Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
8 Capítulo sete - Um mês
Notas iniciais
Preciso que vocês comentem.
Lana, obrigado de novo.
Desculpem pelos erros...
Beijos meus gostosos!
Capítulo sete. – Um mês.
A espera estava me matando. Batia o pé no piso descontroladamente, como se toda a minha energia estivesse reunida naquela parte especifica do meu corpo. Olhei para o relógio da parede. Ele já deveria ter me chamado. Respirei fundo. Eu não agüentava aquela expectativa, era muito pior do que uma tortura. Olhei para os lados, desejando que algum conhecido estivesse ali para me dar apoio. Foi em vão, ninguém apareceu. O tic-tac do relógio estava me enlouquecendo. Fechei com força a minhas mãos. Quanto tempo mais aquilo poderia demorar?
– Senhorita Cllaus... – Falou uma voz sussurrada, olhei para o meu lado esquerdo. Era Luciane, a secretária loira que tinha me atendido.
– Sim? – Perguntei.
– O senhor Godoy já pode lhe receber. – Sorriu. – Por favor, me acompanhe.
Levantei da cadeira e a segui pelo corredor, sentindo o palpitar do meu coração.
– Entre. – Disse educadamente. Forcei um sorriso para ela e então entrei.
A sala era muito comum, com exceção de um cheiro estranho que pairava pelo ar. Lembrava-me o cheiro de remédios.
– Senhorita Susan! – Disse alegremente o homem atrás da mesa. Eu nunca o tinha visto antes, e mesmo assim sua expressão era de quem acabara de reencontrar um velho amigo. Continuei com a postura elegante, queria deixar uma boa impressão. Isso era fundamental.
– Como vai Senhor Godoy. – Com um sorriso, ofereci a mão. Ele a segurou e então a beijou com elegância. – É um prazer conhecê-lo. – Falei com sinceridade, sorrindo o tempo todo. Minha voz estava muito tranqüila.
Ele olhou para mim com um olhar de admiração.
– O prazer é todo meu! – E então riu. Continuei sorrindo. – Não é todo dia que sou abençoado com a visita de uma imagem tão jovem e formosa aqui no meu orfanato! – Fingi estar encabulada — Por favor, minha cara, sente-se. – Ele apontou para a cadeira. Eu me sentei e cruzei as penas, o que percebi que prendeu rapidamente a sua atenção, mas ele tentou disfarçar. Eu estava usando um vestido social. Esperei até que ele começasse. – Fiquei muito feliz quando recebi a notícia que a mãe do pequeno Lucas havia deixado um testamento para ele. Sabe, nos dias atuais, os pais não se preocupam mais com esse tipo de coisa. É como se achassem que nunca pudesse morrer... Como se fossem imortais. – Uma pausa. – Realmente me alegra muito saber que a mãe dele teve essa sensibilidade e preocupação. Mais claro que esse é um caso isolado. Os pais não percebem que esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer um. Um dia você está feliz, andando distraído pela rua, quando um carro desgovernado te atinge e você morre na hora, sem tempo para se despedir de ninguém ou de se arrepender por não ter planejado o futuro melhor e ter deixado tantas coisas para depois. Você morre sem tempo para lamentações. Simplesmente, você está morte e não tem nada que possa fazer para mudar isso. Mas isso não quer dizer que a vida dos outros também irá acabar. Seus filhos vão continuar vivos... E você não vai poder fazer nada para ajudá-los, pois está enterrado á sete palmos do chão e é lá que vai ficar pelo resto da eternidade, servindo de adubo para a terra. – ele olhou para mim – Você não imagina quantas vezes eu vi essa história se repetir. – Eu não entendia porque ele estava me contando aquilo. Eu não queria saber da vida dos outros, eu só estava preocupada com a minha.
– É, realmente isso é muito chato. – Falei meio sem emoção, mas não sei se ele conseguiu perceber. – Bom, mas voltando ao Lucas, o que você dizia? – Perguntei.
– Lucas? Ah, sim, claro. – Ele sorriu envergonhado. – Bom, a situação do Lucas é muito simples. Como o seu advogado deve ter te explicado, será preciso apenas que você siga algumas exigências e tudo ficará certo. Com um testamento assinado pela mãe, tudo fica mais fácil.
Assenti.
– Senhor Godoy... – respirei fundo. – Quanto tempo eu tenho para cumprir todas essa exigências? Quero dizer, no momento, eu estou desempregada, mas sei que irei conseguir arrumar um emprego logo. Já estou até avaliando algumas propostas, — menti — mas eu preciso de um pouco de tempo para me preparar.
– Naturalmente, é claro que daremos um tempo para que a senhorita posse se situar.
– Mas de quanto tempo estamos falando? – Perguntei.
– Bom... – Ele refletiu. – Um mês, esse é o tempo máximo que conseguimos esperar.
Suspirei. Um mês estava bom.
– Tudo bem, um mês está ótimo para mim.
Ele sorriu.
– Fico feliz em saber disso.
Houve um silêncio.
– A sua secretária tinha me dito no telefone que eu precisava assinar alguns documentos, quais seriam? – Perguntei.
– O que? Ah, sim... Claro. – Ele certamente havia se esquecido. – Aqui estão. – Disse, me entregando algumas folhas. – Não é nada demais, simplesmente um documento que afirma que a senhorita está realmente disposta a receber esse menino em sua vida. E que está consciente de todas as responsabilidades envolvidas na criação de uma criança — Li rapidamente. – Assine em cima dessa linha, por favor. – Falou, me entregando uma caneta. Eu obedeci e devolvi as folhas para ele. Ele a guardou dentro de uma pasta.
– Aproveitando que eu estou aqui... Eu queria saber como vai ficar a situação da casa da Anabela. É evidente que o terreno irá passar para o nome do menino, mas eu tenho algumas duvidas. Bom, como eu moro aqui no Rio, não daria para mim ficar cuidando da casa sempre e muito menos alugá-la para alguém, e como eu não quero deixá-la abandonada e acho que o Lucas não terá capacidade de morar naquele lugar sem a mãe, eu queria saber se seria possível vender o terreno. – Falei.
– Se você achar que assim vai ser melhor, claro. – disse, dando de ombros. – Não vejo porque não.
– O meu advogado me disse que Anabela abriu uma conta no nome dele, onde depositou todas as suas economias, ela queria ter certeza que ele ficaria bem. Eu estava pensando em vender a casa e depois depositar o dinheiro nessa conta. Assim no futuro quando ele for fazer uma faculdade ou comprar um carro, esse dinheiro será útil.
– Essa é uma ótima idéia, senhorita. – Ele sorriu.
– Tudo bem então. Bom, era só isso que eu tinha que assinar? – Perguntei impaciente. Queria acabar logo com aquilo, antes que eu mudasse de idéia.
– Sim, é só isso. Muito obrigado.
Ele e eu nos levantamos. Estava aliviada.
– Eu é que agradeço. – Respondi apertando a mão que ele me ofereceu. Dei um sorriso pesado para ele.
– Você é uma mulher muito admirável senhorita. Esse menino tem sorte. – Falou.
– Eu estou fazendo isso pela mãe dele. Éramos muito amigas.
– Sim, é claro. – Falou, me acompanhando até a porta. – De qualquer forma, ele tem muita sorte. – Eu não respondi.
– Obrigado pelas informações... – Sorri e então virei de costas para ir embora, mas tive que olhar de novo para ele. – Ah, eu já ia me esquecendo, como faço para encontrar o Lucas? Eu gostaria de vê-lo agora, se eu estiver autorizada, é claro.
– Nesse momento ele está tendo aula... – Murmurou. – Não sei se seria uma boa idéia.
– Eu só quero vê-lo, não preciso falar com ele. Só quero ter certeza que ele está bem.
– Tudo bem então. Vá até a mesa da Luciane e peça a ela para te mostrar onde é a sala, diga que eu é quem pedi. Luciane é a moça que te atendeu, a loira. – Explicou.
– Sim, eu sei quem é. Obrigado.
– Por nada...
– Tchau.
– Tchau.
Virei de costas e sai da sala. Andei pelo corredor até chegar á recepção. Passei a informação para a secretária e com um sorriso no rosto, ela me acompanhou pelos corredores, em silêncio. Com forme andávamos, eu começava a escutar a voz das crianças se aproximando. Ela parou na frente de uma porta e me informou que era ali que ele estava. Aporta era de madeira, mas havia nela uma parte especial que era de vidro, onde dava para ver a sala por dentro. Quando olhei para dentro, a primeira coisa que veio na minha cabeça foi a lembrança da minha antiga sala de aula do terceiro colegial, aquela lembrança me fez sorrir. Deixei meu olhar deslizar por cada criança, procurando. Até que encontrei sentado na fileira do meio, no terceiro lugar, o pequeno Lucas. Ele parecia muito concentrado no livro em suas mãos. Ao fundo, uma criança estava em pé, ela era a única levantada, em suas mãos também havia um livro, que ela lia em voz alta para toda a sala, mostrando muita confiança. A professora estava sentada na mesa, prestando atenção na leitura como todos os outros alunos. A professora era baixa, de cabelos castanhos e olhar penetrante. Ninguém pareceu perceber que estavam sendo observados. Continuei o observando em silêncio, prestando bastante atenção nos seus movimentos, foi então que ele olhou para mim, parecendo sentir a minha presença. Meu coração disparou como na primeira vez que havia recebido aquele olhar.
Forcei um sorriso e então acenei para ele, mas para a minha decepção ele me ignorou.
– Ele não pode vê-la. Esse vidro tem uma tela especial que faz com que somente quem está do lado de fora consiga ver o que se passa por dentro. – Disse a loira.
– Mas isso não é perigoso? – Perguntei, lembrando-me de algumas notícias assustadoras sobre loucos armados que invadiam escolas que vi na televisão.
– Não. Dentro da sala de aula, temos câmeras de seguranças e um funcionário responsável em vigiá-las. Além disso, as portas possuem uma tecnologia que impede qualquer pessoa desautorizada a entrar ou a sair.
– Mas se você tem toda essa segurança em mãos, porque esse vidro?
– Bom, como esse é um orfanato, diariamente recebemos a visita de muitos casais interessados na adoção de uma criança. Essa tela impede que as crianças os vejam, e assim fiquem preocupadas ou agitadas. A intenção é que elas ajam naturalmente, sem nenhuma pressão. Desse modo os interessados poderão conhecê-los verdadeiramente.
– Entendi. – Falei, olhando novamente para o Lucas, ele ainda olhava para mim, quer dizer, para a porta. Depois de alguns segundos, ele voltou sua atenção para o livro.
“Eu posso jurar que ele sabia que eu estava aqui” pensei para mim mesma. Deveria ter sido só uma coincidência. Continuei avaliando-o. Ele não parecia ter mudado em nada, continuava o mesmo menino que eu havia visto duas semanas atrás. Isso me deixou aliviada. Eu estava preocupada que ele tivesse emagrecido ou ficado doente. Mas ele parecia estar muito bem. Na verdade, parecia estar mais saudável do que nunca, como se não tivesse acontecido nada na sua vida nas últimas semanas. Definitivamente, aquele não era um garoto comum.
Os dias se passaram rápidos demais. Chovia por toda a cidade, o que impedia que eu conseguisse sair de casa sem a necessidade de usar o carro. Eu havia visitado muitas empresas, mas infelizmente não achei nada que me agradasse. Eu precisava de um emprego sério. O salário não precisava ser dos melhores, mas tinha que ter pelo menos carteira assinada. No meio da semana, quarta-feira, fiz uma coisa que estava adiando com todas as minhas forças. Liguei para a minha mãe. E ela não poderia ter tido uma reação melhor quando lhe contei as novidades.
– O QUE? Você está brincando comigo? Como assim a Anabela deixou a guarda do filho dela para VOCÊ? Como ela pode fazer isso com aquele menino? Você não pode estar falando sério! Nenhuma mãe que sinta algum carinho pelo filho teria coragem de fazer uma coisa dessas!! Onde ela estava com a cabeça?! Meu Deus do céu, o que vai ser desse menino? Seria mil vezes melhor ela ter o deixado apodrecer naquele orfanato! Você NÃO PODE cuidar de uma CRIANÇA! Você vai acabar matando esse garoto!! Você não tem capacidade para isso!! ELA TINHA QUE TER DEIXADO ELE PARA EU CUIDAR!!
O pior era que eu concordava com ela.
– Mãe, por favor, você não está me ajudando – e desde quando ela me ajuda em alguma coisa? – Eu já estou suficientemente assustada com tudo isso, e não preciso escutar você me dizendo que eu não vou consegui. Eu sei que vai ser difícil no começo, mas...
– NÃO ME DIGA QUE VOCÊ ESTÁ REALMENTE PENSANDO EM COLABORAR COM ESSA PALHAÇADA?!
– Bem...
– QUANTAS VEZES EU VOU TER QUE TE DIZER QUE VOCÊ NÃO TEM CAPACIDADE PARA ESSE TIPO DE COISA?!
– Mas eu...
– NÃO! DE JEITO NENHUM! EU NÃO VOU PERMITI QUE VOCÊ DESTRUA A VIDA DESSE MENINO!
O resultado foi que eu acabei perdendo a paciência e desliguei na cara dela. Mas mesmo assim, eu não conseguia tirar aquelas palavras da minha cabeça e sempre quando eu ia dormir à noite, eu pensava naquilo. Eu não queria fazer aquele menino sofrer... Eu não queria ser uma péssima “mãe” para ele. Eu não queria nada daquilo, mas sempre que eu olhava para mim mesma no espelho, eu sabia que não iria conseguir. Eu queria voltar atrás, queria ligar para o advogado e dizer que eu tinha me arrependido... Eu só queria me ver livre daquele pesadelo. Eu só queria a minha independência de volta. Eu me sentia sufocada. E o que mais me assustava era que ele nem havia chegado e eu me sentia daquele jeito. Imagina então como vai ser depois que ele chegar?
Os dias continuaram a passar e eu comecei a me desesperar. Mas foi então que finalmente comecei a receber alguns telefonemas de algumas empresas, marcando algumas entrevistas. Finalmente, eu vi esperança.
– Não tenho palavras para descrever como estou feliz, senhora Helena. Muito obrigado pela confiança. Eu vou dar o máximo de mim para não decepcioná-la. Muito obrigado. – Falei, apertando a mão da minha mais nova patroa dias depois. Eu iria trabalhar como vendedora em uma loja de materiais de construção, e não poderia estar mais contente com o salário. Finalmente, as coisas estavam melhorando.
Faltava uma semana para a chegada da inspetora, quando eu comecei a montar o quarto do pequeno Lucas. Eu havia esvaziado a sala que eu usava como depósito de caixas da mudança e levado tudo para a garagem. Quando terminei, fui para uma loja de móveis ali perto e comecei a escolher a nova mobília. Não comprei muita coisa, pois sabia que poderia reaproveitar os móveis da antiga casa onde ele morava com a mãe. Comprei apenas uma cama nova de solteiro, um colchão, um guarda-roupa pequeno e um tapete azul. Como os móveis iam chegar no meio da semana, aproveitei o final de semana e pintei o quarto com uma tinta branca que havia sobrado da última reforma que eu fiz quando cheguei naquela casa. Quando a tinta secou, coloquei uma linda cortina verde na janela. O quarto dele ficava de frente para a rua. Mas não me preocupei com o barulho, pois aquela não era uma vizinhança movimentada.
Na segunda-feira, comecei a trabalhar. Gostei bastante do lugar e de cara fui bem recebida. Às cinco da tarde cheguei em casa e mesmo cansada, comecei a arrumar a casa.Eu queria que estivesse tudo perfeito. Nada podia dar errado. Só parei para descansar quando percebi que estava prestes a desmaiar. Tomei um banho, comi e fui dormi. O dia seguinte foi tão movimentado quanto o anterior. Depois do serviço, passei em uma loja ali perto e comprei alguns quadros, que foram cuidadosamente pendurados na parede do quarto do meu novo hospede.
Na quarta-feira passei no mercado e fiz uma bela de uma compra para a casa. Fazia tempo que eu não gastava tanto dinheiro em comida. Comprei bastante doces e muitas frutas.
Na quinta-feira os móveis chegaram. Coloquei tudo no seu devido lugar.
Na sexta-feira passei em algumas lojas e comprei várias coisas. Desde lençóis para cama, abajur, vasos de plantas á roupas (que torcia para servir nele) e filmes. Também comprei dois livros infantis e coloquei em cima da cama dele. Á cada dia, eu ficava ainda mais ansiosa. Nunca tinha me sentido daquele jeito antes.
Por toda a semana, recebi vários telefonemas de amigos que me davam várias dicas sobre crianças. A notícia havia se espalhado como um vírus da gripe, mesmo sem eu ter contado para ninguém, com exceção da minha mãe. Mas eu não me incomodei com as ligações, na verdade estava até feliz vendo que todos pareciam torcer por mim. Isso me animava ainda mais. E para a minha felicidade, não recebi nenhuma ligação da minha mãe. O que me deixava muito grata.
Passei o final de semana todo limpando a casa. No domingo á noite aproveitei e entrei na internet para pesquisar sites que pudessem me ajudar. Encontrei centenas deles e passei a noite lendo aqueles textos. Quando terminei, eu estava me sentindo muito confiante. Crianças não eram mais um mistérios para mim, eu havia aprendido tudo que tem para aprender sobre elas. Sentia-me preparada e ansiosa.
Na segunda-feira tive que pedi para a minha patroa deixar eu chegar um pouco mais tarde no serviço, pois logo pela manhã receberia a visita da inspetora. Ela não se opôs, parecendo entender a minha situação.
Ás oito horas da manhã ouvi a campainha tocar. Desci as escadas correndo e após respirar fundo, abri a porta.
– Olá. Eu sou a Senhorita Teodora, a inspetora, você deve ser a senhorita... – Começou.
– Susan. – Falei com ansiedade, não conseguindo me conter. Sorri para ela e então apertei sua mão.
A moça a minha frente era uma senhora de aparência simples, mas formal. Ela deveria ter 45 ou 47 anos. Era de altura mediana e magra. Seus olhos eram verdes, mas não chamavam tanta atenção por causa dos óculos. Seus cabelos estavam presos e ela segurava um pequeno caderno de anotações. Havia um crachá na sua roupa.
– É um prazer conhecê-la. – Falou sorrindo.
– Também. – Concordei. – Por favor, entre e fique a vontade. – Falei dando passagem para ela entrar. – Eu aguardava a sua chegada com muita ansiedade. – Falei o obvio, com um sorriso educado. Ela avaliava a sala com olhos atentos.
– Você tem uma casa muito... bonita. – Disse indiferente. Meu coração acelerou.
– Por favor, sente-se – Falei apontando para o sofá, ela obedeceu. — Ela é provisória. Não penso em ficar muito tempo aqui. Logo me mudarei para um lugar mais confortável. – Disse, não dando espaço para incertezas.
– E a senhorita está pensando em se mudar para longe? – Perguntou, lançando-me um olhar penetrante. Gelei.
– Não. Apenas um lugar mais confortável. Esse é um bom bairro, tentarei encontrar uma casa aqui perto. – Falei, percebi que ela pareceu gostar da minha resposta.
– De acordo, o menino não se sentirá bem com tantas mudanças em um período de tempo tão curto.
– Eu sei. – Falei sorrindo. – A senhorita deseja uma xícara de café? Eu acabei de fazer. – Perguntei.
– Não, mas obrigado. – Seus olhos deslizaram pelas escadas. – Quantos cômodos tem essa casa? – Perguntou.
– Bom, são dois banheiros, uma sala, uma cozinha, dois quartos... Seis. Seis cômodos. – Informei.
Ela escreveu algo no seu caderno.
– Eu poderia conhecê-los? – Perguntou. Eu já esperava aquela pergunta.
– Sim, é claro. – Me levantei e andei até a cozinha, ela me seguiu. – Essa é a cozinha. – Falei. Ela andou até o centro, prestando atenção em tudo.
– Onde estão os utensílios cortantes? – Questionou calmamente, me encarando.
Andei até a gaveta do armário.
– Eu coloquei todas aqui, nessa gaveta. Por segurança, eu a tranquei com uma chave. – Falei.
– E onde está essa chave?
– Eu guardei dentro desse pote, em cima da geladeira. – Disse. – Penso que essa altura é boa, ele não deve alcançar.
– Sim, está sim. Só tome cuidado para não esquecer ela (a chave) em cima da pia ou em outro lugar que a deixe a mostra. E mude sempre o lugar onde ela está, pelo menos, uma vez por mês.
– Sim, não se preocupe. – Falei. – Ah, e eu deixo sempre o gás desligado. E também passei na feira e comprei várias frutas... – Apontei para a mesa. – A senhora quer uma? – Ofereci.
– Não, obrigado. Mas é bom saber que você teve essa preocupação. Frutas são muito importantes para o desenvolvimento de uma criança. Se mal me pergunte, eu posso ver a sua dispensa? – Perguntou.
– Claro. – Abri os armários – Como a senhora pode ver, eu fui ao mercado e comprei tudo que é necessário.
Ela escrever novamente no caderno.
– Tudo bem. Agora podemos ver o resto da casa?
– Sim. – Falei, não escondendo a felicidade.
Subimos as escadas.
– Esse é o meu quarto. – Falei, abrindo a porta. Ela não fez nenhuma pergunta. – E esse é o quarto dele. – Disse. Ela entrou.
– Vejo que você comprou alguns livros para ele. – Comentou, com tom de aprovação. – Hum... Está ótimo. – Falou, e então sorriu para mim. Quase pulei de alegria. Aquela era exatamente a reação que eu esperava.
– Obrigado. – Falei, tentando me conter.
– Onde fica o banheiro? – Perguntou. Levei-a para o corredor.
– É esse aqui. – Abri a porta. Ela entrou. – O chuveiro é quente. Eu coloquei as laminas de barbear, as tesouras e os remédios separados, dentro de uma gaveta que também é trancada.
– Onde está a chave? – Perguntou.
– No meu quarto. – Falei.
– Tudo bem. – Ela abriu o armário.
– Eu comprei uma escova de dente nova para ele. É essa que está fechada. Também comprei uma toalha nova. Está no quarto dele. – Disse orgulhosa.
– Vejo que a senhorita pensou em tudo. – Falou, fiquei envergonhada. – Parabéns.
– Obrigado.
Ela saiu do banheiro.
– Ah, eu queria saber... O quarto dele e o banheiro possuem tranca? – Ela perguntou.
– O quarto dele ainda não, mas eu vou colocar logo. O banheiro tem. – Falei, havia me esquecido disso.
– Tudo bem. – Ela disse. – Você disse que tem outro banheiro, não disse?
– Ah, sim. Esse é lá embaixo, na sala.– Descemos as escadas.– É esse aqui. – Falei. Ela entrou.
– O chuveiro funciona? – Perguntou.
– Sim, mas ele não é tão quente quanto o do segundo andar. Eu não guardo nenhum remédio aqui. – Falei.
– Hn... – Murmurou.
Saímos do banheiro e fomos nos sentar novamente no sofá, ela disse que ainda tinha algumas perguntas para me fazer.
– Eu percebi que você tem apenas uma televisão... – Começou.
– Na verdade, tenho outra que está no concerto.Ela vai ficar pronta amanhã. – Informei.
– Imagino que seja a do seu quarto...
– Sim. – Concordei. – Eu não quis comprar outra porque estou pensando em trazer uma da casa que ele morava com a mãe. – Falei.
– Hn... Bom. – Aprovou. – Você já visitou essa casa? – Perguntou.
– Ainda não. – Admiti.
– Tudo bem. – fez uma pausa. – A senhorita está trabalhando?
– Sim, eu comecei há pouco tempo a trabalhar como vendedora em uma loja de matérias de construção.
– Hn... Está escrito aqui na sua ficha que você fez faculdade de jornalismo, é verdade? – Perguntou.
– Sim, isso mesmo.
– E você pretende seguir a profissão?
– Sim, é claro. – Falei.
– Você quer trabalhar como repórter?
– Talvez... quem sabe? Mas o meu sonho mesmo é trabalhar como apresentadora em um jornal. Eu estudei para isso.
– Mas você já teve alguma experiência ou é mesmo só uma vontade?
– Depois que eu terminei a faculdade eu fiz um estádio em um canal local, ma não durou muito tempo.
– E porque não?
– Porque a emissora faliu. – Falei. Estava me sentindo em uma entrevista de emprego.
Ela anotou alguma coisa no seu bloco de papel.
– Você tem filhos?
– Não.
– Já foi casada?
– Já. Mas me separei recentemente.
– Quanto tempo durou esse relacionamento?
– Três anos.
– E porque terminou?
– Infidelidade.
– Da sua parte ou da dele?
– Da dele.
– Hn... – Ela anotou. – E você acha que deu algum motivo para ele fazer isso?
– Não.
Ela anotou.
– Atualmente, como é a sua relação com essa pessoa?
– Não nos falamos.
– Mas você acha que tem alguma chance de no futuro vocês voltar?
– Não.
– Tem certeza?
– Absoluta.
Ela anotou.
– Você está namorando?
– Não.
– Está saindo com alguém?
– Não.
– Está interessada em alguém?
– Não.
Ela anotou.
– Como é sua relação com a sua família?
– Boa.
– Poderia especificar?
– Bom, — respirei fundo – eu me dou muito bem com todos os meus tios...
– Quantos tios você tem? – Perguntou, me interrompendo.
– Dois por parte de mãe e um por parte de pai.
Ela anotou.
– Eles tem filhos?
– Sim.
– Os três?
– Sim.
– Você se dá bem com os filhos deles?
– Sim.
– Como é sua relação com o seu pai?
– Meu pai morreu quando eu tinha oito anos.
Ela fez uma pausa.
– Sinto muito. E como é sua relação com a sua mãe?
Senti meu coração disparar.
– Razoável. Ela tem um gênio muito... – suspirei. – Ela me ama. – Falei por fim.
– Como ela reagiu quando soube que você ficaria com a guarda desse menino?
– Ela ficou aliviada – Menti — Ela gosta muito desse menino, não queria que ele crescesse em um orfanato.
– Ela é solteira?
– Não.
– Casada?
– Sim.
– Você se dá bem com o marido dela?
– Sim. – Menti. – Ele é uma boa pessoa.
– Você tem irmãos?
– Sim, uma irmã mais nova.
– Vocês se dão bem?
Não! Pensei.
– Claro.
– Como ela reagiu quando soube que...
– Ela não sabe. – Interrompi.
– E porque não?
– Por que... – refleti por um instante. – Ela mora em Salvador e está grávida de sete meses. Não quis preocupá-la com essa notícia.
– E porque ela teria motivos para se preocupar? – Questionou.
– Se eu falasse, ela iria querer vir para cá. – Menti — E como ela está grávida e prestes a receber o bebe, eu achei melhor adiar a notícia, pelo menos, por enquanto.
– Hn... Ela tem outros filhos? – Perguntou.
– Sim, mais dois.
– Você é uma boa tia?
– Sim, eu amo os meus sobrinhos. – Falei com um sorriso enorme. Aquilo era verdade.
Ela anotou.
– Como a sua mãe trata os seus sobrinhos? – Perguntou.
– Ela adora eles. Está sempre os mimando. Nunca vi uma vovó mais carinhosa com os netos. – Aquilo também era verdade.
Ela anotou.
– Como é sua relação com a sua patroa?
– Respeitosa. Ela é uma patroa muito boa. – Disse com sinceridade.
– Você tem muitos amigos?
– Sim. Graças a Deus, eu tenho sim.
– Você recebe muitas visitas?
– Às vezes, é mais comum em feriados.
– Você é católica?
– Sou.
– Freqüenta sempre a igreja? – Perguntou.
– Confesso que faz algumas semanas que eu não vou. Mas eu gosto muito de ir às missas.
Ela anotou.
– Você se considera uma pessoa equilibrada?
– Sim. É muito difícil eu perder a paciência.
– Você gosta de crianças?
– Sim.
– Como você lida com momentos difíceis?
– Com calma e paciência. Eu acredito que tudo tem uma razão de ser. Nada é por acaso. – Sorri, ela também sorriu.
– Boa resposta. – Falou. – Bom, você costuma viajar bastante?
– Só nas férias.
– Pra onde você gosta de ir?
– Para a praia.
– Você é uma mulher cuidadosa?
– Sim.
– Já passou por algum trauma ou acidente...?
– Não. – Falei imediatamente.
Ela anotou.
– Você se considera uma boa filha? – Perguntou.
Eu não entendia para que tantas perguntas. Mas continuei respondendo com educação.
– Sim, sempre fiz tudo para ajudar a minha mãe.
– Você bebe?
– Não.
– Fuma?
– Não.
– Usa drogas?
– Não.
– Mas já usou?
– Não, nunca.
– Já esteve envolvida em alguma briga ou discussão?
– Não, jamais.
– Já foi presa?
– Não.
Ela parecia anotar tudo o que eu falava.
– Já foi processada?
– Não.
Ela fez uma pausa.
– Qual o seu pior defeito? – Perguntou.
– Eu... – refleti. – Bom, acho que é o orgulho.
– Você tem algum tipo de preconceito?
– Não, eu odeio preconceito.
– Qual a sua opinião sobre pessoas homossexuais?
– Eu acho que o importante é a pessoa se sentir bem e feliz, não importa a opção que ela decide ter, pois isso é algo que só cabe á ela decidir. Ninguém deve opinar na vida de ninguém.
– Nem os pais? – Perguntou.
– Nem eles. – Respondi com certeza. – Se eles amam os filhos de verdade, devem compreender tudo o que eles fazem, mesmo discordando completamente.
Ela retirou os óculos e então me encarou.
– Bom... Parabéns. Você me parece ser uma pessoa bastante inteligente e razoável. Muito bom. Tenho certeza que você está qualificada para ser mãe. – Ela sorriu.
“Graças a Deus!”
– Muito obrigado senhora! Fico muito feliz ouvindo isso. – Falei aliviada.
Ela se levantou. Eu fiz o mesmo.
– Acho que já está bom por hoje. – Informou. – Eu voltarei na quarta-feira, para trazê-lo comigo. Foi um prazer conhecê-la. – Ofereceu a mão para mim.
– Digo o mesmo. – Apertei a sua mão. – Senhora, você poderia me dizer como foi a reação dele quando ficou sabendo? – Eu tinha que perguntar.
– Ele não disse nada, mas pareceu ficar contente. De todo modo, sei que ele vai ficar bem. – Falou.
Suspirei.
– Muito obrigado. Eu vou fazer de tudo para que ele fique. Sei que vai ser difícil, mas acho que estou preparada.
– Eu sei que você está.
A levei até a porta.
– Chegaremos às sete horas da noite na quarta-feira. Esteja preparada.
– Eu estarei. – Falei.
– Até breve...
– Até. – Esperei ela entrar no carro e ir embora, para então fechar a porta. E então não agüentei, cai com toda força no sofá, sorrindo de tanta satisfação. Meu coração só faltando sair pela boca.
– Obrigado meu Deus! Obrigado! – Agradeci.
Tudo vai dar certo... Disse para mim mesma.
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