Perdido na Neve
4 Capítulo IV: Ela
Notas iniciais
Após alguns segundos imóvel, percebendo que não estava mais sendo perseguido, o homem tirou um corpo que estava em cima do seu, escondendo-o, ao remover o corpo e se deparar cercado por cadáveres o vômito foi inevitável. Ele então procurou seu cetro e, ao pegá-lo, iluminou o local em busca do facão e do rifle, achando-os em seguida. O andarilho rasgou um pano e colocou em sua mão esquerda que sangrava por ter sido perfurada pelo seu facão e depois começou a engatinhar sobre os corpos procurando uma forma de sair dali, pois, escalar por onde havia descido era praticamente impossível, principalmente pelas ferramentas que possuía. Ele então se pôs de pé e tentou bater o cetro na parede para ver se surtia algum efeito como antes, porém, o instrumento de nada parecia ser útil naquele momento. Sem alternativas, ele tinha que vasculhar corpo por corpo procurando alguma coisa entre os cadáveres que o auxiliasse na escalada.
Rodando pelos corpos da enorme cratera por alguns minutos, sentindo-se exausto, desnorteado, perdido e desesperado pela sensação claustrofóbica que o sufocava ele simplesmente sentou em um dos corpos e se pôs a chorar, praguejando bastante enquanto socava o corpo abaixo de si, o que era totalmente compreensível. O medo, a angústia, a claustrofobia, tudo isso lhe fazia repensar se realmente era necessário continuar sofrendo rumo a um destino incerto, pois, desde que acordou, tudo parecia querer vê-lo morto, sejam os animais, como o urso e lobos, seja o clima nada favorável e agora selvagens com tendencias canibais que buscavam desmembrá-lo, tudo isso sem nem sequer saber de onde veio, quem é e que lugar é aquele. Enxugando suas lágrimas depois de alguns minutos de abalo emocional ele se pôs de pé e continuou procurando, foi quando o ruído voltou, porém, pela primeira vez, ele pôde entender um pouco do que o ruído dizia.
— Por fa... Est... Aí?— Dizia a voz feminina vinda do cetro.
— Oi, olá?! Tem alguém aí? – Perguntava o homem olhando para a esfera.
— Li... Onde... es?!
— Olha, eu não sei o que está acontecendo, mas se estiver me ouvindo, eu estou em uma cratera cheia de corpos, eu... Eu não sei o que está acontecendo. Olá?! Ainda está aí?
— Vá pa... a... rre... ido!
— O quê? Eu não entendo.
— Vá pa... a... rre... ido! — Repetia a voz, deixando-o confuso.
— Está falhando, eu não... Olá?! Está aí? – Ele chamava, mas não obtinha resposta – Ah, merda!
Não deu tempo de processar a informação e ele começou a ouvir o mesmo som emitido pelos selvagens. Ao olhar na superfície, ele percebeu labaredas de fogo sendo lançadas dentro da cratera, tomando conta dos corpos que não estavam congelados, descongelando os demais e espalhando as chamas à medida que flechas de fogo com um material inflamável começaram a serem lançadas.
Não demoraria muito tempo para que as chamas o alcançasse ou a fumaça o sufocasse. Sem ter para aonde ir, ele levantou o cetro, rodando em volta de si, tentando iluminar o local e ao fazer isso, um brilho logo a frente. Correndo até o que reluzia, ele estendeu sua mão para pegar uma machado de gelo cravado na cabeça de um dos cadáveres e, após forçá-lo, conseguiu o arrancar, partindo em direção à parede oposta às chamas. Ao chegar na parede, ele colocou o cetro nas costas, junto com o rifle e o facão na cintura, subindo com o auxílio do machado de escalada. Fincando fortemente o machado com a mão direita, ele ia vagarosa e cuidadosamente escalando, centímetro por centímetro.
Alguns minutos depois, ele conseguiu chegar à borda da superfície, ao colocar a mão na borda, o homem foi surpreendido por uma das crianças que estava tentando tomar seu cetro anteriormente. A criança gritava olhando para a outra borda da cratera, aparentemente chamando um dos adultos para ajuda-lo enquanto enfiava o dedo no pano que cobria a ferida do homem, tentando derrubá-lo. Diante da situação, o homem percebeu que se continuasse ali resistindo à criança, em um determinado momento um dos selvagens chegaria e o pior poderia acontecer, mesmo evitando pensar nisso, só havia uma única possibilidade de se safar. Com a mão esquerda, ele pegou o braço da criança, segurando-o com firmeza e, tirando seu machado da parede, ele desferiu um golpe na cabeça do garoto que morreu na hora, permitindo que o homem continuasse sua escalada. Mal teve tempo de lamentar pelo que fez e já foi surpreendido por um dos selvagens que vinha para dar suporte ao menino que o chamara, mas, ao ver o homem removendo a machadinha do corpo do menino, o selvagem desembolou sua corda de ossos e jogou contra o rosto de homem, cortando-o superficialmente, em seguida, ele jogou contra o braço do andarilho que puxou a corda, trazendo o selvagem para perto, porém, quando se aproximou, o selvagem tirou um machado de sua cintura e tentou cortar o homem que afastou seu abdome, defendendo-se também dos próximos golpes vindos do selvagem cheio de fúria pela morte de um dos seus nativos. O homem conseguiu vantagem ao chutar o joelho do seu oponente, quebrando-o, fazendo o selvagem se prostrar deixando-o vulnerável ao homem que enfiou o machado em seu crânio três vezes.
Fugindo de seus algozes, o homem correu sem rumo até avistar prédios semelhantes ao que tinha encontrado. Ao adentrar na região onde as ruínas se encontravam, o homem parou de ser perseguido pelos selvagens que recuavam, aparentemente amedrontados. Intrigado, o homem continuou fugindo refugiando-se em um dos prédios para descansar. Tentando colocar seus pensamentos em ordem, ele focou no que a voz dizia e escreveu na fina camada de neve que cobria o chão, tudo que a voz disse, formando a seguinte mensagem:
“Por fa... Est... Aí? Li... Onde es...?! Vá pa... a... rre... ido!”
Olhando para os escritos no chão, ele começou a imaginar o que poderia ter sido dito, até que chegou a uma conclusão, acrescentando palavras e montando partes do quebra-cabeças.
“Por favor, está aí? Li... Onde está?! Vá para a torre, rápido!”
— Li? Esse é meu nome? – Indagou a si mesmo em voz alta, tomando o facão e olhando para o reflexo presente na lâmina – Não é possível, eu não sou asiático. Espera, torre, que torre?
O homem então subiu até o topo de um dos prédios e olhou ao redor pelo sinal de alguma torre, mas não era possível enxergar nada parecido. De repente, a voz novamente tornou a aparecer.
— Lied, Lied, está me ouvindo?— Perguntou a voz.
— Olá, sim, estou. Por favor, me diga o que está acontecendo. Esse é o meu nome de verdade? Onde estou? E por que estou sendo perseguido por aqueles selvagens.
— Espera, você não se lembra? Lee, sou eu, Aiko. Não é possível que não reconheceu minha voz.
— Eu não reconheço nem a mim mesmo.
— Como assim? Ah, merda!— Praguejou ficando em silêncio em seguida.
— O que foi? Aiko? Está aí? Me responde, por favor.
— Lee, vá à torre central, você tem...
— Que torre é essa? Eu não sei onde estou.
— Droga, eu tenho que ir, eles estão voltando. Vou te encontrar na torre, venha o mais rápido possível senão serei seguida. Conte vinte minutos e levante o cetro, ele te dará a direção. Tenho que ir. Se eles me pegarem, não tente me salvar. Sabe o que fazer.
— Espera, quem está te perseguindo? Aiko?! Aiko! Volta aqui. Ah, merda! – Vociferou, lançando o cetro ao chão – Certo, eu posso fazer isso, é só eu contar. Eu consigo.
O homem retornou ao interior do prédio em ruínas e começou a contar o tempo estimado pela voz que se denominava Aiko. Mesmo com muitas perguntas a fazer, ele decidiu obedecê-la, pois, ela era a única chance dele ter suas dúvidas sanadas e de encontrar uma forma de sobreviver.
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