Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

14 Capítulo treze - Surtando com a minha mãe.


Notas iniciais
Nossa, que saudade de postar capítulos... Eu estava viajando, por isso acabei sumindo de repente. Desculpe-me. Eu não sabia que iria viajar, se não teria avisado.
Tenho três capítulos prontos. Vou postar um agora, e outro a noite. Ok?
Beijos!

Capítulo Treze.– Surtando com a minha mãe.

Não. Eu não estava enxergando errado. Era ela mesma, a megera em carne e osso. Meu pesadelo havia se tornado real. Seus olhos me fitavam impacientes, loucos para me esmagarem com a sua força e autoridade. Quase senti medo de que ela pudesse pular em cima de mim tentando me matar, por causa da ferocidade em seu olhar. Dei um passo para trás automaticamente.

- O que você está fazendo aqui? – Perguntei assustada, com a voz muito fraca. Havia uma outra pessoa atrás dela, mas eu não me importei, só ela me importava naquele momento.

- É assim que você trata a sua mãe, filinha? – Ela estava sendo irônica e eu odiava isso. Bufou como uma criança mimada. – Saia da frente e me deixe entrar, não vê que estou cansada? – Eu dei passagem para que ela entrasse. Ela jogou uma mala pesada na minha frente, me obrigando a segurá-la. A encarei com os olhos arregalados. Então percebi quem estava atrás dela. Era Teodora, nossa inspetora.

- Senhora Teodora...? – Eu parecia uma criança assustada. Tentei me recompor, sorrindo um pouco forçado para ela.

- Olá senhorita Susan. – Ela entrou. – Imagino que a senhorita lembre-se do nosso compromisso, não é? Eu liguei na quinta...

- Sim, é claro. – O choque já havia se amenizado um pouco, apesar de eu ainda estar um pouco abalada. – Eu estava esperando a senhora, mas fiquei surpresa ao ver a Silvia, que dizer, a minha mãe. Eu não esperava por essa visita... – Falei olhando para a bruxa, ela me lançou um sorriso mal humorado.
— Eu quis te fazer uma surpresa. – Falou.

- E você definitivamente fez. – Murmurei, colocando a mala dela em cima de uma estante. O Lucas estava em pé, com uma expressão calma, sorrindo para a senhora Teodora.

- Lucas! – Minha mãe apertou as suas bochechas com força, mas ele não se incomodou, continuou educado. – Oh, querido, você está tão magrinho... Não tem se alimentado direito? – Ela me lançou um olhar assassino.

- Eu... – Ele tentou dizer, mas foi impedido.

- Como você está, querido? – Perguntou Teodora, se aproximando. Ela sorriu para ele.

- Eu estou... – E novamente, ele foi interrompido.

- Susan, que falta de educação, não vai nos convidar para sentar? – Questionou Silvia, com uma sobrancelha erguida.

- Claro que vou. – Disse da maneira mais serena que consegui. Olhei para o Lucas, e ele sorriu, como se entendesse o meu sofrimento. Isso me fez relaxar. Pelo menos, uma pessoa estava do meu lado – Por favor, fiquem a vontade. – Elas se acomodaram no sofá. Eu me sentei ao lado do Lucas. – Vocês quererem tomar alguma coisa? Um copo de água ou um-...

- Querida, eu acho que a senhorita “Dora” vai querer algo melhor do que um mero copo de água. – Alfinetou Silvia.

- O meu nome é Teo-... – Começou a inspetora.

- Sabe “Dora”, não foi essa a educação que eu dei para essa menina. Não sei com quem ela aprendeu esses modos rudes. – Ela não conseguia ficar calada nem por um segundo.

- Mãe...

- Que foi?! – Perguntou com grosseria, me olhando profundamente. Neste momento, me perguntei por que ela me odiava tanto.

- Porque você está aqui? – Repeti a pergunta, só que desta vez com calma. Ela não iria me tirar do sério.

- E eu preciso de um motivo?

- Bem...

- Eu te coloquei no mundo, acho que este motivo já está de bom tamanho. – Seus olhos se apertavam a cada palavra. Ela estava adorando aquilo. Queria que a inspetora tivesse impressões errados sobre mim.

- Não é isso. Só queria saber por que você não trouxe o Mateus. – Sorri.

- O Mateus não é um acessório para eu levar para onde eu bem entender. Além disso, ele trabalha. – Meu sorriso só aumentou.

- Claro, mãe. – Olhei para a inspetora. – E vocês já se conheciam?

- Não. Eu apenas encontrei a sua mãe aqui na porta. – Por dentro, fiquei aliviada. Pelo menos, minha mãe não havia tido tempo de envenená-la contra mim. Ela olhou para o Lucas. – Você parece bem. – Comentou. Ela olhou para mim novamente. – E então, como foi essa primeira semana?

- Foi boa. O Lucas me faz companhia.

- Fiquei sabendo que ele começou a estudar.

- Sim, isso mesmo.

- E a escola é longe?

- Não. É dez minutos andando daqui.

- Mas ele vai sozinho?

- Não. Eu estou levando e buscando ele de carro.

- Hum... Isso é bom. – Ela sorriu. – E o que você está achando da escola, querido? – Ela olhou para ele. Ele sorriu.

- Muito boa. Os professores são ótimos e eu até já fiz um amigo. – Os olhos da inspetora se arregalaram, e eu quase ri. Provavelmente ela nunca havia escutado ele falar tantas palavras de uma só vez. Eu mordi os lábios, estava me sentindo orgulhosa.

- Nossa. – Foi tudo que ela falou. Quando seus olhos encontraram os meus, eu soube o que ela estava pensando. – Me parece que vocês se deram bem essa semana, não foi?

- Melhor impossível. – Falei, olhando para ele.

- Isso é maravilhoso. — Olhei para a minha mãe, ela parecia incomodada. – Senhorita Susan, espero não parecer inadequada, mas eu posso conversar um instantinho com o Lucas em particular? Se possível, no quarto dele.

Olhei para o Lucas, sua expressão não era boa. Eu sabia que ele não queria se afastar. Mas o motivo pelo qual ele não queria se afasta é que eu não sabia.

- Tudo bem para você? – Murmurei. Ele assentiu e eu sorri. Olhei para a Teodora. – Eu irei mostrar onde fica o quarto. – Me levantei.

- Não precisa. Eu mostro. – Ele falou. Fiquei surpresa, mas decidi fazer do jeito dele.

Os dois subiram as escadas e eu me sentei novamente no sofá. Encarei a minha mãe e então me levantei novamente, fugindo para a cozinha. Peguei um copo do armário, enchi com água do filtro e bebi de uma só vez. Ela entrou na cozinha e me encarou com aquele olhar desaprovador.

- Eu não acredito que você está fazendo isso, Susan. – Disse.

Senti meus olhos ficarem úmidos. Porque ela me odiava tanto?

Um segundo atrás, senti que era capaz de encará-la nos olhos, mas agora, sozinhas daquela cozinha, eu me senti com oito anos, assustada e indefesa.

Enchi o copo novamente de água.

- Você não acredita que eu estou fazendo o que, mãe? – Perguntei.

- Que você esteja acabando com a vida desse garoto!

- Acabando? Mãe, eu só estou ajudando ele! Não é como se eu estivesse com uma arma apontada para a cabeça dele. Eu só quero ajudá-lo. – Bebi o líquido do copo, ainda de costas para ela. Sabia que não seria capaz de encarar aqueles olhos.

- Quantas vezes eu tenho que repetir que você não é capaz de fazer isso?

Coloquei o copo na pia. Sentindo as minhas mãos começarem a tremer por causa da raiva.

- Se eu sou ou não sou, o problema é meu. – Me virei. – Porque você está aqui?

Ela estava há dois metros de distância de mim.

- Estou fazendo o que ninguém mais terá coragem de fazer. Estou te impedindo de cometer um erro.

- Um erro? – Respirei fundo. – Nunca passou pela sua cabeça que eu posso fazer bem para esse menino?

Ela quase riu das minhas palavras.

- Não seja ridícula. Você não consegue tomar conta nem de você, como pode tomar conta de uma criança?

- Porque você está fazendo isso? Com que direito você está fazendo isso comigo?

- Eu me preocupo com esse menino, não quero que você acabe com a vida dele.

Minhas mãos se fecharam com forças. Ela conseguia me tirar a razão.

- Mãe...

- Você precisa parar com isso. Você precisa me escutar. Liga para o seu advogado, ou melhor, aproveita que essa ‘coisinha’ está aqui e já fala com ela mesmo.

- E o que você quer que eu diga?

- Eu quero que você diga a verdade. Eu Quero que você diga que não é capaz de cuidar desse menino. Que tudo isso é uma maluquice, uma idéia sem sentido...

- Eu assinei papeis...

- Não importa. Se você não quiser, ninguém poderá te obrigar.

Suspirei.

- Mãe...

- A vida desse menino já está uma droga, Susan. Pense com clareza pelo menos uma vez na sua vida. Que futuro ele terá vivendo com você? Você é uma solteirona, encalhada, desempregada-...

- Eu tenho um emprego.

- Você chama aquilo de emprego? Vendedora em uma loja de quinta categoria? Ah, por favor, e quanto você ganha nesse seu “emprego” maravilhoso? Tenho certeza que não o suficiente. Olha ao seu redor. Essa casa está caindo aos pedaços, logo você terá que se mudar e para onde você vai? Como vai se sustentar? Pense no futuro dele. Quem pagará a faculdade dele? Imagino que não você.

- Mãe, eu não serei vendedora para o resto da minha vida.

- Eu sei, não vai demorar muito e esse seu patrão também irá te despedir, isso se a loja não falir antes. – Ela se aproximou de mim. – Susan, esse menino não tem futuro com você. Ele precisa de alguém como...

- Como você? – Perguntei nervosa.

- Exatamente. Ele precisa de alguém como eu. Uma mulher madura, casada, com casa própria e com um emprego estável. Eu serei uma ótima mãe para ele. Você sabe disso.

A encarei.

- Eu sei disso? Como assim eu sei disso? Não seja hipócrita. Claro que eu não sei. Você nunca foi uma mãe para mim, era apenas a mulher que pagava as empregas que cuidavam de mim! – As minhas palavras não a machucavam nem um pouco.

... Mas as palavras dela me machucavam muito.

- Pelo menos, eu tinha dinheiro para pagar essa empregas, mas você nem isso têm.

Respirei fundo. Eu ia responder, quando ouvi passos adentrarem a cozinha. Olhei por cima do ombro de Silvia, era o Lucas e a Teodora. A inspetora sorriu para mim. A Silvia se virou e sorriu.

- Eu vou ao toalete. Já volto. – E saiu da cozinha, me deixando sozinha.

O Lucas me encarava com um olhar estranho, que por alguma razão que desconheço, me soou familiar, como se outra pessoa também já tivesse me olhado com aqueles olhos. Era um olhar preocupado, um olhar realmente preocupado. Como se ele estivesse sentido exatamente o que eu estou sentindo. Apoiando-me neste pensamente, me senti mais forte. Eu não iria desistir dele jamais.

- Vocês conversaram rápido. – Falei. Teodora avaliava a cozinha.

- Eu só queria fazer algumas perguntas para ele. Mas já estou satisfeita. – Ela sorriu. Algo acendeu dentro de mim.

- Você aceita um copo de suco?

- Um copo de água gelada, por favor. Este calor está me matando.

Sorri.

- É verdade. – Abri o armário e peguei um copo de vidro. Caminhei até a geladeira e enchi o copo com a água da jarra. Entreguei o copo para ela. – Você também quer Lucas? – Perguntei. Ele negou com a cabeça. Esperei ela terminar de beber a água e me entregar o copo. – Quer mais?

- Não, obrigado.

Coloquei o copo em cima da pia. Depois caminhamos até a sala.

- Eu posso conversar com você lá fora, Susan? – Ela me disse, quando viu que minha mãe descia as escadas. – Vai ser rápido.

Olhei para o Lucas.

- Tudo bem. – Respondi. Saímos da sala e fomos para o quintal. Como havíamos feito semanas atrás. Imaginei o que ela iria falar: “Bom, depois de conversar com o menino, eu conclui que você é uma incapaz. Não tem capacidade nenhum de cuidar de uma criança. Você é um perigo para ele, portanto, terei que levá-lo embora hoje mesmo. Sinto muito.”. Esse pensamento me fez sentir algo ruim dentro de mim. Eu não queria me separar dele. – Aconteceu alguma coisa? – Perguntei assim que ficamos sozinhas.

Mas a resposta dela foi bem diferente do que a que eu havia imaginado.

- Na verdade, eu queria lhe parabenizar, estou impressionada. Jamais esperei que ele se adaptasse tão rapidamente. É extraordinário. Pelo que ele me disse, você não só está dando o seu máximo, como também está sendo uma ótima mãe para ele. Ele te adora, Susan.

Meu coração bateu mais forte.

- Ele te disse isso? – Ela sorriu para mim, percebendo a minha emoção.

- Disse. E agora vejo que é verdade. Eu sabia que você era a pessoa certa.

- Você não faz idéia de como fico feliz ouvindo isso. Eu não imaginava que ele... Eu... – Meus olhos se encheram de lágrimas. Suspirei. – Eu também adoro ele. – Falei simplesmente.

Ela colocou a mão no meu ombro.

- Desculpe a intromissão, sei que não é da minha conta, mas não ligue para a opinião da sua mãe, querida. Mesmo sendo filha dela, parece que ela não te conhece nem um pouco.

- Você ouviu...? – Perguntei.

- Não. E ela também não me disse nada. Mas eu já estou nesse negócio há muito tempo, e percebo algumas coisas mais facilmente do que as outras pessoas.

Eu sorri agradecida.

- Obrigada.

- Bom, eu voltarei essa semana mesmo, mas não vai ser para conversar com você. Na verdade, eu quero conhecer a escola onde ele está estudando. Quero conversar com os professores e com os coordenadores. Tenho que ter certeza que ele está sendo bem tratado.

- Tudo bem.

- Eu te ligo para avisar, está bem?

- Tá.

- Bom... – Ela olhou para o céu. – Então agora eu vou deixar vocês aproveitarem o resto do seu sábado... – Sorri. A acompanhei até o portão.

- Tchau senhora Teodora.

- Tchau. Diz para o Lucas que eu mandei um beijo. Ah, e para sua mãe... também.

- Eu digo. – Ela me encarou por um momento e então caminhou até o carro estacionado do outro lado da rua.

Depois de uns cinco minutos, eu entrei em casa.

“Adeus praia, adeus sossego. E olá mamãe”.

(...)

- Lucas, querido, você poderia deixar a ‘vovó’ e a Susan sozinhas por um momento? – Ela disse quando eu entrei em casa.

Ele se levantou.

- Não, Lucas, não precisa. – Minha mãe me encarou sem entender. – Pois a ‘vovó’ já está de saída.

- Eu estou o que?

- De saída.

- Eu não estou não...

- Como não? Mãe, você esqueceu que você é uma mulher ocupada? Você precisa – pegar a sua vassoura e – voltar para São Paulo. O Mateus deve estar com saudade. – Afinal, se não ela, quem irá passar as pomadas de hemorróidas nele? – Além disso, essa é a minha casa; e aqui na MINHA casa as pessoas avisam antes de vir com suas malas me visitar. Pode não parecer, mas aqui dentro existem regras, mãe. E eu respeito muito essas regras. Agora, por favor, não me faça perder a compostura e volte para a SUA casa. – Olhei para o Lucas, ao contrário do que eu pensei, ele não estava assustado, apenas me olhava com aquele olhar preocupado. Respirei fundo e caminhei em direção as escadas, subindo para o meu quarto.

Eu queria que a minha mãe se explodisse em mil pedaços.

Notas finais
Eu escrevi esse capítulo de madrugada. O que vocês acharam? Será que a Susan pegou muito pesado com a mãe, ou ela merecia?