Perdido em outro mundo
25 A partida dos aliados
Notas iniciais
Harry e Lílian Parker passaram à noite na casa do Prof. Spriggs, ocupando dois dos vários quartos de hóspedes da casa.
Adormecido na grande cama em seu quarto temporário, o sono de Harry não foi muito tranquilo. Sua mente foi invadida por vários sonhos confusos, acordando algumas vezes entre eles, para logo depois voltar a dormir, remexendo-se inquieto entre os cobertores.
Ao ser chamado por Lílian, no início da manhã seguinte, pode se lembrar de apenas de dois.
O primeiro sonho se passava na casa dos Dursley. Harry estava sentado na mesa com os tios e o primo, no entanto, nenhum deles parecia notar que ele estava ali — muito mais do que o normal. Os Dursley não estavam fingindo que Harry não existia, simplesmente não o enxergavam ali.
Harry os chamou repetidas vezes, mas eles não o escutavam, e após um longo tempo, sua voz pareceu chegar ao Tio Válter, que meramente o olhou, piscando intrigado, como se o garoto tivesse surgido de súbito ali.
"O que faz aqui?", disse ele, "Esse não é o seu lugar.". Harry respondeu que não sabia e que devia estar em Hogwarts. "Não. Este não é o seu lugar.", rebateu o tio. "Você não é daqui. Não vive aqui. Tem de voltar para seu lugar. Voltar de onde veio."
E então, o tio se ergueu da mesa, agarrou-o pelo colarinho e o arrastou até o armário debaixo da escada. Ao abrir a porta, porém, não havia armário algum, apenas uma escuridão sem fim. O garoto tentou fugir, mas ele o empurrou para dentro e Harry caiu e caiu pelo escuro até que acordou.
O segundo sonho se passava em um lugar que parecia ser Hogwarts. Harry achava-se de pé no meio do Salão Principal, porém, não havia mesas das casas nem alunos ali. Em seu lugar havia um circulo de pessoas fardadas, que o rodeavam, e cujos rostos não podiam ser vistos, pois estavam encobertos por máscaras. Ele segurava a Pedra Elisiana em uma das mãos e na outra, sua varinha.
Então, do nada, surgiu uma grande porta diante dele, no lugar que deveria estar à mesa dos professores. Formava um arco muito parecido como o arco de pedra de onde pendia o véu pelo qual Sirius atravessara e nunca mais voltara no Departamento de Mistérios, e sem dúvida era tão grande quanto. A porta era feita de pedra e tinha aquele símbolo de triquetra que o garoto vira no livro de magia. Harry sentiu medo quando a viu e não quis se aproximar.
No entanto, ele ouviu uma voz fria e aguda muito perto dele, ordenando: "Abra a porta e atravesse". Harry estava com medo e não podia se mexer. "Abra a porta e atravesse, ou matarei sua família novamente.". Ele ouviu o grito de Lílian em algum lugar distante. Não queria que ela se machucasse e caminhou em direção à porta, que se abriu sozinha conforme ele avançava.
De dentro dela rompeu uma imensa corrente de ar forte, que o puxava para em direção ao outro lado, como se ali houvesse um vácuo terrível que precisava ser preenchido. Ele tentou resistir, mas a ventania que o tragava para dentro era muito mais forte, fazendo-o mergulhar mais e mais fundo na escuridão, enquanto porta se fechava atrás dele, como uma sepultura.
Foi um alívio se levantar de manhã, embora o céu lá fora estivesse tão negro quanto seus sonhos.
O Prof. Spriggs encontrava-se na cozinha quando Harry desceu para o café, sem dúvida, ansioso para que eles partissem o mais rápido possível, só que era educado demais para dizer aquilo em palavras.
Harry não podia culpá-lo. Eugênio não era má pessoa, só estava com medo. Ajudara a traduzir o livro mesmo apavorado com a ideia de ser preso por isso. Talvez existissem várias formas de coragem, pensou Harry, enquanto se sentava à mesa e servia-se de um pouco mingau.
Eveline e a Sra. Graham chegaram antes dos primeiros raios de sol despontarem no horizonte e não desceram do carro. Lílian precisou apertar os olhos para enxergar lá fora pelo vidro da janela da sala, e demorou um pouco para ter certeza que se tratavam delas e que estavam sozinhas.
Eugênio ficou satisfeito ao ouvir que a carona deles havia chegado e os apressou a sair e, de preferência, não retornar tão cedo.
— É uma questão de segurança, vejam bem — dizia Spriggs, enquanto os acompanhava até a porta. — Não é que não queira vê-los novamente, de modo algum se trata disso, mas devem entender que nas circunstâncias atuais... A verdade é que sou velho demais para me aventurar em assuntos ilegais, devem compreender...
— Eugênio... Eugênio — interrompeu-o Lílian. — Nós entendemos perfeitamente. Não queremos que tenha problemas por nossa causa, não é, Harry?
— De jeito nenhum — exclamou o menino, com convicção.
— O senhor nos ajudou muito — continuou ela —, e a melhor forma de retribuir é partir o mais rápido possível. Obrigada pela acolhida, o jantar e por tudo, senhor.
— Ah, minha querida, espero que possamos nos encontrar no futuro em uma situação mais favorável — respondeu o professor, com um misto de alívio e tristeza. — Espero realmente que tudo termine bem para vocês.
Spriggs hesitou um instante, em seguida, abraçou Lílian, a barriga enorme empurrando-a ligeiramente para trás. Demorou um longo instante para soltá-la, mas não o suficiente para que fosse um gesto constrangedor. Quando desfez o abraço, sorriu levemente, apesar de seus olhos estarem brilhantes.
Virou-se para Harry e segurou sua mão direita entre as suas, num aperto de mãos cheio de gravidade.
— Boa sorte, meu rapaz.
— Obrigado, senhor — Harry respondeu sensibilizado.
A Sra. Parker e o garoto pegaram seus pertences e atravessaram a porta.
Lílian olhou para a casa uma última vez ao atingir o fim dos degraus de entrada e ergueu a mão num gesto de adeus, que foi retribuído pelo Prof. Spriggs. Harry viu-o limpar uma lágrima que ameaçou escapar de seu olho, antes que fechasse a porta com um pequeno baque e o som das chaves tilintasse atrás da fechadura.
Harry e Lílian não ousaram correr para o carro, contudo, o alcançaram com passos ligeiros, saltando para dentro dele às pressas.
— Bom dia — cumprimentou Lílian, e sua voz soou estranhamente alegre, como se estivessem indo ao parque ao invés de um esconderijo de rebeldes. — Correu tudo bem na sua viagem?
— Sem nenhum transtorno, graças aos céus — respondeu a Sra. Graham, dando a partida no carro e seguindo pela rua. — Visitamos nossa prima, deixando claro que não iríamos demorar. Teremos que voltar a Londres ainda hoje confirmar que voltamos direto para casa, caso alguém faça perguntas. E vocês, conseguiram o precisavam?
— Sim, o professor nos ajudou — falou Harry.
— Que ótimo — falou Eveline. — O que farão agora?
— Temos de pensar no que faremos sobre Tiago — disse Lílian. Parou um instante e acrescentou: — Acho que não deviam se envolver mais a partir daqui, Clarice.
Harry se virou para ela.
No que lhe dizia respeito, para resgatar o Sr. Parker precisariam de toda a ajuda possível e Eveline parecia ser de mesma opinião. A garota olhou para a Sra. Parker, depois para a mãe e de volta para a Sra. Parker, ponderando:
— Nós poderíamos ajudar mais, se precisarem — e olhou para a mãe, como se pedisse aprovação.
A Sra. Graham concentrou-se na estrada.
— Acho que Lílian está certa, filha.
— Mamãe! — exclamou Eveline, quase que chocada com a resposta.
A Sra. Graham continuou com os olhos firmes no caminho.
— O que Lílian e Harry planejam fazer é muito arriscado e nós não teremos muito com o que contribuir a partir daqui. Quanto menos soubermos melhor para nós... e para eles também.
— Achei que iríamos ajudá-los... Que iríamos participar...
Eveline agora estava visivelmente irritada. Imaginara-se lutando contra a opressão e injustiça do governo e fora subitamente jogada para escanteio. Sua participação até ali se resumira em acompanhar Harry até a casa de um idoso e oferecer uma carona no carro da mãe e, pelo visto, encerrava-se nisso.
Aquilo era uma coisa que ela não poderia aceitar. Harry sabia que Hermione também não o faria sem brigar.
— Você disse que faríamos alguma coisa e não fizemos nada!... Nós não ajudamos em nada!
Lílian interveio:
— Vocês ajudaram muito! Estão dando transporte para fugitivos da lei. Levaram-nos ao Prof. Spriggs para que ajudassem Harry a decifrar páginas proibidas. Acha isso pouco? Bem, garanto que a polícia achará muito se descobrirem. Serão presas e condenadas como cúmplices, Eveline. Não, é melhor pararem por aqui enquanto ainda podem escapar impunes.
Eveline abriu a boca para dizer alguma coisa, entretanto, o olhar de Lílian a fez se calar.
— Sei que queria participar mais, Eveline — continuou Lílian, com um tom brando e apesar de firme —, mas tem de pensar em sua segurança e de sua mãe. E ela disse a verdade: a partir daqui, não podem fazer muita coisa. Agora precisamos de pessoas dentro do próprio governo ou que já estejam com a ficha suja demais para se importar com o que irá acontecer se tudo der errado. Não adianta vocês se arriscarem sem motivo. Assim que chegarmos a Creweford, Marta e os meninos também irão com vocês...
Eveline baixou os olhos, depois se virou para a janela e não tornou a falar no assunto. Era óbvio que não estava de acordo com aquela resolução, mas seu voto fora vencido.
Apesar de que, no fundo, desejasse ter os rostos de seus melhores amigos ao seu lado no momento crucial de perigo, como tantas vezes antes, Harry concordava com a Sra. Parker e a Sra. Graham. Não podia esperar que Eveline e sua mãe arriscassem sua vida daquele jeito, da mesma forma que não podia desejar que os Winston se envolvessem mais naquela história.
Se Harry conseguisse regatar Tiago e, logo depois, voltar para seu mundo, todos os outros continuariam vivendo naquela realidade e teriam de arcar com as consequências daquela aventura. Não, quanto menos pessoas se metessem naquela confusão, melhor.
A viagem de volta à Creweford deu a impressão de ser mais curta que a ida à Sheffield, embora tivessem levado as mesmas duas horas no trajeto.
A neve caíra com alguma intensidade durante a noite e se acumulara aos montes nas calçadas, gramados e ao pé das copas das árvores. Fazia, então, um frio tremendo quando o grupo deixou o carro, suas respirações formando grandes nuvens de vapor em frente aos seus rostos ao se dirigirem para a casa, que escondia um porão secreto. Harry pode ver alguns cristais de gelo refletindo os raios de sol da manhã enquanto seguia as mulheres em direção à entrada da frente. Mal tinha atravessado metade do jardim, quando a porta se abriu e Marisa fez sinal para que se apressassem a entrar.
Harry acelerou o passo e a porta foi trancada assim que a atravessou. Limpou os sapatos e abanou o casaco, retirando alguns floquinhos de neve dos ombros, antes de se dirigir a sala, onde a Sra. Parker, a Sra. Graham e Eveline encontraram a Sra. Winston, Ronald e Gina. Os três estavam sentados no sofá, mas se ergueram para cumprimentar os recém-chegados.
Apertaram as mãos, sorriram e falaram sobre a viagem, que tinha sido tranquila para todos. A prima da Sra. Graham estava bem e não estranhara a visita repentina nem a saída às pressas. O Prof. Spriggs relutara um pouco, mas por fim decidira ajudar Lílian. Ele também se encontrava bem, e muito mais rechonchudo do que deveria em tempos tão difíceis.
Harry compreendeu que aquela conversa era apenas para amenizar o assunto espinhoso que estava por vir. O que não adiantou muito, pois quando finalmente surgiu, o ambiente ficou tão tenso e infeliz como se alguém tivesse aberto uma das janelas para o frio que reinava lá fora.
— Bem... acabamos de chegar — disse Lílian, com uma expressão pesarosa —, mas acho que devemos nos despedir, não é?
— Acho que sim — respondeu a Sra. Winston, tristonha.
Mesmo que não tivessem conversado antes, tanto Lílian quanto Marta pareciam ter entrado em um consenso de que os Winston deviam ir embora com os Graham e não se envolver mais. Não havia repreensão nem arrependimento entre elas, pois eram mães. Sabiam o que estava em jogo e o que devia ser feito para proteger suas famílias.
— Oh, querida! Eu sinto tanto que não possamos ficar mais... Mas veja, temos que pensar em nossos filhos... Oh, espero que entenda...
— Tudo bem, Marta! — falou a Sra. Parker, segurando a mão da Sra. Winston, ambas emotivas. — Você e o Artur já fizeram o bastante. Nunca poderia pedir para que se envolvessem mais nisso. Deve cuidar de suas crianças...
Nem Ronald nem Gina pareceram ficar satisfeitos em serem chamados de crianças, mas não protestaram. Tinham a mesma expressão de inconformada derrota de Eveline e ficou evidente que deviam ter tido a mesma conversa com a Sra. Winston, que a amiga tivera no carro com a própria mãe.
Ambos os irmãos mantinham os olhos baixos, e apenas vez ou outra ousavam olhar para Harry. Era como se temessem que ele lhes jogasse nas caras o tamanho de sua covardia. Mas o garoto não pensava, nem de longe, que eram covardes. Sabia que tinham o mesmo caráter de seus amigos e que, se pudessem, fariam qualquer coisa para ajudar, sem recuar.
Em contraponto, a Sra. Graham manifestou sua pressa:
— Precisamos sair agora se quisermos chegar cedo a Londres.
Poderia ter soado como receio de continuar ao lado de fugitivos, mas todos entenderam que aquela prontidão era apenas para atender o cronograma. Havia deixado as malas dela e da filha no carro, precisava colocar a pouca bagagem dos Winston na traseira do automóvel antes de partir e tinha realmente de estar em casa na hora certa, para evitar perguntas incomodas.
— É melhor irem agora, então — falou Lílian, aproximando-se dela e segurou-lhe as mãos entre as suas, num gesto repleto de gratidão. — Obrigada por terem nos dado carona, Clarice. Ajudou muito, de verdade.
A Sra. Graham tinha os olhos melancolicamente cintilantes. Sorriu e disse, quase que enigmaticamente:
— Se tudo der certo, acho que não nos veremos mais, não é?
— Se tudo der certo... Não — respondeu Lílian. — É um adeus.
— Adeus.
As duas se abraçaram.
A cena assustou um pouco Harry, pois a Sra. Parker e a Sra. Graham haviam se conhecido a menos de um dia, e não tinham convivido mais do que quatro horas dentro de um carro, mas estavam se abraçando como se tivessem partilhado uma amizade por anos. De repente, ficou claro a gravidade do adeus ficou implícita.
Então, quando a Sra. Graham deixou Lílian e caminhou até Harry, o garoto sentiu como se algo gelado tomasse conta de suas entranhas.
— Espero que fique bem, Harry — disse ela. — Adeus.
— Adeus, Sra. Graham.
Ela o abraçou com carinho, saiu pela porta em direção ao carro, deixando a brisa gelada invadir a sala. A Sra. Winston terminara de se despedir de Lílian e apressou-se a fazer o mesmo com Harry.
— Querido, sinto que tenha de deixá-los — falou ela, segurando o rosto do garoto, tal qual a Sra. Weasley costumava fazer. — Gostaria de ter conhecido vocês em circunstâncias mais felizes. Você e Ronald talvez tivessem até estudado juntos — ela afastou uma lagrimazinha do olho esquerdo e o abraçou com tanta força que o garoto sentiu o ar fugir de seus pulmões. — Adeus, querido.
Ela o largou, apanhou a mala num canto e deixou a sala, apressando-se a alcançar a motorista, que abrira a porta do bagageiro para guardar os pertences dos caronas.
Eveline e Ronald se aproximaram dele logo depois, mas Gina ocupou-se em falar com Lílian e Marisa.
Harry olhou para os dois. Pareciam muito infelizes.
— Gostaria de poder ficar até o final, Harry — disse Eveline, em tom de desculpas.
— Acho que assim é melhor. Sua mãe está fazendo o que é certo.
Ronald o olhou como se ele estivesse enxotando-os da casa.
— Não somos covardes, cara — resmungou ele, fazendo cara feia. — Nem eu nem Eveline...
— Eu sei que não são covardes — disse Harry baixinho. — É por isso que está tudo bem...
Eveline balançou a cabeça.
— Você pensa que não precisa de nós porque só temos dezesseis anos, mas a verdade é que poderíamos ajudar muito. Nós não somos idiotas. Sabemos bem o que vai acontecer se forem pegos, mas não temos medo...
— Eu sei que não tem...
— Então como pode dizer que é certo fugirmos do perigo com nossos pais — rebateu Ronald —, quando você vai ficar aqui e fazer alguma coisa? Sei que pensa que temos medo e que estamos indo para casa nos esconder como ratos e...
— Eu sei que não tem medo, porque Rony e Hermione em meu mundo não tem medo de nada — interrompeu Harry. — Se estou vivo até hoje é por causa deles. Por que eles se mantiveram do meu lado mesmo durante situações de vida ou morte. Então, acredite quando eu digo que sei que vocês não tem medo... Porque sei que são exatamente as mesmas pessoas. Vocês seriam capazes de fazer qualquer coisa para tirar o Sr. Parker da prisão, mesmo que a vida dos dois corresse perigo. Eu sei disso.
Os olhos de Eveline se arregalaram e a boca de Ronald se abriu numa expressão aparvalhada. Demorou alguns segundos para se recomporem.
— Então, por que não fala para eles nos deixarem participar?
— Porque se tudo der certo, o que acontecera depois? Eu vou voltar para casa em algum momento, mas os Parker ficarão neste mundo e terão de viver uma vida clandestina, caçados pelo Ministério. E vocês também ficarão aqui e terão suas famílias, com suas mães e irmãos para cuidar. O que acontecerá com eles se vocês se tornarem fugitivos?
Harry olhou para Gina, que abraçava Marisa.
— É nobre enfrentar a injustiça no mundo, mas é egoísmo esquecer-se das pessoas que são afetadas na batalha.
Mais uma vez, os dois ficaram boquiabertos.
— Nós... Nós sabemos muito bem disso... — ponderou Ronald, com convicção.
— Eu sei que sabem. Por isso vão entrar naquele carro... Não porque querem, mas porque precisão.
Harry conseguiu desarmá-los. Ronald e Eveline o encaram com alguma surpresa, agora não mais derrotados por uma imposição, mas convencidos por um dever que tinham.
Eles não disseram "adeus", nem "até logo", mas Harry preferiu que fosse assim. Também não o abraçaram. Ao invés disso, permaneceram em um silêncio solene e cada um apoiou uma mão em seus ombros. Aquilo teve mais significado do que tivessem se desfeito em lágrimas na sua frente.
Quando retiram as mãos, ambos acenaram com as cabeças e se afastaram.
Harry observou-os seguirem pelo gramado em direção ao carro. No meio do caminho, viu os dois darem as mãos.
— Eles estão apaixonados um pelo outro há um tempo, mas ainda não se deram conta disso — disse uma voz ao seu lado.
Era Gina.
Ela deixara Lílian e Marisa, que haviam se afastado em direção a cozinha, dando-lhes privacidade para se despedirem. Harry desejou que não o tivessem feito, pois a última vez que estivera sozinho com Gina as coisas tinham ficado em hiato... Ela o beijara, ele fora preso, ninguém mais tocara no assunto.
Agora, Gina estava partindo.
Harry devia deixá-la ir, mas em seu íntimo não queria que ela fosse, portanto, não sabia bem o que dizer.
Graças aos céus, foi ela quem tomou a iniciativa.
— Parece que não nos veremos mais — falou a garota, com um sorriso infeliz.
— Acho que não...
— Você vai tentar resgatar o Sr. Parker e, se tudo der certo, vai voltar para sua casa, seja lá onde for.
— Este é o plano — Harry tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Deve haver uma outra Gina lá, não é?
A pergunta pegou Harry de surpresa.
— Hum... Na verdade, há sim.
— Você gosta dela?
Um rubor repentino nas faces substituiu aquela sensação de frio que o invadia.
— Gosto — respondeu, com sinceridade.
— Eu sabia — falou. — Eu gostei de você no minuto que o vi. Não entendi bem o motivo na hora, mas gostei. Tinha alguma coisa em você. Só fui entender depois, quando acordei no hospital e lembrei que tinha me salvado — ela sorriu, ainda mais tristemente. — Posso lhe dizer uma coisa sobre a outra Gina?
Harry piscou, olhando-a com curiosidade.
— Ela também gosta de você.
Ele deixou os ombros caírem, desanimado
— Ela gostava, mas eu não retribuí na época. Agora está namorando outro.
— E que diferença isso faz? — falou Gina com vigor. — Pode estar com qualquer um, mas é de você que ela gosta! Eu simplesmente sei disso porque sou como ela, entende?
Harry fitou-a, espantado.
— Faça algo por mim: Quando voltar para casa — continuou a garota —, vá atrás de sua Gina e fique com ela.
Antes que Harry pudesse abrir a boca para fazer qualquer objeção, Gina lançou-se em seus braços e deu-lhe um beijo. Quando se afastou, seus olhos estavam muito brilhantes.
— É uma pena que o Harry deste mundo tenha deixado de existir. Adeus...
Harry sequer pode responder, pois Gina saiu rapidamente da sala, correndo para o carro onde a aguardavam. Observou-a entrar às pressas no automóvel, onde passou por cima dos joelhos de Ronald e Eveline no banco traseiro e se espremeu contra o vidro da janela, para fitar o garoto uma última vez.
A Sra. Graham deu a partida ao mesmo tempo em que Marisa se aproximava para fechar a porta de entrada. Gina lançou seu sorriso triste em direção ao garoto e acenou-lhe num gesto de despedida. Incapaz de esboçar um sorriso, Harry ergueu a mão e retribuiu seu adeus.
A porta se fechou com um leve baque.
Parado no hall, Harry deixou o braço cair ao lado do corpo e ficou encarando a madeira envernizada, atento ao ruído do carro que se distanciava cada vez mais. Para bem longe dali, para bem longe de Harry.
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