Perdida Na Tempestade
65 Marcas, Cicatrizes e Medo de Desmoronar...
Notas iniciais
Um agudo barulho. Os vários cacos espalhavam-se pelo chão, e o pequeno grupo que jantava àquela hora, parou por alguns segundos, para ver a cena. Entretanto como se tratava de algo corriqueiro, logo voltaram à seus assuntos. Todos exceto, Rin e o grupo que a acompanhava. A louça quebrada no chão havia caído de suas mãos que ficaram trêmulas por alguns segundos. Reflexo de seu coração atormentado por uma angústia que, queria ela, fosse passageira. Junto dela, na mesa, jantavam Kagome, Igraine, Janis, e seus respectivos machos, Inuyasha, Tatsuo e Yashiro.
— O que aconteceu Rin? Está trêmula, e pálida, sem qualquer cor nos lábios! – Kagome disse ao encará-la, e tocar em suas mãos que jaziam sobre o colo.
—Eu... Estou bem... Só tive uma pontada no meu coração... Acho que foi um mau pressentimento... –Rin balbuciou, antes de respirar profundamente.
—Você foi marcada há pouco tempo, Rin. Seu corpo ainda deve estar se recuperando. E, além disso, você não comeu quase nada! –Inuyasha disse, paternalmente para que ela se acalmasse.
— O General Inuyasha, tem razão Lady Rin. Você precisa se alimentar corretamente, para seu próprio bem. –Tatsuo reafirmou, sorrindo gentilmente.
—Eu... Eu sei... Só que... –Rin parecia escolher as palavras.
—Você está preocupada com o Sesshoumaru, não é Rin? –Igraine perguntou sorrindo para amiga. Haviam crescido juntas e a Hanyou sabia bem quando Rin ficava preocupada com seu antigo protetor.
—Acho que sim, Igraine... Mas não se preocupem... Foi só uma vertigem passageira. Tenho certeza de que Sesshoumaru está bem. –Rin ergueu o olhar e animou-se o máximo que pode, e conseguiu convencer a quase todos. Menos, é claro, Igraine.
No entanto a hanyou loura nada disse. Apenas destinou um olhar de cumplicidade para a humana que respirou aliviada ao perceber que ela ficaria ao seu lado, mesmo sabendo a verdade. Sem pestanejar Igraine continuou a conversa dando-a outro rumo.
—Mas e então Janis, vamos decidir esta data ou não? Eu quero me casar logo! –Igraine disse com uma divertida impaciência.
—Ora, mas quanta pressa cunhadinha! Quer tanto assim entrar para nosso clã? –Yashiro perguntou, sorrindo sarcástico, para alfinetar Igraine, que corou violentamente.
—Yashiro, eu to pouco me fudendo pra esse negócio de clã! Eu já tenho o clã dos meus pais! – A hanyou esbravejou, tentando inutilmente disfarçar a irritação e o constrangimento.
—Ohh, Ok! Então, podemos supor que tudo isso é vontade de dormir com o Tatsuo, não é? –Janis disparou sorrindo maliciosa, para Kagome, que continuou.
—Ahh então é isso, não é Igraine? Olha eu sou sua irmã mais velha, e como tal, posso dizer que existem coisas mais importantes em uma relação. Hahaha... Não se preocupe com isso, nem é algo TÃAAOO especial assim. –Kagome disse tentando tirar a atenção dela para o assunto. No entanto, Inuyasha não gostou não entendeu a intenção e não gostou nem um pouco do que ouviu.
—KÉEHHH? COMO ASSIM NÃO É NADA ESPECIAL??? –Gritou o ex-hanyou, quase infartando.
—INUYASHA! PARE DE GRITAR! Eu disse apenas que sexo não é nada demais... NÃO CONCORDAM COMIGO SENHORES?! –Proferiu Kagome, gritando mais alto que o ex hanyou e com uma expressão ainda mais sombria que a dele. Após isso, sorriu delicadamente, para ele que estava visivelmente assustado, assim como os demais machos da mesa que prontamente concordaram.
—Claro que sim, senhora Kagome, a senhora tem toda a razão. O relacionamento deve ter muito mais do que isso. –Tatsuo, respondeu divertido com a situação.
_ E quem pode culpá-la, por pensar assim? Tendo em vista que só esteve com um macho, e justamente esse Inubobão! Haa-haaaaaa! –Gritou Raijin, que chegava ao salão naquele exato instante.
—Ah não... Você de novo Raijin? Onde está Kikyou?- Perguntou Inuyasha bufando.
—Não é da sua conta, mas, minha fêmea, está jantando com os meus pais... Hahahaa, eu tenho muita sorte! Passar por aqui justamente quando sua bela fêmea diz que sexo não é bom! Sinceramente Inuyasha, você devia ter me procurado! Eu lhe daria umas boas dicas para te ajudar! Hahaha... –Raijin continuou a provocação, enquanto puxava uma cadeira para se sentar entre Inuyasha e kagome.
—Falou o macho que apesar de dormir junto com sua fêmea, ainda não a possuiu... Porque não foi jantar com eles? Será que nem eles te querem por perto, é?–O ex-hanyou provocou e Raijin corou inteiro.
—Eu não estou dormindo com ela, ok? Meus pais querem que eu espere ela se recuperar completamente. E eu já estou voltando para reencontrá-los! Só vim até aqui para buscar um casaco para ela porque ela não pode pegar sereno, e por algum motivo idiota, sereno deixa os humanos doentes! –Raijin esbravejou.
—Que atencioso General Raijin. É mesmo muita consideração de sua parte... –Janis disse admirada por tamanha devoção.
—Não se surpreendam, afinal foram Byaküro e Susanoo que exigiram que ele viesse buscar o casaco. O general não é tão especialista em humanos... –Kouga disse ao se aproximar e Raijin estava pronto para gritar com ele, quando subitamente, voltou-se para o general e continuou a falar.
—Ei, General Raijin, é melhor correr. Sua mãe pediu-me para apressá-lo ou ela mesma virá buscar você e o casaco... – Kouga disse sorrindo maliciosamente.
Raijin bufou e se despediu rapidamente antes de sair apressado na direção dos aposentos para buscar a peça de roupa.
—Não estou entendendo... O que aconteceu com ele? –Igraine questionou a atitude de Raijin, enquanto os outros machos da mesa riam com a situação.
—Hahaha... O Raijin está passando por maus bocados com os pais dele! Eles acham que a Kikyou, por ser humana, é muito frágil, e precisa de cuidados redobrados. E resolveram cuidar da saúde dela e ensinar o Raijin como fazê-lo. – Kouga disse rindo.
—Bem feito para ele. Vai ter de que ser responsável pela fêmea dele na marra! –Inuyasha riu com deboche.
—Ora, pelo que ouvi, ele não é o único que precisa de um bom treinamento para aprender a cuidar bem de uma fêmea... –Kouga alfinetou Inuyasha e o ex hanyou bufou com a provocação.
—Escuta aqui seu... A Kagome não quis dizer isso! Eu serei um bom marido para ela e ela sabe disso, não é mesmo, Kagome? –O Hanyou perguntou, mas a humana não teve chance de responder.
—Ah sim, um marido excelente que não a satisfaz... –Kouga riu e sentou-se exatamente na cadeira que Raijin estava anteriormente, para se colocar entre Inuyasha e Kagome.
—Eu não tenho que falar da intimidade com a minha mulher com você! Aposto que é isto que você quer, não é mesmo? Já que ela me escolheu para ser seu macho, e não a você! –Inuyasha provocou aborrecido, e antes que Kouga retrucasse Kagome resolveu falar.
—Que discussão inútil de vocês dois!O que eu disse é que existem coisas mais importantes do que sexo, em um relacionamento! Companheirismo, carinho, respeito e admiração mútua, são mais importantes! O próprio Raijin de quem vocês estavam rindo há pouco, é um bom exemplo disso! Se sexo fosse o mais importantes, ele teria ficado com a tal Akane que respira isso! Mas ele escolheu Kikyou, porque percebeu que ela tinha mais a oferecer, do mesmo modo que Ayame, tinha para dar à você, Kouga! –Kagome disse com imponência.
—É.... Acho que você tem razão... –Kouga reconheceu levemente envergonhado. E Kagome prosseguiu.
—Capitão Yashiro, com todo o respeito, foi só por causa do sexo, que você resolveu tomar a Janis? Ou por que ela foi a única que realmente abriu seus olhos e seu coração para a realidade? Acaso, você não a admira, e a respeita? –Kagome questionou o youkai dragão.
—Si-sim... Eu a admiro muito, por sua coragem e caráter. E mesmo que mal nos conheçamos, eu a respeito, por ser, ela, verdadeiramente firme, em suas convicções... Você tem toda a razão, senhora Kagome... –Yashiro reconheceu enquanto olhava para Janis que sorria ligeiramente encabulada.
—E você Inuyasha, que passou anos ao meu lado, como uma amiga, companheira e finalmente como um amor... Fazer amor comigo, ou não fazer, diminuiria o que sente por mim? –Kagome perguntou firmemente.
—Nem um pouco, Kagome. Eu amo você... –O Inu dai youkai disse sério, fazendo Kagome corar e sorrir antes de respondê-lo.
—Eu sei... Eu também te amo muito, meu Inuyasha. –Disse ela inclinando-se para beijá-lo. No entanto kouga continuava no meio dos dois, de braços cruzados, e não fazia menção em sair. Diante do obstáculo o ex Hanyou apenas estendeu a mão para a humana que a pegou.
—Isso é tão fofo! Não acha Rin? –Igraine disse sorrindo e agarrando o braço de tatsuo.
— ...
—Riiiiinnnnn!
—Oh o quê? Desculpe gente eu estava distraída... –Respondeu a humana, ainda preocupada com o que havia sentido.
A lua já havia nascido, e estava alta, clareando o céu até então, plúmbeo. Ícaro estava em seus aposentos resolvendo alguns assuntos profissionais. Encontrava-se sentado em uma poltrona na varanda do aposento, com um castiçal ao seu lado enquanto lia alguns decretos recém-assinados. Após passar toda manhã descansando ao lado de Yukina, e a tarde resolvendo pendências, com os soldados do shiro, sob a supervisão de Hokuto, que queriam saber nitidamente o que havia acontecido à princesa.
Mas por mais que se ocupasse, sua cabeça estava sempre o lembrando de que a loba das neves, permanecia adormecida, sem sinal de que despertaria, e ele se começava a se questionar se ela, verdadeiramente, despertaria algum dia.
Instintivamente parou com a leitura e contemplou a lua que nascia no horizonte. Fechou o livro à sua frente e o apoiou na mesa ao seu lado, para finalmente respirar fundo e se levantar.
Olhou para dentro do quarto, e a youkai ainda estava lá, jazindo inanimada. Voltou-se novamente para a lua, com seu olhar mais melancólico, como se pedisse silenciosamente à ela, que a trouxesse de volta.
Caminhou o suficiente para apoiar-se na mureta e contemplar as luzes do festival que acontecia aos pés da montanha, enquanto tentava se manter otimista em relação à situação que se envolvera.
Sua mente divagava entre os vários pensamentos que lhe irrompiam. Achou melhor banhar-se e assim refrescar seus pensamentos.
Caminhou para dentro do aposento com cuidado, e pegou um de seus quimonos no guarda vestidos, antes de ir ao banheiro. Abriu a água e despiu-se, e entrou na banheira antes que a mesma chegasse à metade. A água estava fria, e ele não a queria de outra maneira. Molhou o rosto e os longos cabelos negros. Sua pele morena estava intumescida, mas ele não se importava. Aos poucos a água o fazia esquecer-se de tudo. Permitiu-se ficar deste modo por algum tempo, até sentir seu corpo relaxado. Mas antes que isso acontecesse, ouviu um baralho vindo de dentro de seu quarto. Subitamente ergue-se da água e colocou seu roupão, para verificar o que acontecia.
A porta do banheiro estava entre aberta, portanto Ícaro não levou muito tempo para sair, e tampouco fez algum barulho. Ao vislumbrar a cama, percebeu que pela porta da varanda aberta, a luz da lua entrou e pousou sobre esta, ocupando o lugar, onde outrora a youkai se encontrava. Ainda em silêncio, passou os olhos pelo aposento, procurando qualquer pista dela. Por fim foi até a varanda, e encontrou a loba das neves, próxima a mureta olhando para a lua.
—Yukina? –Chamou Ícaro se aproximando lentamente.
A youkai virou-se assustada e afastou-se à ponto de recostar o cóccix na mureta.
—Você... Kurö Ookami? Não... Que... Quem é você? –Perguntou ela ainda mais surpresa, ao notar a semelhança de Ícaro com o macho que ela amara.
—Sou Ícaro, o embaixador das terras do oeste, nas terras negras. Pertenço à antiga tribo, de Kurö Ookami. Ele é meu ancestral, e eu herdei um pouco de sua herança... – Ícaro respondeu aproximando-se lentamente.
— Eu não acredito em você! Porque você me trouxe aqui? O que você quer? –Ela questionou perturbada.
—Yukina, eu sei que está confusa, prometo que vou responder tudo o que quiser, mas, por favor, vamos para dentro. Estamos em Meikakuna mun, não precisa ter medo... –Ícaro tentou acalmá-la e estendeu a mão à ela.
—Eu... Eu não acredito... Não acredito em você... Não acreditarei em mais ninguém... –A youkai disse permitindo que as lágrimas caíssem por seu rosto. Em um movimento rápido voltou-se para a mureta e apoiou as mãos para se jogar da mesma.
Entretanto, antes que conseguisse realizar o ato de desespero, Ícaro a alcançou e abraçou-a pelas costas. A youkai protestou e gritou o quanto pode, enquanto Ícaro buscava alcançar sua marca.
—Yukina! Acalme-se, confie em mim! –Gritou Ícaro, virando-a para ele.
—NÃO... Eu nunca mais vou confiar em vocês humanos!NUNCA MAIS... –Repetiu a youkai fora de si, antes de ser calada por um beijo de Ícaro.
Neste momento o hanma conseguiu tocar a marca. Imediatamente Yukina parou de se debater, embora continuasse chorando. As lembranças de Ícaro posteriores a inconsciência da youkai foram tomando sua mente através da ligação de marca. Ela viu tudo o que Ícaro havia feito por ela, bem como sua verdadeira condição como guardião da chave do destino, condição esta, que ela também possuía. Quando Ícaro retirou seus lábios dos dela, a youkai o interrogou.
—Por que... Porque você me salvou? –A loba da neve murmurou, ainda chorando nos braços do hanma.
—Por que você não merecia morrer sem antes, viver todo o amor que lhe foi negado... Eu quero ser esse amor Yukina... –Ícaro disse à ela enquanto acariciava-lhe os cabelos e mantinham seus olhos fixos aos dela, embriagado pelo desejo.
—Meu coração está doente... Não sei se vou conseguir lhe retribuir tudo o que você fez por mim... –Yukina murmurou, buscando ser sincera. Seu corpo, no entanto, estava sensibilizado pelo toque de Ícaro, e a excitação lhe corava a face.
—Não se preocupe... Eu só preciso que você queira se curar... Você quer ser livre, Yukina?- sussurrou Ícaro, secando as lágrimas dela, para logo em seguida depositar um beijo leve mas, cheio de desejo no ombro da youkai, que arrepiou-se com a carícia.
—Quero... Quero muito... –Yukina ergueu novamente seus olhos, e encarou Ícaro como se tentasse desesperadamente recuperar o controle sobre as sensações de seu corpo.
—Então, permita que eu possa ser o seu remédio... –O hanma murmurou enquanto subia o rosto para voltar sua atenção e seus lábios para o pescoço de Yukina. Aspirou-lhe o perfume, antes de beijá-la mais uma vez, desta vez lentamente, como se saboreasse a pele da loba da neve.
—Eu... Isamu meu antigo prometido, também tentou me ajudar... E eu quase o matei... Ícaro... Nós não devemos... Você não merece estar com uma traidora como eu... –Yukina lembrou-se com pesar, de seu passado, e as amargas lembranças a fizeram tentar se desvencilhar dos braços de Ícaro. O hanma permitiu que ela se afastasse um pouco, mas permaneceu segurando-a pelas mãos.
—Eu sei disso... Seus pais me contaram tudo... Mesmo assim, acho que entre nós as coisas serão um pouco diferentes... – Ícaro sorriu maliciosamente.
—Por que diz isso? –Yukina questionou levemente enrubescida.
— Por que eu não sou corvo como Isamu... Não tenho nada contra os Karasu, mas sei que como todos os youkais, eles são treinados desde a infância, para não demonstrar sentimentos. Exatamente como o seu clã. De todos os clãs lupinos, que vivem nas terras do oeste, o seu é considerado o mais frio. Por isso, os lobos da neve, são os melhores estrategistas e fazem os melhores julgamentos. E apesar de você ter lutado pela sua emoção por toda a sua vida, não pode fugir de seu legado. –Ícaro argumentou enquanto se afastava mais da youkai e apontava para a porta da varanda.
Yukina hesitou um pouco antes de seguir na direção da porta. Ao entrar logo atrás dela, Ícaro apontou para a cama, mas Yukina sentou-se na poltrona que se encontrava encostada na parede, do lado oposto à cama.
—Estou bem aqui, obrigada... – A Youkai disse evitando encarar o hanma que sorria divertido.
—E então o que mais quer saber de mim? –Perguntou Ícaro ajeitando se na poltrona para a longa conversa que teriam.
Estava ficando tarde, e Leodora achou por bem, levar seus pequenos para casa. Ryo estava com eles, e a empatia entre os quatro, era surpreendente. Ninguém diria que haviam se conhecido há apenas algumas horas. Ao serem vistos, eram apreciados como mais uma, das muitas famílias inter-raciais da aldeia, e para alívio de Leodora, não chamavam a atenção.
Enquanto conversavam no caminho para casa, ele lembrou-se rapidamente de seu dia.
Ele tivera o cuidado, de tomar as medidas necessárias para manter-se como “Ryo”, e logo ao início daquela manhã, se dera ao trabalho de sair, pelo shiro, e pela vila, apenas para pedir àqueles que o chamassem de “lorde Ryotaro” que o chamassem de Ryo, com a justificativa que se sentia parte da aldeia, e, portanto, ficaria ofendido com tanta formalidade. Para sua sorte, particularmente naquela vila os tratamentos, tão importantes em outras localidades eram mais facilmente minimizados, já que o respeito mútuo era algo que independia disso. Felizmente, dos poucos seres que o reconheceram, não houvera sequer um, que descumprira sua vontade.
Ao fim daquela tarde, Ryotaro estava pronto, sentado na varanda de seu aposento, segurando o queixo com a mão direita, enquanto seus pensamentos variavam desde as coisas que deveria fazer ao retornar para seu reino, até imaginar como seriam as crianças de Leodora, passando pelo fato de não ter encontrado Yukina, e ouvir de seu pai, que ela se encontrava bem, mas na companhia de seu macho. O fato o havia surpreendido, mas ao mesmo tempo, o tranquilizara, pois sabia que Yukina precisava de assistência. Subitamente, lembrou-se de Minara, e se deu conta de que não havia pensado nela o dia todo e isto o fez sorrir melancólico. A hora de seu encontro se aproximou, e o youkai fênix sentiu a garganta secar. Estava nervoso, e mais nervoso do que esperava. Ergueu-se e foi servir-se de uma taça de vinho, na esperança de se acalmar. Após beber toda a taça, ele percebeu que sua tentativa foi inútil. Balançou a cabeça negativamente e caminhou para frente do espelho, para uma última checagem antes de sair. Estava vestido com um quimono cinza escuro, com listas pretas e brancas nas barras. Seus cabelos estavam semipresos por uma trança fina, finalizada por um prendedor de ouro, muito imponente, mas ao mesmo tempo discreto. Era a única joia que ele portava, pois ele decidira tirar seu colar com o grande rubi mágico dado por sua mãe ainda na infância, por temer que alguém reconhecesse a joia sabidamente, pertencente ao lorde das terras do leste. Seu traje, apesar de mais simples, era elegante, e certamente remetia muito mais há um general, do que um Lorde deveria vestir. Tudo isto, apenas para que ao encontra-se com Leodora, e as crianças, ela não desconfiasse de nada. Quando finalmente se encontraram, o nervosismo do lorde transformou-se em uma plena alegria. As crianças eram muito mais carinhosas e especiais do que ele pressupunha e a noite havia passado em um piscar de olhos. Mesmo o mais introspectivo, dos três pequenos, um menino de cabelos negros e misteriosos olhos verdes e pele clara, de nome Azrael, parecia à vontade ao lado do youkai fênix, que não poupou esforços para conhecê-los e se aproximar deles.
Ao chegarem à porta da simpática casa, Ryotaro pretendia despedir-se, mas os pequenos não o deixaram. Exigiram sua presença à mesa para o jantar, e mais tarde em seus quartos, para dar-lhes boa noite. Em ambas as situações, Ryotaro sentiu-se pela primeira vez em toda a sua vida, acolhido em uma família. E a sensação lhe era a melhor possível. Após colocar a doce menina Àureael e logo depois, Azrael, o inteligente menino, em seus respectivos quartos. Ryotaro aguardava apenas que o sono vencesse o pequeno Ângelus. Quando o bebê dormiu em seus braços, enquanto Leodora limpava os pratos e arrumava a bagunça do jantar, Ryotaro, apreciou o calor daquele momento, que embora fosse corriqueiro para muitos, para ele, remetia à um pequeno momento no paraíso.
Ergueu-se após isso, e caminhou até o quarto do pequeno, e com todo o cuidado, colocou-o em seu berço de madeira e vime. Observou com afeto, o pequenino ajeitar-se no leito, e sorrir para ele, antes de fechar definitivamente os olhos, e entregar-se ao sono. Ryotaro sorriu de volta, em seguida voltou-se devagar para não fazer nenhum barulho. Caminhou até a cozinha, e encostou-se, na soleira da porta, e permitir-se observar Leodora que neste momento, preparava uma bandeja de chá com seus aperitivos.
—Ai! Que susto, Ryo! Não vi você aí... Eles demoraram em dormir... Estavam tão agitados, hoje! –Leodora disfarçou o rubor em sua face, ao encontrar os olhos de Ryotaro encarando os seus.
—Acho que fui o culpado... Queria ter vindo ajudá-la, mas não deu tempo. –Ryotaro disse se aproximando vagarosamente, enquanto sustentava seus olhos dentro dos olhos da hanma.
—Ah... Não precisava! Já abusei demais de você, deixando-o fazer as crianças dormirem... –Leodora desviou os olhos, e sentou-se, buscando refugio atrás da mesa.
—Não foi nenhum abuso. Eles me pediram por isso. Só tenho que te agradecer por permitir passar esse tempo com eles. –Ryotaro sentou-se na frente de Leodora, e ela pôs-se a servir-lhe o chá.
—Sabe, eu não imaginava que eles fossem gostar tanto de companhia masculina... Sinceramente cheguei a achar que eles ficariam enciumados. –A hanma morena começou a falar.
—Eles nunca tiveram uma referência paterna? –Ryotaro quis saber.
—N-não... Eu já estava sozinha quando os adotei. Os dois mais velhos sabem disso. E o Ângeluz, está comigo desde o primeiro dia de vida já que a mãe de sangue, o abandonou... Ele é só um bebê, por enquanto. Pretendo revelar isto, algum dia. –Leodora disse antes de sorver um pouco de chá.
—Entendo... Não acha que eles... Precisam disso? – Ryotaro encarou a xícara de chá à sua frente antes de questioná-la, com todo o cuidado que o delicado assunto exigia.
—Disso, o quê? –Leodora quis especificidade.
—De alguém que faça esse papel... Alguém que os assuma como um pai.
—Eu... Eu pensei muito nisso... É lógico que uma figura paterna, é importante... Mas, por causa da minha condição, eu não posso arriscar! E, além disso, que macho em sã consciência quer “adotar” três filhos? –Leodora foi enfática, especialmente ao se lembrar da marca em seu corpo.
—Eu quero... –Murmurou Ryotaro, para surpresa de Leodora que ficou muda, enquanto o encarava.
—O-o... O que você disse? –Murmurou ela igualmente quando conseguiu falar.
—Eu disse que quero fazer este papel. Quero adotá-los. Quero assumi-los, tanto emocionalmente, quanto financeiramente. Dar-lhes um nome e uma referencia paterna. –Ryotaro rasgou o verbo, fazendo com Leodora perdesse o fôlego.
—Ryo... Eu te agradeço muito, mas... Isso não é viável! -A hanma tentou argumentar.
—Leodora, eu não sou um filhote. Eu sei muito bem, que tudo isso é muito mais trabalhoso do que se pode supor. Criar um filho é algo muito difícil. Quanto mais três filhos, que não tem o seu sangue. Você não precisa mais fazer isso sozinha, eu posso ajudá-la. E além disso, é neles que temos de pensar! Você mesma admite que eles precisam de uma figura paterna, e que eles se afeiçoaram à mim! E quanto à sua condição, eu já a conheço... Não vou tocar em você, e nem precisaremos viver sobre o mesmo teto se você não quiser, embora para mim seja muito melhor ter vocês por perto... –Ryotaro disse, com seu sorriso mais sincero. Leodora permanecia em silêncio, enquanto as lágrimas desciam por sua face.
Subitamente a hanma ergueu-se e pôs-se a tirar as xícaras e pires da mesa, para depositá-los na pia rústica que se encontrava alguns passos, atrás de si. Permaneceu de costas e pôs-se a lavar a louça, enquanto procurava as palavras para responder o youkai. Sua mente divagava, quanto subitamente sentiu o calor do corpo de Ryotaro, atrás de si. Antes que ela dissesse algo, o youkai colocou suas mãos dentro da pia, passando-as por entre os braços de Leodora, e colando a frente de seu corpo, às costas dela, quase abraçando-a. A hanma sentiu o corpo inteiro arrepiar-se, quando o youkai sussurrou-lhe na orelha.
—Quatro mãos, são melhores do que duas... Vê? Se ficarmos juntos, poderemos vencer qualquer obstáculo... Você disse que éramos amigos, deixe-me ajudá-la, Leo... Aceite... Por favor, seja minha fêmea, ainda que, apenas em um contrato... Eu não quero ficar longe de você, e agora, menos ainda, das crianças... –Ryotaro disse com toda a sinceridade de seu coração obscuro. Seu coração ainda clamava por Minara, mas Leodora o estava ajudando a se curar de uma maneira que ele simplesmente não podia ignorar. A maneira como ele se sentia, ao lado dela, e daquelas crianças, era algo viciante, para ele. Algo tão abrasador, que não poderia ser deixado para trás.
—Isso não é tão fácil, Ryo. Você é um bom amigo. Ficou ao meu lado desde que nos conhecemos, e me ajudou muito, provando-me que merecia minha confiança. Mas me unir à você, ainda que seja por um contrato, não vai dar certo... – A hanma começou a falar, mas Ryotaro a interrompeu.
—Leo, eu não... –O youkai fênix pretendia explicar-se ao compreender que ela referia-se ao futuro, mas a hanma retomou a palavra.
—Ryo, você é um macho saudável. Pode estar magoado agora mas, em algum momento vai voltar a querer se envolver e vai encontrar uma boa fêmea que te faça feliz, e te dê uma família, tão maravilhosa quanto à minha... Eu agradeço pelo que me propõe, mas filhos são algo que devemos levar por toda a vida... –Leodora concluiu com pesar. Mas Ryotaro não gostou nada das palavras dela. Subitamente virou-a contra ele, e pressionou seu corpo contra o dela, pegando-a pelos braços com determinação, mas sem machucá-la.
— O que você está me dizendo? Você não confia em mim, Leodora, é isso? Acha que eu sou algum inconsequente que colocaria você e essas crianças em dificuldade apenas para satisfazer uma “carência momentânea”? Eu sei muito bem que eles são hanmas como você! Sei que terão um ciclo de vida tão longo quanto o nosso. Eu estou aqui, pedindo isso, por você, e por eles, não só por mim! Eu quero ter o que tivemos hoje, pelo resto da minha vida, e mesmo que as coisas mudem drasticamente, minha palavra com vocês não mudará... NUNCA. –Ryotaro disse quase com voz baixa, mas em tom desesperado.
—E porque você ia querer isso? Porque se colocaria em um compromisso enorme como este? O que é tão especial em mim ou minha família, que faça um general como você se interessar à este ponto!? – A hanma questionou quase implorando pela resposta.
—Eu nunca tive uma família... Meus pais... Minha mãe morreu jovem e meu pai e eu nunca nos demos muito bem... Quando conheci você... Eu não sei por que, mas senti que... Precisava ajudar você. E essa sensação se confirmou quando você me mostrou a sua marca... Eu posso ajudá-la a ser livre de um modo que mais ninguém pode... E a cada minuto ao seu lado, eu me sinto melhor, não só por causa do meu coração ferido, mas por conta da sua devoção à sua família e aos que te cercam... Eu pude provar um pouco desta devoção, e não quero mais ficar sem isso... Eu quero esta família para mim, porque, vocês me fazem esquecer toda a dor que eu já senti e causei... Estar aqui, com vocês, é como se o destino, estivesse me dando uma segunda chance e eu não quero perder isto... Por favor, Leo... Me aceite junto de vocês... –Ryotaro escolheu as palavras com cuidado, pois embora quisesse revelar sua verdadeira identidade, sentia que ainda não era chegada a hora.
Ryotaro soltou-a e baixou os olhos sentindo-se humilhado por abrir-se daquela forma. Estava prestes a sair dalí, quando a hanma o abraçou calorosamente. Ryotaro retribuiu o abraço com a mesma intensidade. Depois de alguns minutos, a hanma desvencilhou-se e encarou-o seriamente por alguns segundos, antes de respondê-lo.
—Se é desta forma, então... Eu aceito, Ryo... Mas há algumas condições que eu quero colocar. –Disse a hanma esboçando um sorriso, ainda na mesma posição.
— Diga... Faremos do jeito que você quiser. -Murmurou ele, segurando-a pelo rosto, nitidamente agradecido, e esforçando-se para não transparecer o enorme alívio que sentira.
—Acho melhor nos sentarmos, podemos discutir melhor... –A hanma sorriu, e desviou o olhar, pois ansiava sair daquela proximidade.
—Contanto que você, não chore de novo... –O youkai passou as mãos pelo rosto da hanma para secar o que restava das lágrimas dela. E a hanma acenou afirmativamente com a cabeça.
A pele macia de tez morena da hanma se fez sentir pelos dedos do youkai, que subitamente sentiu como se já conhecesse aquela sensação de toque. Ignorou, pois a mesma, e voltou a posição inicial, para logo em seguida sentar-se à mesa e tratar das condições que ela exigia. Fosse o que fosse ele estava disposto a aceitar.
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