Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
29 Capítulo vinte e oito - Mágico.
Notas iniciais
Capítulo vinte e oito. – Mágico.
– Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho. (Mahatma Gandhi)
O amor é algo mediúnico, que te faz perder o ar, a razão, o chão, que te faz chorar noites inteiras e sorrir sem parar, até mesmo quando não tem motivos, porque quando se ama você não faz sentido. Você ri, grita, briga, chora, se irrita, perde a noção do tempo e da realidade; você sonha, faz planos, você se entrega e não se arrepende, porque você ama. E quando vocês estão juntos, tudo é perfeito, tudo tem sabor, é eterno e mágico. Tudo é singular, pois o amor é singular. Você nunca amará duas pessoas da mesma forma, assim como você também nunca odiará duas pessoas por igual. Quando se ama, você tem muito, muito medo; medo de perder a pessoa amada, pois sabe que não pode viver sem ela. Mas acima de tudo, quando se ama, você quer que essa pessoa seja feliz, longe ou perto de você, não importa, você apenas quer que ela seja feliz. Você anseia pela felicidade do outro mais do que a sua própria. Você vira pai, mãe, irmão, vira amigo e amiga da pessoa amada, você vira a família dele. E ele te retribui sendo o seu chão, o seu ar, e o motivo que impulsiona o seu coração a pulsar. Ele vira a sua vida, a energia que alimenta o seu espírito, que te faz sorrir, que te faz feliz. O amor é o mais perto da magia que podemos chegar. O amor é insano, assim como quem ama, o amor é destemido e fiel, e está ao seu lado nos bons e maus momentos, ele te esquenta, te afasta do frio e te reconforta. Amar é voar sem sair do chão, é conhecer a escuridão sem ter medo, é pular de um avião sem para-queda; é não ter vergonha de ser você mesmo, de não ter vergonha de dizer “Eu te amo”, amar é simples, demonstrar esse amor que é difícil. Porque amar dói, machuca, mas vale a pena. Estar apaixonado é viver um sonho estando acordado. Estar apaixonado é estar feliz, mesmo sentindo dor. O amor é magia, fantasia, o amor é sublime, singelo e acima de tudo, é alegria.
O amor é sutil como um suspiro e delicado como um sorriso; triste como uma lágrima e devastador como um furacão. É contraditório, igual e desigual, justo e injusto, mas sempre único.
E amar, é ter motivos para viver. Que sejam felizes aqueles que amam, e desculpados aqueles que ainda não conheceram tal sentimento.
Você não precisa acreditar em alma-gêmea, não precisa ser rico, bonito, feio; o amor não pede isso, ele só está interessado em tomar seu coração, surrupiar a sua razão e vender a sua alma para outra alma solitária.
Como já dissera o grande poeta: “É muito pior viver sem felicidade do que sem amor” (William Shakespeare).
***
(Manhã seguinte)
Eu acordei tarde naquele sábado frio de setembro. Estava nua e solitária na cama, encarando o teto, quando me levantei enrolada apenas nos lençóis, saí do quarto e desci as escadas. O encontrei deitado no sofá, olhando estático para a televisão. Ele não esboçou nenhuma reação enquanto me aproximava. Parecia distante, perdido no próprio mundinho de ilusões. Eu sentia meu corpo dolorido, meus lábios inchados e algo melado e frio escorrer pelas minhas pernas (a prova do nosso pecado). Ele encolheu as pernas para eu me sentar, e assim o fiz. Respirei fundo, encarando meus próprios pés, depois minhas pernas. Eu estava vermelha e cheia de arranhões. Olhei para os seus braços, ele também possuía marcas de unhas, as minhas unhas. Encarei a televisão, sem realmente ver o que se passava nela. Eu me sentia zonza, mas muito quente.
– O que aconteceu ontem... – Ele começou a falar, ainda distante. Virei meu rosto para encará-lo, ele ainda olhava para a Tv. – Você não pode pedir para eu esquecer. – Me olhou pela primeira vez. – Porque eu não vou conseguir.
Levei minha mão até o meu pescoço, onde a dor estava mais forte.
– Não pedirei.
Olhei para a televisão.
– Eu só... Não quero mais mentir. – Ouvia sua voz se engasgar, e ele parecer querer chorar.
– Você não precisa mentir. – Não olhei para ele.
Ficamos em silêncio por dois minutos.
– Você está com medo? – Ele perguntou.
Dei de ombros.
– Não sei. Acho que estou. – Com a mão, tentei arrumar o meu cabelo.
– Você já parou para pensar como isso é estranho? Tudo isso? Eu... – Ele não terminou.
– Penso todos os dias.
Senti uma de suas mãos tocar o meu braço e a outra o meu queixo, virando meu rosto na sua direção.
– Eu não me importo com a opinião de ninguém... Eu só não quero mais mentir. Só não quero mais dizer para mim mesmo que eu não sinto nada... Porque eu sinto. – Sua mão desceu até os lençóis que cobriam meu corpo. – Você... é tudo que eu tenho. – Ele retirou os panos que me escondiam. – Não importa o que as pessoas vão dizer. – Seus olhos estavam lagrimejados. – Só você importa.
– Eu te amo. – Falei, antes que nossos lábios se unissem e nossos corpos se entregassem ao desejo de consumir o outro e provar do prazer divino.
(...) Três dias depois (...)
Desci do carro, tranquei o veiculo e arrumei meu casaco no corpo. Caminhei pelo estacionamento, depois subi as escadas do prédio e entrei na sala do consultório.
– Boa tarde. – Disse a recepcionista com educação.
– Boa tarde. – Me aproximei do balcão, abri minha bolsa e peguei o meu RG.
– A senhora veio marcar consulta? – Ela perguntou.
– Não, eu já marquei. – Entreguei o documento para ela. – Eu sou a senhora Cllaus, liguei ontem, tenho uma consulta marcada ás três com a Doutora Lurdes. – Disse com incomodo, olhando para os lados para ver se ninguém escutava. Aquilo era muito humilhante.
– Ah. – Ela sorriu condescendente – Claro, estávamos esperando a sua chegada.
– Eu já vou ser atendida? – Perguntei impaciente.
Ela ergueu as sobrancelhas.
– Desculpe-nos, mas com o seu atraso, pensamos que a senhora não viria mais, então adiantamos a paciente das quatro horas. – Ela parecia temer que eu fizesse um escândalo – Eu tentei ligar para o seu celular, mas só dava caixa postal... Me desculpe.
Neguei com a cabeça.
– Não, tudo bem, não tem problema. A culpada sou eu, eu deveria ter saído mais sedo de casa, não imaginei que pegaria transito e o meu celular descarregou... Eu que tenho que me desculpar.
– Isso acontece. – Ela me entregou o meu RG. – Bom, se a senhorita puder esperar meia horinha, ela poderá te atender... Mas se não puder também, tudo bem, podemos marcar outra data.
– Não, eu vou esperar.
– Ok. – Ela sorriu. – Poderia me entregar a carteirinha do hospital, por favor?
Peguei o documento da bolsa.
– O RG também?
– Não, não precisa. Eu vou fazer o cadastro da consulta, já te devolvo. – Assenti. Ela caminhou até o computador e começou a digitar. Olhei para os lados, me sentindo deslocada. – A senhorita pode-se sentar, fique a vontade. – Ela falou. Obedeci, me sentando em uma das poltronas da sala. Depois de alguns minutos, uma mulher adentrou a sala, caminhou até o balcão, entregou alguma coisa para a recepcionista e saiu. – Pronto. – Ela falou depois de certo tempo. Levantei-me e peguei o documento. – É a sua primeira vez? – Ela perguntou vendo minhas mãos tremendo.
– Eu já fiz terapia quando era pequena, mas nunca passei em um psicólogo.
– Ah. – Assentiu compreensiva. – Não se preocupe, a Doutora Lurdes é excelente, todos gostam dela.
– Eu não duvido. – Sorri e então voltei a me sentar.
Eu não sabia o que estava fazendo ali, mas quando a idéia surgiu, me senti tão confiante, crente que esse era o certo a fazer, que nem pensei muito nisso. Eu sabia que precisava falar sobre aquilo com alguém, que precisava me abrir, carecia de ouvir a opinião de uma terceira pessoa, mas temia que esta me julgasse, e até mesmo me odiasse, então optei por um profissional, um psicólogo. Mas ali, naquela sala fria, eu me sentia péssima. Aquele era um segredo meu, um segredo nosso, não estava correto contar para um desconhecido... Mas ela é uma médica, estudou para isso, está sendo paga para me ajudar e não para me criticar.
– “Você está dormindo com um menino de dezenove anos?” – Imaginei-a me perguntando horrorizada.
Não, eu não era capaz de fazer isso.
Levantei-me. A recepcionista me olhou intrigada.
– Me desculpe, eu achei que podia esperar, mas acabei de lembrar que tenho um compromisso inadiável... Eu tenho que ir.
– Ah, mas-...
– Me desculpe, eu... Eu ligo depois para resolver tudo, marcar outro dia... Mas tenho mesmo que ir. Tchau. – E saí da sala, descendo as escadas quase correndo.
Entrei no meu carro rápido, como uma fugitiva da polícia.
– Eu não acredito que isso está acontecendo. – Falei, dando partida.
(...)
Eu não me sentia estranha em gostar dele só porque ele é dezoito anos mais novo que eu, mas porque ele era ELE. O menino que eu vi crescer, que morou comigo a maior parte da vida, que eu vi se tornar um homem; porque ele é e sempre será o meu pequeno Lucas, aquele que sempre me fazia rir e me deixava de boca aberta com a sua inteligência e maturidade. Ele era a minha responsabilidade, o meu projeto de vida, a minha dedicação; ele era o meu pequeno... O meu Lucas.
Tudo isso é confuso demais.
É horrível olhar para ele, enxergar o adulto que ele se tornou, reconhecer a antiga criança em seus olhos, e ainda assim, se sentir atraída. Ele não era apenas inteligente, jovem, mas ele também era... Sexy. Eu poderia ficar tranquilamente dias inteiros apenas observando a sua beleza, decorando os seus traços, as suas curvas. Ele era a minha obsessão particular. Tudo o que se passava na minha mente. O tema do meu ultimo pensamento antes de dormir, e do primeiro quando acordava. Ele era a minha vida, o motivo da minha existência, era o alimento do meu corpo e da minha alma. Eu acordava todos os dias apenas para vê-lo sorrir, sempre fora assim. Desde o começo, quando nos vimos pela primeira vez. Ele sempre fora o centro de tudo, a causa de todas as mudanças boas e ruins. Sua beleza, o seu corpo, a sua mente... Tudo me fascinava. Eu era a mulher de trinta e seis anos, apaixonada pelo garoto de dezenove. Eu era a doente da história e ele... o anjo que me amaldiçoou. Mas era uma maldição boa, uma que eu adorava pagar. A maldição do nosso amor.
– Como você pode gostar de mim? – Perguntei quase sem voz. Estávamos no banheiro, tomando banho juntos. Era noite e chovia por toda a cidade. – Como pode se sentir atraído por isso? – Olhei para o meu próprio corpo. Eu não era mais uma adolescente. Eu era uma mulher adulta, e pagava pelo preço da idade.
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, descordando, como se lesse os meus pensamentos.
– Você é a mulher mais linda que eu já conheci. – Ele olhou nos meus olhos. – Eu gosto em tudo em você.
Bufei. Porque ele tinha que ser assim? Isso só piorava tudo.
– Você tem que parar de fazer isso. – Resmunguei, ensaboando meu corpo.
Ele franziu o cenho.
– Fazer o que?
Entreguei a esponja para ele e virei para que ele ensaboasse as minhas costas.
– De dizer o que eu quero ouvir. Isso é tudo mentira, eu sei, não precisa tentar me consolar. Não sou mais uma garota de dezesseis anos.
Ele parou de ensaboar as minhas costas, segurou os meus ombros e me virou de frente para ele, querendo ver meu rosto. Ele parecia nervoso.
– Eu não digo o que você quer ouvir, porque não sou um telepata, não faço a menor idéia do que se passa nessa sua cabeça teimosa. Eu só digo o que vejo, digo o que penso. Você precisa parar de achar que eu tenho pena de você. Olhe para si mesma. Você é linda, sensual, me sinto excitado só de olhar em seus olhos. Será que você não percebe? É sega por acaso? Não vê como os homens te olham quando você anda pela rua? Não vê o desejo presente nos olhos deles? Eles cobiçam teu corpo, te desejam, assim como eu. Sempre foi assim. Agora pare com essas bobagens, porque eu não agüento te ver se menosprezando.
O encarei, me sentindo sem ar.
– Sempre foi assim? – Perguntei, repetindo as suas palavras. Ele assentiu.
– Porque você acha que eu comecei a namorar aquela garota? Achou mesmo que eu gostava dela?
Meus olhos ficaram tristes ao lembrar deste fato.
– É o que parecia... Vocês se adoravam, sempre estavam juntos. – Disse angustiada. Eu odiava lembrar disso.
– Eu só estava cheio... cheio de ver você com aquele cara. Eu sempre soube que ele não era homem para você... – Ele trincou os dentes. – Você não imagina como eu me sentia quando via vocês juntos, quando você me dizia que tinha que passar o dia fora com ele ou que iria dormir na casa daquele imbecil... – Eu podia sentir o odio crescendo dentro dele – Por isso, decidi dar o troco.
– O que? – Perguntei surpresa.
Ele fez menção de que iria rir, mas vendo minha expressão se conteve.
– O importante é que deu certo. Você lembra a cara que você fez quando eu apresentei aquela garota? – Riu-se – Eu deveria ter gravado. – Uma pausa – Foi a mesma cara que eu fazia quando te via com aquele Daniel, quando te via com qualquer outro homem...
Dei um passo para trás.
– Isso é cruel. Você usou aquela garota. – Não foi uma pergunta, foi uma afirmação — Ela não merecia isso, Lucas.
– Eu não me importo. – Ele se aproximou de mim e me abraçou. Tentei me afastar, mas ele não deixou. – Eu só me importo com você. Aquela garota não significa nada para mim, nunca significou.
– Isso... É crueldade. – Meus olhos se embaçaram por causa das lagrimas que ameaçavam vir. Ele me encarou.
– Não, é amor.
E então me beijou da maneira mais selvagem que alguém já havia feito, me fazendo perder o controle do meu próprio corpo. Eu só o queria. Queria me desfazer em seus braços, queria entregar meu coração e espírito em uma bandeja para ele desfrutar, mostrar-lhe que eu era só dele, provar-lhe que aquela loucura era recíproca, que eu o desejava tanto quanto ele me desejava. Se existia algum tipo de atração doentia entre nós, ao menos nós dois éramos igualmente doentes. Eu não me importava de ser doente, se fosse doente por ele.
Não tínhamos medo de mentir, enganar, usar, se fosse o único jeito de permanecermos juntos. Ninguém ficaria entre o nosso amor. Nem a família, amigos, nem a lei. Eu o amava e isso nunca iria mudar. Eu era obcecada por ele desde que ele tinha nove anos, e essa obsessão só parecia aumentar á cada ano. Eu não me importava com mais nada, estava cega de paixão. Seria capaz até de matar, se fosse para ficarmos juntos. Ele era tudo que eu tinha e tudo que eu sempre quis.
– Não importa o que as pessoas digam... Eu sempre vou te amar. – Sussurrei, me perdendo no brilho do seu olhar. – Eu juro Lucas, nunca me afastarei de você.
Ele sorriu e voltou a me beijar.
.
.
(...)
A minha vida começou a melhorar, quando eu comecei a me aceitar.
Quando comecei a aceitar a Susan escritora, a Susan irreverente, apaixonada, quando aceitei que sou mil mulheres em uma só. Que posso ser insegura, ousada, excêntrica, falsa, cordial, que posso ser eu mesma, que posso amar e ser feliz. Minha vida começou a melhorar, quando aceitei os meus quilinhos a mais, quando deixei de pensar no que as pessoas iriam dizer e comecei a formular minhas próprias opiniões. Eu não tinha apenas que acordar, ir trabalhar, como também tinha que aproveitar cada dia. Não era questão de superar os meus problemas, mas de torná-los algo bom. Por exemplo, eu sempre detestei admitir que estava envelhecendo, mas agora sei que essa idade amais, me torna madura, experiente e respeitável. As pessoas não falam mal de uma escritora de trinta e seis anos, como falam de uma de dezessete. Eu era independente, sempre achando que não precisava de ninguém, mas agora percebo que a vida não é assim. Precisamos das outras pessoas, precisamos ter amigos. Porque mesmo não gostando de admitir, somos iguais aos animais, igual a um formigueiro, onde cada formiguinha é importante e faz a diferença. Os humanos são como as formiguinhas, sempre batalhando por um ideal, sempre juntos, pois sozinhos somos fracos, mas juntos somos capazes de qualquer coisa.
– Eu estou muito feliz com o seu interesse pelo meu livro Senhor Otávio. É grandioso estar aqui. – Falei, ao fim da reunião.
– Eu que deveria agradecê-la. Você é brilhante, tenho certeza que essa sociedade fará muito sucesso. O mercado brasileiro de produções animadas está crescendo; cada vez mais as crianças estão se interessando por desenhos criados aqui no Brasil. Este é um mercado produtivo, ainda não tão conhecido, mas que está caminhando à passos largos. Tenho fé que essa sociedade dará muitos motivos para sorrirmos. A senhorita verá. As “Aventuras da cadelinha Cici” será a nova sensação entre a meninada. – Disse o produtor da programação do Canal.
– Eu também estou muito confiante. – Me levantei. – Bem, acho que já resolvemos tudo, não é?
– Sim. – Ele se levantou. – Por enquanto, sim. Foi um prazer tratar de negócios com a senhorita.
Sorri com educação.
– Eu levarei o contrato para o meu advogado, e se tudo ocorrer como planejado, nos veremos em breve.
– Estarei ansioso.
– Obrigado.
Eu havia largado tudo. Faculdade de jornalismo, trabalho no jornal, estabilidade financeira, para virar roteirista e escritora de livros. E não podia ter feito escolha melhor. Em menos de três meses depois, ás onze horas da manhã, em um programa da TV Globo, o desenho estreou em todo o Brasil, me fazendo chorar de emoção.
Finalmente, eu estava fazendo algo significativo, algo de impacto. Finalmente, eu estava tendo reconhecimento.
E na virada do ano, eu agradeci a Deus pelo ano maravilhoso que eu havia tido.
(...) Fevereiro de 2010 (...)
Tudo estava perfeito. Era domingo, o Lucas estava pintando algo no quarto, eu estava na sala, escrevendo mais um episódio que iria ao ar na semana que vem. Tudo estava no seu lugar. Ás cinco da tarde, quando terminei, decidi que estava na hora de descansar um pouco a mente, então subi para o quarto do meu amado. Ele estava parado, encarando uma tela branca, como sempre fazia antes de começar a pintar.
– O que essa vai ser? – Me deitei na cama dele.
Ele não olhou para mim.
– Eu não sei.
Fiz uma careta.
– Claro, é o que você sempre diz. – Mesmo sem ver seu rosto, eu sabia que ele estava sorrindo. – Que tal pintar o fim do mundo?
Ele se virou para mim.
– O fim do mundo? Porque eu pintaria algo assim?
– Não sei. É que eu estava ouvindo o rádio nesses dias, e escutei o locutor falar que há muito tempo, os Maias previram que o mundo iria acabar em 2012, acredita?
– Ah, é? E como eles poderiam saber? Por acaso eles viram em uma bola de cristal?
Dei de ombros. Não havia pensado muito sobre isso.
– Acho que tem haver com o calendário... Ou coisa assim.
– Calendário?
– Eu acho que sim.
– O que o calendário tem haver com o fim do mundo?
– Eu não sei Lucas... Estava distraída quando o rapaz falou.
– Hn. – Uma pausa – E porque diabos você achou que eu pintaria algo assim?
– E porque não? Muitos artistas pintam. Seria a maneira de você mostrar como você acha que será o fim de tudo...
– Ah, que foi? Não me diz que você acredita mesmo nessa bobage-...?
– Não! Eu não acredito... Mas, ué, um dia o mundo irá acabar de um jeito ou de outro, certo? Seja daqui dois anos ou três milênios, que mal tem em reproduzir isso em uma pintura?
– Mal nenhum, eu só não gosto de pintar essas coisas.
– E que tipo de coisas você gosta de pintar?
– Imagens bonitas, como você. – Abri a boca para dizer algo, mas não disse nada. Minhas bochechas coraram. – Que tal isso...? Lembra que quando eu era pequeno eu pedi para pintar um quadro seu?
– Mas você quer pintar agora? – Perguntei surpresa.
– O que que tem?
– Eu estou horrível! – Me sentei na cama. – Se ao menos você me deixar me arrumar...
– Não. Eu quero te pintar assim, ao natural, sem maquiagem e nada que esconda seu rosto.
Sorri.
– Mas olha só para mim. Estou com cara de cansaço...
– Melhor ainda. Assim fica mais verdadeiro... Mais bonito. – Ele tocou meu rosto – Eu adoraria te pintar.
– Mas você já me desenhou, lembra? No parque...
– Eu não quero te desenhar, quero te pintar.
– Porque você tem que ser tão teimoso? – Ele não respondeu. – Tudo bem, mas tem uma condição.
– Condição?
– Sim, esse quadro... Ele fica no meu quarto.
Ele sorriu.
– Tudo bem, eu não iria sugerir o contrário.
Respirei fundo.
– Onde eu fico? – Perguntei.
Ele pegou uma cadeira e levou para a parte mais clara do quarto.
– Sentisse aqui. – Falou.
– Ok.
Levantei-me da cama, caminhei até a cadeira e me sentei, sentindo-me um pouco desconfortável. Ele trouxe a tela para mais perto de mim. Pegou um lápis e começou a fazer um esboço.
– Fique parada. – Pedia. – Vire o rosto um pouco para o lado... Só um pouco... Ótimo, agora se mantenha assim.
– Isso demora?
– Se você continuar falando vai levar horas.
Sorri.
– Eu deveria ter comido alguma coisa an... – Comecei a falar, mas parei quando senti uma tontura. Olhei para ele, sentindo tudo à minha volta tremer. – Lucas...? – Chamei assustada, e então tudo ficou escuro.
***
Abri os olhos lentamente, no começo tudo ficou embaçado, mas logo criaram formas e cores. Fiquei encarando o teto por alguns segundos, eu estava deitada na cama do Lucas, sem entender o que havia acontecido. Ele adentrou o quarto minutos depois, carregando o celular em uma das mãos.
– O que aconteceu? – Perguntei, sentindo minha garganta seca.
– Eu não sei direito, você estava sentada ali – ele apontou – quando pareceu ficar zonza e desmaiou. – Ele se sentou na cama – Você está melhor?
Tossi.
– Estou.
– Não está sentindo nada? – Questionou. – Acho que você bateu a cabeça quando caiu.
– Não estou sentindo nada, só vertigem mesmo.
Ele levou a mão a minha cabeça, para ver se eu estava com febre.
– Eu liguei para o médico. – Informou. – Ele já está te esperando. Você acha que agüenta ir até o hospital agora?
Senti um nó na garganta.
– Eu não preciso ir ao médico Lucas. Seja o que for, já passou. Eu estou melhor agora. – Me sentei na cama – Foi só uma tonturinha boba. Eu estou sem comer desde que acordei, deve ser isso.
– Não, é melhor eu te levar no hospital. Você precisa fazer exames.
– Confie em mim, eu estou bem. – Uma pausa – Por favor, eu não quero ir para um hospital... Eu detesto esses lugares, ainda mais, hoje sendo domingo, um dos poucos dias que você tem folga e podemos ficar juntos. Eu não quero passar o resto do dia em um lugar cheio de gente doente. Prometo que se eu sentir isso de novo, eu te falo.
Ele parecia indeciso. Suspirou.
– Tudo bem, mas você precisa se alimentar. Onde já se viu ficar o dia inteiro sem comer? Está querendo se matar? – Apertou a minha mão. – Você me deu um susto. – Sorri com ternura. – Não faça mais isso, está bem? – Assenti. – Bom, agora eu vou fazer alguma coisa para você comer...
– Não, não. – Me levantei da cama. – Eu mesma faço.
– Mas...
– Ah, pelo amor de Deus, você não vai me tratar como uma invalida só porque eu senti uma tonturinha besta, né? Eu já disse, estou melhor. Agora, volte a pintar, que eu desço e preparo o jantar.
Ele sorriu triste, ainda sentado na cama.
– Se você sentir alguma coisa...
– Eu te falo. – Completei.
– Tá... Enquanto isso então eu vou ligar para o médico, para avisar que você está melhor.
– Ótimo. – Sorri. – Não fica preocupado, tá bom? Eu sou forte como uma rocha.
– Menos quando não se alimenta. – Disse desdenhoso.
– É, menos ai. – Concordei. – Eu te chamo quando terminar. – E saí do quarto.
Desci as escadas e caminhei até a cozinha. Peguei um copo do armário e o enchi com água, bebi e coloquei o copo dentro da pia. Depois caminhei até a geladeira e peguei o frango congelado do freezer. Peguei a tabua de cortar de dentro do armário e comecei a temperar o frango.
– Até parece que eu iria para o hospital por causa de uma besteira como essa... – Falei sozinha – Veja só, eu já estou melhor...
Caminhei até a pequena dispensa e peguei o óleo de fritura. Em seguida peguei uma frigideira e acendi o fogo, coloquei um fio de olho dentro dela, e depois o frango.
Estava esperando ele dourar, quando senti novamente aquela tontura. Tentei me apoiar na mesa, até que ela passasse. De repente, me senti enjoada e tudo rodava. Pensei que iria vomitar, mas não tinha nada no meu estomago que pudesse ser empurrado para fora. A tontura passou depois de alguns segundos, como se nunca tivesse existido. Respirei fundo, olhando para os lados assustada. Empurrei uma cadeira da mesa e me sentei. Na cozinha só havia o barulho do frango fritando.
– O que foi isso? – Perguntei em voz alta, com medo.
(...) Quatro dias depois. Quinta-feira (...)
Eu estava no transito, indo para uma reunião com os investidores, para tratarmos de negócios, quando sinto minhas pernas tremerem, meu coração acelerar e meu estomago roncar, tudo ao mesmo tempo. Olhei para os lados freneticamente, eu sabia que havia guardado um pacote de bolachas em algum lugar... Mas onde? Continuei procurando, como se a minha vida dependesse disso.
– Ah, então ai está você? – Exclamei quando finalmente encontrei a belezinha.
*
Sexta-feira.
Deitada naquela cama, eu estava feliz. Sentia que o mundo poderia arder em chamas que eu nem perceberia, estava distante demais, aproveitando aquele doce momento de solidão. Doce, e curto, porque minutos depois, ouço a porta se abrir e ele adentrar o cômodo.
– O que você está fazendo aqui? – Ele perguntou descontraído.
O Lucas deveria ser a única pessoa no mundo que chega do trabalho com bom-humor.
– Estava aproveitando o meu silêncio. – Falei com ironia.
Riu-se.
– E por acaso, o silêncio do meu quarto é melhor do que o do seu quarto? – Indagou.
Enfiei a colher outra vez no meu pote de sorvete.
– Só quando o dono do quarto está trabalhando. – Levei a colher à boca.
– Hoje você está impossível, hein? – Sorriu, vindo se deitar ao meu lado. – Hey, não vai me oferecer um pouco não? Acho que eu mereço, já que fui eu que comprei. – Fiz que não com a cabeça. – Porque não?
– Porque não. – Sorri. – Esse sorvete já tem dona. Foi mal.
– Isso não é legal. Eu que comprei. – Ele fingia se importar. – Olha só para o tamanho desse pote! Você não tem medo de engor... (?) – Ele parou de falar.
Olhei automaticamente para ele.
– O que você ia dizer? – Perguntei ríspida.
Ele se sentou na cama, ficando de costas para mim.
– Nada não, era bobagem. Só estava falando que você é egoísta de não querer me dar um pouco de sorve-...
– Não. – O interrompi. – Você não ia dizer isso. – Minha mão se fechou – Você ia me chamar de GORDA! – Esbravejei. Ele me olhou tonto.
– Claro que não. Dá onde você tirou is-... (?)
– Você ia sim! Você ia dizer que eu estou GORDA! – Me levantei da cama aos pontapés. – Você acha mesmo que EU ESTOU GORDA? – Perguntei furiosa, sem largar o pode de sorvetes.
Suas sobrancelhas se arquearam, ele parecia assustado.
– Não, Susan, claro que não. Você é perfeita. – Ele fez menção de que iria levantar.
– NÃO! – Gritei. Ele se sentou novamente. – VOCÊ ME ACHA GORDA! – Eu sentia raiva e vontade de chorar, tudo ao mesmo tempo.
– Eu não disse isso! Eu só disse... – Ele não terminou.
– Diz! – Ordenei, olhando no fundo dos seus olhos. – Diz se você é homem! – Desafiei — Diz! Mas diz na minha cara! Fala logo! Termina o que você ia dizer. Começou agora termina! – Ele parecia sem reação.
– Susan... Porque você está tão nervo-... (?)
– EU NÃO ESTOU NERVOSA! – Gritei. Lagrimas rolaram dos meus olhos.
O Lucas estava perdido, me olhando atordoado, com os olhos arregalados.
– Eu... – pensava no que dizer – Eu só estava dizendo que você... – sussurrava – está comendo um pouquinho – cerrei os olhos – amais do que você costumava... – dizia lentamente – Eu só estou preocupado... – ele erguei uma mão até o meu braço, tentando me acalmar – que você engorde.
Aquilo foi a gota d’ água, a sua sentença de morte.
– Lucas. – Murmurei entre os dentes.
– Sim? – Perguntou com medo.
– Hoje. Você. Vai. Dormi – comecei calmamente – NO SOFÁ! – Berrei. Seus olhos se arregalaram ainda mais.
– Mas eu estou no meu quarto... – Disse o óbvio.
Olhou para os lados, me dando conta que aquilo era verdade.
– Isso não importa! VOCÊ VAI DORMIR NO SOFÁ! ESTÁ ME OUVINDO?
– Sim, estou. – Falou como uma criança recebendo um castigo dos pais. – Susan... – Hesitou. Olhei para ele. – Você... está... bem?
Minha expressão se fechou.
– CLARO QUE ESTOU! VOCÊ QUE NÃO ESTÁ NADA BEM! PORQUE EU NÃO ESTARIA BEM? EU ESTOU ÓTIMA! – Sequei as lágrimas dos meus olhos.
– É que você está um pouco... histérica.
Abri a boca, sem falar nada. Dei um passo à frente, segurei sua cabeça com as duas mãos e sussurrei em seu ouvido:
– Eu só não te mato agora, porque eu te amo... – Beijei sua bochecha — Por enquanto. – Completei, me afastando.
Ele me encarou horrorizado.
Sorri, e então saí do quarto, voltando segundos depois para pegar a colher que eu havia deixado em cima da cama. Eu não iria parar de comer o meu querido sorvete, por causa desse idiota.
*
Sábado.
Acordei, me espreguicei, fui para o banheiro, escovei os dentes, penteei os cabelos, saí do banheiro e desci as escadas. Caminhei até o sofá. Ele ainda estava dormindo.
– Acorda bela adormecida. – Brinquei, cantarolando. Ele demorou alguns minutos para abrir os olhos. Sorri. Mas quando me viu, ele se assustou, quase caindo do sofá. Fiz beicinho, franzindo as sobrancelhas. – Hey, isso não foi educado. – Desaprovei, mas logo voltei a sorrir. – Mas tudo bem, eu te perdôo. – Selei nossos lábios rapidamente. – Porque você está dormindo no sofá? – Perguntei, me sentando no outro sofá e ligando a televisão.
Ele estava pálido.
– Porque foi o que você disse para eu fazer... Você não se lembra? – Dizia com cuidado, escolhendo as palavras – Ontem à noite... – Não continuou.
Olhei da TV para ele.
– Lembro vagamente. – Sorri, sem dar muita importância para o assunto. – Você quer panquecas? – Perguntei alegremente.
– Sim? – Não foi uma resposta, foi uma pergunta.
Ri.
– Ai amor, hoje você está um pouquinho confuso, não é? – O olhei condescendente.
Ele tentou sorrir, mas não conseguiu.
– Então... nós dois... estamos ‘bem’? – A sua pergunta não fazia muito sentindo, mas tentei responder.
– Se nós estamos bem? Claro que estamos! Porque não estaríamos?
Ele deu de ombros, de um jeito esquisito, quase robótico.
– Só quis ter certeza. – Sorriu. Eu também sorri para ele.
– E então... Você vai querer as panquecas?
– Sim, eu quero.
Levantei-me do sofá, caminhando para a cozinha.
– Ah, querida. – Chamou. Virei-me para encará-lo. – Por acaso... Você está de TPM?
Sua pergunta me surpreendeu.
– Não... Mas porque a pergunta?
Novamente, ele forçou o sorriso.
– Por nada não. Eu só estava curioso.
Balancei a cabeça positivamente.
– Tudo bem... Agora vou fazer suas panquecas. Já volto. – E fui para a cozinha.
“Ele está tão estranho” – Pensei comigo mesma.
*
Domingo.
Cinco horas da manhã.
– Lucas, você comeu o pedaço de bolo que estava na geladeira? – Perguntei, chacoalhando seu corpo. Ele abriu os olhos devagar, parecendo zonzo.
– O que você disse? – Disse rouco.
– Você comeu o pedaço de bolo-...
– Que horas são? – Ele me interrompeu.
– Não sei. Você comeu ou não comeu? – Eu já estava ficando impaciente. Ele se sentou na cama, e olhou as horas no relógio da parede.
– Susan... São cinco da manhã. – Disse emburrado.
– Tá bom. Você comeu ou não comeu? – Perguntei novamente.
– Eu comi o que? – Porque ás vezes ele tinha que ser tão lento?
Bufei.
– O pedaço de bolo que estava na geladeira. – Falei irritada.
– Eu não sei, acho que não...
– Mas eu procurei e não achei! – Disse triste. Ele me encarou.
– Você já olhou atrás dos sucos? Acho que ele estava lá... – Ele coçou os olhos com a mão e bocejou.
Sorri.
– Boa idéia. Obrigado. – Saí da cama pulando de euforia.
– Dá próxima vez... Deixe-me dormir. – Eu escutei ele resmungar antes de deixar o quarto.
Onze horas da manhã de domingo.
– Você vai sair? – Perguntei, entrando no seu quarto. Ele estava apenas de jeans, vestindo uma camiseta azul.
– Vou.
– Aonde você vai? – Me sentei na sua cama.
– Na casa do Mike.
– Mike?
– É. Você não lembra dele? Ele estudou comigo no colegial.
– Não é aquele que a irmã foi presa por posse de drogas, não é?
– Não, eu nunca mais vi esse ai. É o Mike, o cara que trabalha na farmácia. Foi o que vendeu o skate para mim no segundo ano, não lembra?
Dei de ombros.
– Talvez. – Uma pausa. – Você vai demorar?
– Não sei. Por quê?
– Quando você voltar, pode passar no mercado e comprar um bolo de cenoura?
– É aniversário de alguém? – Me encarou.
– Não... Eu só estou com vontade.
– Pensei que você já tivesse comido um bolo hoje de manhã. – Comentou, distraído.
– Eu comi... Mas era de chocolate, e eu quero comer de cenoura.
– Hn. Tudo bem.
Sorri.
– Obrigado. Eu vou deixar o dinheiro em cima da estante da sala. Ah, mas tem que ser de cenoura, está bem? Eu não vou querer outro sabor. – Disse aflita.
– Está bem. Pode deixar. Acho que sou capaz de fazer isso. – Falou com deboche.
– Obrigado querido. – E saí do quarto.
Três horas da tarde de domingo.
Eu estava desfrutando de um delicioso omelete de pepino quando ele entrou na cozinha.
– Pronto, madame. Aqui está o seu bolo. – Ele colocou o embrulhe na mesa.
Terminei de comer o omelete rapidamente.
– Você demorou. – Falei, encarando o bolo. Retirei a delicia da sacola e coloquei em cima da mesa. Depois caminhei até o armário e peguei dois pratos. – Você vai querer, né?
– Já que você insiste. – Ele se sentou à mesa.
Peguei uma faca e duas colheres. Cortei um pedaço para cada um, e depois me sentei na cadeira ao seu lado.
– Huum... Está com uma cara ótima. – Levei a colher à boca, mastiguei e então engoli. – E o gosto está ainda melhor! – Ri.
– Eu acho que está um pouco seco... – Comentou – Podia estar um pouco mais macio.
– Não, está ótimo! – Discordei. – O melhor que eu já comi na minha vida.
– Não exagera.
– Eu não estou... – Mas não terminei a frase. Senti minha barriga embrulhar e um gosto horrível preencher a minha boca. Por instinto, me afastei da mesa, correndo até a pia com a mão na boca. E então vomitei.
(...) Uma semana depois (...).
Eu não estava só engordando, como vivia cansada e desanimada, e o pior é que sobrava tudo para o coitado o Lucas; que tinha que agüentar o meu péssimo humor, e ainda fingir interesse por mim, fingir que o nosso curto relacionamento não estava entrando em crise. E eu sabia no fundo, que a culpa era toda minha. Eu estava agindo feito uma louca há semanas, comia feito uma leoa, reclamava feito uma velha amargurada e ainda o maltratava, o rejeitando toda noite. Mas eu simplesmente não tinha vontade de fazer sexo. Não tinha mais desejo, ou melhor, até tinha, mas a fadiga e indisposição sempre falavam mais alto. Eu só queria dormir e comer o tempo todo, além de é claro, passar horas no banheiro. Parecia até que a minha bexiga havia encolhido. Eu não podia tomar um copo de água sequer, sem querer ir ao banheiro em seguida. Minha vida estava virando um inferno. Eu não entendia mais nada, não tinha paciência para mais nada. Vivia irritada, ansiosa e com fome. Tudo era motivo para brigas, tudo era motivo para choro, lamentações. Eu não agüentava mais chorar assistindo filmes, chegando ao ponto de conseguir chorar assistindo filmes de comédia, o que era o cúmulo do absurdo. Meus amigos estavam percebendo as mudanças que surgiam rápidas no meu humor, mas ninguém sofria tanto quanto o Lucas. Eu estava virando uma verdadeira bruxa e não conseguia parar. Quando eu me dava conta, já tínhamos brigado e eu já o tinha magoado, e só me sobrava chorar o resto da noite abraçada ao travesseiro. Eu sabia que ele estava sendo muito paciente comigo, mas percebia também que ele estava cansado... Cansado dos meus delírios, dos meus chiliques, das reclamações, e até dos choros. Eu havia passado de namorada, para tirana em pouquíssimas semanas. Tudo estava de cabeça para baixo, e eu temia que a minha vida desmoronasse.
Senti suas mãos passearem pelas minhas coxas, seus lábios roçaram nos meus, me provocando, enquanto ele me olhava sedento de desejo.
– Você é tão linda... – Murmurou, me fazendo sorrir. Ele se deitou sobre o meu corpo e me beijou, entrelacei minhas pernas na sua cintura e contornei seu pescoço com as minhas mãos.
Eu queria tanto ele... Eu queria... Queria...
– Lucas. – Falei alto, nos afastando.
Ele me olhou decepcionado.
– O que foi agora? – Perguntou farto.
Sorri envergonhada.
– Eu preciso ir ao banheiro. – Sussurrei, sentindo minhas bochechas corarem.
– O que?
– Me desculpa, mas eu preciso mesmo.
Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas ficou quieto, saindo de cima de mim.
– Quando eu voltar, podemos continuar da onde paramos. – Tentei alegrá-lo. Ele nem olhou para mim, se virando para o outro lado da cama e se cobrindo com os lençóis.
– Claro. – Disse sem acreditar.
Eu queria ficar com ele, abraçá-lo, amá-lo, mas tinha mesmo que ir ao banheiro.
.
.
(...) Dois dias depois (...).
– Se eu não te conhecesse, poderia dizer que está grávida. – Ela mordeu a beirada da torrada.
O vento que entrava pela janela aberta acertou meu rosto como um chicote.
– O-o quê? – Perguntei espantada, com os olhos arregalados. Ela me encarou sem entender a minha reação.
– Ué, Susan. Pelo que você está dizendo, essa mudança de humor, ganho de peso, vontade de ir ao banheiro toda hora, atraso na menstruação e desejo por coisas esquisitas... Tudo se encaixa no perfil de uma grávida. – Ela sorriu. – Mas relaxa bobinha, para uma mulher engravidar, primeiro ela precisa... Ah, você sabe o que ela precisa fazer. – Riu-se. – E como nós duas sabemos, você não está saindo com ninguém, não é mesmo? – Assenti automaticamente – Então, não tem como você estar grávida. – Franziu o cenho – Não precisa ficar com essa cara, é só fazer um regime que tudo volta ao normal. E a sua menstruação pode estar atrasada por causa da sua alimentação, essas coisas são assim mesmo, a minha vive atrasada e você não me vê entrando em pânico, não é mesmo?
– Karol, eu não estou entrando em pânico. – Falei séria. – Só estou preocupada. Eu posso estar com alguma doença.
– Ou grávida. – Provocou. Senti meu corpo tremer, eu não queria nem pensar nesta possibilidade. – Susan, nós somos amigas? – Questionou.
– Lógico que somos Karol. Está maluca? Nós somos quase como irmãs.
Ela sorriu satisfeita.
– Então me diga, você está saindo com alguém?
– N-não. – Minha voz tremeu. – Porque está me perguntando isso?
Ela tomou um gole do seu suco.
– Porque você está estranha. Está agindo estranhamente faz meses. E se você não está saindo com ninguém e nem está grávida, eu fico seriamente preocupada. Sabe, de uns tempos pra cá, você não sai dessa casa. Sei que você tem muita coisa para fazer, ainda mais agora, mas... Isso não é a sua cara. Você não é do tipo de pessoa que gosta de ficar mofando em lugares fechados, sem Sol. Mas agora, sempre que eu passo na frente da sua casa, só encontro tudo fechado, todos as janelas trancadas, como se ninguém morasse aqui... Parece até que você está escondendo um homem morto aqui dentro. – Ela respirou fundo – O Felipe e eu estamos preocupados, você não vai mais nos visitar... Sabia que semana passada o Fernando perguntou se você estava nervosa com ele?
– Ele fez isso? – Ela assentiu. Senti um aperto no peito. – Me desculpe Karol. É que tem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, estou me sentindo sufocada.
– Eu sei querida. – Ela segurou a minha mão. – Só quero que você saiba que pode contar comigo para qualquer coisa. Nós somos irmãs, estaremos sempre juntas. Se estiver acontecendo qualquer coisa com você, saiba que pode me contar, eu estou aqui para isso mesmo. Por favor, eu só quero te ver bem, só quero te ver feliz.
Sequei meus olhos antes que as lágrimas manchassem a minha maquiagem.
– Obrigado Karol. E me desculpe por sumir desse jeito... Não vai acontecer novamente, eu prometo.
Ela sorriu.
– Ótimo, eu já estava achando que iria ter que mandar alguém te bater para você acordar. – Ela olhou para os lados. – Onde está o Lucas?
– Ele saiu, foi comprar tintas.
– Ah. Que bom que ele não desistiu de ser pintor, né? Ele é tão talentoso...
Concordei.
– Mas me diz, como está o trabalho?
– Ah, está ótimo, como sempre, vida de paisagista é sossegada, você sabe.
– E o Felipe tem viajado bastante?
– Agora que o Pietro está grandinho, sim.
– E ele deixa você cuidando das duas crianças sozinha?
– Não, né. Nós contratamos uma babá, ou você achou mesmo que eu daria conta daqueles dois pestinhas sem ajuda? – Rimos. – Você precisa mesmo ir na minha casa. Eu não agüento mais o Fernando enchendo o saco, e o Pietro agora falando então, é mais insuportável ainda, ainda mais agora que ele descobriu o nome do seu desenho. – Riu. – Ele é apaixonado por aquela porcaria. – Falou brincando.
Dei um tapa no seu braço.
– Hey, olha só como você fala do meu trabalho! – Ela riu.
– Estou dando o troco. Mas convenhamos, ninguém merece ficar ouvindo ás onze da manhã aquela musiquinha chata da abertura, né? Aquilo fica na minha cabeça o dia inteirinho, ás vezes eu tenho vontade de matar você só por causa disso.
Sorri.
– Obrigado por vir me ver, ta?
Ela balançou a cabeça.
– Eu não faço por você, faço por mim. Eu dou um braço e uma perna para arrumar um motivo para sair daquela casa. Aqueles pestinhas estão me levando à loucura! Se eu ficasse mais um segundo ali, eu matava algum deles.
Gargalhei.
– Você é tão mentirosa. – Falei. – A verdade é que você ama aqueles três malucos.
– Três? Eu arrumei outro filho e nem sabia?
– Eu estou contando com o Felipe também.
Ela riu.
– É, você tem razão, eu amo eles.
Ficamos nos encarando por alguns instantes.
– Você promete mesmo que vai à minha casa? – Ela perguntou.
– Prometo.
– Então está bem – Se levantou. – Eu já vou então.
– Está cedo, fica mais.
– Não, eu só vim mesmo para saber como você está. – Me levantei do sofá — Tenho que voltar antes que eles queimem a casa. – Sorriu. – Você vai ficar bem, não vai?
– Claro que vou Karol, não esquenta, o Lucas cuida de mim.
Suspirou.
– Então... Tchau. – Nos abraçamos.
– Eu te levo até a porta. – E assim o fiz.
– Ah, e vê se entra em um regime, hein maluca? Eu não quero te ver gorda a essa altura do campeonato, é deprimente. – Ela riu e foi embora. Fiquei observando o seu carro virar a esquina, depois voltei para dentro de casa, arfando.
– GRÁVIDA?! – Falei Alto, finalmente me permitindo ter uma reação. – Não pode ser. Não pode ser. – Peguei a carteira de cima da estante, e saí de casa. Corri até a garagem e dei partida no meu velho carro. Parei de dirigir quando cheguei à farmácia. Estacionei o carro de qualquer jeito no meio fio, e corri para dentro do estabelecimento, procurando pela prateleira dos testes de gravidez.
.
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(...) Passado ordinário (...)
Era uma noite de sexta-feira, eu estava sozinha em casa, trancada no banheiro. Era dia treze de maio de mil novecentos e noventa e oito e o tempo não podia estar pior, estava chovendo por toda a metrópole e eu tremia, não pelo frio, mas por causa do medo e ansiedade. Aqueles foram os minutos mais longos da minha vida. Eu estava sentada sobre a tampa do vaso, encolhida, fitando em minhas mãos o resultado do teste de gravidez. Enquanto esperava, milhares de perguntas invadiam a minha cabeça, me impedindo de pensar direito. Aquele era um dos momentos que marcam a vida de uma mulher. A minha vida e o meu futuro dependiam daquele resultado. Eu estava casada há um ano com o homem da minha vida. Ele me amava e eu também o amava. Sentia que não podia estar mais feliz, e ainda assim, o medo tomava conta da minha alma, me levando para a escuridão. Levei uma mão para a minha barriga. “Será?” a pergunta ecoou mais alta do que todas as outras. Um minuto, dois, três se passaram, até que finalmente o resultado: Negativo.
Suspirei, ainda não tinha sido dessa vez.
Joguei a embalagem e o teste no lixo. Caminhei até a pia, olhando-me no espelho. Eu estava tão confiante desta vez... Abri a torneira e joguei um pouco de água no meu rosto, depois sequei na toalha.
– Sossega, dá próxima vez vai dar certo. – Disse para mim mesma.
Saí do banheiro do quarto e andei até a cama, onde fiquei duas horas deitada, esperando pela sua chegada.
– Você demorou. – Falei quando ele entrou. — Ele caminhou até o guarda-roupa em silêncio, retirando sua gravata. – Eu tenho uma cosia para te contar. – Ele não me olhou. – Acho que você vai ficar feliz em saber... ou não. – Eu tinha esperanças que ele não ficasse feliz. Levantei-me da cama, e esperei ele me olhar, mas como sempre, ele não me olhou. – Poderia me dar um pouquinho de atenção, por favor? – Ele parecia estar em outro mundo – Rogério! – Chamei, e finalmente ele se virou para me encarar.
– Ah, querida, você disse alguma coisa? – Sorria forçado.
– Na verdade, disse sim.
– Me perdoe, eu estava distante. – Cruzei os braços. – Mas pode dizer agora.
– Para ser franca, não é nada importante... Eu só queria avisar que eu não estou grávida.
– Ah, que bom, meu amor. – Disse sem se dar ao trabalho de fingir algum interesse no assunto.
Sentei-me novamente na cama.
– O importante, é que eu achei que estava; por isso fiz o teste. – Comentei.
Ele assentiu.
– Hn. Só me explique uma coisa, porque você achou que estava grávida? Eu sempre uso proteção, não precisa ficar com esses anseios bobos.
“Anseios bobos”?
– Anseios bobos? – Perguntei frustrada.
– Eu só quis dizer que não há motivos para preocupações. – Ele retirou a camisa.
– Eu quis ter certeza, com essas coisas não podemos brincar. – Eu odiava ter que fingir que concordava com o ponto de vista dele. Odiava ter que me esconder atrás de mascaras, esconder a minha frustração. – Rogério, você me ama?- Soltei de repente. Ele me encarou atravessado.
– Que tipo de pergunta é essa?
– Uma pergunta normal. – Afirmei com convicção.
– Mas porque isso agora?
Engoli em seco.
– Eu só quero saber Rogério. Você não costuma dizer muito isso.
Na verdade, ele só disse uma vez, no dia do nosso casamento.
– Porque eu não vejo necessidade.
– Mas eu vejo, sobretudo neste momento.
Seus olhos se fecharam e ele sorriu sem mostrar os dentes. Eu costumava dizer que essa era sua cara irritada, mas naquele momento, ele a estava usando para me irritar.
– Eu te amo, meu amor. – Disse sem abrir os olhos. Senti-me arrepiar. Sorri, vendo seus olhos se abrirem calmamente, me fitando com certa estranheza. – Satisfeita? – Indagou desdenhoso. Balancei a cabeça.
– Estou sim. – Eu não estava – Obrigado querido.
Ele me olhou satisfeito.
– Lembre-se bem deste momento, porque ele não irá se repetir.
Meu coração disparou. Como ele poderia dizer uma coisa dessas com tanta tranqüilidade para mim, sua esposa? Como ele poderia ser tão frio?
– Claro querido.
Não importava o quanto eu queria gritar, eu sempre ficaria em silêncio perto dele.
.
.
(...) Tudo diferente (...)
Quando cheguei em casa com o teste de gravidez, ele já me esperava na sala.
– O que você está fazendo aqui? – Perguntei confusa quando o vi. Eu não queria fazer aquilo perto dele. Não sem ter certeza antes. Eu não queria preocupá-lo com os meus anseios bobos.
– Eu moro aqui, lembra? – Ele riu, se levantando do sofá para me abraçar. – Que foi? Você está pálida. – Questionou quando me soltou.
Passei a mão na minha testa.
– Eu estou? – Ele assentiu. – Deve ser por causa do Sol.
Ele franziu as sobrancelhas.
– Mas está nublado.
– Ah, eu disse Sol? Eu quis dizer por causa do ar quente. Sabe, está muito abafado, acho que isso está me fazendo mal. – Inventei uma desculpa qualquer.
– Tem certeza que você está bem? – Seus olhos me avaliaram com desconfiança.
Meu coração disparou.
– Porque você vive me perguntando isso, hein? Desse jeito eu vou ficar doente de tanto que você me pergunta se estou. – Tentei sorrir. – Pare de ficar me pressionando, Lucas. Eu estou ótima.
– Te pressionando? Eu não estou te pressionando.
– Se isso não é pressionar, então eu não sei mais o que é. – Tentei soar descontraída. Ele sorriu.
– Ok, Susan. Me fala o que está acontecendo. – Ordenou, ficando sério.
– Não tem nada acontecendo. – Nem eu conseguia acreditar em mim.
– Você não sabe mentir, lembra? – Suas sobrancelhas se ergueram. Ele olhou para a sacola em minhas mãos. – O que tem dentro da sacola? – A vontade que eu tinha era de sair correndo.
– Nada demais. – Eu me sentia acuada. Ele suspirou.
– Eu vou pegar e você não vai se afastar, entendeu? – Disse como quem fala com um bicho.
– O que? — Ele levou a mão até a sacola da farmácia. – Solta Lucas! – Tentei me afastar.
– Susan, para com isso! Deixa eu te ajudar!
– Eu não quero a sua ajuda! – Ele segurou a sacola, puxando com força. – Não! – Gritei quando o plástico rasgou. Os dois testes de gravidez que eu comprei caíram no chão. Ele olhou para aquilo por alguns segundos, depois se agachou e pegou uma embalagem. Minhas mãos começaram a tremer. – E-eu ia te contar. – Sentia vontade de chorar. – E-eu só queria ter c-certeza. – Levei minha mão à boca. Ele continuou em silêncio. – Eu nem sei se é verdade... Eu nem tenho certeza, é só uma suspeita. Posso estar enganada... – O seu silencio me fazia enlouquecer. – Ah meu Deus. – Arfei. – Eu... Eu... – Ele apenas encarava o embrulhe, sem piscar, como se tivesse petrificado naquela posição. – Pode dizer alguma coisa, por favor?
Ele me encarou, seus olhos brilhavam.
– Você disse que não tem certeza? – Sua voz estava fraca. Assenti. – Então é melhor – ele entregou o teste para mim – descobrirmos logo. – Fiquei encarando ele assustada. – Tudo bem, Susan. – Ele deu um passo à frente e sorriu para mim. – Eu estou com você.
Comecei a chorar, ele me abraçou.
– Me desculpe... – Murmurei engasgando.
– Você não tem culpa, ninguém tem culpa de nada, só aconteceu – Ele me segurou pelos ombros. – Eu estou com você, eu não vou sair daqui. Vamos enfrentar isso juntos.
Balancei a cabeça, concordando.
Caminhamos até o banheiro da sala. Ele sempre do meu lado, me apoiando. E quando tudo terminou, eu tive certeza que não poderia ter feito aquilo sozinha.
Meu choro ficou forte. Caí de joelhos no chão, abraçando minha barriga. “Finalmente...”, era só o que se passava na minha cabeça. Eu estava com medo, assustada, mas sabia que tudo ficaria bem, enquanto estivéssemos juntos.
Eu iria ter um filho, e só isso importava.
– Eu não acredito. – Olhei para o homem sentado no chão ao meu lado, segurando a minha mão. Ele apenas encarava o resultado do teste, inexpressivo. – Você está bem? – Perguntei.
– Nunca estive melhor. – Sussurrou, sorrindo pra mim.
Notas finais
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Enfim, esse capítulo foi intenso, né? Acho que o próximo ainda será mais intenso... O próximo capítulo já está pronto, mas só vou postá-lo quando o último capítulo da fic estiver escrito até a metade. Beijos.
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