Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

3 Capítulo dois - Mais um minuto e eu a esgano.


Notas iniciais
Desculpe pelos erros...

Capítulo dois – Mais um minuto e eu a esgano.


Ela sempre foi e sempre será a mulher mais bonita que eu conheço, e por mais esquisito que soe dizer isso... A morte lhe caia muito bem. Deitada ali naquela maca, ela era de longe a imagem mais encantadora que eu já vira em toda a minha vida. Sua pele pálida cintilava, enquanto seus cabelos negros pareciam mais vivos do que nunca. Ela não podia estar morta... Pois como pode um morto sorrir? Sim, eu sempre reconhecerei o seu sorriso, aquela era sua marca registrada. Ela parecia um anjo, e por mais duro que seja morrer ela ainda conseguia transparecer que estava conformada... e que se sentia bem com a nova situação, como se mesmo após deixar aquele corpo parte de sua alma continue querendo se comunicar. “Você se acha a dona da razão, mas no fundo não passa de uma grande tagarela” lembro-me de repetir isso centenas de vezes para ela... O ser humano é mesmo uma caixinha de surpresas. Eu sempre reclamei da falação desenfreada de minha amiga, e hoje daria os meus dois braços e as minhas duas pernas para escutar a sua voz outra vez. Ela sempre sabia o que dizer, e certamente esse é o momento em que mais precisei de um de seus conselhos, mesmo que fosse um: “Toupeira (que é como ela me chamava), saia correndo daí, pegue seu carro e dirija até a cidade mais próxima, encontre um gato bem sarado e então passe a noite com ele”. É, definitivamente isso é a cara dela.

Sorri.

- Ela está sempre sorrindo. – Disse. O médico olhou para mim parecendo curioso, mas decidiu não perguntar nada.

“Vou sentir sua falta, amiga. Descanse em paz.”

Senti a lágrima rolar de meus olhos e molhar a minha mão.

O médico me levou de volta até a recepção, onde tomei um copo d’ água para me acalmar. Eu mal conseguia pensar... Mal conseguia respirar. Finalmente eu tinha entendido. Nunca mais iria vê-la de novo. Aquele era o fim da nossa amizade. Dez anos sem vê-la e quando finalmente encontro, ela está morta. Isso não é justo. A vida não é justa. Mas o que mais me assustava era o pensamento que, um segundo antes de morrer, ela pudesse ter sofrido. Será que ao menos ela percebeu o que estava acontecendo? Será que ela sabia que aquele era o seu fim? Mas como poderia saber? Um minuto estava tudo bem e no outro... só escuridão.Era como piscar e perceber que nesse curto período de tempo, você havia morrido. Sem se despedir de ninguém e sem ao menos pedir a Deusque cuidasse da sua alma e que perdoasse seus erros.

- Está tarde, é melhor eu ir. Preciso descansar, tive o pior dia da minha vida.

- Faça isso. O representante chegará no Rio apenas à tarde, parece que ele precisa organizar as papeladas, não há necessidade de passar a noite no hospital. Senhorita desculpe a pergunta, mas você não pensa em dirigir nessas circunstâncias, não é? Está chovendo muito lá fora, você estaria se arriscando muito.

- Não, eu irei procurar um hotel para passar a noite, não tenho condições de pegar no volante, mas obrigado pela preocupação.

- Não a dê que, faz parte do meu trabalho. Caso precisemos entrar em contato com a senhora, para qual número de celular deveremos ligar?

Peguei o meu cartão na bolsa de mão que carregava e entreguei a ele.

- Ligue para o segundo telefone, eu irei atender imediatamente. Muito obrigado por tudo doutor, não tenho como agradecer o senhor.

- Como eu já disse, faz parte do meu trabalho. Boa noite e com licença.

Ele sorriu e então virou de costas e começou a caminhar, logo não podia mais vê-lo. Sai do hospital e dirigi por dois quarteirões, até estacionar onde lembrava ter visto um hotel horas antes. Pedi um quarto qualquer e peguei o elevador. Subi três andares. Abri a porta do quarto e acendi a luz. O hotel era uma espelunca, mas não me importei. Passei algumas horas sentada no sofá olhando para a televisão desligada, até que decidi tomar um banho. A água do chuveiro estava morna. Não havia molhado o cabelo. Me sequei e então vesti o roupão. Sai do banheiro e fui me deitar na cama. Me cobri com o edredom e fiquei em silêncio por mais trinta minutos.

Estava tarde, mas eu precisava fazer isso.

Sai da cama e peguei a minha bolsa, e de dentro retirei o meu celular. Disquei o número e esperei até que alguém atendeu.

- Alô? – Reconheci a voz do meu padrasto, Matheus.

- Posso falar com a minha mãe? – Não tinha motivos para enrolar.

- Boa noite para você também Susan... – Resmungou. – Acho melhor deixar a sua mãe descansar, ela não está se sentindo muito bem.

(E quando ela está se sentindo bem?)

- É muito importante, preciso falar com ela.

- O que é tão importante que não pode esperar até amanhã de manhã? – Ele parecia nervoso, percebi que devia tê-lo acordado.

- Por favor, Matheus, o assunto é muito sério.

Ele resmungou alguma coisa, mas não consegui entender o que foi.

- Espere um minuto. – Disse, e então se fez silêncio, até que outra voz surgiu.

- “Essa menina é mesmo uma desajuizada... Como pode me ligar a essa hora!” ouvi a voz da minha mãe distante, como se houvesse alguém abafando o som, o que certamente era verdade. Ela deveria estar de péssimo humor.

(E quando ela não está de péssimo humor?).

- O que você quer? – Perguntou com a voz áspera.

- Mãe... Desculpe-me por estar te encomendando a essa hora... É que eu não podia esperar. – Ouvi minha voz tremer.

- Espero que seja algo muito sério mesmo! São Duas da manhã! Sei que você está desempregada, mas isso não significa que o resto do planeta também seja um pando de desocupado! Eu passo o dia me matando naquele escritório e o mínimo que eu peço é uma noite inteira de sono, mas vejo que nem isso você acha que eu mereço! Será mesmo que eu joguei pedra na cruz? Porque Deus está me punindo desse jeito?! Eu pago as minhas contas, vou à igreja todos os domingos, e mesmo assim...

- Mãe... – Interrompi, pois sabia que se não fizesse isso ela podia continuar o resto da noite.

- E para completar, não posso nem ao menos reclamar. Tenho que agüentar tudo calada, não é mesmo? Eu sou sua escrava! Porque você não pega o chicote e...

- Mãe, por favor, deixa eu falar....

- Você sabe que eu tenho insônia! Tomei dois remédios para conseguir dormir essa noite! Estou com as costas doendo e minha gastrite está atacada, fui ao hospital e só consegui marcar consulta para daqui cinco meses! Até lá eu já devo ter morrido mesmo de tanta dor! Essas porcarias de hospitais públicos não servem para nada, é só uma desculpa do governo para ficar roubando o nosso dinheiro! Eu preciso mesmo é conseguir pagar um convênio para mim, mas nunca sobra dinheiro para nada. Eu e o Matheus trabalhamos de domingo a domingo e nunca sobre dinheiro para nada! Eu mesma planejei uma viajem em janeiro para ir a Salvador e quem disse que eu consigo ir? E para piorar o desgraçado do padrão do Matheus não quer deixar ele tirar férias em Setembro! Esse povo só quer mesmo tirar proveito dos outros, só porque somos pobres! Esse país está perdido, ninguém respeita mais ninguém. Ontem mesmo eu estava no mercado quando uma mulher, daquelas bem feias, chegou em mim e disse com a maior cara-de-pau que eu tinha que comprar um...

- Mãe, a Anabela morreu. – Falei de uma vez, sabia que aquela não era a melhor maneira de dizer, mas foi o único jeito que eu consegui pensar.

E então, pela primeira vez, ela ficou em silêncio.

- Mãe? – Perguntei depois de alguns segundos, para me certificar que ela continuava ali.

- O-o que você disse?

- Hoje recebi uma ligação do hospital, parece que um motorista bêbado bateu na traseira do carro dela, o carro saiu da pista e bateu em um poste, o motorista e ela morreram na hora. Encontraram o meu telefone na bolsa que estava com ela.

- E que horas foi isso?

- O acidente foi de madrugada, mas me ligaram hoje de manhã.

- E só agora você me avisa?!

- Mãe... Por favor, entenda, eu fiquei desesperada, não consegui pensar direito. A única coisa que consegui fazer foi pegar o carro e dirigir direto para o hospital! Desculpe-me se eu não avisei, mas não tinha nada que a senhora pudesse fazer... E eu não sabia como dar a notícia, sei que você também gostava muito dela.

- Ela era como uma filha... – Disse, senti a emoção na sua voz, ela estava tentando ser forte.

- Eu sei.

- Você a viu? – Eu sabia que ela estava chorando.

- Sim.

- Ela estava muito machucada?

- Muitas feridas no corpo, mas pouquíssimas no rosto. Ela estava linda.

- Ela sempre foi linda... – Fez uma pausa – Meu Deus... – Ouvi a voz de Matheus distante, falando com ela, tentando acalmá-la. Eu sabia que não devia ter dado a notícia por telefone, mas a conheço muito bem para saber que ela me mataria se eu demorasse mais um segundo. – Onde é o hospital? Eu irei ai agora mesmo!

- Não! Não vai adiantar em nada! Esta chovendo muito, você não pode vir para cá agora! É muito perigoso. Por favor, espere até amanhã!

- Menina, você não está entendendo... Eu não pedi a sua permissão! Se eu disse que eu vou é porque eu VOU! Sou maior de idade e tenho consciência dos meus atos, não sou igual a você! Agora me passe o endereço desse hospital!

- Eu não posso. Já basta a morte dela, não quero que você se mate também!

- Menina, não me desobedeça! Eu sei o que estou fazendo!

- Não, você não sabe! Você está nervosa! Espere até amanhã, eu irei te ligar e passarei o endereço!

- Você está louca, eu vou de qualquer jeito, não adianta você... – Escutei um barulho, e então outra pessoa atendeu o telefone.

- Eu avisei que você deveria ter esperado até amanhã. – A voz de Matheus me assustou. – Agora ela ficará descontrolada.

- Amanhã eu ligo para passar o endereço.

- Ok. Agora terei que amarrar a sua mãe a cama para ela não fugir, muito obrigado Susan, obrigado mesmo.

Ignorei. Apertei a tecla do telefone e o joguei de novo na bolsa. Eu realmente devia ter esperado até amanhã, mas agora não adianta se lamentar, já está feito. Voltei para cama, estava me sentindo exausta, mas sabia que não iria conseguir dormir. Passei a noite pensando em Anabela, e em algum momento da madrugada não agüentei mais e chorei como nunca. O dia demorou a nascer. Obriguei-me a levantar da cama. Olhei no relógio, eram seis horas da manhã. Vesti a mesma roupa que tinha usado no dia anterior, escovei os dentes e penteei o cabelo com a escova de dente e o pente que graças a Deus coloquei na minha bolsa antes de sair. Sai do quarto e fui até a recepção, paguei o hotel e fui ao estacionamento. Dirigi até o hospital. Quando cheguei, estacionei o carro e antes de sair peguei o telefone e liguei para a casa da minha mãe. Matheus foi desagradável como sempre, mas disse que conseguiu convencer (Deus sabe lá como) a minha mãe a ficar até o dia clarear, passei o endereço e ele avisou que em aproximadamente cinco horas eles chegariam.

Sai do carro e entrei no hospital. Na recepção perguntei pelo doutor Roberto, mas a moça disse que ele estava atendendo um paciente e que iria demorar. Então perguntei o que eu tinha que fazer para conseguir o Atestado de óbito, para que assim eu conseguisse realizar o velório da minha amiga.

- A pessoa ou entidade que emitirá o atestado de óbito varia de acordo com as circunstâncias da morte. Se a morte foi: Naturale acontecer em um hospital ou for em casa,acompanhada por um médico, o próprio médico providenciará o atestado de óbito. E se for repentinaou ocorreu em casa,sem assistência médica, a família deveprocurar o distrito policialmais próximo e solicitar a remoção do corpo para o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). Neste caso é o SVO quem emitirá, depois dos exames, o atestado de óbito. E se foi causada por alguma ação violenta, deve-se procurar o distrito policial mais próximo para o registro da ocorrência e demais procedimentos policiais necessários. Após a polícia realizar todos os procedimentos necessários para esclarecimento e responsabilização dos culpados, o corpo, obrigatoriamente, será encaminhado para oInstituto Médico Legal (IML), sendo este órgão quem emitirá o atestado de óbito.

- E como eu faço para providenciar o velório?

- Depois de obter o atestado de óbito, a família ou responsável deve procurar a agência de serviço funerário municipal ou uma casa funerária, para contratar o velório e o funeral. Para contratar estes serviços, devem-se levar os seguintesdocumentosdo falecido: Laudo assinado por um médico para sepultamento.
No caso de cremação, dois médicos deverão assinar o laudo; Certidão de Nascimento ou Casamento; Carteira de Trabalho ou carnê do INSS (somente nos casos do falecido ser aposentado ou receber pensão ou auxílio-doença); Carteira de Identidade (RG).

- Mas e se eu não tiver nenhum desses documentos, só o laudo?

- Mesmo com a falta do documento, exceto do laudo médico, a realização da declaração de óbito pode ser feita.

- E depois do funeral eu ainda terei que providenciar a Certidão de óbito, certo?

- Exatamente.

- Tudo bem, muito obrigado pela informação. Tenha um bom dia. – Sorri e então sai do hospital.

Passei toda a manhã resolvendo a papelada. Foi difícil, mas um pouco antes do horário de almoço já estava tudo acertado. O velório estava marcado para as cinco horas da tarde, em um cemitério próximo. Por coincidência, recebi a ligação de Matheus quando estava dirigindo pela avenida do hospital. Eles chegaram bem, a viagem foi tranqüila, mas minha mãe sentiu um mal estar quando atravessavam uma avenida antiga, longe dali, porém, ela já se sentia melhor.

- Estou vindo do cemitério, resolvi tudo. O funeral será as cinco. – Falei, assim que me aproximei.

- Você está horrível. – Ela disse me lançando um olhar penetrante, mas ignorei, já estava acostumada com as provocações dela.

Minha mãe era uma mulher um tanto insuportável. Não gostava de nada e nunca sorria, além de sentir grande ódio de mim. Jamais me elogiava, na verdade, seu passatempo preferido era me tirar do sério. Entretanto, fisicamente éramos muito parecidas. Seus cabelos loiros estavam presos e ela vestia um vestido formal, não estava de maquiagem, o que ressaltava ainda mais seus olhos vermelhos e inchados. Se eu estava horrível, então ela estava péssima.

- Rosane pediu desculpas, mas não pode vir, está muito ocupada cuidando das crianças. – Falou Matheus, com seu tom calmo, sem olhar para mim. Ele sempre me ignorava.

Rosane era minha irmã mais nova, de vinte e quatro anos. A filha preferida da minha mãe. Ela sempre foi o orgulho da família. Linda, inteligente e principalmente... Ela já tinha filhos, o que claro, só fez com que ganhasse ainda mais pontos com a rabugenta da minha mãe. E como eu poderia competir com isso? Ela sempre ganhou ótimas notas na escola, foi líder de torcida, era popular e sempre namorou os caras mais cobiçados do colégio, e bem, e ela tinha Kevin, o marido mais perfeito que uma mulher podia querer, lindo, rico e super cavalheiro. Enquanto eu... Bom, eu não tinha nada, só um carro de segunda mão que ainda não foi completamente pago e uma casinha super apertada que foi alugada por um preço bem em conta, já que o ultimo inquilino morrera depois de cair da escada. Mas eu nunca tive medo de fantasma e mesmo se aquela casa fosse realmente assombrada pelo fantasma do ultimo inquilino eu não me importaria, pois ele poderia me fazer companhia, assim eu não me sentiria mais tão solitária.

- Claro que ela não veio. Ela nunca gostou de Anabela. – Falei seca, minha mãe pareceu ofendida.

- Não diga bobagem! Ela não veio porque ao contrario de você ela tem muitas responsabilidades!

- Tudo bem mãe, eu não vou discutir com você por causa disso. Se você diz que é isso, então não vai ser eu que vou discordar.

- Exatamente. Faça isso. Você nunca teve coragem de defender a sua opinião mesmo... Está sempre concordando com os outros, como se fosse um macaco treinado.

- Mãe, por favor, até em uma hora como essa você tem que agir assim? Tenha pelo menos a decência de respeitar a minha dor.

Ela não respondeu.

- E então, o que faremos agora? – Perguntou Matheus.

- Bom, como está no horário de almoço, acho melhor irmos almoçar em algum lugar. Eu terei que estar aqui à tarde, mas ainda tenho um tempo livre. Estava pensando em ir para minha casa, lá poderemos almoçar e eu poderei trocar de roupa. E se vocês quiserem, poderão descansar da viagem também.

- Como você pode pensar em comida em uma hora como essa? Deve ser por isso que engordou desse jeito, está parecendo uma jamanta! Eu não quero ir a lugar nenhum! Eu só quero ver o corpo de Ana, por isso pedi o endereço do hospital. Se eu quisesse ir para a sua casa eu teria ido e não estaria aqui! Agora vamos Matheus, está começando a garoar. – Disse, começando a entrar no hospital. Revirei os olhos. Ela conseguia me deixar louca.

- Ela não está mais aqui. O carro funerário já veio buscá-la. Eles iram prepará-la para o velório. Se você quiser, pode ir até o cemitério, mas eu vou para casa. Além do mais, tem uma coisa muito importante que eu preciso dizer para você.

- Coisa? Que coisa? – Ela rapidamente virou-se para mim.

- Não dá para dizer aqui, mãe. É muito sério.

- Não me diga que você voltou com o Rogério? – Perguntou Matheus, olhando pela primeira vez para mim.

- Não, não tem nada a ver comigo, tem a ver com a Ana.

- Tudo bem, já que é assim, então eu vou até a sua casinha. – Disse ela, parecendo contrariada.

Dirigimos por quase uma hora, eu no meu carro e eles no carro deles. Eu estava completamente agradecida por estar sozinha. Sabia que se passasse mais um segundo ao lado daquela mulher eu iria esganá-la com as minhas próprias mãos.

A chuva se intensificou.

Chegamos em casa por volta das 1:00 da tarde. Ajudei a minha mãe a fazer o almoço e enquanto a carne dourava no forno, fui tomar meu banho. Quando vi meu reflexo no espelho do banheiro, tive certeza que aquela não era eu. Vesti uma roupa quente e desci as escadas. A comida já estava cheirando. Comemos todos em silêncio, ninguém dizia nada, além da minha mãe que só abria a boca para comer e para reclamar que a carne estava muito dura e se caso algum dente dela quebrasse eu teria que arcar com o tratamento dentário. Depois do almoço eu lavei a louça, enquanto eles assistiam à televisão na sala.

- “Olha para essa pintura... Que tragédia. Ela não tem coragem nem de contratar alguém para dar um jeito nessa parede. E esse sofá? Tem tantos buracos que tenho medo de sentar e cai dentro de um e ficar presa ai para sempre. Olha só a moldura desse quadro, parece uma que vi vendendo na lojinha de 1,99 perto da minha casa... Que mau gosto. E essa televisão? Quase não dá para ouvir o apresentador falando de tanto chiado! Pelo amor de Deus... Esse não é o radio que a nossa vizinha deu para ela no Natal, é? Está cheio de poeira! Mas que menina desmantelada, não cuida de nada! Você tinha que ver Matheus, quando ela morava na minha casa toda semana eu tinha que mandar arrumar a porta do guarda-roupa dela, porque ela atava sempre quebrando! Parece que faz de propósito! Só para me ver irritada...” a ouvia dizer.

Respirei fundo, me concentrando na louça suja. Ela não iria me atingir.

Como aquele homem pode agüentar essa mulher todo dia? Não me admira que meu pai tenha se suicidado quando eu tinha oito anos... No lugar dele eu teria feito a mesma coisa. Ela é insuportável!

Fechei os olhos, desejando que a louça não tivesse acabado. Eu não queria ter que olhar outra vez para aquela mulher! Ela não pode ser minha mãe... Está mais para castigo!

Adentrei a sala com cautela.

- Ah, então você está ai? Não acredito que levou todo esse tempo para lavar duas panelinhas! Você me envergonha! E que sapato é esse? Comprou de algum mendigo?

- Silvia, por favor, parece que ela tem algo de importante para nos dizer. – Disse Matheus, eu mal acreditei. Desde quando meu padrasto se preocupava com o que ela dizia ou deixava de dizer para mim?

Sentei na poltrona próxima à eles. Tomei fôlego.

- Ontem quando fui para o hospital o médico me fez uma grande revelação. A Ana tem um filho de nove anos... Ele está aqui no Rio. E como ela não tem nenhum parente vivo... o menino irá para um orfanato.

- E onde está o pai da criança? – Perguntou Matheus. Minha mãe não se mexia.

- Ninguém sabe. Na certidão de nascimento não consta o nome do pai.

- Esse menino... Ele já ficou sabendo?

- Não, ainda não mãe. Um representante do juizado de menor ficou responsável de buscá-lo hoje, mas não sei se será ele que dará a notícia.

- Minha Nossa Senhora... – Murmurou ela, percebi algumas lágrimas nos olhos dela.

- Você tem o telefone desse advogado? – Perguntou Matheus.

- Não, mas eu irei ligar para o hospital, eles poderão me dizer aonde devo encontrar com esse advogado.

- E está esperando o que? Anda menina, vai buscar o celular! – Falou.

Peguei a bolsa e retirei o celular. Procurei pelo número do hospital e então esperei até que alguém atendesse.

- Alô?

- Alô. Eu poderia falar com o Dr. Roberto?

Notas finais
Sabe o que seria legal? Um comentário. Que tal deixar um e fazer um autora feliz?