Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
33 Epílogo.
Epílogo.
Em tempos ruins, de pouca produtividade, culpo sempre fatos distintos do cotidiano, porque por instinto sinto que a grande culpa não pode ser minha, pois isso vai contra todos os meus ideais. A culpa é algo que não desejo levar comigo. Então quando a sinto, simplesmente fico em silêncio e espero ela ir embora. E ela nunca vai. O que não significa que eu não me acomode a ela, que eu não a torne parte de mim. Eu jamais pensei em mim como uma pessoa ruim, sem coração. Tenho consciência dos meus atos. A culpa é apenas uma conseqüência das minhas decisões, mas ela não elimina e nem diminui a minha felicidade. Sei que onde quer que eu vá, sentimentos como esse – rancor, temor e remorso – sempre estarão me acompanhando, grudados nos meus calcanhares, como um vírus esperando a melhor hora para atacar seu hospedeiro. Mas eu não tenho mais anseio de sentir tais sentimentos. Como eu disse, hoje eles fazem parte de mim, portanto não os posso renegar. Eles formam quem eu sou, influenciam nos meus atos e escolhas. Sentir-se culpada é ruim, dolorido, mas é um preço que eu estou disposta a pagar.
Um preço...
Uma “punição”.
Não, apenas uma conseqüência, que comparada à dor de uma vida inteira não é nada. Posso conviver com isso. Posso. Mas não quero. Não vejo motivos para algo assim existir. Nunca cometi nenhum crime, sempre honesta e patriota. Eu sou uma boa pessoa, sentir “culpa” é desnecessário. Não é crime estar apaixonada, como também não é crime viver esse amor. As pessoas me olham como se eu fosse uma doente, sabe-se lá o que pensam de mim... Só sei que isso machuca. Mas eu não vou desistir de amar por causa do preconceito de alguns. Então em tempos mais amenos, culpo fatos alheios, culpo a vida, porque culpar a mim mesma é sucumbir a opinião desses preconceituosos, é fazer o que eles querem.
As mulheres me olham como se eu fosse um verdadeiro mostro, mas há muito tempo descobri que elas sentiam mais inveja do que raiva de mim, afinal, eu vivo a vida que elas sempre almejaram. Enquanto estas mesmas mulheres se conformam com seus velhos e cansados maridos, vivendo a monotonia de um casamento sem amor, eu desfilo pelas ruas com meu amado, com minha filha, sem me importar para os olhares intrigados e indignados que desconhecidos me lançam. Eu não devo nada para eles. Sou uma mulher livre, posso trilhar o meu próprio destino sem a ajuda de ninguém. Assim como meu parceiro.
Parceiro... Companheiro.
Não.
Meu parceiro. Meu companheiro. Meu... Tudo.
Por tanto tempo eu procurei pela felicidade, hoje sei que para senti-la é muito fácil, basta estar com ele. Baste ele segurar a minha mão e eu saber que minha filha está bem, crescendo com saúde. Só isso já me faz feliz.
Momentos bons e ruins aconteceram, e sei que continuarão a acontecer, seja na minha vida ou na vida das outras pessoas, mas eles continuarão sempre presentes no mundo.
Estamos vivendo tempos loucos, tempos onde o amor não tem mais importância. Isso é lastimável. Estamos perdendo nossos valores. Hoje em dia as pessoas são frias como rocha e egoístas como abutres disputando um pedaço de carniça. A sociedade perde tanto tempo alimentando seus preconceitos, que não consegue mais enxergar a verdadeira razão de existirmos. Eles só vêem ódio. Eu tenho pena dessas pessoas. Pena daqueles que não conseguem desfrutar dos sabores da vida.
Olhe para o relógio. O tempo está passando. Neste momento uma pessoa morreu e duas outras nasceram. Tudo está acontecendo. Um homem, talvez seu vizinho, acabou de pedir a namorada em casamento, enquanto no outro lado da cidade, um casal acabou de assinar os papéis do divórcio. Em um segundo, pessoas morrem, nascem, crescem, vivem, fazem escolhas erradas, choram. Imagine que enquanto você lê despretensiosamente este texto, uma criança chora assustada, estendida no meio de uma rua. Ela só queria brincar no parque... Só queria ser feliz. Mas ela estava sozinha e não olhou para o farol, ela só queria atravessar a rua... Seis anos ela tinha. Apenas isso. Ela só queria brincar com as outras crianças, escorregar no escorregador, se balançar no balanço. Ela só queria preencher a sua infância com gargalhadas... Imagine a cara da mãe quando soube que a filha havia morrido na ambulância. “Eu só me distrai por um segundo”, ela diria mais tarde, chorando desesperada. Um segundo, um descuido e tudo se acabará. Não precisa mais do que isso. Apenas um segundo.
A vida é tão curta e tão frágil para que possamos perder nosso tempo se preocupando com a opinião dos outros...
A vida passa tão rápido para que possamos sentir culpa...
“Sim, ele é dezoito anos mais novo que eu. O que que têm de mais?” – Eu ironizava sempre que alguém vinha me questionar.
“Mas isso não é errado?” – Eles perguntavam.
E si for? O que isso tem a ver com você?
Eu vivo a minha vida. “Minha” vida. Vivo cada segundo de cada vez, aproveitando cada momento. Porque eu sei que não vou ter uma segunda chance. A hora de ser feliz é agora.
Olhe para o relógio. Está vendo esse segundo que acabou de passar? Ele nunca mais vai voltar. Agora ele faz parte do seu passado, das suas lembranças. E você nunca mais terá chance de vivê-lo outra vez.
Mais triste do que aquela criança de seis anos que morreu atropelada porque estava animada demais para olhar para o farol, é um homem de setenta anos obcecado pela segurança, que nunca sai de casa e que nunca sorri. Para que adianta tanta idade, se ele nunca realmente viveu?
Eu tenho medo de muitas coisas, mas não deixo que esse medo me domine. Eu sou mais forte que ele. Sou maior do que os preconceitos e sou melhor que toda tristeza do mundo.
Sou mãe. Filha. Namorada. Irmã. Amiga. Guerreira. Mas sou entre tudo... MULHER.
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Seis meses depois.
2013
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O céu estava com cor de vômito de gato, e logo a noite renasceria, dando ao mundo novamente a beleza da sua escuridão e soberania. Eu sentia minhas pernas tremerem por causa do frio, o sobretudo que eu usava não era suficiente para me aquecer por si só. Soltei um suspiro, vendo o ar sair esbranquiçado da minha boca, como se fosse fumaça. Meus olhos ardiam e meus pulmões pareciam queimar, enquanto minha garganta coçava por dentro. “Ótimo, estou ficando gripada”, constatei.
Passei uma mão pelo rosto, tentando secar as lágrimas. Talvez fosse o cemitério ou o mês que me deixava assim (sensível), eu não sabia.
– Eu o amei desde a primeira vez que o vi. – Murmurei baixinho, ouvindo a minha própria voz sair rouca, ao mesmo tempo em que olhava para o nome escrito na sepultura.
Eu mal lembrava quantas vezes havia estado ali desde que o Lucas recebeu o convite. Tudo foi tão rápido... Era difícil acreditar que estava realmente acontecendo. Claro que já era de se esperar que o caso tivesse repercussão, ainda mais depois de tanto tempo em coma, mas nunca imaginei que fosse algo tão grandioso.
Faculdade... Não, não qualquer faculdade. A melhor. A melhor faculdade do país.
Um frio subiu pela minha espinha. Levantei o olhar e vi Yasmin brincar saltitante pelos túmulos, como se o cemitério se tratasse de um parque de diversões. Quem sabe não fosse assim que ela o via?
Juntei as sobrancelhas, tinha saudade da época em que era tão inocente. Tempos preciosos estes da juventude. Realmente preciosos.
– Filha, vem para cá! – Chamei alto para que ela me escutasse. Ela demonstrou relutância, mas obedeceu ao meu chamado. Ela era linda, como o pai.
Sorri quando senti braços rodearem a minha cintura. Olhei para ele ao meu lado como se si trata-se de uma fantasia. Depois de tanto tempo, vê-lo em pé, ao meu lado, cheio de vida era tão diferente... Como um sonho. Mas um sonho bom, daqueles que você deseja nunca acordar.
Yasmin perambulou pelo túmulo visinho, tentando ler o que estava escrito na sepultura com uma determinação adorável.
– O táxi está esperando, precisamos ir logo, se não iremos perder o vôo. – Sua voz parecia música para os meus ouvidos, tão suave e harmoniosa... Eu poderia ficar horas escutando ele falar que jamais me cansaria. Sua voz era o som mais bonito que eu poderia escutar em toda a minha existência, não existia nada mais perfeito.
– Só mais um minuto, sim? Eu preciso me despedir. – Pedi.
Ele assentiu, depois sorriu carinhosamente e se afastou.
– Venha macaquinha, deixe a sua mãe a sós. – Falou para a criança, segurando a sua mão.
– Mas papai... – Ela fez birra, mas acabou cedendo.
Fiquei observando eles se afastarem, até que não pudesse mais vê-los. Voltei-me para o túmulo.
– Mãe... – Minha voz saiu chorosa, mas eu não derrubei mais lágrimas.
Um convite. Nossas vidas iriam mudar completamente por causa de um convite. Algumas semanas depois do seu despertar – o que os médicos consideraram um verdadeiro milagre – recebemos um telefonema do diretor de uma renomada faculdade, dizendo que ele havia acompanhado o caso do Lucas na televisão e ficou impressionado com os quatros pintados por ele; e por isso, se fosse do desejo dele, a faculdade estava disposta a oferecer uma bolsa para que ele logo começasse a estudar. Mas não apenas uma faculdade. A melhor do país. Onde artistas renomados haviam se formado. Era um convite irrecusável, mas que também representava grandes mudanças, como a de cidade. Morar em outro estado era novidade para mim, mas era uma experiência que eu estava disposta a passar. O Lucas já tinha perdido muito da própria vida, eu não queria que ele perdesse uma chance dessas por minha causa.
Quem sabe eu não encontre um futuro melhor para a minha família lá... Depois de tudo que passei, eu realmente não duvido de mais nada.
– Mãe, eu não sei se você sabe o que está acontecendo, mas... – hesitei – Eu só quero... Você sabe. – Suspirei, encarando o chão – Eu só quero te... agradecer... E dizer que... Que... – Mordi os lábios, me sentindo sem forças. – Eu te amo. – Arfei, sorrindo estranhamente – E que eu sempre te admirei apesar de tudo. Você é a minha mãe. Minha mãe. – Sequei os olhos. – Eu nunca te agradeci por ter me dado a vida, nunca te agradeci por muitas coisas... Sei que nós duas erramos muito, mas isso não muda nada, a senhora sempre vai estar comigo, não importa onde eu esteja. – Caminhei até a lápide, passando as pontas dos dedos na mesma – Porque você é a pessoa mais importante da minha vida. Eu nunca te disse isso... – Me lamentei. – A vida é tão difícil, eu queria tanto que a senhora estivesse aqui para ver o Lucas, para ver a Yasmin... Mesmo com o seu jeito, você sempre acreditou que ele voltaria... Ás vezes até mais que eu. Se não fosse por você... Eu nem sei. – Fiquei por silêncio por dois minutos – Mamãe, eu prometo... Eu vou ser feliz, eu juro. Custe o que custar eu serei feliz. Vou viver por nós duas. Ninguém nunca mais vai pisar em mim, eu prometo. – Minhas mãos se fecharam. – Nunca mais. Eu me proíbo abaixar a cabeça, assim como você fazia. Eu serei maior e melhor do que qualquer preconceito.
Olhei para as folhas das árvores que balançavam com o vento, ainda verdes em pleno dezembro. Era incrível como o cemitério conseguia ser um lugar cheio de vida, mesmo repleto de morte em todos os lugares.
– Eu não sei o que me aguarda, mas eu prometo que vou ser feliz. Escutou isso? – Encarei a sua foto — Eu te amo velha reclamona. E sempre vou te amar.
O futuro é um mistério, um enigma indecifrável e perturbador, mas não importa onde o destino nos leve, nada será capaz de nos separar. Seja qual for o problema, juntos somos capazes de suportar. De mãos dadas e peitos abertos encaramos o apocalipse de frente e superamos a dor do impacto, sempre seguindo em frente, não deixando-nos abater.
Porque às vezes, o final é apenas o começo.
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Fim.
Notas finais
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Também devo agradecer a minha prima querida pelas noites intermináveis que abriu mão para me escutar tagarelar sobre meus capítulos. Prima, obrigado pela sua opinião e conselhos sábios; espero que um dia a senhorita também poste uma história, para que assim eu possa te retribuir a altura.
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Enfim, não irei mais me prolongar. Espero reencontrá-los em outras histórias, mas por enquanto deixar-vos apenas com um: "até breve".
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