Perdida Existência
1 Fenômeno Estranho
Notas iniciais
"Quando descobrires todos os mistérios da vida, ansiareis pela morte, pois ela não é senão um outro mistério da vida." — Khalil Gibran.
Kromlau, Alemanha. Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2050.
— Oliver, vamos logo! — gritou Jasmine para seu noivo, que estava muitos passos atrás dela.
— Tenha calma! Não sei se percebeu, mas eu estou levando a sua mochila também!
— Eu percebi, sim. Muito obrigada, você é um cavalheiro. — disse Jasmine, irônica.
A moça saiu na frente e Oliver se pôs a observá-la. Jasmine era magrinha, quase sem seios, alguns de seus ossos até se destacavam na pele, ah... Mas Oliver amava aquela "magrela".
Eles se conheceram há 10 anos atrás, quando trabalharam juntos na Heavely Miracle, a primeira mega estação espacial construída pelo homem, que orbita o planeta como uma estrela até hoje. Foi projetada por Bernard Griffin, a mente mais brilhante da humanidade atual. Dono de uma fortuna invejável, sendo o primeiro trilionário da história, sempre investiu seu dinheiro em novas tecnologias, principalmente dedicadas à exploração espacial. Era também um íntimo amigo de Oliver.
Oliver Hayes serviu como astronauta e soldado na estação espacial, e foi lá onde sua vida mudou para sempre, após aquele incidente...
Oliver e sua noiva Jasmine estavam de férias, e decidiram aproveitar o tempo livre no Parque Redodendros, em Kromlau, na Alemanha. Estavam ali para olhar o ponto turístico mais famoso da região: Rakotzbrücke, a Ponte do Diabo.
A ponte Rakotzbrücke foi construída em plena época medieval. Seu formato é de um semicírculo, que, ao ser refletido pelas águas do lago que corre em baixo dela, forma um círculo perfeito, que lembra muito um portal para outra dimensão. Recebeu o apelido de "Ponte do Diabo" porque acreditava-se que a perfeição e complexidade de sua construção não podiam ser obras de mãos humanas, o que levou muitos a crerem que a ponte foi feita pelo próprio diabo.
A Ponte Rakotzbrücke ainda era a ponte mais fotografada do mundo, mesmo em 2050. Oliver e Jasmine estavam, inclusive, fotografando-a.
— É realmente linda! — comentou Jasmine.
— Há quem diga que essa ponte foi construída pelo diabo.
— Se foi o demônio ou não que a construiu, fez um ótimo trabalho.
Jasmine e Oliver pararam um tempo para continuar a apreciar aquela maravilha, quando algo estranho ocorreu.
De repente, Oliver desapareceu na frente dos olhos de Jasmine. Literalmente. Ele simplesmente sumiu. Não houve clarão, nada do tipo, Jasmine simplesmente viu o corpo de Oliver desaparecer ali mesmo.
Quando Oliver notou, estava em um local totalmente diferente. Era um lugar grande e fechado, parecia ser um auditório. A luz era fraca, deixando o ambiente nem muito claro, nem muito escuro. Estava cheio de gente, todos uniformizados, mas Oliver não reconheceu de imediato aquele uniforme. As pessoas usavam medalhas, o que o fez imaginar que eram do exército, mas aquela com certeza não era a farda dos soldados americanos.
Ele tentou falar com uma daquelas pessoas, mas todas o ignoravam. Parecia que ninguém podia ouvi-lo, vê-lo, ou mesmo senti-lo. Era como se Oliver não estivesse ali, mas ele estava.
Ele olhou para as paredes, e se chocou ao ver as bandeiras hasteadas. Eram bandeiras enormes e vermelhas, com um símbolo muito conhecido estampado. A suástica.
Oliver sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem-se, mas o que mais o assustou foi a figura que estava à frente dele, num palanque alto olhando para platéia. Era um homem que Oliver conhecia; que toda a humanidade conhecia. Adolf Hitler.
Oliver estava olhando para o maior ditador da história, que também parecia não notar sua presença ali. Foi então que Oliver notou que as roupas que aqueles homens usavam eram as fardas nazistas.
Hitler se aproximou do microfone. Estava prestes a discursar.
— Salve o império! Heil! — disse o terrível ditador no seu microfone.
Todos na platéia responderam à saudação, gritando "heil".
— O grande momento acabou de começar. — disse Hitler, começando seu discurso. — A Alemanha despertou. Nós reconquistamos o poder alemão, nosso próximo passo é reconquistar o povo alemão! Eu sei, meus camaradas, foram tempos difíceis. Vocês almejavam mudanças que nunca vinham, então este apelo de tempos em tempos era refeito para que a luta continuasse. Vocês não devem agir por si! Devem obedecer, devem se entregar, devem se submeter a esse esmagador dever de obediência! À vitória! Heil!
Mais uma vez, todos repetiram a saudação, gritando "heil". Oliver assistia a tudo aquilo imóvel. Seu cérebro ainda não entendia o que estava acontecendo, mas Oliver sabia que estava vendo um dos piores homens da história iludir uma nação inteira.
— Eu gostaria de relembrar a situação. — Hitler continuou. — Os judeus obtiveram sucesso em arrastar o mundo para a Grande Guerra, e isso fez com que a integralidade da raça judia tenha cumprido seu papel na Europa. Mas agora, os outros não sangrarão sozinhos! Desta vez, a antiga e genuína lei judia será aplicada: "olho por olho, dente por dente". Heil!
A platéia inteira se levantou, estenderam seus braços e gritaram "heil" três vezes. Oliver olhou para aquilo tudo, e saiu correndo daquele local o mais rápido que pôde. Não conseguia entender o que havia ocorrido ali, mas nesse momento, sentia uma onda de horror percorrer todo o seu corpo.
De repente, como num sonho, ele se viu em outro lugar. Agora podia ver a luz do sol e as águas do lago que atravessam a Ponte do Diabo. Em seguida, ouviu a voz de Jasmine.
— Oliver!
Olhou para trás e sentiu um certo alívio ao ver sua noiva.
— O que aconteceu? — perguntou Jasmine, preocupada. — Você simplesmente... sumiu... O que houve?
Oliver parou para pensar um pouco.
— Sinceramente, Jasmine, eu não sei.
*
Nova York, Estados Unidos. Quarta-feira, 9 de fevereiro de 2050.
A American Broadcasting Company, mais conhecida pela sigla ABC, é a maior emissora de televisão do mundo. Pertencente à Disney, é a rede de televisão que mais lucra no planeta. Apesar de ter perdido boa parte do seu público para outros meios de comunicação, como a internet, em 2050, a televisão ainda possui uma boa influência no mercado. As maiores emissoras, como a ABC, souberam evoluir com a tecnologia, produzindo programas para a própria internet e utilizando-a para conectar os telespectadores nos próprios shows de TV. É muito comum agora ver programas com uma "platéia virtual", em vez do tradicional auditório, apesar de ainda existirem programas com platéias físicas.
A sede da emissora localiza-se em Nova York, onde ficam os departamentos de jornalismo e de esportes.
Uma kombi parou em frente à entrada da sede da emissora. Em 2050, como as famílias estavam menores, devido ao decrescente número de fertilidade entre as mulheres, os carros eram mais compactos, muitos suportando apenas uma pessoa. Também eram autômatos e totalmente elétricos. Por isso, aquela kombi enorme, com direção manual, chamou a atenção de todos ali. Existiam as pessoas que ainda dirigiam os carros clássicos, mas eram raras.
Da kombi, saíram oito homens. Eles usavam capacetes que cobriam todo o rosto, e estavam armados com rifles avançados de extrema precisão. O nono homem saiu logo em seguida. Ele usava um manto vermelho-escuro, com um capuz que cobria-lhe o rosto. Com um gesto de mão, ele ordena seus capangas a entrarem.
— Cavalheiros, se não guardarem essas armas, eu chamarei a polícia. — disse o segurança que ficava na entrada da sede da emissora. — E exijo que mostrem seus rostos.
Um dos homens apertou um botão do lado do capacete, ativando um mecanismo interno que fez o capacete se abrir automaticamente. Tecnologia não muito recente, os "animatronic helmets" já eram muito usados por cosplayers desde meados da década de 2010.
O segurança encarou o rosto do homem, que simplesmente sorriu diabolicamente e apertou o mesmo botão para que o capacete se fechasse.
— Comecem. — disse o encapuzado.
Um dos homens atirou no segurança, enquanto o outro se adiantou em jogar uma bomba de fumaça dentro do prédio, causando pânico em todas as pessoas lá dentro.
Os nove homens misteriosos entraram, e atiraram em todos os funcionários que trabalhavam no local. Quando a fumaça baixou, o encapuzado tirou seu manto e revelou sua aparência para as pessoas que ainda não tinham sido mortas.
Era um homem calvo e um pouco magro. Tinha lábios finos e uma pele clara.
Mas existiam outras peculiaridades em seu corpo que chamavam a atenção. Primeiro, na sua pele, existiam umas estranhas manchas vermelhas em formato de raios que se espalhavam pelo seu braço esquerdo e por algumas áreas de seu tórax. A outra peculiaridade estava nos seus olhos. Eles possuíam cores diferentes. O olho esquerdo era castanho, enquanto o direito era azul. Ele tinha heterocromia.
Aqueles olhos de cores diferentes fitaram as pessoas assustadas mais um pouco.
— O rei que senta-se no ápice. — disse, em voz alta para todos ali. — Que ele tema a ruína!
O homem com heterocromia se dirigiu até um aparelho de som que havia ali perto, conectou-o à internet, e colocou uma música para tocar.
"O fortuna... velut luna... statu variabilis..."
— Aproveitem o destino que a sorte lhes reservou. — olhou para seus capangas. — Acabem o trabalho.
E ao som de O Fortuna, um clássico da música clássica, as outras pessoas no recinto foram assassinadas.
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