Perdido em outro mundo
1 Um Objeto Misterioso
Notas iniciais
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Multiverso é um termo para descrever um hipotético grupo de universos possíveis. A realidade em que vivemos pode ser apenas mais uma entre um infinito de variações.
Existem um número imensurável de versões de nós mesmos, algumas fazendo exatamente a mesma coisa que fazemos agora. Outras, vivem vidas completamente diferentes.
O que alguém pode encontrar quando atravessa a barreira entre os universos?
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Era início de janeiro.
Harry atravessou os jardins, caminhando sozinho em meio à brisa gélida, que congelava suas orelhas.
O garoto saíra do castelo quase as escondidas, pois Rony espalhara para todo mundo que ele já fizera uma aparatação acompanhada e, com a proximidade do curso de desaparatação, todos os sextanistas queriam saber como era a sensação.
Cansado do interrogatório e sentindo náuseas de tanto escutar Lilá Brown gritando "Uon-Uon", Harry deslizara sorrateiramente para fora da mesa da Grifinória, e tomara o rumo da casa de Hagrid, onde permanecera o restante da tarde.
Queria ter convidado Hermione para acompanhá-lo, mas a garota sumira logo após Rony e sua namorada começarem a se agarrar no meio do Salão Principal. Devia estar escondida na biblioteca, com a cara enfiada em um livro, aprendendo algum feitiço, enquanto tentava esquecer a cena protagonizada pelo ruivo.
Rony era seu melhor amigo, mas Harry tinha de admitir: ele sabia agir como um idiota.
Sempre fora muito claro para o garoto de quem o Rony realmente gostava. Por que o amigo não podia admitir a verdade para si mesmo?
Ele soltou um suspiro ao ultrapassar a entrada do castelo e seguir para a escadaria do saguão. Quando alcançou o saguão ao lado da entrada do Salão Principal, porém, ouviu uma voz chamando-o:
— Ei, Harry!
Harry já subira quatro degraus quando se virou para olhar para trás.
Demelza Robins, uma das artilheiras do time da Grifinória, deixara a comprida mesa da casa e corria em sua direção. Harry pensou que ela iria perguntar sobre o retorno aos treinos de quadribol, afinal, como capitão era responsabilidade dele organizar os horários. Demelza, no entanto, apenas lhe estendeu um bilhetinho:
— Que bom que vi você — disse ela com um sorriso aliviado. — O Prof. Dumbledore pediu que lhe entregasse isso. Aqui está.
— Obrigado, Demelza — agradeceu ele apanhando o papelzinho. — A propósito, estou pensando em marcar o próximo treino de quadribol para sexta às quatro da tarde. Tudo bem pra você?
— Claro! Sexta às quatro, então.
— Ótimo. Vejo você depois.
Demelza voltou para junto das colegas enquanto Harry retomava a subida. Ao atingir o alto da escada, ele abriu o bilhete e parou para ler:
Caro Harry, gostaria de adiantar nossa aula de hoje à noite. Por favor, apresente-se ao meu escritório às 6 horas.
Alvo Dumbledore
O garoto olhou para o relógio. Faltavam apenas vinte minutos para às seis da tarde. Devia ser importante para que Dumbledore mudasse o horário tão subitamente.
Harry dobrou o papel e guardou-o no bolso, antes seguir o caminho em direção à sala do diretor.
Contudo, mal dobrara dois corredores quando, ao fazer uma curva, deu um forte esbarrão em alguém.
— Opa, cuidado!
— Ah, é você Harry! Que bom que o encontrei aqui!
Era seu colega de quarto, Simas Finnigan. Carregava uma caixa pequena, embrulhada em papel de presente e parecia meio aflito.
— Está tudo bem, Simas?
— Não, não está! Preciso de um favor e urgente! — disse ele, dramaticamente. — Preciso que guarde este pacote na Sala Precisa para mim.
— Na Sala Precisa? — repetiu Harry, sem entender. — Por quê? O que tem aí?
— É um presente... — explicou Simas, acrescentando um pouco corado: — Para Parvati.
— Parvati?
Simas fez que sim, agora mais vermelho.
— E por que não entrega logo? O Natal já passou...
— É, eu sei... este é para o Dia dos Namorados, mês que vem. Mas ela me ouviu conversando sobre ele e agora está tentando espiar o que é. Eu tirei do dormitório porque ela tentou entrar lá para bisbilhotar, só que ela me viu saindo com ele e está atrás de mim... Mas não de você...
Simas empurrou o embrulho para as mãos de Harry.
— Tome. Esconda-o na Sala Precisa e não deixe Parvati ver. Fico te devendo essa, Harry.
— Quê? Não! Espere...
Harry mal terminara a frase e Simas já tinha desaparecido pelo corredor a fora.
Ele olhou para o pacotinho e antes que pudesse se mexer, ouviu o som de passos se aproximando. Levou às mãos atrás das costas e escondeu o presente bem no momento que Parvati apareceu.
— Oi, Harry. Viu o Simas por aí?
— Vi... Ele foi em direção ao Salão Principal.
— Ah, obrigada.
Parvati estava tão concentrada em encontrar Simas, que nem reparou nas mãos de Harry e muito menos supôs que Finnigan talvez tivesse se livrado do presente. Sem dizer mais nada, ela disparou pelo corredor no rastro do colega e sumiu de vista.
Harry suspirou novamente, encarando o presente.
Não imaginava que Simas sentia alguma coisa por Parvati. Ultimamente, parecia que todos estavam ocupados com algum romance, enquanto sua situação com Gina estava indo de mal a pior.
Por que é que tinha de gostar da irmã de seu melhor amigo? E por que raios tinha de ser agora que ela estava namorando Dino Thomas?
Com uma cara emburrada, Harry olhou o relógio.
Ainda tinha quinze minutos para chegar ao gabinete de Dumbledore. Podia desviar um pouco o caminho para ajudar Simas, mas se acabasse se atrasando, o colega iria mesmo ficar devendo-lhe um grande favor.
Harry tomou o rumo para o corredor no sétimo andar e logo estava de frente da parede onde se localizava a porta escondida da sala secreta.
Olhando para os lados, ele não viu qualquer sinal de alguém por perto, então, fechou os olhos e andou de um lado para o outro na frente dela, concentrado no pensamento:
"Preciso de um lugar para esconder este presente... preciso de um lugar para esconder este presente..."
Na mesma hora a porta se materializou diante dele quando abriu os olhos, primeiro diminuta como a portinhola da gaiola de Edwiges, mas logo aumentando de tamanho até se tornar tão grande, que quase alcançava o teto do corredor.
Ele empurrou a pesada porta de madeira e entrou na sala. Soltou uma exclamação de surpresa quando vislumbrou o que havia lá dentro.
A Sala Precisa adquirira proporções gigantescas, tão grande quanto uma catedral, abarrotada por um labirinto de imensas colunas formadas por objetos aglomerados. Havia ali vários móveis quebrados, espadas enferrujadas ao lado de um machado cheio de sangue, tapeçarias rasgadas, cascas de ovos de dragões, frascos de poções cheios de líquidos coloridos, brilhando sinistramente contra a luz e até catapultas aladas, algumas delas com força o suficiente para voar pelo ar entre os prédios de coisas esquecidas.
Harry adentrou pelos estreitos corredores que se formavam entre as pilhas e procurou um bom lugar para colocar o presente de Simas para Parvati. Encontrou uma cômoda velha com uma marca de queimado na lateral, possivelmente causada por um feitiço indevido.
Colocou sobre ela alguns livros que estavam do lado e depositou o embrulho sobre eles, deixando-o quase destacado diante dos outros objetos. Harry tinha medo de esquecer o lugar onde deixara o presente, então, apanhou uma capa de chuva que estava a um canto e esticou-a sobre o chão, diante da cômoda, marcando a localização como se fosse um "x".
Se Simas fosse procurar o embrulho sem Harry, era só olhar onde estava a capa amarela. Só precisava contar isso ao colega depois.
Harry limpou as mãos uma na outra quando terminou o serviço e se virou para ir embora, contudo, ao fazer isso, esbarrou sem querer em uma cadeira manca próxima que, infelizmente, era um dos alicerces de uma grande montanha de objetos.
Um monte de entulho caiu sobre o corredor. Harry viu a coluna balançar perigosamente em sua direção por um breve momento, antes de se equilibrar novamente.
— Essa foi por pouco! — exclamou consigo mesmo, olhando a bagunça aliviado.
Nada cairá sobre a capa e o presente sobre a cômoda estava intacto. Ele só precisava pular aquele amontoado de quinquilharias e sair sem maiores problemas.
Entretanto, enquanto saltitava por entre escudos rachados, malas desgastadas, pastas vazias e abajures quebrados, Harry viu algo que chamou sua atenção.
Havia uma estranha luminosidade refulgindo à sua esquerda.
Ele afastou uma cadeira velha com uma perna quebrada e deu de cara com uma caixinha de madeira caída ali no chão. O antigo fecho de metal parecia ter se partido com a queda e a tampa se abrira um pouco, deixando escapar uma luz intensa por entre a fresta.
Harry sabia bem que não era prudente tocar em objetos desconhecidos, mas sua curiosidade foi atiçada por aquela luz estranha. Ele se abaixou e apanhou a caixa, tomando cuidado para não derrubar seu conteúdo.
Abriu-a devagar, e por um breve momento foi ofuscado pelo forte brilho.
Por um instante, não conseguir distinguir o que havia ali e precisou de alguns segundos para que seus olhos identificassem o que parecia ser um orbe luminoso.
O que seria aquilo? E por que estava brilhando?
Harry soube na hora que o mais prudente seria fechar a caixa e colocá-la de volta no lugar. Afinal, se estava escondida na Sala Precisa devia haver um motivo.
Mas, por alguma razão, Harry não o fez.
Havia alguma coisa naquela estranha esfera, algo que ele não sabia explicar, mas que podia sentir. Alguma coisa nela instigava seu interesse, impelindo-o à examiná-la.
Talvez devesse levá-la à Dumbledore. Estava mesmo indo para o escritório do diretor. É... Dumbledore saberia dizer o que era aquilo.
Harry então fechou a caixa e colocou-a debaixo do braço. Pulou o restante do entulho espalhado pelo corredor e deixou a Sala Precisa. A entrada desapareceu às suas costas quando se afastou pelo corredor e rumou às pressas para a sala do diretor.
Bateu três vezes antes de abrir a porta do escritório e entrar.
Dumbledore estava de pé, ao lado da Penseira, contemplando seu conteúdo.
— Você se atrasou, Harry — falou o bruxo, mas não havia qualquer acusação em sua voz. — Tenho algumas lembranças importantes que gostaria que visse e, talvez, uma tarefa...
"Uma tarefa?", pensou o garoto, incerto.
Soava como algo que exigiria grande responsabilidade e Harry chegara atrasado como se houvesse coisa melhor para fazer. Sentiu-se envergonhado e tentou se explicar:
— Desculpe, senhor... — disse ele com voz insegura, adiantando-se. — Tive um pequeno imprevisto...
— Nada mais natural. Imprevistos fazem parte da vida — ele comentou, virando-se para encará-lo com um sorriso. Então viu a caixinha de madeira nos braços do garoto, os olhos azuis cintilando. — E suponho que este seja o tal imprevisto?
Harry fez que sim, surpreendido com a alta percepção do professor. Já devia ter se acostumado com aquilo.
— O que há na caixa?
— Eu não sei ao certo, senhor — falou Harry, estendendo-a para o professor. — Por isso a trouxe comigo. O senhor não saberia dizer o que é isso, saberia?
— Bem, logo descobriremos, não é? — ponderou ele, sorrindo para o aluno ao receber o fardo.
Dumbledore depositou a caixa sobre a escrivaninha e a abriu, interessado. Seus olhos se arregalaram quando ele viu o que tinha dentro.
Harry se aproximou e olhou também.
Naquele momento, a esfera não estava brilhando, mas ainda sim reluzia contra a claridade da sala e o garoto pode ver que era feita de cristal. Virando-se então para o diretor ao seu lado, viu que ele a mirava quase estupefato.
— Onde encontrou isso, Harry?
— Estava guardado na Sala Precisa, professor.
Harry contou rapidamente sobre seu favor à Simas e o pequeno deslizamento de objetos ocultos à seus pés, e de como a esfera chamara estranhamente sua atenção.
— Compreendo... E não é para menos — falou o diretor, lançando-lhe um olhar enigmático. — Você não sabe, Harry, mas acabou de encontrar uma Pedra Elisiana.
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