Perdida Na Tempestade
60 Capítulo -60 - Selvageria...
Notas iniciais
Ela jamais seria humilhada novamente, simplesmente por que não daria esse poder a ninguém nunca mais em sua vida. Mesmo tendo tal convicção, não significava que Leodora não sofria com as ofensas. Apenas havia aprendido, a chorar sozinha, na segurança das quatro paredes de seu quarto. E era exatamente essa segurança que ela buscara com tanta pressa naquele momento. Tudo havia dado errado para ela naquela noite. Uma amiga que ela esforçara tanto para recuperar havia sido fatalmente atingida por um ataque misterioso de uma criatura que parecia saída do próprio inferno, apenas para atormentá-las. O macho youkai, tão gentil que ela havia conhecido horas mais cedo, era um general ou qualquer coisa equivalente, do tal lorde Ryotaro, filho de seu algoz, Kyuura. E ela descobrira isso justamente quando percebera que ele se interessara por ela, apesar de todos, os impecilhos que ela lhe impusera.
"Ryo... Me perdoa, mas eu não posso arriscar minha liberdade ou a de meus filhos... Mesmo você sendo tão lindo, e tão gentil, eu não posso mais te ver..." — A hanma pensou consigo mesma, saindo do shiro. Sentiu uma imensa tristeza lhe tomar, e ficou tão absorta em tais pensamentos, que sequer notou que estava sendo seguida.
Leodora conhecia bem Meikakümun, e por isso optou por tomar uma viela paralela à avenida principal, apenas para evitar a multidão de seres que se encontravam no festival. O único porém, era que a pequena viela, terminava em um cruzamento, com a estradinha que levava aos jardins que circundavam a montanha. Para chegar ao caminho que chegava à sua casa, a hama morena teria de circundar os jardins, e àquela hora e por conta do festival, apesar de ser iluminado, aquele trecho, estaria deserto. Leodora suspirou e continuou caminhando, carregando o peso de todas as ofensas e preocupações daquele dia. Após passar pelo primeiro jardim de lírios brancos e margaridas, ela permitiu-se olhar para trás e contemplar a parte traseira do shiro. As luzes ao longe, mostravam os muitos aposentos, bem como alguns servos que já trabalhavam para cobrir o considerável buraco na parede feito por Ìcaro e Masato quando as salvaram do ataque. Seus pensamentos fervilhavam, e ela não se deu conta de que olhos hostis à espreitavam na escuridão. Assim que voltou-se novamente para a frente trombou com um macho youkai.
_ Aonde pensa que vai com tanta pressa humana?- O macho de olhar assustador disse com voz altiva.
_ Já disse que não devo nada à nenhum de vocês malditos youkais! — A hanma vociferou empurrando o agressor com força, preparando-se para uma possível batalha.
_Não precisa ter medo, humana. Você foi escolhida... Meu senhor, o Lorde Fauno lhe concedeu a honra de ser possuída por ele esta noite... — O soturno youkai lhe disse com suavidade, como se anunciasse uma grande dádiva.
_Eu agradeço ao seu "Lorde", mas infelizmente terei de declinar a oferta. Eu não estou me sentindo muito bem hoje... — Leodora segurou seu ímpeto de mandar às favas, o convite obceno do lorde, e partiu para uma resposta mais diplomática.
_Você ainda não compreendeu, humana. O Lorde Fauno, é o senhor das florestas azuis, o grande reino místico que fica além das fronteiras das terras negras. Ele é o mais poderoso Lorde aliado das Terras do Oeste, e está sempre cercado, pelas mais belas fêmeas...E mesmo assim ele escolheu você, uma reles humana, para compartilhar de sua maravilhosa companhia, por esta noite. Isso não é um pedido, é um privilégio! No seu caso, praticamente um milagre... — O youkai explicou-lhe seriamente, fazendo com que a morena de olhos cor de mel, sentisse ainda mais asco do tal lorde.
_Mesmo assim eu terei de dizer não. Não estou mesmo, me sentindo bem. E garanto que seria uma péssima companhia para o Lorde. Agora, com sua licença... -Leodora foi mais direta, e quando tentou passar pelo youkai ele abriu um par de asas negras, como asas de mariposas impedindo-a de passar.
Em seguida conjurou algumas palavras e concentrou seu youki na mão direita, formando uma esfera de energia sinistra, que ele prontamente depositou no chão. Poucos segundos se passaram, até que uma espécie de tenda de ferro e vidro, de mais ou menos desesseis metros quadrados, por três de altura, saísse do chão bem na frente da hanma, que ficou estarrecida com a cena. A construção chamava a atenção pela beleza da junção do ferro e dos vitrais, formando "paredes" decorativas de muito bom gosto. Subitamente as portas duplas da frente se abriram e de lá uma silhueta masculina, altiva e instigante, se aproximou vagarosamente de Leodora.
_Espero não tê-la feito esperar muito, minha cara... Eu sou Lorde Fauno, senhor das florestas azuis. Este aqui é meu servo pessoal, Nêmesis. Ele não a assustou, pois não? — O lorde estava ainda mais encantador, e isso Leodora não poderia negar.
_Não me assustou... Mas estava explicando à ele, que infelizmente eu não poderei aceitar sua "generosa" oferta... Eu não estou em um bom dia... Seria péssima companhia para o senhor.
_Que bobagem, minha cara... Venha comigo, e lhe mostrarei que eu posso mudar em muito o seu humor... — O lorde disse com voz doce, enquanto estendia a mão à Leodora que simplesmente não a aceitou, e deu às costas para sair dali.
Mas mal deu dois passos e Nêmesis se pôs novamente em seu caminho.
_Por favor saia... Eu só quero ir pra casa...
_O único lugar para onde você irá, é a minha cama querida... — O Lorde murmurou com a mesma placidez, aproximando-se das costas de Leodora.
_Porque eu? Aquelas youkais estavam se matando por um pouco de sua atenção!- A hanma explodiu em revolta.
_Você mesma, respondeu... Se elas tivessem metade de sua beleza e elegância... Ou um terço de sua personalidade selvagem, minha querida, eu as tomaria como minhas fêmeas... Mas elas, são como todas as outras... Volúveis, frias, e totalmente previsíveis... Isso não me excita nem um pouco... Já você, tão altiva, tão independente, tão bela e livre... Ah, isso sim, me excita muito... -O sedutor youkai aproximou-se e pegou Leodora pelo queixo, enquanto seu polegar contornava os lábios carnudos da humana, que prontamente puxou o rosto e afastou-se.
_ Deixe-me em paz. Eu não vou lhe pertencer nem hoje, nem nunca! -A hanma vociferou preparando-se para enfrentá-lo.
_ Isso mesmo, querida... Lute, minha bela presa... Quanto mais se negar a mim, mais delicioso será quando eu a tomar... — O Lorde murmurou passando a língua pelos lábios, e se preparando igualmente, abrindo duas grandes asas de borboleta em suas costas.
O lorde youkai voou na direção da hanma e estava prestes á tocá-la quando uma muralha de pedra surgiu diante dela. Obrigando-o desviar e levantar vôo novamente. Enquanto isto o servo de nome Nêmesis, atacou Leodora pelas costas, e mesmo sem se virar para olhá-lo, a hanma reagiu acertando-lhe primeiramente um chute na altura da canela, seguido rapidamente de outro que o acertou de baixo para cima no queixo, e logo em seguida vários socos na altura das costelas do youkai que recuou surpreso. Mas a hanma continuou atacando, e bateu com força o pé direito no chão, erguendo várias pedras grandes que ela prontamente jogou para cima do youkai mariposa. Por mais que ele tentasse se defender e esquivar, acabou sendo soterrado pelas mesmas, bem diante do Lorde youkai que ficou perplexo.
_Mas o que é isso? Uma humana, usando o poder de um youkai? Como isso é possível?- Fauno se questionava surpreso, e ainda mais excitado.
_Eu não sou humana... Agora deixe me em paz, ou fazer com você o mesmo que fiz com seu escravo! — Leodora ameaçou.
_Não me faça rir, minha querida... Eu ainda não desisti de você... — E dizendo isso o Lorde Youkai abriu novamente suas asas, e sobrevoou Leodora diversas vezes, fazendo menção em pegá-la.
Mas sempre que o youkai se aproximava a hanma criava o muro, e atirava as grandes pedras. Após alguns segundos de embate no entanto, Leodora começou a sentir sua vistas embaçadas, e seu corpo dormente.
_ O que... O que está acontecendo... Eu não consigo... Ficar de pé... — A hanma murmurou caindo logo em seguida nos braços do lorde youkai que sorria vitorioso.
_Você caiu direitinho na minha armadilha, minha presa... Enquanto eu te sobrevoava, eu deixei cair meu polém venenoso sobre você... Agora vamos , linda e valente fêmea... Eu mal posso esperar para sentir todo o prazer que eu terei, com você... — Riu-se o youkai levando Leodora para dentro de sua estufa.
Os músicos terminaram a valsa e anunciaram um breve intervalo. Brunhilde que já tinha orientado rapidamente as jovens mikos, bem como à kagura e a Janis, estava impaciente aguardando pelos servos que havia enviado, para chamar Kaede, e sua "sobrinha" Naelle, além da própria Leodora. Todas elas eram importantes, para que ela colocasse em prática, o plano arquitetado por ela, mas a maior preocupação, era o fato dela ter visto o Lorde das florestas azuis sair discretamente, logo após seu servo pessoal. Brunhilde sabia que as paredes do shiro eram protegidas, por feitiços antigos, mas conhecia a fama de conquistador do Lorde Fauno, e mesmo que não significase nada, aquele sumisso repentino justo pouco antes das valsas de honraria que abrangiam aos convidados, era muito suspeito.
Satori percebera, os olhares sinistros sobre Izayoi e Inu no Taishou, e o burburinho já havia chegado aos seus ouvidos, mas resolvera que apoiaria seu macho e amigo, sob qualquer circunstância. Por isso, mantinha- se firme ao lado dele e da fêmea que ela supostamente deveria odiar. Por um momento seus olhos cruzaram os de Hokuto, e ela se deu conta de que jamais poderiam ficar juntos. Não só por que Inu no Taishou era o seu macho, e ela não poderia viver longe dele, por conta de sua obrigação como fêmea marcada, mas por que não havia mais nada naqueles olhos, que se acendia, ao vê-la. Hokuto, não havia mentido para ela afinal. O macho que ela conhecera, realmente, parecia ter desaparecido para sempre. Contudo, ela sentia -se, muito feliz em tê-los, Inu no Taishou e Izayoi, juntos de si, depois de tantos anos de solidão. E Izayoi, não lhe representava nenhuma ameaça, ao contrário, era estranhamente bom tê-la ali consigo, e saber que finalmente Inu no Taishou, havia assumido seus verdadeiros sentimentos por ela. Seus pensamentos, no entanto, a fizeram suspirar.
_Está tudo bem Satori Hime? — Perguntou Izayoi, ao vê-la distante.
_Está sim, Izayoi Hime.
_Satori, eu decidi, que vou marcar Izayoi, mas como sabe, vou continuar ao seu lado. Acho que será melhor se pelo menos por enquanto, vivermos os três sobre o mesmo teto, já que você, é minha fêmea marcada e mãe do meu primogênito. Há algum problema nisso, para você? — Inu no Taishou questionou-a, olhando-a nos olhos.
_Não... Nenhum problema. Mas e então, quando vai marcá-la, Inu no taishou? — Perguntou ela sorrindo cordialmente.
_Na próxima lua crescente. Sesshoumaru e Inuyasha também pretendem unirem -se às suas respectivas mikos. Faremos no mesmo dia. — Respondeu o Dai youkai, impávido, mas aliviado por dentro.
_Eu gostaria muito de organizar uma bonita recepção... -Disse a youkai e Izayoi ficou exultante.
_Faria isso, Satori Hime? Eu ficaria muito honrada. — A humana disse com gratidão na voz.
_Claro, eu não sei se terei uma outra oportunidade de organizar este tipo de festa por isso, será um imenso prazer, fazê-lo. — Satori concluiu, com sinceridade.
_Nós ainda temos alguns pormenores para resolver Satori... Algumas pendências que eu pretendo esclarecer o quanto antes. Quero que pense nisso com calma, para que possamos recomeçar nossas vidas, da maneira mais correta possível. — Inu no Taishou falou com seriedade calando a youkai que apenas abaixou a cabeça, já imaginando do que se tratava.
_Não precisa se preocupar com mais nada Satori. Nós cuidaremos uma da outra. — Izayoi disse com doçura diante do súbito desânimo, da youkai.
E por mais que aquilo parecesse banal, aquela pequena frase aqueceu o coração da youkai, que sorriu discreta, enquanto balançava a cabeça positivamente. Aquilo significava que ela nunca mais teria de temer a solidão. E ao menos disso ela estaria salva. Ela havia feito sua escolha pela última vez, e desta vez por si mesma, e por mais ninguém.
Hokuto suspirou pesadamente ao ouvir a conversa entre Satori, Inu no Taishou e Izayoi. Caminhou para fora disfarçadamente, e foi recostar-se na varanda, onde respirou fundo. Quem diria que depois de tantos anos, ainda sentiria o coração batendo por causa de Satori? Mas desta vez, não havia amor, ou ódio. Era o fim de uma era de sua vida, e ele sentia-se inteiramente sozinho. Era como se despertasse de um sonho. Estava livre e ao mesmo tempo, perdido. Neste momento, ainda cabisbaixo, olhando para o copo em suas mãos, ouviu um soluçar leve que vinha de outra varanda, possívelmente de cima. Ele tentou não pensar nisto, mas o soluçar veio mais forte, junto com uma escassa chuva de lágrimas. Ele afastou-se do local, e sentou-se em uma poltrona rente a parede, pois realmente não queria se envolver.
Depois de alguns segundos, as lágrimas pararam, dando lugar a um doce perfume de fêmea virgem. Hokuto levantou-se para não cair na tentação de ir olhar. Virou-se de costas para a mureta da varanda e caminhou na direção da porta que dava para o salão. No entanto assim que deu o primeiro passo, sentiu que algo despencara atrás de si. Rapidamente rodopiou sobre os calcanhares e saltou sobre a mureta, abrindo suas asas, logo em seguida. De cabeça para baixo ele avistou um pedaço de tecido que caía vertiginosamente. Aparou-o com cuidado, e se deu conta de que se tratava apenas de um vestido. Sentindo-se enganado e curioso, o youkai tornou a subir, e desta vez, chegou ao andar de cima.
Tratava-se do aposento de uma fêmea, e pelo cheiro, humana, e embora uma festa acontecesse apenas alguns metros dali abaixo, o isolamento acústico, apenas deixava passar alguns poucos ruídos. O youkai aterrisou na varanda e guardou suas asas. A porta da varanda estava aberta, e a dona do quarto não estava em seu campo de visão. "Talvez ela tivesse deixado o vestido cair por acidente, e deve ter descido para encontrá-lo." Pensou o youkai caminhando para colocá-lo em cima da cama. Assim que o fez, a porta do banheiro se abriu, e de lá uma jovem e bela humana armada com arco, atirou sua flexa no youkai que sequer teve tempo de se defender.
_Quem é você, e como se atreve a entrar em meus aposentos? — A humana disse ainda mirando sobre Hokuto que tinha uma flexa benta, transpassando seu ombro.
_Eu sou Hokuto, General de Meikakü Mum... Trouxe agh, trouxe seu vestido... — Disse ele sentindo a dor causada pela flexa.
Kaede/Tomoko, olhou para o vestido sobre a cama, e encarou o youkai lembrando-se imediatamente de tê-lo visto, no Dai San no shiro. Correu para junto do youkai que caiu de joelhos no chão, e rapidamente arrancou a flexa, tendo o cuidado de erguê-lo e colocá-lo sentado na cama.
_Me desculpe, senhor Hokuto, eu não o reconheci de imediato! Tive medo de que outro youkai pudesse me fazer algo... Por isso preparei cada flexa destas com os melhores feitiços que encontrei...
_Você... É bastante, ágil... Mas não deveria se preocupar com isso... Meikakümun é protegido por um poderoso feitiço, conjurado pela própria Izanami. Nenhuma fêmea, pode ser violentada dentro das paredes deste shiro... -Hokuto elogiou-a e comentou o fato, tentando fazê-la se acalmar.
_ Oh... Eu não fazia ideia de que esta senhora Izanami pudesse ser tão cuidadosa... Venha, tire a parte de cima do quimono, eu preciso fazer um curativo, e tirar ponta da flexa ou isso nunca irá fechar.-A miko correu para pegar uma caixinha de primeiros socorros, que havia debaixo da pia do banheiro, enquanto o youkai expunha seu belo dorso moreno.
Tomoko/ Kaede, fingiu não notar a beleza física dele, e pôs se a limpar o local, para começar o curativo.
_De onde nos conhecemos? Eu não me lembro de tê-la visto por aqui antes. — Hokuto questionou-a enquanto a encarava.
_Ah... Deve ter sido do Dai San no shiro... Eu trabalhava lá... -Ela disfarçou.
_E o que a trás a Meikakümun? -O youkai continuou interessado, e desse modo não se concentrava na dor.
_ Meu destino... Isto é, segundo a Hime Minara, estou aqui por que é meu destino estar!-Ela riu, ainda se traindo, com as próprias palavras. Ela segurou bem o ombro forte do youkai grifo, e com uma agulha puxou a ponta da flexa.
_Então, foi a Hime quem trouxe você... Interessante... Porque não está na festa? — Hokuto continuava querendo saber mas ao menos não sentia a dor lacerante de antes.
_Eu não sou muito de festas... E acho que estraguei seu divertimento com minha inconsequência. -A humana lamentou, enquanto enfaixava o ferimento.
_O quê, isso? Não precisa se preocupar, eu já estou cicatrizando, está vendo? E além disso, a festa não estava tão divertida... — Hokuto sorriu encantadoramente.
_Não estava? Achei que os youkais se divertiam muito mais, nas próprias festas. — Disse ela, terminando o curativo.
_Não... Digamos que pular de uma altura de mais de quatro andares, atrás de um vestido, e depois disso, ser recebido com uma flexa benta, que poderia ter me matado, é muito mais divertido, do que observar casais dançando... — Hokuto disse estreitando os olhos, enquanto ela guardava os itens utilizados.
_Eu sinto muito mesmo... Eu pendurei o vestido para tomar ar na varanda, e não vi que ele havia caído. Não estou acostumada a ficar tão próxima de tantos youkais perigosos... Eu não podia imaginar que o senhor pudesse estar simplesmente trazendo meu vestido, tampouco que houvesse um feitiço de proteção neste shiro... — A humana desculpou-se e corou de vergonha.
_Eu a desculpo, com uma condição: Me conte por que você estava chorando...
_... Eu estava me sentindo solitária... Sabe, hoje começou uma nova era na minha vida, e eu sei que nada mais vai ser igual... E pela primeira vez na vida eu não sei que rumo tomar e isso me dá muito medo... — A jovem tinha os olhos marejados, e se recrimava por se abrir com um youkai que certamente jamais a compreenderia.
_Agora sou eu quem pede desculpas... Eu não queria fazê-la chorar novamente. Mas se serve de consolo, eu entendo perfeitamente o que sente. E confesso que é uma sensação difícil. — O youkai disse, sentindo-se um perfeito idiota por revelar sua fraqueza à uma humana.
_Está sendo gentil, Senhor Hokuto... Sei que os youkais não tem sentimentos. — Ela disse limpando os olhos.
_Não me julgue pelos outros... Posso ser mais do que um youkai preconceituoso. — Ele afirmou colocando novamente a parte de cima de seu quimono.
_Eu não tive a intensão de menosprezá-lo. Eu sei que podem haver youkais, com senso de justiça e dispostos a proteger os humanos. Mas hoje eu pude ver como eles podem ser preconceituosos e malignos. Durante as danças, muitos youkais estavam falando mal de Sesshoumaru, e dos outros Dai youkais que assumiram suas fêmeas humanas, como se eles estivessem comentendo um crime horrível. Eles não as aceitarão nunca, e isso pode trazer muito sofrimento à elas. E elas não merecem isso... -Tomoko apertava o punho, lembrando-se principalmente de Kikyou. Hokuto percebeu que ela se importava, mas nada disse.
Levantou-se e ficou olhando-a de costas para ele. Um corpo jovem e belo, escondia uma personalidade tradicionalista e preconceituosa em relação aos youkais. Aquela jovem não convivia com youkais, então, porque Minara, a havia trazido para Meikakümun? Qual o destino dela? Hokuto não tinha ideia, mas sabia que Minara era confiável, e que jamais desejaria o mal de alguém. Talvez fosse justamente, para que ela compreendesse que os Youkais não eram assim, todos cruéis e malignos, assim como nem todo humano era frágil e frívolo.
_Posso te fazer mais um pedido? -Hokuto perguntou levantando-se e ajeitando o Quimono.
_Pedido? -Kaede encarou-o, desconfiada.
_É, só mais um pedido, para desculpar a flexada que você me deu apenas por que eu tentei ser gentil...
_Você não vai deixar eu me esquecer, não é? Qual é o seu pedido?- Kaede estreitou os olhos.
_Vista-se com seu belo vestido, e volte para a festa comigo... As valsas de honraria já vão recomeçar e como os noivos já deverão estar de volta acredito que todas as atenções vão estar voltadas para a pista de dança... — Hokuto sorriu e encarou-a.
_Mas senhor, já está ficando tarde... E vai ser constrangedor para o senhor, ser visto ao meu lado. -Kaede disse surpresa.
_Não são nem meia noite ainda, e quanto à ser constrangedor, bom, isso quem decide sou eu. E Tenho certeza de que você vai querer apoiar à nova Lady das Terras do Oeste, bem como as demais humanas... E que melhor maneira de se fazer isso, do que dançar com todo o seu vigor, uma valsa de honraria e deixar os demais machos, de queixo caído? À propósito, você não me disse seu nome! — O youkai passou por ela e encostou no batente da porta da varanda, para tirar um pequeno caximbo do bolso.
_ Ah, é... É... Tomoko! — Kaede esqueceu-se momentâneamente.
_Por um instante pensei que você tivesse esquecido seu nome... -Hokuto estreitou os olhos, enquanto colocava um pouco de fumo e acendia o caximbo, apenas soprando sobre ele. Depois disso, deu uma boa tragada.
_Não... Só fiquei sem graça... -Ela respondeu disfarçando, mal, sua farsa.
_E então, "Tomoko" você vai atender ao meu pedido? Lembre-se de que tudo o que eu fiz, foi tentar ser um macho gentil e... — O youkai disse soprando a densa fumaça branca para o lado de fora.
_Está bem, está bem! Eu vou me trocar. Eu volto em um instante senhor Hokuto. — E dizendo isto, pegou o vestido transpassado de mangas compridas,e ombros de fora, em tecido azul escuro bordado com borboletas brancas em toda a sua extensão e o obi vermelho carmim, que estava sobre a penteadeira, e caminhou na direção do banheiro.
_Estarei esperando. — Ele acenou com a mão direita e dirigiu-lhe uma piscadela.
Kaede/Tomoko, sentiu que aquele youkai estava se esforçando para agradá-la e isso poderia significar apenas uma coisa: ele queria algo dela. Mas ela não tinha ideia do que fosse, já que um macho como ele poderia ter a fêmea que quisesse aos seus pés. Contudo ela estava disposta a mudar suas atitudes, e se no passado ela fugiria daquela situação, no presente, ela iria pagar pra ver. E foi pensando assim que Kaede resolveu se arrumar melhor do que antes. Ajeitou o cabelo em um penteado mais rebuscado, pintou os olhos e os lábios, da mesma maneira que ela via Sango se vestir com pompa para os bailes em que ela e Miroko eram presenças obrigatórias.
Hokuto continuava fumando e aguardando a humana, sentado na poltrona da varanda. Após alguns minutos, ele ouviu a porta se abrindo e de olhos fechados aguardou que ela se pronunciasse.
_Você ainda está aí? — A humana perguntou confusa.
_Estou. Você já está pronta? -O youkai perguntou estendendo o braço em direção à porta para que ela o visse.
_Aí depende... Como estou? — Perguntou a humana levemente constrangida.
Hokuto abriu os olhos e encarou-a e ficou muito satisfeito com o que viu. A humana estava com seus belos cabelos semi presos por uma longa trança feita com as mechas da frente da cabeça, e repleta de borboletas de tecido, parecidas com as do vestido quimono. A maquiagem dos olhos dançava entre o vinho, passando por tons de rosa e lilás, e destacava o castanho deles, deixando- os ainda mais exóticos. As bochechas coradas em tom de pêssego, e os lábios carmim, que os deixa ainda mais sensuais.
_Você está perfeita... — Disse o youkai erguendo-se da poltrona, com uma expressão de satisfação nítida, que fez Kaede, respirar aliviada de certa forma.
Kaede caminhou para dentro do aposento, mas Hokuto não se moveu.
_E então, nós não vamos sair? — Kaede perguntou estranhando a situação.
_Se sairmos por aí, sua reputação vai para o lixo. Venha comigo. — O youkai subiu na mureta, e estendeu sua mão na direção dela, que hesitou por alguns segundos, até finalmente aceitá-la.
Equilibrando-se na mureta, com seu corpo colado ao do youkai, Kaede sentiu um calafrio percorrer-lhe às espinha quando viu o youkai grifo abrindo suas lindas asas brancas. O sorriso de Hokuto, só completou, sua encantadora visão de um belo e misterioso macho, com suas asas abertas como um anjo, à luz do luar, com seu másculo corpo, colado ao seu, e suas fortes mãos, mantendo-a segura. Aquela era de longe, a situação mais erótica que ela havia vivido na vida. Pelos poucos minutos que permaneceram se encarando, o youkai também teve seu deslumbramento, ao contemplar os belos olhos escuros de "Tomoko", refletindo a luz da lua, enquanto seu coração batia acelerado. O pulsar de seu peito o fazia mover-se mais intensamente e o youkai não resistiu em imaginar o quanto aquele coração poderia bater apressado se ele a beijasse. O calor do corpo da humana, somado ao cheiro delicioso que ela emanava, lhe fizeram fechar os olhos, antes de dar um salto no ar levando Kaede em seus braços.
Desceram voando até o andar de baixo, e só depois de algum tempo, ele a soltou e permitiu que ela se ajeitasse. Assim que ambos se refizeram, o youkai ofereceu seu braço. Kaede respitou fundo antes de aceitá-lo, mas o fez com toda a pompa.
_Está pronta? — o youkai perguntou, sorrindo.
E diante da afirmativa dela, entraram no salão, e foram acompanhados pelos olhares de todos os que o conheciam. E sem se fazer de rogado, ele caminhou com a humana ao seu lado, até a pista para juntar-se aos demais casais e aguardar a chegada dos noivos e o reinício das valsas de honraria. Ao vê-los, Brunhilde que ainda temia por suas amigas hanmas e humanas respirou aliviada, e fez questão de cumprimentá-los, e explicar rapidamente à Kaede como deveria proceder.
_Mina vamos, estamos atrasados. As valsas de Honraria já devem estar recomeçando, e nós ainda não retornamos! — Hikaru estava de pé, próximo à porta, e apressava sua adorável fêmea, que ainda terminava de se arrumar.
_ Ai, tá bom, tô pronta! E aí, como estou? — Minara se encontrava sentada na penteadeira tentando prender seus longos cabelos, uma vez que a trança, havia sido perdida para sempre na atividade anterior do casal. Diante da insistência de Hikaru em sair, ela acabou por, desistir e apenas os jogou para trás mantendo apenas a coroa de águia sobre a cabeça.
_Está linda... Como sempre! Vamos, que sua mãe já mandou nos chamar... Parece que ela quer todos nós estejamos presentes nas últimas valsas de Honraria de qualquer maneira. — O youkai respondeu sorrindo encantadoramente, antes de dar o braço à Minara e sair com ela na direção do salão de festas do shiro.
_Hummm, isso tá me cheirando aos planos mirabolantes de minha mamãezinha! -Minara comentou sorrindo misteriosa.
_Vai ver que ela só quer a nossa presença, porque imaginou que íamos passar a noite nos amando loucamente, coisa que sinceramente, eu queria muito fazer... — Hikaru murmurou sorrindo sensualmente para Minara.
_Não conta pra ninguém não, mas... Eu também... — Minara mordeu o lábio inferior, sussurrando para Hikaru que encarou-a com um olhar ainda mais malicioso.
_Você gosta de me provocar, não é? Sorte sua, não podermos voltar lá pro nosso quarto agora... Mas não se preocupe, assim que voltarmos eu faço questão de te cobrar cada palavra... — Hikari sussurou igualmente, encarando-a com um sorriso de lado, e passando, vagarosamente, a língua pelos lábios superiores, fazendo com que Minara perdesse momentaneamente o ar.
_ Sabia que esta é a primeira vez que eu vou dançar uma valsa de honraria? Estou tão animada! Um pouco apreensiva também, mas muito animada! -Minara mudou de assunto, e sorriu divertida enquanto Hikaru trocava a expressão sensual e relaxada, por uma séria e levemente contrariada.
_Nunca? Mas sabe o que significa esse tipo de dança, não é? — O youkai disse, após suspirar pesadamente.
_Sei, sei... É um jeito dos youkais mostrarem o quanto são poderosos! É meio ridículo, e machista, mas é importante para vocês... Eu só tinha ouvido falar de como era, estou mesmo, muito curiosa! — Minara expressou toda a sua expontaneidade.
_Escute, Minara, a valsa de honraria é mais do que isso... É um jogo de sedução, onde demonstramos, não só nossa posição social, como também, nossa capacidade de conseguir o que queremos... Quanto mais sedutor, mais poderoso... VOCÊ agora, é parte de mim, então, é bom ter cuidado, com seus novos instintos. É óbvio que como como você é só uma MENINA, não deveria atrair tanta atenção, mas COMO É, A MINHA NOIVA, recém tomada, imagino, que desperte a curiosidade de alguns machos que não fazem parte de nosso círculo de relacões... Tenha cuidado, com as investidas deles, e lembre-se de que o sentir desejo na sua condição, de fêmea jovem, é mais do que natural... -Hikaru a explicou com uma mistura de desdém e ciúme, deixando Minara levemente irritada.
_ Como é? Acha que eu só vou chamar a atenção porque SOU SUA NOIVA RECÉM DESVIRGINADA? Nossa, Hikaru, você realmente acha, que eu não sou capaz de despertar o desejo de ninguém por que eu sou uma hanma, ou, COMO VOCÊ MESMO DISSE, UMA MENINA? Caralho! Que tapa sem mão! -Minara questionou-o, não conseguindo evitar o desapontamento. Ela percebia que o ciúme o invadira mas estava surpresa que depois de tudo o que tinham vivido, e feito, ele insistisse em vê-la como uma criancinha.
_ Só estou dizendo a verdade... Dai youkais de sangue puro, dificilmente se sentiriam honrados, dançando com uma fêmea tão jovem e sabidamente hanma, como você é, mesmo sendo você uma princesa. Mas eles vão querer tomá-la e se aproveitar de sua condição, para me provocar... Mas falaremos disso depois. Por hora, apenas lembre-se de duas coisas, a primeira, é que não quero ouví-la falando palavras de baixo calão, novamente, e a segunda e mais importante , é que você jamais deve se esquecer, nem por um segundo que seja, que VOCÊ, ME PERTENCE... entendido? — O youkai disse irritado, tomando uma postura quase que paternal, enquanto tinha o maxilar cerrado, de ciúmes apenas de imaginar que aguém pudesse se aproveitar de sua "menina".
_ Perfeitamente general! — A hanma bateu continências para o youkai que ergueu uma sobrancelha com a irônia e desapontamento, percebidos por ele nitidamente, na voz dela.
Pensou em respondê-la mas estavam já as portas do salão, onde Isamu e Ritorirï os aguardavam. Os dois casais, entraram juntos, no grande salão, exatamente quando o pequeno intervalo dos músicos, estava prestes à terminar.
Desde que sua valsa terminara, Naelle estava à procura de Leodora. Depois de vasculhar o salão, a hanma, resolveu procurar pelas varandas, espalhadas, e em uma delas, acabou por encontrar com Masato, que se encontrava bebendo sozinho. Seu primeiro impulso, foi voltar correndo, para não incomodá-lo, mas a voz do youkai se fez ouvir antes que ela pudesse reagir.
_Boa noite, Naelle Hime... — O youkai morcego, disse voltando seu triste olhar para ela.
_Boa... Boa noite, capitão... -A hanma balbuciou, corando imediatamente.
_O que faz aqui sozinha? Não deveria estar nas valsas de honraria? -Masato questionou-a chamando-a para se sentar, curioso com a presença dela.
_ Estou procurando pela Leo... O senhor por acaso, não a teria visto?- A jovem aproximou-se, timidamente.
_ Se refere à hanma de pele morena? Não, não a vi depois do incidente de mais cedo... — Masato explicou, enquanto ajeitava-se na poltrona.
_Eu sinto muito incomodá-lo, capitão... Mas... Se me permite uma pergunta... -A hanma não conseguiu segurar sua curiosidade.
_Claro, hime, o que deseja saber?- Masato respondeu prontamente.
_Porque o senhor esta aqui sozinho?
_Eu não me sinto muito bem, em multidões... Estou com muitas coisas para pensar, e além disso, não preciso de honrarias... — O youkai encobriu o fato de se sentir excluído por sua aparência.
_O senhor me permite, uma observação? — A hanma pediu, docemente.
_Rsrs... Claro hime...
_O senhor mente muito mal... — Naelle disse displiscentemente, fazendo com que o youkai a encarasse incrédulo.
_Como é?
_Acho que o senhor na verdade está constrangido com sua aparência... Mas eu devo lhe confidenciar que está errado... — A sinceridade com que a hanma falava era desconcertante.
_E porque eu estaria errado, Naelle hime? Minha aparência não é exatamente a melhor... — Masato resolveu confrontá-la. Queria ver até onde ia toda aquela franqueza.
_Isto é o senhor que acha... Eu não o vejo assim, e nem os outros...
_Os outros... Os outros, podem ser bastantes cruéis quando querem... — O youkai tentou justificar-se.
_Eu que o diga... — Naelle começou a puxar a pesada poltrona, que se encontrava ao lado da poltrona onde o youkai estava sentado, arrastando-a devagar e fazendo um grande barulho.
_Como assim? Você é linda...Não deveria ter problemas com a sua aparência... — Masato teve de jogar o corpo para frente e ajudá-la a colocar a poltrona na posição que ela queria, de frente para ele, quase encostando uma na outra.
_Mas sou hanma, e a maioria dos youkais, acha que sou humana, e me trata como se eu fosse um erro do meu pai... Mesmo sendo princesa, eles me julgam sem me conhecer... — A jovem disse sentando-se finalmente e encostando os joelhos nas pernas de Masato que mantinha suas pernas cruzadas.
_Eu sinto muito que isso aconteça à você, também... — Masato respondeu ligeiramente incomodado com a grande proximidade dela.
_Está tudo bem... Sabe, há muito tempo, eu decidi que isso não era importante, e agora, realmente não é! Mas posso lhe fazer mais uma pergunta, senhor Masato? — A hanma continuava encarando o youkai com seus penetrantes olhos, tão límpidos que o incomodavam.
_Rsrsrsr... Pode, hime... — Masato sorriu com o " novo" pedido.
_O senhor realmente me acha linda? — A hanma desta vez, não se constrangeu. Parecia que tinha ficado à vontade com o youkai naquela posição há bem menos de um metro de distância dela.
_Acho sim... Isso é um problema? -Masato pensou tê-la ofendido.
_ Não... Eu bem que gosto de saber disso... Eu posso...
_Rsrsrs... Hime... Você pode me perguntar e me fazer a observação, que quiser! Não precisa me pedir autorização para nada... Afinal, parece que eu sou seu guardião, não é? -Masato a cortou, imaginando que ela lhe pediria para fazer outra pergunta ou observação.
_É sim... E eu sabia que era desde a primeira vez que o vi... Mas com relação à pedir sua autorização, o snehor está mesmo certo de que eu posso? — A hanma sorriu delicada, mas depois ficou séria, estranhando o desapego dele.
_Tenho... Não precisa me pedir autorização para mais nada... — O youkai respondeu encarando a jovem, encantado com a doçura dela.
_ Está bem... Então... Aqui vou eu... — E ao dizer isso, a doce hanma, egueu-se e segurou o rosto do youkai para depositar um beijo em seus lábios. Masato ficou tão chocado que sequer esboçou reação. Foi um beijo tão inesperado, quanto desajeitado, que terminou em alguns segundos quando o youkai a pegou pelos ombros e se levantou, completamente atônito.
_ Princesa Naelle! O que está fazendo? — Masato afastou o rosto, mas a manteve sendo segura pelos braços, pois percebera que ela estava trêmula.
_Você disse que eu podia... E agora eu estou com vergonha! -Naelle respondeu corando inteiramente.
_Espere... Sinto muito, eu... Você me surpreendeu, eu não esperava que a senhorita fosse querer me beijar... — Masato respirou fundo tentando se recuperar e não assustar ainda mais a jovem que parecia querer chorar.
_ Por que não? O senhor me acha linda! -Naelle respondeu com naturalidade.
_Mas isso por si só não é motivo para um beijo... Há certamente, muitos outros machos, que a acham linda... — Masato estava surpreso com tamanha pureza. O coração daquela hanma era tão puro quanto seus olhos.
_Mas eu acho o senhor lindo também... E nenhum outro macho me fez ter vontade de dar meu primeiro beijo... — Ela não mais se segurou, e algumas lágrimas lhe caíram dos olhos marejados.
_Primeiro beijo? Hime, não sou digno de tanto... — Masato a abraçou, da maneira mais carinhosa que conseguiu, sentindo-se um verdadeiro crápula por magoá-la.
_É sim... O senhor, é o macho com o qual eu sonhei a vida toda...- A bela, disse-lhe com convicção.
_ Hime Naelle, sei que está impressionada com o que aconteceu mais cedo... Eu sou seu guardião, e isto deve ter mexido com sua imaginação de menina... Eu realmente tenho esta obrigação e não me negarei à cumprí-la, mas isso, não quer dizer que a senhorita deve se prender à mim só por conta disso... Eu não menti, eu a acho linda, e uma fêmea muito desejável... Mas não posso tirar proveito de sua ingenuidade ou da confiança que a senhorita tem em mim...
_Eu não sou tão ingênua... O senhor não acredita em mim? -Naelle o cortou, e afastou-se indignada.
_Acredito que esteja se encantando com o fato de eu ser alguém que deve protegê-la... Mas não acredito que eu seja o macho de seus sonhos... -Masato foi franco, mas amenizou o máximo que pôde suas palavras, pois, vê-la chorar ainda o incomodava muito.
_ Sou muitas coisas e nem todas elas são boas... Mas eu não sou mentirosa... Nem falsa! Não sei porque, o senhor não acredita em mim, mas tenho certeza de que não faz ideia do quanto dói... E o pior... É que... O pior... É que, parece que essa dor é muito mais velha que eu... — E dizendo isso, já com suas lágrimas descendo sem controle, a hanma saiu correndo do aposento, deixando o youkai com seu coração arrasado pelas lágrimas dela, e perplexo com suas palavras.
Masato segurou o peito em um impulso. O coração estava acelerado, e sua boca estava seca embora ele estivesse acabado de sorver sua bebida. Respirou fundo. Talvez, ele devesse deixar as coisas do jeito que estavam. Mas havia algo dentro dele, que lhe impulsionava a ir atrás dela, ao menos para saber se ela ficaria bem. Caminhou de volta até a mesinha próxima à poltrona onde se reclinara outrora, e bebeu o restante da doce bebida, de uma só vez. Em seguida voltou a repousar o copo de volta à mesa, respirou fundo, e lembrando-se das palavras de Naelle, repetiu-as, para si mesmo.
" Está bem... Então, aqui vou eu..."
Lorde Fauno.

Fale com o autor