Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

22 Capítulo vinte e um- Uma reviravolta na minha vida


Capítulo vinte e um. – Uma reviravolta na minha vida.

Subtítulo: Duas listas.

“Teu sorriso, como o sol radiante de verão é a única imagem de minha imaginação que me faz erguer-me e levantar durante a manhã para suportar mais um dia sem sentindo.” - Trecho retirado de um poema da “Lai-Chan”, escritora aqui do Nyah, (poema: Minha Dor), que eu li e achei bastante adequado ao capítulo.


Eu já havia esquecido que ele existia quando recebi sua ligação. Era dia seis de janeiro de dois mil e quatro e eu estava trabalhando, quando escuto meu telefone tocar. Pensei que fosse o Lucas me ligando para saber onde estava seu uniforme novo, por isso atendi. Mas não era ele. Na verdade, era muito melhor. Com um animo assustador, o rapaz que eu encontrara dias atrás em uma banca de jornal, que se apresentou como sendo meu ex-colega de faculdade, disse que tinha uma notícia maravilhosa para me dar. Marcamos de nos encontrar então, já que o mesmo disse que queria me falar pessoalmente. Um tanto perturbada, eu aceitei. Imagine o susto que eu tomei quando, no restaurante, ele me disse que o jornal onde ele trabalhava precisava de uma colunista e que ele me indicará para o cargo.

No dia da entrevista, precisei me obrigar a entrar naquele vestido social, colocar o salto, prender o meu cabelo em um coque elegante e passar maquiagem. Eu não havia falado sobre aquela entrevista para ninguém e tampouco decorara o que ia dizer. Eu iria ser natural. Talvez tenha sido isso (ou as minhas pernas bonitas), que fizeram com que o produtor gostasse tanto de mim. Menos de um mês depois, eu já estava trabalhando no meu novo emprego, sentada atrás daquela mesa, escrevendo a coluna do dia. Ao todo, eu era responsável por escrever dez colunas semanais. Quatro, ficavam na primeira página, essas eram sérias e falavam quase sempre sobre favelas e política, e as outras seis eram para a página online do jornal na internet, que aliás, eram as minhas favoritas, já que eu podia escrever sobre o que eu quisesse, tendo liberdade para abordar assuntos polêmicos e ao mesmo tempo cômicos, e também tinha a liberdade de interagir com os leitores virtuais e suas opiniões, respondendo a todos pelo e-mail.

Eu não podia negar, estava adorando aquele emprego. Finalmente, estava exercendo a função que tanto desejei na adolescência. Meu sonho estava se realizando e a minha vida caminhando por um caminho confortável e bem iluminado. Não tinha mais com o que me preocupar, tudo estava dando certo.

Mais ou menos no meio daquele ano, aproveitando as férias do Lucas, nos mudamos. Graças a um empréstimo no banco, finalmente dei entrada na minha casa própria. Eu não podia estar mais feliz. A nova casa não era longe da antiga; apenas cinco ruas depois, assim não haveria necessidade de mudá-lo de escola.

- Bom, Lucas, esse é o seu quarto. – Falei para ele, abrindo a porta do cômodo. Estávamos no corredor, e ele carregava duas caixas cheias de coisas. Sem dizer nada, ele entrou no quarto vazio, colocou as caixas num canto e saiu novamente, voltando para buscar o resto das suas coisas. – Você gostou...? – Perguntei enquanto ele saia do quarto. Ele deu de ombros e sumiu pelo corredor. Suspirei decepcionada. Olhei para o quarto, era duas vezes maior do que o seu antigo. – De nada. – Sussurrei ao vento.

27/12/2004 (Dezembro de dois mil e quatro)

Querida Anabela;

Eu nunca acreditei nesse negócio de destino, mas hoje vejo que as coisas acontecem na vida da gente do jeito que devem acontecer. Eu sei, e acredito de coração, que onde quer que você esteja, está cuidando da gente. Sei disso porque, imagine só, da ultima vez que escrevi para você, eu pedi por mudanças, pedi sorte, e aconteceu. No mesmo dia, você colocou no meu caminho aquele homem. Fico imaginando como a minha vida teria sido se eu não tivesse saído naquele dia... Se eu não tivesse parado naquela lanchonete... Se eu não tivesse atravessado a rua e comprado aquele jornal... Tudo teria sido diferente. Sim, hoje, eu acredito em destino.

A minha vida nunca esteve tão boa. Estou trabalhando no que eu gosto, ganhando bem e morando na MINHA casa. Aos trinta e dois anos, eu estou em paz, com o meu corpo e com a minha vida. Quando me olho no espelho... Eu me sinto bem com o que vejo. Talvez, a maturidade esteja me atingindo. Eu não mudei em nada, não fiz plástica, não estou fazendo academia; não, continuo envelhecendo como qualquer outra pessoa, a diferença é que agora eu me aceito do jeito que sou. Decidi que não vale a pena tentar nadar contra a correnteza, então apenas estou deixando que o tempo me mostre quem sou eu de verdade. Quando vejo uma nova ruga, estria... Ou marca de expressão; não me incomodo e nem entro em desespero, só... Tento aceitar.

O Lucas está bem. Ele está com quatorze anos, e acabou de terminar a oitava série, nono ano. Ele viajou com a escola no final de Novembro, passou uma semana no Rio Grande do Sul, comemorando a formatura. Alguns amigos dele foram também, pelo que sei. É, finalmente ele está interagindo com as outras crianças, finalmente está fazendo amigos. Em setembro, ele até participou da peça de teatro da escola, acredita? Era uma peça sobre o alcoolismo na adolescência, e ele fez o papel principal. Pena que no dia, eu tive uma reunião importante no jornal e não pude vê-lo atuando, mas conversei com alguns professores e eles me falaram muito bem do seu desempenho. O curso de pintura que ele fazia acabou em junho, e ele ganhou um diploma, que está escondido no fundo da sua gaveta. Eu perguntei para ele se ele queria entrar em outro, mas ele nunca me respondeu. Ah, ele também desistiu do futebol e começou a fazer natação aqui perto, até já participou de algumas competições... Mas nada tão importante.

Ele está se acostumando bem com a nova casa, e até já fez amizade com o filho do nosso vizinho que é três anos mais velho que ele. Os dois conversam bastante, e eu acho bom. Esse menino, Fabio, é um bom garoto. Ás vezes, quando tem um show de rock no centro, ele convida o Lucas para ir, e eles vão. Eu deixo, acho que faz bem para ele sair um pouco de casa. Mesmo tendo só quatorze anos, o Lucas parece ter muito mais, isso de algum jeito faz com que eu acredite que ele está mais seguro, é diferente de deixar uma criancinha sozinha em um show de rock, ele é alto, forte e muito inteligente, tem cabeça e pode tomar conta de si mesmo, pelo menos, é isso que eu sempre digo à mim mesma sempre que ouço notícias de tragédias com adolescentes na televisão. Mesmo com o seu jeito introvertido, o Lucas é um bom garoto.

A respeito da minha vida amorosa... Eu estou bem. Tenho saído com alguns caras, e já conheci alguns que me interessaram bastante, mas parece que depois do terceiro encontro, a magia acaba. Talvez o problema seja comigo, ou sei lá. Mesmo assim, continuo tentando.

Uma vez, apenas uma vez, tentei mudar um pouco as coisas, e ao invés de nos encontrarmos em um restaurando como de costume, convidei o rapaz para ir à minha casa, para conhecer o Lucas. Humf... Péssima idéia. Quando eu fiz o convite, estava apenas tentando abordar uma tática diferente... Mas acho que acabei assustando o coitado. Como esperado, o Lucas mal trocou duas palavras com o meu pretendente, e isso talvez tenha azedado um pouco a relação. Não que eu esteja culpando o Lucas, não. Mas... Eu sei lá. Esperava uma atitude diferente dele. Uma atitude mais madura.

(...) 2005 (...)

A vida é complicada mesmo.

Quando o ano começou, eu me joguei de cabeça no trabalho, estava muito ocupada para pensar em namoro, gravidez e no... Lucas. E foi assim, desse jeito impensado que... eu acho, acabei me apaixonando. Ele era o novo editor assistente do jornal; bonito, galã e o melhor de tudo: Solteiro. Logo no inicio, não nos demos bem. Eu estava caminhando apressadamente pelo corredor, enquanto aproveitava para reler a minha nova coluna procurando por erros ortográficos. Eu tinha que entregá-la às cinco horas e já eram cinco e dez, ou seja, eu estava ferrada. Foi então que, saindo do elevador, surge aquele brutamonte, entrando bem no meu caminho, o resultado foi que acabamos nos esbarrando e como se já não fosse ruim o bastante, ele derrubou seu copo de café em cima de mim, manchando a minha roupa, meu crachá e o meu texto.

- Você está cego? – Gritei, caída no chão. Ele me olhou completamente assombrado.

- Me desculpe, mas você apareceu tão rápido que eu... – Ele tentou me ajudar a me levantar, mas eu rejeitei a sua mão estendida e me levantei sozinha.

- Eu apareci rápido?! Você que surgiu do nada! – Olhei para a minha roupa.

- Eu não tive intenção... — Eu mal olhei para o seu rosto, estava mais preocupada com o papel manchado de café na minha mão.

- Ai meu Deus, seu tapado! — Me virei, começando a andar para o lado oposto. Eu precisava voltar para o meu computador e imprimir tudo outra vez. – Você me deve... Uma roupa... Nova! – Resmungava nervosa, marchando até a minha mesa.

- Sério moça, eu não queria... – Eu não tinha percebido que ele estava me seguindo. Virei-me para ele.

- Olha, cara, tudo bem. Eu sei que foi sem querer... Agora, passar bem. – Continuei caminhando.

- Eu sou novo... – Ele riu. – Me chamo Daniel, sou o novo editor. – Não olhei para ele. O que é que ele queria? Um cartaz escrito “seja bem-vindo”?

Já na minha mesa, procurei pela pasta do documento no computador. Depois imprimi outro.

- Qual é o seu nome? – Ele perguntou. Se encostando à minha mesa.

- Estou ocupada. – Peguei o papel da impressora e fiz menção de levantar da cadeira, mas algo me impediu, ou melhor, alguém me impediu. Vitor.

- Susan, o Caio está te procurando. Ele disse que você precisa entregar a coluna urgentemente... – Disse ele, meu amigo e editor chefe do jornal. – Uau. O que aconteceu com a sua roupa? Parece que você foi atacada por uma maquina de cappuccino.

- Fui eu. – Disse o Daniel, rindo sem motivo aparente.

Vitor olhou para ele e sorriu.

- Ah, então vocês já se conheceram...

- Pois é. – Eu falei, me levantando. – Eu estava levando a coluna para o Caio, quando esse rapaz entrou no meu caminho e derrubou café no meu texto, estragando também a minha roupa nova. Um ótimo jeito de nos conhecermos, não acha?

- Eu já pedi descul...

- Bem típico dele. Sabe, a tendência a desastres naturais é de família. – Disse o Vitor. Olhei sem entender. – Ele é o meu irmão, entrou hoje. Vai ser o meu novo subordinado – Deu de ombros. – Que bom que vocês já se conheceram. De qualquer forma, ande logo com isso Susan, o Caio está furioso, parece que ele brigou de novo com a mulher e você sabe como ele fica quando isso acontece... – E saiu.

- Ótimo; mais problemas. Tudo que eu precisava mesmo é receber uma bronca a essa altura do campeonato...

O Daniel riu.

- Você é engraçada. – Falou.

- Ah, que maravilha. Que bom que você gosta do meu senso de humor, isso é muito relevante... Quem sabe, se eu for despedida hoje, não posso tentar fazer carreira como palhaça em um circo, não é? Assim, eu vou fazer com que gente como você continue se divertindo às minhas custas. Não é ótimo? – Disse com o meu melhor tom irônico.

Ele levou uma mão aos cabelos, arrumando-os com os dedos. Não sei porquê exatamente, mas algo nesse movimento me chamou atenção. Sorri inconscientemente.

- Eu me chamo Susan, sou a colunista do jornal. – Falei, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

- E eu me chamo Desastre Natural, prazer conhecê-la senhorita “Estou ocupada”. – Ele apertou a minha mão.

Eu ri.

- Que isso, o desprazer é todo meu. Agora se o senhor me der licença, eu tenho que trabalhar... – Me afastei. – Estúpido... – Sussurrei no corredor, sorrindo.

Talvez tenha sido naquele momento — eu acho — que eu me apaixonei.

Depois de alguns esbarrões e trocas de fartas entre nós dois, ele me convidou para um almoço, e eu aceitei. Saímos varias vezes depois disso, e mesmo eu não admitindo, estava começando a gostar da sua companhia. Passávamos o dia inteiro trabalhando no jornal e na hora do almoço, ele sempre me levava ao mesmo imundo restaurante de esquina que eu tanto adorava. Depois do serviço, eu entrava no carro dele e ele me levava até a minha casa, ele nunca entrava e eu também nunca insistia, respeitando o seu espaço; e toda noite, antes de dormir, ele me ligava para perguntar como eu estava e se eu tinha planos para o próximo sábado, me contando sobre o lugar maravilhoso que ele pretendia me levar. Ficávamos horas conversando madrugada adentro, e nesses raros momentos de irmandade, eu me sentia jovem e bela; completamente desejável aos olhos dos homens como há muito tempo não me sentia. Daniel não estava apenas me fazendo bem, como também estava me devolvendo a minha alto-estima e segurança. E quando eu me olhava no espelho, não apenas “aceitava” o que via, como eu também GOSTAVA do que encontrava. E aos poucos, retomei a gostar também de viver, de acordar todos os dias, de almoçar, de jantar, porque eu sabia que havia alguém me esperando, que se eu ficasse na cama o dia inteiro, ELE ficaria decepcionado, pois eu era importante para ele. Pela primeira vez, eu estava fazendo a diferença para alguém.

Sempre que nos encontrávamos, ele sorria para mim, fazendo questão de dizer todos os dias que eu era linda e que ele tinha sorte de ter me encontrado, e mesmo ele sendo dois anos mais novo que eu, eu não me importava, porque o que são dois anos para quem ama? Não são nada.

O Daniel me levava para lugares que eu jamais ousaria ir, como em um rodeio, um concurso de cachorros, apresentações de golfinhos e exposições de carros antigos. Tudo era novo, diferente, especial. Tudo era bom, como morder um chocolate, sentir o aroma de um bom perfume, gargalhar. E o melhor de tudo era que não havia cobranças, não havia pressa, não havia nada, apenas nós dois e o momento que compartilhávamos. Gostávamos de passar tardes inteiras juntos no parque, observando o céu ou as crianças brincarem. Gostávamos de aprender, de ensinar, de descobrir. Gostávamos de brigar, só para depois fazermos as pazes. Juntos nós éramos fortes, racionais, bobos e felizes. Juntos, nos completávamos. Eu mal tinha tempo para pensar em mim quando estava com ele. O mundo não existia... E nada me aborrecia, só ele. Tudo era mais fácil quando estávamos juntos. Tudo tinha gosto de morando, cheiro de rosas e cor de céu. Porque tudo é bom quando se está apaixonado, o beijo, o cheiro, o sexo. Tudo é perfeito.

- Dani, eu acho... Que gosto de você. — Sussurrei em seu ouvido. Estávamos no apartamento dele, no quarto dele, na cama dele. Estávamos nus e o quarto cheirava a amor, como eu gostava de imaginar. Ele me olhou com seus olhos azuis, iguais aos meus (e nesse momento, pensei que se tivéssemos filhos, eles também teriam olhos como os nossos) e sorriu. Ele pegou meu queixo suavemente com a mão, e aproximou meu rosto do seu, me beijando.

- E eu acho que te amo. – Foi a primeira vez que ele me disse aquilo, e eu gostei de escutar, sabia que era verdade. Agarrei seu rosto com as duas mãos, e essa foi a minha vez de beijá-lo.

Quando cheguei em casa naquela noite, depois que ele me trouxe de volta, gritei de felicidade. Estava eufórica, e nada poderia me tirar do sério, nem mesmo o Lucas. O garoto estava esticado no sofá da nova sala, comendo pipoca, enquanto assistia a algum filme no DVD. Ele nem notou quando entrei, e mesmo que tivesse notado, fez questão de me ignorar. Aproximei-me do sofá, joguei minha bolsa na poltrona e retirei os saltos, depois me joguei no sofá. Ele nem me olhou.

- Filme novo? – Perguntei, olhando para a TV.

- É. – Disse somente. Fiquei uns cinco minutos assistindo em silêncio.

- Você já jantou? – Perguntei, lembrando que talvez ele estivesse com fome.

- São onze horas da noite, é claro que eu já jantei. – Ele olhou para mim, e sorriu cinicamente. Senti um nó se formar na minha garganta.

- Só quis ter certeza. – Respondi, me defendendo como se estivéssemos em algum tribunal. Ele voltou a encarar a TV. Eu não tinha certeza se ele estava realmente assistindo ou se só fazia aquilo para me irritar. Eu odiava quando ele agia como um esnobe. – Você viu a mensagem que eu te deixei na caixa-postal? – Ele não respondeu. Entendi isso como sendo um “não”. – Eu deixei umas três... Tentei te ligar, mas ninguém atendeu. Você saiu?

— E isso importa desde quando? – Não entendi o motivo daquele olhar. Ele estava nervoso comigo? Eu fiz alguma coisa para merecer isso ou ele simplesmente está querendo me tirar do sério?

- Importa desde sempre.

Ele sorriu, como quem diz “eu duvido muito”.

- Estava na casa de uma amiga... Estudando.

- No sábado? — Eu não compreendia porque duvidava dele, mas algo dentro de mim dizia que ele estava mentindo e isso me machucava.

- É. No. Sá-ba-do. – Cuspiu as palavras, sempre com seu tom irônico, como se tudo aquilo estivesse divertindo-o, como se tudo fizesse parte de uma grande piada.

- E por acaso eu conheço essa sua “amiga”? – Ele encarou a televisão.

- Imagino que não, até ontem, nem eu a conhecia. – Ele sorriu, achando graça no comentário.

Claro, porque te é conveniente.

- Isso é verdade, Lucas?

- A verdade é uma constante variável, Susan. Não tenho como te dar certeza, não sou Deus.

- interessante. Então porque eu acho que você está mentindo?

- Eu não sei, não sou você para saber. Pergunte a si mesma, talvez você encontre a resposta.

Ele conseguia ser extremamente irritante quando queria. Era insuportável olhar para ele e só conseguir enxergar a minha mãe falando através da sua voz. Ele estava passando muito tempo com ela, talvez isso esteja fazendo mal para ele.

- Você está nervoso comigo? – Murmurei, ouvindo a minha própria voz perder um oitavo do tom a cada palavra.

Ele me encarou, e por um segundo, eu pude ver a criança morta no fundo dos seus olhos.

- Não com você. – Olhei para o chão. – Porque está perguntando isso? – Sua voz era assustadoramente calma, fazia me arrepiar.

- Você está duro comigo... Já faz algum tempo. Eu não sei o que eu fiz... Mas desculpe, Lucas.

Ele ficou em silêncio, parecia refletir.

- Eu não estou nervoso com você. – Repetiu, depois de um momento, novamente senti que mentia para mim, ele começara a fazer isso com certa freqüência nos últimos meses.

- Agora eu sei. – Sorri melancólica. – Mês que vem você vai fazer quinze anos... – Tentei mudar de assunto.

- É.

- Está ansioso?

- Porque estaria?

- Bom, não se faz quinze anos todos os dias... É uma data especial. – Dei de ombros.

- Eu não quero festas.

- Tudo bem.

- Nem festa surpresa.

- Tudo bem.

- Eu juro que se eu entrar pela aquela porta e encontrar um bando de gente escondido detrás do sofá como no ano passado, eu dou meia volta e passo a noite fora.

- Eu já entendi Lucas. Sem festa.

Ele me encarou.

- E eu não estou nervoso com você.

- Você já disse. — Suspirou. Fiquei encarando-o por alguns minutos. Ele estava tão mudado... Tão agressivo. – Eu estava com o Daniel. – Falei, mesmo sabendo que ele não queria saber.

- Hm.

- Sabe, Lucas, ele é legal. Talvez se você desse uma chance para ele, vocês poderiam ser ami...

- Eu não gosto dele. – Me interrompeu.

- Mas você nem conhece ele.

- Por isso mesmo. – Ele me olhou de lado – Vocês estão juntos há quando tempo? Quatro, cinco meses? E esse cara nem se deu ao trabalho de me conhecer, nem se deu ao trabalho de entrar na sua casa uma única vez sequer. Ou seja, ele só está te enrolando, te usando. Por isso, eu não gosto dele. Entendeu?

- Ele não é assim.

- Claro que é.

- Não Lucas, ele não é. Você é só uma criança, nem o conhece e não pode ficar julgando as pessoas desse jeito... é feio. Ele é um cara legal e gosta de mim... É claro que ele quer te conhecer, apenas não está pronto ainda... Sabe, você consegue ser assustador quando quer.

Ele riu.

- Você disse isso para ele? Que eu sou “assustador”? – Indagou com um sorriso estampado no rosto.

- Só disse que você é temperamental. – Sua expressão ficou séria.

- Eu não sou temperamental, sou justo, é diferente.

- Discordamos nesse aspecto. – Uma longa pausa. – Como você está indo na escola? Está encontrando alguma dificuldade? – Apenas puxei assunto.

- Um pouco. Mas é que, bem, é difícil tentar ensinar tantos professores burros ao mesmo tempo, estou começando a ficar cansado, isso porque nem chegamos no meio do ano ainda. – Eu sorri.

- Não fale assim dos seus professores.

- Você os chama de professores e eu de “alunos”. – Riu.

- Fique sabendo que a maioria estudou vários anos em faculdades para chegar aonde chegaram. Vida de professor é complicada nesse país.

- Pra você ver como o nível das faculdades é baixo. Eles dão diploma para qualquer um hoje em dia.

- Não fale assim... A maioria dos alunos da sua sala deve ter muita dificuldade na matéria, você que é...

- Superior demais a todos eles, e por isso não devo ser comparado a seres tão insignificantes, certo?

Revirei os olhos.

- Você fica muito esnobe falando assim. – Ele riu.

- Obrigado.

- Não foi um elogio.

- Depende do ponto de vista.

- Você sempre tem uma resposta, não é?

- E você sempre tem uma pergunta?

- Claro, eu sou jornalista, lembra?

- Na verdade, escritora de colunas...

- Eu tenho um diploma que diz o contrário.

Ele riu.

- Lembra da nossa conversa de “como o nível das faculdades está baixo e de como eles dão diploma para qualquer um”?

- Lucas.

- Sim?

- Você é desprezível. – Ele sorriu.

- Depende do ponto de vista.

(...)

No dia seguinte logo bem cedo pela manhã, acordei e troquei de roupa, depois arrumei minha bolsa e caminhei até o quarto do Lucas, no final do corredor. Era domingo, e ele não acordaria antes do meio dia. Bati na porta uma, duas, três vezes, ninguém respondeu.

- Lucas. Lucas... – Bati na porta outra vez e nada. Estava quase desistindo quando me ocorreu que talvez a porta estivesse aberta; levei minha mão à maçaneta e virei para o lado, a porta se abriu, revelando para mim um quarto quase destruído por causa do volume de roupas no chão, livros espalhados nas estantes e amontoados em cantos aleatórios, e tintas coloridas manchando a parede azul. Resmunguei alguma coisa enquanto caminhava com dificuldade até a sua cama, sem me sentar, comecei a cutucá-lo. Ele estava coberto por três ou quatro lençóis. “Depois se diz inteligente. Ao invés de apenas uma coberta quente, ele se cobre com dezenas de lençóis finos” pensei comigo mesma. – Lucas... Acorde. Lucas... – Seus olhos de abriram e ele se sentou automaticamente na cama, como se fosse um soltado pronto para servir na guerra, me assustando. Ele me olhou atentamente, reparei que estava sem blusa. – Desculpe por ter te acordado.

Ele suspirou, piscando algumas vezes por causa da claridade.

- Que horas são?

- Sete.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não... Na verdade não, eu só quero te avisar que eu vou sair.

- Você vai aonde?

- Vou sair com o Daniel, só volto amanhã de manhã, está bem?

- Tá, mas...

- Eu deixei a comida no forno, depois é só esquentar. Eu estou com o celular, mas só me ligue se for urgente, entendeu? – Ele assentiu. – Bom, tenha um bom dia, Lucas.

- Vou ter. – E se deitou novamente.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de tinta.

- E vê se arruma esse quarto, esta uma baderna. – Escutei ele rir baixo.

Saí do quarto e disquei o número tão conhecido no celular.

- Estou pronta, agora venha me raptar. Serei toda sua. – Falei quando ele atendeu.

(...)

Peguei o hidratante e passei no meu braço. Estava toda me coçando.

- Jamais imaginei que houvesse tanto mosquito naquele rio. Eles praticamente me devoraram viva! – Esbravejei, vendo as marcas vermelhas no meu braço, aquilo ardia muito. Daniel não tirou o olho da estrada.

- Sinto muito querida. – Sorri com o meu azar.

- Eu que sinto muito... Acabei com o nosso dia juntos, não é? Você deve me detestar. Mas se não fosse essa alergia... – Suspirei.

- Não tem problema, isso acontece. É até melhor, pelo menos na sua casa você tem mais conforto do que naquele hotel.

- É. – Concordei, me imaginando dentro da minha banheira. – Mesmo assim pegar na direção à noite é perigoso.

- Já estamos chegando. – Ficamos em silêncio por alguns minutos. – Você não quer mesmo ir para a minha casa?

- Acho melhor não. Com essa alergia, acho que não sou a melhor companhia... – Sorri. – Deixa para outro dia.

- Tudo bem.

Quando viramos a esquina da minha casa, a primeira coisa que escutei foi a música alta.

- Nossa, parece que alguém está dando uma festa. – Falei admirada.

- É, e parece uma festa bem agitada. São quase meia-noite...

De longe, vi vários carros estacionados de frente à calçada do meu visinho.

- Ué. Será que o senhor e a senhora Silva estão dando uma festa...? Eles são um casal de aposentados...

Daniel riu, mas parou quando nos aproximamos.

- Susan, acho que essa festa não é na casa dos seus visinhos não...

Eu não acreditava no que os meus olhos me mostravam.

As luzes ligadas... O som... Os carros... As pessoas... Tudo vindo da minha – MINHA – casa.

- Ah, ele não fez isso. – Abri a porta e sai do carro. – Ah, ele realmente não fez isso. – Caminhei pelo meu jardim, onde pessoas bêbadas e desconhecidas vomitavam. – Hey, moleque, você não pode fazer isso! – Gritei, mas ele nem me deu bola. Quem era aquela gente? O que eles estavam fazendo na minha casa? Quem os convidou? A resposta era óbvia. Só uma pessoa tinha a chave da minha casa: Lucas – Não, ele não fez isso — A porta estava aberta, na verdade, escancarada para qualquer um que quisesse entrar. Sem pensar duas vezes, entrei, e o que vi me chocou.

Crianças... Dezenas delas... Moleques... Piranhas... Pivetes de quinze á dezenove anos... Bêbados, dançando e se esfregando um no outro sem pudor. Parecia com uma cena de filmes americanos que eu havia assistindo anos atrás. Aquilo era bizarro demais para ser verdade. Não, não na minha casa. Não, ele não podia ter feito isso.

Avancei pela multidão, procurando pelo culpado. Havia pessoas em todos os lugares e nenhuma eu conhecia. Até que eu vi entrando na minha cozinha, Fabio, o filho da nossa vizinha e melhor amigo do Lucas. Ele se assustou quando me viu.

- Senhora Susan, o que você está fazendo aqui?

- Eu que te pergunto Fabio. O que você está fazendo aqui? Ou melhor, o que esse povo está fazendo aqui na minha casa?! Quem é o responsável por essa palhaçada?!

- Bo-bom...

- Cadê o Lucas? Cadê esse filho da mãe?! Eu quero falar com ele. Onde ele está?

- Eu não sei. Eu juro que não sei... Eu só estava passando e tudo já estava acontecendo... Eu não tive culp...

Eu estava ficando vermelha de raiva.

- Fabio.

- Sim?

- A sua mãe sabe que você está ingerindo bebida alcoólica? – A boca dele abriu e fechou. Eu não queria nem imaginar como eles haviam conseguido aquelas bebidas – Imagino que eles estejam viajando, não é mesmo? Nossa, você já pensou na cara que eles vão fazer quando ficarem sabendo que o filinho deles está ingerin...

- Ele está no quarto dele...

- No quarto dele?! – Aquilo me assombrou. – Ele está com alguém?!

- E-eu não sei...

Me virei para ir embora, sentindo uma angustia me tomar, mas voltei e o encarei, apontando um dedo para o seu rosto.

- Saia daqui, Fabio. E é melhor você inventar uma boa desculpa para dizer para os seus pais quando eu contar sobre essa festa. – E saí. Subi as escadas, desviando das pessoas que encontrei pelo caminho. Caminhei pelo corredor, abri a porta do meu quarto, estava vazio, abri a porta do banheiro, também vazio. Caminhei até o ultimo quarto, respirei fundo e abri a porta. As luzes estavam apagadas, mas eu sabia que havia alguém ali, podia ouvir sua respiração.

- Vá embora. – Ele falou quando entrei. Provavelmente não havia visto que era eu.

- Eu não vou até você me dizer que droga está acontecendo na minha casa! – Escutei o som de alguma coisa caindo no chão e então liguei a luz. Aliviada, constatei que ele estava sozinho.

Ele pulou da cama, ficando de pé.

- Susan?! – Seus olhos se arregalaram.

- Estava esperando quem? O Papai-Noel?

- Você não ia voltar só amanhã? – Murmurou em pânico, pensando talvez que estivesse sonhando.

- Resolvi fazer uma surpresa, mas quem acabou me surpreendendo no final foi você. – Uma pausa – Sabe Lucas, para quem não gosta de festas... Até que você está bem animadinho, não é?! – Gritei.

Eu queria matá-lo, fatiá-lo em milhares de pedacinhos e depois colocar tudo no liquidificador. Mas eu não faria isso, porque era boa – trouxa – demais para tais atitudes. Ainda assim, de um jeito ou de outro, ele iria pagar.

Algumas semanas depois, eu entrei no quarto dele e entreguei dois papeis na sua mão, ou melhor, duas listas.

“Querido Lucas. Por mérito próprio, você conseguiu me tirar do sério (sinta-se privilegiado) e como recompensa, você ficará sem as seguintes coisas: Futebol, natação, mesada, televisão, vídeo game, computador (a menos que seja para trabalhos escolares), está proibido de sair (exceto para a escola e igreja), sem MP3 e MP5, sem celular, rádio, sem visita de amigos e qualquer outra coisa que possa te proporciona algum tipo de diversão, até a segunda ordem. De agora em diante, você será tratado como um prisioneiro em cárcere privado e terá algumas tarefas para se distrair, estas você encontrará na outra lista. Bom, tenha um péssimo dia e passar bem. Que a culpa absorva a sua alma. Atenciosamente, ‘Titia’ Susan. Aproveite o seu castigo, querido”

(lista dois)

Lista de tarefas para pessoas irresponsáveis.

Segunda-feira: Lavar os banheiros e a louça do jantar.

Terça-feira: Cortar a grama do jardim, limpar o próprio quarto.

Quarta-feira: Cozinha e sala.

Quinta-feira: Quintal e garagem.

Sexta-feira: Folga. Não, mentira. Na sexta você lava o meu carro e arruma o meu quarto.

Sábado: Organizar a biblioteca, todos os 425 livros. (Ah, eu quero os livros em ordem alfabética, não se esqueça).

Domingo: Você refaz tudo outra vez (todas as tarefas) só para ter certeza que o serviço será bem feito.

Dica: Aproveite as suas tarefas e seja um bom menino, porque isso irá me ajudar a decidir se eu continuo ou não deixando você morar na minha casa. Ah, e eu vou comprar uma casinha de cachorro, sei que não temos cachorro, mas talvez você precise dela para quando eu te jogar para fora de casa.

Com carinho, Susan.

Notas finais
Nossa, eu fico imaginando a raiva que ela sentiu quando descobriu que ele havia aproveitado a sua ausência para dar uma festa... Ele tem sorte de não ser meu filho. (risos)
Como vocês viram, temos muitas mudanças ocorrendo com os personagens... Só espero que não esteja muito confuso. Mas qualquer coisa, sintam-se a vontade para fazer perguntas.
Beijos.