um aceno de cabeça positivo de Thiago, fazendo com que o rosto da menina corasse.
— Eu teria mais medo, é se o fogo se apagar. Mas acredito que isso não aconteça. Vamos? — Thiago falou por fim, andando na frente. A dupla atrás de si arrumaram a mochila sob as costas, e seguiram prontamente o moreno.
O trio já estava longe demais para reparar, mas alguém observava tudo. Andou lentamente até a fogueira, e chutou uma quantidade considerável de terra sob a mesma, apagando-a.
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