Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
18 Capítulo dezessete - Recomeço
Capítulo dezessete. – Recomeço.
No dia que antecedia o Natal eu estava acabada, havia trabalhado muito naquela semana e não tinha cabeça para comemorações, mas mesmo assim minha amiga não parecia disposta a ceder aos meus caprichos.
– É claro que você vai levá-lo para jantar na minha casa! – Ela gritou nervosa com a minha persistência.
Eu mal reconhecia a mulher na minha frente. Karol estava com sete meses de gravidez e sua barriga já estava enorme, o que fazia ás vezes eu me perguntar se ela não seria mãe de gêmeos. E mesmo com todo aquele sobrepeso, estrias, cólicas e chutes internos de um futuro jogador da seleção, ela ainda conseguia estar linda. Sua beleza era radiante, e infectava a todos com um vírus, ela era bela de uma forma angelical e doce, que fazia todos querer protegê-la. Não tinha como resistir à beleza de uma grávida.
– Mas vamos ficar apenas um pouco, entendido? – Falei suspirando. Ela riu.
– Claro que não! Você e eu vamos passar o dia juntas, e isso é uma ordem! Quero fazer um verdadeiro banquete e você vai ter que me ajudar, até porque eu estou grávida e não posso me esforçar. – Ela se sentou no sofá.
Revirei os olhos.
– Ah, ta. Agora eu entendi. Você quer que eu faça tudo sozinha! Mas fique sabendo, sua grávida gulosa, que não vai ser bem assim! Eu posso até ir e posso até te ajudar, mas quem vai fazer o peru é você!
Ela cruzou os braços.
– Você é tão...
– Maravilhosa? – Completei.
– Não é isso que eu ia dizer. – Falou desgostosa. Gargalhei. Ela me olhou irritada. – Susan, pelo amor de Deus, não tem nada para comer nessa casa? Estou morta de fome! – Olhei perplexa para ela.
– Cara de pau, como você pode dizer isso? Você acabou com o meu pudim! E não deixou nem um pedaço para mim! – Ela cruzou os braços.
– Eu te fiz um favor. Você está precisando entrar em um regime urgente!
Gargalhei.
– Olha quem está falando. A senhora cento e cinqüenta kilos!
– Eu estou grávida, e não estou pesando tudo isso!
– Agora não, mas se continuar devorando as comidas desse jeito eu não duvido muito!
– Engraçadinha. Fique sabendo que a minha nutricionista até me elogiou. Ela disse que se eu continuar assim, vou recuperar a minha forma física em questão de meses.
– Sim. Sessenta meses.
Ela riu.
– Não exagera. – Sua mão foi para a barriga – Eu não tenho culpa que o Fernando é viciado em doces.
– Ele nem nasceu e você já está colocando a culpa nele... Veja que ótima mãe você vai ter Henrique. – Ela me olhou feio.
– O nome dele é Fernando e não Henrique. – Corrigiu.
– Não foi isso que o Felipe me disse.
– O Felipe é um idiota. O filho é meu, eu escolho o nome.
Eu gargalhei.
– Tudo bem, mas qual é o problema com Henrique?
– O problema nesse nome é que não é o nome do MEU filho. Ele vai se chamar Fernando, está decidido. – Ela empinou o nariz.
Refleti por um momento.
– E porque você não coloca Fernando Henrique? Assim os dois ficam felizes e não tem mais briga. – Ela me encarou como se eu fosse uma doente portadora de um vírus altamente contagioso.
– Colocar dois nomes em uma só pessoa?
– Sim, isso é muito comum.
Ela respirou fundo, olhando para a televisão.
– Você está louca. Meu filho não vai ter dupla personalidade.
Eu ri do seu comentário.
– Com você como mãe, eu estranharia mesmo é se ele não tivesse.
(...)
No dia seguinte, bem cedo pela manhã, fui acorda com uma voz me chamando.
– Susan... – Abri os meus olhos.
– Lucas? – Ele sorriu. Pisquei algumas vezes até que a minha visão se adaptasse a claridade. – Aconteceu alguma coisa? – Perguntei, me sentando na cama. Ele estava todo arrumado, e cheirava a perfume.
– Feliz Natal! – Disse, estendendo um embrulhe para mim.
– Você comprou um presente para mim? – Perguntei impressionada. Ele assentiu.
– A Karol me ajudou, mas eu que escolhi. – Disse orgulho. Peguei o embrulhe e abri. – Espero que você goste... — Olhei para o livro em minhas mãos, meus olhos se enchendo de lágrimas. – Eu sei que você gosta de jornalismo e quando eu vi esse livro, tive certeza que era para você.
– Lucas... é perfeito. – Falei sorrindo. – Eu sempre quis ler esse livro... Sempre. Mas nunca consegui achá-lo a venda. Você adivinhou. – Olhei para a capa. “O Jornalismo Em Nossas Vidas – Brincando de Contar Histórias”. – Obrigado... – O abracei. – É o presente mais bonito que eu já recebi... E significa muito para mim, ainda mais vindo de você. – Ele retribuiu o abraço. – Obrigado. – Repeti. Ele sorriu. – Bom... Mas agora é a minha vez. – Me levantei, secando o meu rosto. Caminhei até o meu guarda-roupa e abri a minha gaveta, peguei o embrulhe e entreguei para ele. – Feliz Natal.
Ele me olhou com os olhos brilhando.
– Não precisava...
– Claro que precisava. – Afirmei. Ele pegou o presente, se sentou na minha cama e então abriu. Eu fiquei em pé, observando com expectativa. Sorri quando ele sorriu.
Eu tinha comprado para ele uma coleção de pincéis, pois sabia que os que ele tinha não estavam tão novos assim e alguns soltavam farpas que podiam machucá-lo. Além disso, também havia comprado dois livros sobre dois pintores ingleses que eu sabia que ele gostava muito.
– Adorei. – Ele começou. – Muito obrigado. Deve ter custado caro...
– Eu pagaria o dobro só para ver esse seu sorriso.
Ele se levantou e me abraçou com força, quase me derrubando.
– Muito obrigado ‘Sul’... Muito obrigado. – Sorri com o apelido.
Quando nos separamos, eu perguntei:
– Nossa, mas agora que já entregamos os presentes, posso saber aonde você vai chique assim? – Ele franziu o cenho.
– Pensei que iríamos para a igreja... Você não lembra? Você disse ontem antes de dormir.
– Ah, é, claro. – Eu não me lembrava. – E... Que horas são agora?
– Oito.
– Ótimo, então eu ainda tenho uma hora...
Ele pegou os pincéis e os livros.
– Vou ficar te esperando na sala. Obrigado de novo pelos presentes. Eu amei. – Disse saindo do quarto.
Quando estava sozinha, caminhei até a minha cama e peguei o livro. Sorri lendo o título novamente.
– A Karol deve ter dito que eu queria ler esse livro, não é possível que ele tenha adivinhado...
(...)
Ás oito horas da noite, já estávamos todos envolta da mesa, nos deliciando com os pratos saborosos que demoraram a tarde inteira para ficarem prontos. Havia de tudo ali, peru, carnes, massas, frutas, saladas, farofas, queijos, e etc. Tudo que se espera ter em uma mesa natalina. Estávamos fazendo o nosso próprio dia de açãodegraças e eu via o meu regime ir por água a baixo enquanto colocava mais arroz no meu prato.
Enquanto as mulheres preparavam o jantar, os meninos ficaram incumbidos de dar os últimos toques na decoração. O Lucas passara a tarde inteira decorando o grande pinheiro que a Karol fizera questão de comprar, enquanto o Felipe pendurava luzes pela casa, tendo que subir em uma escada enorme para conseguir. Em tempos em tempos, a Karol saia da cozinha para examinar como estava ficando o trabalho dos dois, não economizando nas críticas construtivas e algumas destrutivas, mas elogiando também quando eles mereciam.
Um pouco antes das sete, quando tudo já estava pronto, foi a hora dos presentes. E evidentemente, a futura mamãe foi a que mais recebeu. Comprei para ela um vestido e uma calça jeans. O vestido ficara bonito nela, e valorizava a sua barriga, mas a calça não tinha nem chances de entrar nela, e eu fizera isso propositalmente, comprando um número muito menor daquele que ela usava mesmo antes de estar grávida.
– Você pirou? Eu não entro nisso de jeito nenhum. – Disse colocando a calça na frente do corpo, deixando claro a diferença entre as duas cinturas.
– Eu sei. E foi por isso que eu comprei. Não estou te dando só uma calça, eu estou te dando uma meta. Não sei se você percebeu, mas nesses últimos meses você tem sido uma verdadeira chata – ela torceu o nariz – com o seu marido; e para se redimir, depois do nascimento do bebe, o mínimo que você terá de fazer, é conseguir um corpo melhor do que aquele que você tinha antes de engravidar. Assim quem sabe, o Felipe não se separa de você. – O futuro papai gargalhou, e ela olhou feio para ele.
– Você concorda com isso? – Ela falou com a voz rancorosa, cruzando os braços.
Ele se levantou e andou até ela.
– Querida, eu te amo de qualquer jeito, mas até que não seria uma má idéia... – Ele riu e depois a beijou com paixão.
Depois do jantar, os três – Lucas, Felipe e eu – lavamos a louça, e como a senhorita “Não poço fazer esforço” não estava se sentindo bem – talvez por causa da quantidade absurda de comida que ela havia ingerido -, achamos melhor deixá-la descansar no quarto. Eu fiquei responsável por ensaboar os pratos, enquanto o Lucas secava e o Felipe guardava. Com o bom trabalho de equipe, logo a montanha assustadora de louça suja foi derrotada. Exaustos, fomos assistir televisão na cozinha. Percebi que já passava das dez da noite. Sentei-me no sofá, sentindo minhas articulações doerem.
– É... Até que foi um dia produtivo. – Falei. Felipe ligou a tv. Olhei para o Lucas, ele estava com os olhos fechados por causa do sono, mas sorria.
– Foi mesmo. – Disse Felipe, prestando atenção no que a moça do tempo dizia.
– Você vai trabalhar amanhã? – Perguntei, ele me olhou, depois olhou para a escada que dava para o segundo andar e deu de ombros, como se dissesse “Não sei”.
– Só se ela estiver melhor.
Sorri.
– É, o Henrique está dando trabalho para ela, não é mesmo?
– Fernando. – Ele corrigiu quase que automaticamente. – Decidimos que ele se chamará Fernando.
Franzi o cenho.
– “Vocês decidiram” ou ELA decidiu. – Indaguei com uma sobrancelha erguida. Ele apenas sorriu.
– Não vejo à hora desta criança nascer... – Ele se esticou no sofá.
Olhei para os seus olhos, eles pareciam brilhar de orgulho só de tocar no assunto da paternidade. De certo modo, aquilo me fez sentir mal. Afastei esse sentimento de mim. Eu não queria sentir inveja. Não inveja deles.
Respirei fundo.
– Eu vou... Vou dizer tchau para ela. – Me levantei — Será que ela já está dormindo?
– Não sei não, Susan... Mas sobe lá, com sorte ela ainda está acordada.
– Tudo bem.
Segui para as escadas. Já no segundo andar, me deparei com um longo corredor. O quarto do casal ficava no final do corredor, porém, percebi que havia algo anormal ali. No cômodo anterior ao quarto de Karol, onde antes ficava o seu escritório, eles transformaram em um lindo quarto de bebe. Percebi isso por que a porta estava aberta, me dando toda a visão do perímetro. Sem consegui controlar, andei para dentro do cômodo que ainda cheirava a tinta. Era lindo, perfeito para uma criança. As paredes haviam sido pintadas de verdes, a cor preferida da Karol, eles haviam comprado alguns móveis, colocado cortinas nas janelas e eu já podia ver muitos brinquedos espalhados pelo chão. Mas o que mais chamou a minha atenção, fora o berço no centro do quarto. Automaticamente, imaginei a Karol levantando no meio da noite, entrando naquele quarto e se dirigindo até aquele berço, assustada e preocupada por causa do choro de seu filho. Imaginei-a pegando o seu filho no colo, confortando-o como só uma mãe saberia fazer, e como se por milagre, ele pararia de chorar no mesmo instante, conformado com a atenção da mãe. Ela se sentaria na cadeira, e cantaria para ele, ele brincaria com o cabelo dela, e os dois ririam sem motivo, até que ele adormecesse e ela pudesse voltar para o conforto da própria cama, onde seu marido a esperava orgulhoso.
Senti como se alguém tivesse me dado um soco na boca do estômago.
Eu não queria sentir inveja. Eu não queria... Mas também não podia evitar.
Saí do quanto apressadamente, antes que começasse a chorar. Respirei fundo, até entrar no quarto de Karol. A TV estava ligada e ela deitada na cama, seus olhos arregalados por causa do desconforto que sentia.
– Não está melhor? – Perguntei, me aproximando. Ela negou com a cabeça. Suspirei. – Não seria melhor ligar para o seu médico? – Me sentei na beirada da cama.
Ela sorriu; um sorriso fraco e dolorido. Sua mão pousou em cima da minha, percebi que ela estava gelada, apesar de todos os cobertores que a cobriam.
– Não. Eu sempre sinto isso. É normal... – Tossiu. – Acho que exagerei um pouco na pimenta, só isso.
Assenti.
– Eu só vim avisar que já vou...
– Mas já? Está cedo, fique um pouco mais...
– Não, já te perturbei o bastante por um dia. – Ela riu – Vou te deixar descansar.
Seu rosto ficou sério.
– E eu faço outra coisa a não ser descansar desde que fiquei grávida? – Disse me encarando, como se eu tivesse alguma culpa.
– Não seja modesta. Não é só desde que como ficou grávida... Acho que você descansa desde que nasceu. – Ela bateu de leve na minha mão. – Hoje foi um dia legal. Obrigado por me convidar para passar o Natal com a sua família, significa muito.
– Não seja boba. Você faz parte da minha família. – Sorri.
– E obrigado pela bota, prometo que irei usá-la.
– Já eu não posso dizer o mesmo da calça “PP” que você me deu! – Ela riu – Mas prometo que irei tentar.
– Isso mesmo. Quero te ver decidida. Você será a mamãe mais gostosa que essa cidade já viu! – Ambas rimos. Fiz uma pausa. – Eu vi o quarto... – Comentei.
– Está ficando bom, não está? – Eu assenti. – Sei que vai fazer falta um escritório em casa... Ma vamos dar um jeito. – Sua mão foi para a barriga – Mas temos que ver as prioridades. – Concordei – O Felipe te disse? Quando pintamos o quarto e colocamos carpete, acredita que eu queria dormir lá? – Ela riu de si mesma – Eu nunca te disse isso, mas estou realizando um sonho... E esse sonho não podia se realizar em um momento mais maravilhoso da minha vida.
– Você tem sorte. – Fingi entusiasmo. Mas infelizmente ela me conhecia muito bem.
– Sabe... Um dia a sua vez também vai chegar, não se preocupe, você é jovem, tem a vida inteira pela frente. – Falou apertando a minha mão.
Lembrei-me do Rogério e da minha mãe.
– A vida é estranha, Karol. Você não faz idéia de quantas vezes já ouvi isso. – Suspirei. – Quando eu fiz vinte... Quando eu fiz vinte e dois... Quando eu fiz vinte e cinco... Todos me diziam isso. Mas agora que eu tenho vinte e sete, parece que as pessoas acabaram desistindo de mim. – Olhei para ela. – Obrigado por acreditar.
– Susan, não sou eu que tem que acreditar, é você. – Neguei com a cabeça.
– Você não entende... Eu já perdi as esperanças. Depois que o Rogério fez aquilo... Eu perdi a esperança nos homens. Não quero mais sofrer. O único jeito é me conformar.
– Não diga uma coisa dessas nem de brincadeira! Está louca? – Ela não gritava, mas sua expressão estava brava, e ao mesmo tempo, preocupada. – Sei que parece impossível agora, mas um dia você vai encontrar o cara certo. Você é jovem, não precisa ter pressa. Tudo vai ficar bem, você vai ver, acredite em mim. – Sorri para ela, meio descrente, mas gostando do esforço que ela estava fazendo para me fazer sentir melhor.
– Você deve me achar patética... Você está vivendo o melhor momento da sua vida, e ao invés de te apoiar, eu estou aqui, sofrendo pelos cantos, morrendo de inveja de você.
– Você não precisa ter inveja de mim, Susan... Mas também não precisa ter vergonha. Somos amigas, esqueceu? Você é minha irmã. Não importa se eu estou vivendo o melhor momento da minha vida, se você está triste, eu estou triste.
– Mas eu não estou triste, só... um pouco frustrada. – Suspirei. – Quer saber, — Minha mão foi para os meus olhos, os secando. – Chega de drama! Eu não foi ficar triste, não agora. Chega. – Falei sorrindo.
– É assim que se fala! – Ela aprovou.
– Obrigado por tudo Karol... Eu... Te amo.
Ela fez uma cara de choro, mas então me abraçou com força.
– Eu também te amo querida! Eu também te amo! – Disse me apertando com força. Depois que nos separamos, gargalhamos.
– Somos duas patetas! – Falei em meio aos risos. Ela balançou a cabeça, concordando. Levantei-me. – Acho que é por causa do Natal... Ele faz isso com as pessoas. – Respirei fundo. – Vou te deixar descansar agora. Por favor, cuide do Fernando, está bem? – Ela abraçou a barriga por cima dos cobertores.
– Pode deixar.
Eu já estava saindo quando me lembrei de uma coisa. Virei-me de volta para ela.
– Karol.
– Sim?
– Eu queria saber... Você lembra do livro que o Lucas comprou para mim? – Ela assentiu – Por acaso, foi você que disse para ele que eu queria ler esse livro? – Ela franziu o cenho.
– Não Susan, fui eu não. Na verdade, eu nem cheguei a ver o livro direito, só sei que tem a ver com jornalismo...
– Sério?
– Sim, mas por que está perguntando?
– Nada... Por nada não, só estava curiosa mesmo. – Sorri. – Bom, tenha uma boa noite “grávida maluca”.
– Você também...
Virei-me e saí do quarto, percorri o corredor sem olhar para o quarto do bebe, depois desci as escadas. Os rapazes ainda estavam na sala, o Felipe assistindo televisão e o Lucas dormindo no sofá.
– Nossa, ele dormiu... – Falei surpresa, me aproximando do sofá. Felipe olhou para mim e depois para o Lucas.
– Ué... Eu nem vi. – Riu. – Ele é tão quieto acordado, que eu nem notei a diferença...
Com a ponta do dedo, cutuquei sei ombro. Demorou um pouco, mas logo seus olhos se abriram, ele me olhou espantado.
– O que...? – Começou a dizer.
– Você dormiu – Expliquei – Vamos para casa, lá você termina de dormir.
– Se você quiser, eu levo vocês de carro, Susan. – Disse Felipe, sabendo que eu não havia vindo com o meu.
– Não precisa Felipe, mas obrigado.
Lucas se espreguiçou e depois levantou. Sua cara estava amassada por causa da forma que ele dormiu no sofá. Caminhei até a estante e peguei a sacola com os presentes. O Felipe nos acompanhou até o portão.
– Tem certeza que não quer que eu leve? Está uma garoinha chata lá fora...
– Precisa não. É até bom que fazemos um pouco de exercício. Levantei a sacola no ar. – Obrigado pela blusa, foi muita gentileza.
– Imagina... Ah, e obrigado pelo suéter.
– Foi o Lucas que escolheu. – Falei.
– Claro que foi. Um suéter daquele só poderia ter sido escolhido por um rapaz de bom gosto mesmo! – Ele brincou, fazendo-o rir.
– Tenha uma boa noite Felipe.
– Vocês também.
A caminhada até em casa não demorou mais do que dez minutos.
– Está cansado? – Perguntei para ele, enquanto subíamos as escadas.
– Mais ou menos. – Ele respondeu, se arrastando até o quarto.
– Tenha uma boa noite.
– Você também... – Sussurrou, entrando.
Fiquei parada no corredor por alguns segundos, perdida em pensamentos, até que dei meia volta e voltei para a sala. Não estava com sono.
(...)
Na véspera do Ano Novo, dia trinta e um de dezembro de mil novecentos e noventa e nove, eu não trabalhei, e ás nove horas em ponto, comecei a me arrumar, para que ás dez horas, nós saíssemos de casa como havia sido programado. Marcamos de que Karol e Felipe passariam na minha casa para nos buscar, mas como sempre, houve alguns imprevistos, e por volta das dez e dez da noite, recebi um telefonema do Felipe, explicando que a Karol estava sentindo dores fortes na cabeça e por isso eles não poderiam ir. Sem perder o animo, decidi que nada iria atrapalhar a minha virada do milênio, e por isso, ás dez horas e vinte minutos, Lucas e eu saímos de casa. Dirigi por cerca de uma hora e meia, em um transito que parecia não ter fim, temendo que passássemos o Ano Novo ali; até que finalmente chegamos à praia, como eu havia prometido ao Lucas que faríamos.
Segurando a sua mão, passamos pela multidão, até que chegamos perto da maré. E quando os fogos de artifícios iluminaram o céu, nos abraçamos, desejando feliz “Ano Novo” um para o outro. Era engraçado que no começo daquele ano, eu mal sabia da existência daquele menino, e agora, ele era a única pessoa que eu tinha para dar e receber um abraço. Mas aquele era um milênio novo, o que significava que a vida de todas as pessoas no mundo estará passando por um novo “recomeço” naquele ano que estava apenas começando. O ano dois mil significa para mim, um ano de esperanças. Esperanças para um futuro melhor. E escutando os gritos da multidão, prometi a mim mesma que tudo melhoraria e que eu seria feliz, como jamais havia sido antes.
Aquele seria o meu recomeço também.
Os fogos de artifícios ainda enfeitavam o céu, iluminando a multidão de gente, revelando rostos humanos na mesma, cada um com uma expressão diferente, seja de pânico, saudade ou felicidade. Famílias se abraçavam, casais se beijavam e havia dezenas de pessoas no mar, jogando água umas nas outras. Eu escutava gritos e risadas em toda parte, muitas pessoas já estavam bêbadas e a maioria vestia branco. Champanhes foram apertos, rosas foram jogadas no mar. Todos imersos em um clima gostoso de generosidade e irmandade com seus entes queridos e até mesmo com aqueles que nem conheciam.
O mundo estava em comemoração naquela noite.
Olhei para o Lucas.
– Você está percebendo o que está acontecendo? Estamos presenciando a virada do milênio! Tem noção de quantas gerações vão poder se gabar de ter vivido na virada de um milênio?
Ele olhou para mim, seus olhos brilhando.
– Fico feliz de passar junto de você.
Sorri.
– Eu também.
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