Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

6 Capítulo cinco - A ligação.


Notas iniciais
Nossa, estou tão feliz, finalmente alguém comentou a minha história! o/
Dedico esse capítulo para a doce Lana_carol, que me ajudou muito com seus comentários. Obrigado Lana, você é um amor de pessoa.
Espero que gostem.

Capítulo cinco – A ligação.

Os dias passaram sem eu perceber. Logo quando me dei conta, já era sexta-feira. Acordei oito horas da manhã. Fui à padaria e comprei três pões e duzentos gramas de mussarela. Tomei o meu café da manhã, depois troquei de roupas e sai para entregar o meu currículo em algumas empresas. Eu não tinha muitas exigências, o importante mesmo era conseguir arrumar um emprego. No tempo em que fiquei casada com o Rogério, três anos para ser mais exata, eu trabalhei na empresa dele como secretária, a propósito foi assim que nos conhecemos. Mas como é de se esperar, quando o amor acabou (que foi logo depois que eu peguei ele com outra mulher na nossa cama), eu pedi demissão. Claro que ele tentou reverter à situação, dizendo as clássicas frases: “Eu posso te explicar”, “Foi só uma vez”, “Eu não queria”, “Eu não sabia o que estava fazendo” e blá, blá, blá. Até o papo de “Eu juro que pensei que ela era você” ele tentou jogar pra cima de mim, como se eu fosse uma idiota. Mas para azar dele, eu nunca tive vocação para ser palhaça e depois daquele dia ele precisou levar cinco pontos no rosto por causa de um vaso que eu joguei em cima dele. Claro, depois disso nunca mais nos falamos, apesar de nossos advogados se encontrarem com certa freqüência nas últimas semanas. Sentia tanta raiva dele, que prometi a mim mesma nunca mais olhá-lo na cara. Ele não me merecia. E foi assim que um lindo relacionamento de três anos acabou: Eu fiquei com os cachorros e ele com a casa, que a propósito nunca foi minha.

Quando o conheci, eu realmente acreditava que iria ser para sempre e que ele realmente era o homem da minha vida. O mais absurdo é que ele realmente conseguiu me fazer acreditar que me amava. Sim, eu era muito inocente. Quando o apresentei para a minha mãe ela de cara não gostou dele, na época eu morava na casa dela, mas foi só ele propor um casamento e cogitar a hipótese de morarmos juntos, que ela morreu de amores por ele. E quando eu disse que iríamos nos separar, acho que por medo de eu voltar a morar no quartinho dos fundos, minha mãe se mudou e não me passou o endereço. Foi ai que eu percebi que estava sozinha no mundo e que se não tomasse uma atitude, iria acabar dividindo uma caixa de papelão com um mendigo na rua. Desde então tenho feito muitos bicos para sobreviver. Desde cuidar de crianças no final de semana á trabalhar de ajudante em uma loja de discos antigos, mas infelizmente, a loja faliu e eu me vi novamente desempregada. No meu currículo, acho que a definição mais adequada para mim seria: uma “Faz-tudo”. Mas na situação em que eu me encontrava, não tinha como eu ter alguma exigência. Se um trabalho aparecia, seja qual fosse, eu aceitava na hora. Eu não era completamente idiota, admito, e no tempo em que estive casada juntei minhas economias e dei entrada em um carrinho de segunda mão; mas o que me preocupava era que ainda restavam várias parcelas para serem pagas e a cada mês que passava ficava ainda mais difícil conseguir o dinheiro. Se eu não precisasse mesmo naquele Gol 2002, eu o venderia.

- Relaxa Susan, isso é só uma fase ruim, vai passar. – Disse Karol, a minha vizinha, mas ela não era só a minha vizinha, eu a conheci quando tinha vinte e dois anos, nós duas fazíamos o mesmo curso, e foi ela que me indicou a casa alugada que estou morando.

- Obrigado por me convidar para almoçar aqui na sua casa. Não agüento mais almoçar sozinha. – Até eu percebia que minha voz estava cansada.

Karol me passou a salada.

- Eu sei bem como é. Depois que me separei do Thomas me senti do mesmo jeito, mas vai passar.

- Eu não sei não...

- Vai sim, sua boba. Além do mais, você é jovem, pode conhecer outro cara.

- Outro ‘Rogério’ na minha vida? Não, obrigado. Prefiro ficar sozinha.

Karol riu. Escutar sua risada me fazia bem. Estava cansada de só escutar gente chorando perto de mim. Aquilo estava me fazendo muito mal. Mordi um pedaço da carne.

- Não. Eu estou falando sério. Você deveria tentar encontrar um cara legal, como o Felipe. – Felipe era o noivo dela. – Você é bonita, deve ter um monte de cara afim de você. Talvez você devesse dar uma chance para algum deles. Quem sabe você não encontra sua alma gêmea.

Agora quem riu foi eu. Ela fingiu estar brava.

Gargalhando – Alma gêmea? Ah, por favor! Que foi que você colocou nessa salada?

Ela riu.

- Estou falando sério!

Tentei me recompor.

- Ai, minha barriga está doendo de tanto rir... – Enxuguei meus olhos. Eu sempre chorava quando ria muito.

- Porque você tem que levar tudo na brincadeira? Isso é sério.

- Ah, por favor, não vem me dizer que você realmente acredita nesse negócio de alma gêmea? – Ela assentiu. – Você só acha isso porque está namorando, deixa só o Felipe dar uma mancada feia com você, que ai eu quero ver se você vai continuar pensando assim.

Ela jogou o pano de prato em mim.

- Para sua informação, o Felipe nunca fará nada para me magoar. Ele me ama. – Ela parecia uma criancinha falando sobre o príncipe encantado. Eu revirei os olhos.

- É, eu também achava que o Rogério me amava e olha só o que ele me fez! Colocou logo duas galhadas na minha cabeça quando teve chance! Deixou-me igual a uma Rena do Papai Noel!

- Só falta o trenó e o bom velinho! – Provocou Karol, gargalhando.

Eu ri.

- Quem é que está levando tudo na brincadeira agora, hem? – Retruquei. Ela continuou rindo.

- Desculpa, não consegui segurar. – Joguei o pano de prato na cabeça dela, do mesmo jeito que ela tinha feito comigo. – Mas, falando sério, o Felipe é muito diferente do Rogério.

- É mesmo? Em qual sentido, pode me dizer?

- Bom, primeiro, o Rogério só queria se aproveitar de você e o Felipe não, ele me ama pra valer.

- E quem é que te garante isso?

- O Junior.

- Quem?

- O Junior. – Repetiu. Olhei para ela sem entender.

- Que Junior?

- O que estou esperando do Felipe! – Gritou, com um sorriso enorme no rosto.

- Ai. Meu. Deus. Não me diga que você... – Ela assentiu. Eu explodi de felicidade. – AI MEU DEUS! AI MEU DEUS! QUE NOTÍCIA MARAVILHOSA! – Gritei, enquanto pulava em cima dela para abraçá-la.

- Sim! Isso mesmo, EU VOU SER MAMÃE!! – Gritou, levantando para me abraçar. – EU VOU SER MAMÃE SUSAN! EU VOU SER MAMÃE! – Ela gritava de felicidade.

Senti meus olhos se encherem de água e percebi que os dela também.

- Que notícia maravilhosa! – Falei, abraçando ela com força. Enxugamos nossos olhos quando nos separamos, rindo muito. Parecia que o clima da sala tinha mudado completamente. Eu estava muito feliz, na verdade, estava quase explodindo de felicidade. – Há quanto tempo você sabe? – Perguntei, segurando a sua barriga.

- Eu estava suspeitando já faz alguns dias, mas só tive certeza mesmo ontem! -Ela disse, sua voz transbordando alegria.

- E o Felipe já sabe? – Olhei nos olhos dela.

- Sim, eu falei para ele ontem.

Sentamos-nos no sofá.

- E como ele reagiu?

- Como posso dizer? Bom... Ele disse que é o homem mais feliz do mundo. Disse que me ama MUITO e que essa é a melhor notícia que ele já recebeu na VIDA DELE! – Lágrimas caiam de seus olhos enquanto ela dizia.

Eu não sabia o que dizer. Estava muito emocionada.

- Oh, amiga... Isso... Isso é... – A abracei outra vez. – Eu estou muito feliz por você! Sei que você vai ser uma ótima mãe para essa criança!

- E eu sei que você vai ser uma ótima madrinha para o meu filho.

Meu coração acelerou.

- O QUE VOCÊ DISSE SUA MALUCA?

Ela gargalhou.

- Isso que você ouviu! EU QUERO QUE VOCÊ SEJA A MADRINHA DO MEU FILHO... ou da minha FILHA! – Fiquei sem reação. – Quer dizer, só se você quiser, né...

Olhei para ela com a mesma cara de quem não acredita no que está escutando.

- EU? VOCÊ QUER QUE EU SEJA A MADRINHA DO SEU FILHO?

- Só se você quiser...

- MAS É CLARO QUE EU QUERO! – Chorei. – Vai ser uma honra para mim...

Ela também chorou. Ficamos assim, uma chorando de um lá e a outra chorando do outro, até que escutamos alguém entrando na porta. Felipe se assustou.

- Karol? Karol aconteceu alguma coisa? O que foi? VOCÊ ESTÁ BEM?

Olhamos para ele ao mesmo tempo e então começamos a rir.

- ACONTECEU SIM! – Gritei, me levantando. – EU ACABEI DE FICAR SABENDO QUE VOCÊ VAI SER PAPAI! – E então abracei ele. Senti que ele ficou aliviado.

Todos rimos.

- Vocês me deixaram preocupado... – Falou depois que o soltei. Ele olhou para Karol e então eu soube que ele realmente a amava.

- Somos duas manteigas derretidas... – Disse ela, enxugando as lágrimas.

- Olha sua grávida maluca, eu só espero que você tenha falado com o seu marido sobre a idéia de pedir para mim ser madrinha. – Falei, do jeito que ela era doida, eu não duvidava de nada.

Ela riu.

- Na verdade, foi ele quem deu a idéia.

Fiquei pasma.

- Sério? – Perguntei, olhando para ele. Ele assentiu. – Acho que vou começar a chorar outra vez...

Karol e Felipe gargalharam.

(...)

- Eu não acredito que você vai ter um bebe... – Falei, na porta da casa dela.

- E nem eu acredito que concordei com a idéia de você ser a madrinha... – provocou com um sorriso. – Do jeito que é atrapalhada, no dia do batizado é capaz de afogar o meu filho!

Fingi estar ofendida.

- Como você é exagerada! – Disse rindo.

- Eu sei.

Abraçamos-nos outra vez.

- Agora vai embora! Quero ficar sozinha com o meu noivo! – Falou.

Eu gargalhei.

- É assim que você trata uma visita? Desse jeito eu me mudo para cá! – Disse rindo.

- Ah, sua cara de pau, você não é ‘visita’ há muito tempo! E nem pense em se mudar para cá, se não eu faço igual a sua mãe: Eu me mudo e não te dou o endereço!

Eu ri.

- Você é muito malvada.

- Não pense que eu não estou falando sério!

- Ai, eu te amo.

- Eu também. – Falou com sinceridade.

- Te vejo amanhã?

- Tudo bem.

- Tchau.

- Tchau.

Estava garoando, mas como a minha casa não era longe da dela, fui andando. Sentia que nada podia abalar o meu humor. Eu estava radiante. Quando cheguei em casa fui tomar um banho. Demorei um pouco mais de dez minutos debaixo do chuveiro quente, lá aproveitei para renovar o meu repertório de músicas. Cantei até quase ficar rouca. Depois que terminei, me sequei e então vesti o meu pijama. Sim, eu sei... “O que faz uma pessoa na sexta-feira à tarde ficar de pijama em casa?”. Bom, mas qual é o problema? Sou só eu e o fantasma do antigo inquilino nessa casa mesmo! Além do mais, eu tenho motivos de sobra para ficar deprimida em casa! Se bem que eu não posso reclamar, porque até o momento, meu dia não tinha sido dos piores. E eu disse até o momento, porque do jeito que ando com sorte, era capaz de um meteoro cair bem na minha cabeça.

Desci as escadas e fui assistir televisão na sala, já que a televisão do meu quarto estava no concerto. Eu levava um edredom comigo. Me joguei de qualquer jeito em cima do sofá. Liguei a televisão e comecei a trocar de canal. Não estava passando nada de muito interessante, então deixei na Globo, onde estava passando a Sessão da Tarde. Logo reconheci o filme: “Deu a Louca na Cinderela”. Eu nunca fui fã de filmes de animação, mas decidi que iria me sacrificar. No meio do filme, fui para a cozinha e fiz uma panela de pipoca. Coloquei tudo em uma bandeja, derreti a manteiga e então joguei por cima da pipoca. Comi até enjoar. Quando o filme acabou troquei de canal, deixei no SBT, estava passando “Casos de Famílias”. Tentei assistir, mas depois de certo tempo desisti, odiava aquele programa, então coloquei de novo na Globo, estava passando Malhação. Mas tampouco tive paciência. Nervosa com o programação da TV, liguei o DVD e então coloquei um filme qualquer. Era um romance, que eu me lembrava ter pegado emprestado com algum dos meus amigos e nunca ter devolvido. O nome do filme é “A última Música”. Tentei me concentrar na história, mas acabei cochilando minutos depois.

Eu estava cansada, sim, muito cansada...

- Continue lavando essa colher! Continuei lavando essa colher! – Disse Silvia.

Eu obedeci.

- Continue lavando! Ela ainda está suja! Eu quero ver essa colher LIMPA! Está me escutando? Eu quero ver essa colher LIMPA! Será possível que nem lavar uma COLHER você sabe?

Eu tentei esfregar a sujeira da colher, mas ela continuava suja.

- Limpe! Sua inútil, continue lavando essa colher!

Meus braços doíam.

- Mas ela já está limpa... – Murmurei.

- Limpa? Você está cega? Eu nunca vi uma colher tão suja como essa! Continue lavando, sua empestável! Continue lavando! Eu quero ver essa colher limpa!

- Eu estou cansada... – Minha voz quase não saia.

- Você é mesmo uma preguiçosa! Nem uma colher você tem coragem de lavar! Sua empestável! IDIOTA! Porque você não nasceu igual a sua irmã? Hem? POR QUÊ? SERÁ CASTIGO? PORQUE VOCÊ NÃO NASCEU IGUAL A SUA IRMÃ? SUA IDIOTA, IMPRESTÁVEL! CONTINUE LAVANDO ESSA COLHER! Eu quero ver essa colher LIMPA! Você me escutou? EU QUERO VER ESSA COLHER LIMPA! Sua idiota... Idiota...

- Mãe... Por favor...

- SUA IDIOTA! IDIOTA! PORQUE VOCÊ NÃO NASCEU IGUAL A SUA IRMÃ?

- Mãe...

- CONTINUE LAVANDO ESSA COLHER!! ELA ESTÁ SUJA!!

- Ela não está...

- ELA ESTÁ SIM!! VOCÊ ESTÁ CEGA? ELA ESTÁ SIM!!

- Mas...

- EU QUERO VER A SUA COLHER FICAR IGUAL A DA SUA IRMÃ!!! CONTINUE LIMPANDO!! ESSA COLHER ESTÁ MUITO SUJA! CONTINUE LIMPAAAAANDO!!!

- MÃE! – Gritei. Olhei para os lados, assustada.

Foi só um pesadelo...

Suspirei. Estava completamente molhada de suor.

Escutei um barulho e percebi que tinha sido acordada pelo barulho do telefone. Levantei do sofá e andei até a estante, peguei o telefone e então comecei a falar.

- Alô? – Minha voz estava muito rouca. Senti um gosto estranho na minha boca. Percebi que havia dormido tempo demais.

- Alô. Por favor, eu poderia falar com a senhorita Susan Cllaus? – Disse uma voz masculina, que eu não reconheci.

- Sim. É ela mesma que está falando.

- Ah, senhorita Cllaus, como vai?

- Eu vou bem, obrigado. Mas quem está falando? – Perguntei desconfiada.

- Ah, desculpe a minha falta de educação, eu me chamo Eduardo, sou advogado da Senhora Anabela Rodrigues.

Espantei-me quando escutei aquele nome.

- Advogado da Anabela? – Perguntei muito confusa.

- Sim, isso mesmo. A senhorita Anabela me contratou há pouco tempo, poucos dias antes daquela tragédia lamentável acontecer. Confesso que fiquei muito triste quando soube do acidente. Ela era uma pessoa admirável. Mas acho que foi o destino. Mesmo assim foi uma perda muito grande. Pessoas boas como ela não deveriam morrer jamais. – Ele dizia tudo com muita certeza. Era impossível aquilo ser uma brincadeira.

- Por favor, eu não estou entendendo nada. Você disse que é advogado da Anabela? Mas... Desde quando a Anabela tem um advogado? Estou confusa.

- Bom, Senhorita, ela me procurou há poucos dias, queria que eu fizesse um documento para ela. Felizmente, o documento ficou pronto antes de tudo isso acontecer. Era como se ela já soubesse o que estava prestes a acontecer.

- Documento? Que documento? – Meu coração disparou. Do que ele estava falando?

- O testamento, é claro. Ela me pediu para ajudá-la no seu testamento. – Fiquei quieta, absorvendo a notícia. Não era possível, aquilo era mentira. – Senhorita? Você está ai? – Perguntou.

- Si-sim...

- Como eu ia dizendo, fiquei muito assustado quando ouvi o pedido dela. Já que ela era uma moça muito jovem e bonita. Mas quando ela me disse sobre a doença, eu compreendi.

- Doença? Que doença?

- Ah... Você não soube? Pensei que ela havia te dito... Há alguns meses, ela descobriu estar com câncer.

- CÂNCER? – Gritei assustada. — Anabela estava com câncer?

- Sim, e infelizmente, o câncer já havia de proliferado por todo o seu corpo. Pelo que ela me explicou, os médicos disseram que ela tinha apenas meses de vida.

- Isso não é verdade. – Falei.

- Infelizmente, é sim. Mas é ai que vem a boa notícia, graças a isso, ela me procurou e o testamento ficou pronto.- Eu não conseguia acreditar. – Agora, o menino Lucas não terá mais que continuar naquele orfanato.

- O que? Do que você está falando? – Era coisa demais para eu absorver.

- Naturalmente, quando a senhorita Anabela ficou sabendo da doença, logo ficou preocupada com o futuro do seu filho, assim ela declarou em testamento a quem a guarda do menino deveria ser passada.

- E para quem ela passou a guarda de-dele? – Gaguejei.

- Naturalmente, para a amiga mais próxima dela. Que claro, é a senhorita.

O telefone escorregou da minha mão. Fiquei paralisada.

- Alô? Alô? Senhorita Cllaus? Você está ai? Senhorita Cllaus? Alô? – Escutava uma voz muito distante dizer. Mal conseguia pensar. Peguei o telefone outra vez e coloquei no ouvido. – Senhorita Cllaus? A senhorita está ai?

- Estou sim. Desculpa-me, mas você me pegou de surpresa.

- É compreensível. Essa não é uma notícia que se espera receber todos os dias. – Ele riu.

- Você contou isso para mais alguém? – Perguntei.

- Não. Assim que soube da morte da Senhorita Anabela, fiz como ela me pediu e liguei para você.

Respirei fundo.

- Precisamos nos encontrar, eu quero ver esse papel com os meus próprios olhos. – Falei.

- Claro. Amanhã mesmo eu irei viajar para o Rio. Quanto mais cedo resolvermos isso, melhor será para o menino. – Ele disse.

- Você pode me passar o seu telefone?

- Claro. – Peguei um papel e uma caneta. – Posso passar?

- Pode.

- O número é (011) 8212-6987. Ah, e, por favor, precisa colocar o “9” na frente.

- Sim, eu sei. Aonde iremos nos encontrar?

- Se a senhorita concordar, estava pensando de ser na sua casa. Eu tenho o endereço.

Não gostei.

- Me desculpe, mas eu prefiro que seja em um lugar público.

- Claro, como a senhorita preferir.

- Você conhece o Shopping da Gávea? – Perguntei.

- Sim, conheço sim.

- Lá está bom para você?

- Sim.

- Então ótimo. Que horas você chega aqui?

- Como eu vou sair de manhã, vou chegar depois do horário do almoço.

- Então uma hora na frente do Shopping está bom?

- Está sim.

- Você estará vestido como? – Perguntei.

- Estarei de terno e gravata preta. E você?

- Estarei de calça jeans e blusa azul marinho. Eu sou loira.

- Tudo bem.

- Você tem o número do meu celular?

- Não, só o da sua casa.

- Meu número é 2687-3398 – Falei.

- Ok. Eu anotei.

- Então até amanhã.

- Até.

Desliguei.

Andei até o sofá e me sentei. Fiquei ali por algumas horas, pensando. Parecia que a ficha ainda não tinha caído, eu não percebia a gravidade da situação. Anabela havia deixado o menino para que eu cuidasse, tudo isso sem antes me consultar. Ela tinha sido irresponsável! Como podia ter feito isso comigo? Eu não tenho como cuidar de uma criança! Até mesmo os cachorros que eu tinha conseguido tirar de Rogério eu tive que dar para uma amiga cuidar! Como, se eu não consigo dar conta nem de cachorros, eu vou conseguir dar conta de uma criança? Isso estava fora de questão. Eu não podia ficar com aquela criança! Não! Eu não! Porque ela não escolheu outra pessoa? Porque tinha que ser logo eu? Porque não a minha mãe ou outra pessoa? Meu Deus, existem bilhões de pessoas no mundo, porque tinha que ser logo eu? Não, aquilo estava fora de cogitação. Definitivamente eu não podia assumir aquela responsabilidade. Não, não e não. Sem chance. Eu não ia cuidar daquela criança! Não. Eu não posso. Não. Tem que ser outra pessoa. Não eu. Eu não vou assumir essa bomba. Não eu. Não eu. Sem chance. Eu não vou aceitar isso! Não! Eu não quero isso! Não! Ela que vá catar coquinho, mas eu não vou cuidar dessa criança! Por favor, diz que isso não está acontecendo...

-“Eu cresci escutando ela falar sobre as coisas legais que vocês faziam juntas. Na verdade, quando eu era pequeno, achava que ela estava inventando tudo aquilo e que você não era real, porque como podia existir alguém com tantas qualidades? Mas agora vejo que era verdade”. – Eu escutava a voz dele na minha cabeça, como se estivesse vivendo aquele momento outra vez.

Não. Eu não posso cuidar de uma criança! Eu não tenho dinheiro para isso! Eu não posso. Sem chance. Eu não posso. Ela deveria ter perguntado isso para mim antes! Foi irresponsabilidade dela! Foi muita irresponsabilidade!

- Qual o seu nome? – Ele perguntou. Seus olhos... Eles eram iguais aos dela...

- Susan... – Falei com a voz fraca.

- Susan do que?

- Susan Cllaus, e qual o seu?

- Lucas... Lucas Mordinalle Rodrigues.

Eu não queria aquela responsabilidade. Eu nunca tive jeito com criança. Não, eu não posso. Tem que ser outra pessoa!

- Bom, Lucas, é um prazer conhecê-lo. – Falei com sinceridade, ergui a mão para cumprimentá-lo, ele não se mexeu. Envergonhada, comecei a abaixá-la, mas para a minha surpresa ele a segurou antes disso.

A mão dele estava gelada. Muito gelada.

- Também é um prazer conhecê-la, Senhorita Cllaus.

Eu não posso cuidar dele... Eu não tenho nem como cuidar de mim mesma... Eu não posso cuidar dele... Ela tinha que ter me dito isso antes! Ela tinha!

- Sua mãe sempre foi uma doçura de pessoa, nunca ligou para os defeitos de ninguém. Ela era como uma irmã para mim. Eu jamais a esquecerei.

- E ela também gostava muito de você, por isso ela estava indo para a sua casa na segunda de madrugada. E se ela não te contou, acho que era porque queria fazer uma surpresa.

- Para a minha casa? Mas eu me mudei há pouco tempo, como ela poderia saber onde eu moro?

- Ela comentou algo sobre um amigo ter passado o endereço.

- Por acaso ela disse o que iria me dizer?

- Não. Como eu estava aqui no Rio, falei com ela por telefone e os créditos dela estavam acabando. Não deu para perguntar.

Então era isso que ela iria me dizer?

Lágrimas caíram dos meus olhos.

- Eu que dei isso para ela.

- Eu sei. Ela me disse. – Falou, sem tirar os olhos do rosto da mãe.

Refleti por um momento.

- Lucas, se ela te deu, era porque queria que ficasse com você.

Ele olhou para mim. Uma lágrima caiu dos meus olhos. Ele ficou cabisbaixo. Respirei fundo, peguei a corrente de dentro do caixão. Eu mal pensava no que estava fazendo.

- Ela ficará feliz se souber que você guardou com você essa corrente.E se ela te disse que te dará sorte, é porque te dará. Sua mãe nunca mentiria para você. – Falei, entregando a corrente novamente para ele. Ele olhou para mim e suspirou.

- Acho que você está certa.

NÃO! EU NÃO POSSO CUIDAR DESSE MENINO! EU NÃO SEI ONDE VOCÊ ESTAVA COM A CABEÇA QUANDO FEZ ESSE TESTAMENTO! VOCÊ DEVERIA ESTAR LOUCA!

- Você está bem? – Perguntei.

- Vou ficar.

Suspirei.

- Eu realmente gostaria de poder fazer alguma coisa...

Por favor, diz que isso não está acontecendo...

Olhei para ele. – O que a minha mãe disse é verdade, vamos cuidar de você. Você não está sozinho. Tá bom? — Ele assentiu. Acariciei os seus cabelos. – Você é um menino corajoso. Sua mãe deve ter muito orgulho de você.

Afundei meu rosto na almofada. As lágrimas me fizeram companhia à noite toda. Eu não sabia o que fazer. Estava com muito medo.

- Você já reparou que as nuvens parecem dançar no céu?

Assustei-me quando escutei a sua voz. Fiquei sem saber o que dizer. Olhei novamente pela janela. O céu? Era isso que ele tanto olhava?

- Sim, e é uma coreografia muito bonita. – As palavras escaparam da minha boca. Ele continuou a encarar o céu... Percebi então que havia um brilho misterioso no seu olhar... Um brilho que eu nunca havia visto. – Você quer ser dançarino? – Não sabia da onde a pergunta havia surgido.

- Não, pintor.

- Você deve ser um ótimo pintor.

- Nem tanto.

Suspirei. Não sabia o que dizer. Ele era só uma criança... Uma criança que tinha acabado de perder a mãe.

- Sinto muito pelo que aconteceu com a sua mãe.

Eu esperei que ele começasse a chorar ou coisa parecida, mas ele não o fez.

- Não sinta. – Disse. – A minha mãe morreu, mas o espírito dela continua vivo. E você só pode sentir pena dos que ainda estão vivos e não dos que já morreram.

Fiquei surpresa.

- Sei que ela deve estar em um lugar muito melhor.

Foi então que pela primeira vez, ele olhou para mim. Senti um arrepio subir pela espinha.

Ele era a cara da mãe.

Notas finais
O próximo capítulo já está pronto, se alguém comentar eu posto ele ainda hoje!