Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
27 Capítulo vinte e seis - A continuação do Pesadelo
Notas iniciais
De qualquer jeito, espero que gostem.
E desculpem os erros.
Capítulo vinte e seis. – A Continuação do Pesadelo.
- “Os piores pesadelos, são aqueles que temos quando não estamos dormindo”.
Eu estava com tanto frio e fome... Podia sentir o cheiro de panquecas no ar, e isso era tão bom, mas de onde elas vinham? Olhei para os lados, tudo estava tão escuro... Eu parecia estar deitada em algum lugar... Parecia o chão, pelo menos era tão duro e gelado quanto. Respirei fundo e tentei me levantar, eu não enxergava nada. Aonde é que eu estava? Dei um passo para frente e bati o joelho em algo mole e quente. Suspirei, era tão ruim não ver... Tentei piscar algumas vezes e nada, tudo continuava escuro, então levei minha mão até meus olhos e senti um pano fino tampá-los. Ah, então era isso que estava me atrapalhando, eu estava vendada. Levei minhas mãos para trás da minha cabeça e encontrei o nó que prendia o pano. O desfiz com um pouco de dificuldade e o retirei, finalmente podendo ver. Eu estava em algum tipo de corredor e ao fundo podia ver uma porta de madeira marrom sem graça e nela estava escrito “saída”. Eu estava me perguntando que lugar era aquele quando senti algo me acertar por trás. Me virei de imediato e tomei um susto, notando que eu não estava sozinha. Havia dezenas de pessoas naquele corredor, mas o mais impressionante era que todas elas eu conhecia.
- Fernando? – Perguntei para a criança à minha frente. Ele me olhou com uma expressão assustada. – O que foi? – Ele não me respondeu, parecia ter ficado mudo de repente. Olhei para mais adiante, sua mãe estava atravessando rápido pelo meio da multidão até o nosso encontro. Sorri para ela, finalmente eu teria algumas respostas. – Karol, que bom que você está aqui! – Falei feliz.
- Saia de perto do meu filho sua vagabunda! – Ela gritou, puxando a criança de perto de mim.
- O-o que você disse? – Perguntei com a voz tremula. Ela me lançou um olhar mortal. Eu nunca tinha visto ela desse jeito antes.
- Se você encostar outra vez no meu filho eu juro que te mato!
- Porque você...? – Mas eu não terminei a pergunta. Olhei para as outras pessoas, todas me olhavam da mesma maneira, como se tivessem nojo de mim. – O que está acontecendo? – Perguntei.
- Não se faça de sonsa! – Gritou minha tia Carmem, arisca – Você sabe muito bem o que está acontecendo! – Me acusou. Olhei para a pessoa ao seu lado, o meu Tio Marcos.
- Tio...?
Ele negou com a cabeça.
- Como você pôde fazer uma coisa dessas? Ele era só um menino... – Aquelas palavras não faziam o menor sentido para mim.
- Do que vocês estão falando? O que eu fiz...?
- Eu sempre soube que você é uma psicopata! – Disse a minha mãe.
- Mãe?
- Não me chame de mãe! Eu nunca seria mãe de um monstro como você!
- M-monstro?
- Eu jamais esperaria isso de você... – Disse minha professora da oitava-série de ciências, Senhora Laura.
- Isso é tão doentio... – Falou alguém.
- Porque você fez isso? – Perguntou Fabio, o nosso visinho.
- Fiz o que? – Perguntei.
- Por favor, não machuque os meus filhos! – Gritou Karol.
- Machucar? Eu jamais machucaria...
- Você deveria ir para a cadeia! – Falou o Felipe, tão nervoso que mal o reconheci. .
- Isso é uma calamidade... – Falou outra voz, lamentando pesadamente algo que eu não compreendia.
Levei minhas mãos para os meus ouvidos, não querendo mais ouvir aquilo.
- Você é doente...
- Deveria ir para um manicômio...
- Ele era tão doce...
- Não encoste em mim sua louca!
- Doente!
- Eu tenho nojo de você sua maldita!
- Demônio!
- Cachorra!
- Monstro!
Eles continuavam todos a me xingar ao mesmo tempo, a dizer coisas que eu não entendia. Porque eles estavam com raiva de mim? O que eu havia feito de tão horrível para todos me odiarem dessa maneira? Eu estava me sentindo sufocada, presa, acuada, como um passarinho preso dentro de uma gaiola sendo cutucado com um canivete pelo seu dono. As pessoas começaram a me cercar, como se quisessem me bater. Senti medo.
- Por favor, eu não entendo... – Tentei dizer.
- Eu tenho nojo de você! – Ouvi alguém gritar.
- Parem, por favor...
- Seu lugar é na cadeia!
- Parem...
- Maldita!
- Por favor...
- Sua louca!
- PAREM! – Comecei a chorar. – PAREM! Por favor, PAREM DE FALAR!
- Vagabunda!
- Eu odeio você sua ordenaria!
Não importava o quanto eu pedisse, eles não paravam. Eu não estava agüentando mais.
- Parem... Parem, por favor, parem... Eu não fiz nada... – Dizia em meio ao choro. – Eu não sei do que vocês estão falando... Parem, por favor... – Mas eles não paravam.
Eu não sabia o que era pior, ouvi-los me xingando ou ver seus rostos me olharem como se eu fosse um animal. Eu me lembrei da porta com a placa escrito “saída”, mas por algum motivo, comecei a correr para o lado contrário a ela. Talvez estivesse muito confusa, e só quisesse sair daquele lugar. Eu não sei ao certo por quanto tempo eu corri, fosse por um segundo ou por uma eternidade, só estava assustada e corria como se tentasse escapar da própria morte. Quando mais adentrava pela multidão, mais as vozes ficavam agressivas, como se eu estivesse me aproximando do motivo de toda aquela agitação. Continuei correndo, me defendendo como pude dos socos, arranhões e puxões de cabelo que recebia. A cada passo, sentia algo crescer dentro de mim, uma vontade de continuar, uma pressa de chegar a algum lugar... Era um sentimento tão intenso, que agora eu nem dava mais importância para o que às pessoas diziam ou como me olhavam. Eu apenas queria chegar ao outro lado daquele corredor. Eu apenas queria entender o que estava acontecendo.
Foi então que senti meu corpo escapar para fora daquela multidão de pessoas, eu estava livre, tinha finalmente conseguido. Abri os olhos lentamente e encarei uma porta, mas não uma porta comum, uma porta que eu conhecia. Aquela era a porta do antigo quarto do Lucas, eu sei por que fui eu que a escolhi. Era a porta da nossa ex-casa, a porta que era do quarto dele quando ele tinha nove anos.
Ouvi as vozes se silenciarem, e o silêncio reinar, finalmente consegui escutar meus pensamentos. Eu não olhei para trás para saber se aquelas pessoas haviam ido ou não embora. Isso não importava mais. Eu só queria descobrir o que tinha detrás daquela maldita porta.
Levei minha mão à maçaneta e depois abri.
***
Minha mente voltou à consciência lentamente. “Um pesadelo” disse para mim mesma em pensamentos, sem me mexer. Aquele havia sido um ótimo jeito de começar um dia: Tendo um pesadelo horrível e sem sentido. Eu sentia o meu corpo doer, talvez tivesse dormido de mau jeito à noite. Tudo bem, ao menos agora eu já estava acordada. Tentei imaginar que horas eram... Eu sabia que era sexta-feira e que eu tinha que ir trabalhar. “Ótimo, que maravilha. Humpf... Não podia ser feriado?”. Talvez com sorte eu pudesse ficar dormindo um pouco mais... Estava me sentindo tão cansada... Mas eu sabia que não conseguiria dormir depois daquele pesadelo. Continuei deitada, tentando prestar atenção nos locais doloridos no meu corpo; nuca, pés, coxas, peitos, comecei a listá-los. Era como se eu tivesse participado de uma corrida ontem à noite, dando dez voltas no estádio do Maracanã. Eu não entendia porque sentia tanta dor... Meu colchão era tão macio... O que tinha dado de errado dessa vez? Respirei fundo, não queria ficar pensando sobre isso... Eu só queria relaxar e dormir mais cinco minutinhos... Só mais um cochilo e eu iria levantar, me vestiria e iria trabalhar como fazia todos os dias. Que pena que hoje não é feriado... Uma grande pena mesmo.
Sorri contra a minha rebeldia, eu parecia uma garota de dose anos, teimando em se levantar da cama para ir pro colégio. Eu não tinha tempo para ficar enrolando na cama, precisava ir trabalhar, o Diretor me mataria se eu atrasasse um minuto sequer.
Suspirei, e em seguida abri os olhos, encarando a televisão. Ah, então era isso, eu havia dormido na sala. Concluí; não me lembrando do ocorrido. Forcei minha mente para se recordar de que horas eu havia descido e me deitado naquele sofá, mas eu não conseguia me lembrar, era como se a lembrança tivesse sido apagada da minha mente. Não dei muita importância para isso.
Quando eu ia me levantar, senti algo quente roçar nas minhas costas, me fazendo temer o que estava por vir. Olhei para o lado, vendo o corpo de um homem deitado ao meu lado, seu rosto estava tampado pela almofada do sofá. Eu não acreditava que eu havia feito isso. Dormir com um cara na sala? E se o Lucas visse isso? O que ele pensaria de mim? Suspirei, reparando no seu corpo. Pelo menos era um homem muito bonito. Sorri com o pensamento malicioso. Levantei-me do sofá e caminhei até o outro lado da sala, onde achei minhas roupas jogadas de qualquer jeito do chão. Vesti as peças uma por uma, depois olhei as horas no relógio. Felizmente eu não estava atrasada. Caminhei até o banheiro, penteei os cabelos e escovei os dentes, em seguida voltei para o sofá. Eu tinha que acordar o moço antes que o Lucas descesse para tomar café da manhã.
- Hey bonitão, você precisa acordar... – Comecei a falar, quase cantando como uma criança. Ele nem se mexeu. Torci os lábios, pensando no que fazer. Estiquei-me no sofá e tirei a almofada do seu rosto, querendo saber com quem eu havia dormido ontem à noite.
Eu poderia pensar em qualquer pessoa, menos nele.
O Lucas dormia como um anjo no meu antigo sofá, tão sossegado e livre de preocupações... Estava nu e seus cabelos desgrenhados. Ele era a visão mais bonita e mais assustadora que eu já havia visto em toda a minha vida. Aquilo não podia estar acontecendo.
Dei um, dois, três passos para trás. Meu coração acelerou, enquanto eu assimilava aquilo tudo. Senti minhas mãos começarem a tremer, o susto ainda controlando meus movimentos. Levei minha mão a boca. Eu queria gritar, mas estava sem voz, eu queria correr, mas não tinha forças e eu queria fechar os olhos, virar o rosto, mas aquela visão parecia ter me hipnotizado.
- Não... – Neguei. – Não, não, não, não, não...
Aquilo não era real. Eu estava apenas sonhando. Tinha que estar sonhando.
Pelo amor de Deus, não com ele... Não com ele...
Ele se mexeu e eu congelei, parando de falar automaticamente. Pensei que ele estava prestes a acordar, mas ele não acordou. Respirei fundo, sentindo tanto medo, tanta raiva, tanta vergonha... Tantas coisas ao mesmo tempo. Eu queria entender, queria chorar, fugir... Queria morrer, queria me matar. Eu tinha cometido o pior erro da minha vida, e sabia que não tinha mais volta.
De repente senti nojo de mim mesma. Senti nojo do meu corpo e da minha alma. Eu era uma mulher suja, podre, sem escrúpulos ou moral, eu era tão imunda quanto o pior psicopata de todos os tempos. Eu era a desgraça em pessoa, uma vagabunda, uma doente, sarnenta, hipócrita. Eu não conseguia resumir a raiva que sentia pela minha própria existência. Passei a vida toda julgando as pessoas e não me dei conta de que eu era a pior de todas. Qualquer um diria isso. Eu sou um monstro.
Comecei a chorar, e como a covarde que sou, corri para a porta e fugi daquela casa, daquele mundo. Fugi da minha própria realidade. Eu poderia ter fugido de carro, mas eu nem pensei nisso. Só queria sair dali, ir para longe dele, encontrar um lugar longe o bastante para eu não senti mais sua presença, seu cheiro... E não sentir mais culpa.
Cambaleei pela rua como uma bêbada sem rumo, chorando como se tivesse acabado de perder um filho. As pessoas me olhavam com pena e outras pareciam saber o que eu havia feito. Eles estavam me julgando como eu costumava fazer. E eu não os culpo, sou tão podre que só para isso eu sirvo: Para ser mostrada como um mau exemplo.
“Olhem lá, a maluca andando pela rua” eles deveriam dizer uns para os outros, “Olhem como ela é suja, feia e doente” e diriam também: “Vejam, lá vai a louca que dormiu com aquela criança... Lá vai a psicopata”.
Meu choro se intensificou e eu comecei a soluçar. Estava tão descontrolada que estava andando pelo meio da rua, sem me importar com os carros que passavam. Porque era exatamente isso que eu procurava... Eu procurava pelo único refúgio que poderia me proporcionar algum tipo insano de paz, a morte.
Passei o dia vagando pelas ruas, parando de vez em quando para me sentar em algum lugar. Eu nem sabia onde estava, nem sabia para onde estava indo, eu só queria andar, como se fazendo isso eu fosse esquecer os meus problemas. Depois de algumas horas, eu parei de chorar e depois de mais outras, eu parei de me perguntar ‘porque’ fizera aquilo. Eu estava assustada e quase não conseguia pensar. Fiquei imaginando a reação das pessoas, fiquei imaginando o trauma que se formaria depois dessa noite na vida delas. Todo mundo me julgaria... Todos me olhariam como se eu fosse um animal... Todo mundo. E eu ouviria tudo calada, sabendo que tudo era verdade.
Mas o que mais me assustava, era saber que provavelmente eu nunca mais o veria. Ele iria morar com a minha mãe, e eu... Eu iria para a cadeia ou para o manicômio... Iria pagar pelo erro que cometi.
Durante o dia, lembranças da noite passada vinham para me torturar. Eu lembrava de suas mãos em meu corpo me tocando com toda liberdade, lembrava dos seus suspiros, dos seus sorrisos e beijos... Lembrava-me de nunca ter me sentido tão feliz. Eu deveria ser mesmo muito doente afinal.
Já estava escurecendo quando entrei naquela lanchonete 24h., me sentei na mesa mais distante de todos e lá fiquei sentada durante horas. De vez em quando as garçonetes me perguntam se eu queria alguma coisa, e eu ficava lá, parada, olhando para a mesa como se sofresse de alguma doença mental.
Ás vezes eu chorava, ás vezes me lamentava e outra vezes, mais raras do que as anteriores, eu me pegava sorrindo, mas depois sentia tanta raiva de mim, que o sorriso se transformava em choro novamente. Era um ciclo vicioso.
Não me lembro de ter chorado tanto na minha vida...
Fiquei imaginando onde ele estaria agora, o que ele estava fazendo, o que estava sentindo... Provavelmente muita raiva de mim. Imaginei-o acordando assustado naquele sofá, completamente despido e sozinho, o imaginei ligando para o celular que eu não havia trazido e depois ligando para a minha mãe ou para o meu tio. Imaginei a reação que eles teriam. “Ela fez o que!?” Diriam furiosos. Provavelmente quando eu voltasse para casa, tudo estaria bem. Eu chegaria, veria os advogados, os psicólogos, e seria levada para uma clínica, onde só sairia para escutar a sentença do juiz. Eu não me importava comigo, só com ele. O que aconteceria com ele depois que eu fosse levada? Ele é maior de idade, não precisa de um tutor... Ele é esperto, ficaria bem. Mas ele... sentiria saudades de mim? Ah, claro que não! Como poderia sentir? Eu sou a louca que tirou sua inocência! Lembrei-me da Raquel e da ruiva de ontem à noite... Ele não era tão puro assim afinal. Mas ainda assim ele era a criança e eu a adulta. Eu era responsável por todos os pecados que tínhamos cometido e não ele. Ele só havia sido seduzido por mim... Só havia feito o que fez, por medo de que eu o tirasse de casa... Ele era só um menino... Um menino que não entende o mundo.
Mas ele era tão bonito...
Levantei-me da cadeira e saí da lanchonete. Caminhei mais um pouco até encontrar um ponto de ônibus. Esperei meia hora até que o ônibus que eu queria passasse. Paguei o cobrador com algumas moedas que encontrei no bolso da minha calça e me sentei em um banco qualquer. O ônibus estava praticamente vazio. Fiquei bem mais de uma hora sentada até que finalmente chegou o meu ponto. Desci do ônibus e andei por debaixo de chuva até em casa. As ruas estavam desertas e as luzes das casas apagadas. Eu parecia o fantasma daquele lugar. Deveria ser três ou três e meia da manhã quando cheguei na minha casa. Abri a porta da entrada e entrei, as luzes da sala estavam apagadas. Acendi a luz, e encarei o menino sentado no sofá. Ele havia me esperado esse tempo todo.
Senti o âmbito de chorar voltar a me tomar. Ele estava lindo com aquela calça e blusa de frio. Parecia ter acabado de chegar de algum lugar.
- Aonde é que você se meteu?! – Perguntou nervoso, se levantando e se aproximando de mim. Eu não queria conversar com ele... Não, não agora.
- Eu precisei sair. – Falei simplesmente, caminhando para o outro lado da sala. Eu precisava de espaço, tinha medo do que podia fazer se ficássemos perto um do outro.
- “Você precisou sair?” – Repetiu perplexo. – Eu te procurei nessa cidade inteira!
- Desculpe...
- Não! Não desculpo não! Você podia ter me avisado! Eu pensei que você tivesse sofrido um acidente, pensei que tivesse morrido!
Sentia meu coração acelerar mais a cada instante que o olhava. Porque ele tinha que ser tão perfeito? Porque ele não era gordo, narigudo, vesgo e cheio de espinhas no rosto como qualquer garoto da sua idade? Porque ele tinha que ser diferente?
- D-desculpe... – Repeti com a voz tremula.
Ele suspirou, e começou a se aproximar de mim.
- Não! Fica ai! – Gritei, assustando-o. – Não se aproxima de mim!
- O que? Por quê?
- Só não se aproxima. – Ordenei, com cautela.
- ‘Tá, tudo bem... – Franziu a sobrancelha. – Nós dois... – Virei de costas e comecei a caminhar para as escadas. – Aonde é que você vai? – Questionou.
- Embora.
- Não! – Ele correu até mim e segurou meu braço.
- Me solta Lucas! – Gritei, sentindo meu coração se partir. Eu já começava a chorar. Ele encarou meus olhos, percebi sua expressão se contorcer. Ele parecia triste também.
– Precisamos conversar!
- Não, não precisamos não! – Ele soltou meu braço.
- Claro que precisamos!
- Hoje não! – Comecei a subir as escadas, mas ele me seguiu.
- Você não vai fugir de mim, não de novo! Eu passei o dia inteiro te procurando! Até em hospitais em fui!
Entrei no meu quarto e fechei a porta.
- Vai embora! – Gritei quando ele tentou forçar a porta para entrar.
- Não sem antes termos uma conversa!
- Eu não quero conversa com você! – Falei soluçando.
- Mas nós dois precisamos conversar!
- Por favor... Eu não quero. – Meu choro ficou mais forte.
- Susan, eu não quero te fazer chorar...
- Então vai embora, por favor. Eu não quero falar sobre o que aconteceu. Lucas, por tudo que é mais sagrado, esqueça isso. Eu não quero conversar.
- Mas nós precisamos! Não podemos agir como se nada tivesse acontecido! – Gritou, esmurrando a porta. Fiquei em silêncio. – Por favor, abre essa porta.
- Não.
- Porque não? – Não respondi – Aonde é que você passou o dia? Eu te procurei no serviço, mas você não...
- VOCÊ FOI NO MEU SERVIÇO?! – Abri a porta e o encarei nervosa. Quem deu o direito dele ir no meu serviço me procurar?
- Claro que fui! Eu já tinha ido em todos os lugares possíveis e não te encontrei!
- Ah, e você tinha que ir até os meus patrões e falar que eu tinha desaparecido, para deixar todo mundo preocupado?! Agora todo mundo vai achar que sou irresponsável!
- O que? EU ESTAVA PREOCUPADO COM VOCÊ! Você sumiu e não deixou recado! Eu fiquei preocupado, pensei que você tinha feito alguma besteira!
- Besteira? Que tipo de besteira você pensou que eu tinha feito?! Pelo amor de Deus garoto, eu sou adulta, não sou uma idiota suicida!
- Eu só estava preocupado com você! Você deveria me agradecer!
- Te agradecer por ter deixado todo mundo preocupado?
- Foi você quem desapareceu, NÃO EU!
- Mas eu tinha um bom motivo! Você NÃO TEM o direito de se meter na minha vida desse jeito!
- Você está louca?! Como eu não tenho... ?
- Você é só uma criança! Uma criança estúpida e idiota!
Ele me olhou furioso, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem. E então saiu de perto de mim, seguindo para as escadas.
- Aonde você vai? – Perguntei, o seguindo. – Eu não queria dizer isso... Eu só... – Descemos as escadas.
- Não te interessa aonde eu vou!
- Lucas, volte já aqui! — Ele caminhou até a estante da sala e pegou uma chave, depois caminhou até a porta da entrada. – Você não pode sair desse jeito! – Era difícil pensar no que dizer para ele, com ele correndo como um maluco.
- Ah, então você acha que é a única que pode sair sem dar satisfações? – Se virou para mim, me deixando sem reação. — Deixa eu te contar uma novidade então meu bem, eu também posso.
- O que? – Ele seguiu para a garagem. – Você... Lucas, você não pode sair desse jeito... É PERIGOSO! – Eu gritava para ele, mas ele era teimoso demais para me escutar.
- Ah. — abriu a portão da garagem, sorrindo – Então agora você está preocupada comigo? – questionou com desdém. — Tarde demais.
- Lucas... Eu não quero que você vá. – Sorri desesperada – Fica, por favor, fica comigo. – Isso era tudo que eu tinha para oferecer.
- Não obrigado, e eu também não estou fazendo isso por você, estou fazendo por mim. – Comecei a chorar.
Coloquei-me na sua frente.
- Olha, tudo bem, se você quiser conversar tudo bem, nós conversamos, só não pega no volante nesse estado, por favor. – Ficamos nos encarando por alguns instantes. Ele levou a mão até o meu rosto e secou uma das minhas lagrimavas.
- Susan, motos não têm volante. – Sussurrou no meu ouvido, acabando de vez comigo. Aquilo me fez ficar paralisada. Ele caminhou até a sua moto.
- Lucas... – Em segundos, ele montou em cima da moto e deu partida, sem colocar o capacete. – Lucas! – Ele saiu da garagem e eu corri atrás dele. – Por favor... – Mas ele era teimoso demais. Eu só pude vê-lo virar a esquina e então eu estava sozinha novamente. Senti o meu mundo desmoronar. – Por favor... Não me deixa. – Falei para o vento. Meu coração estava partido e meus olhos vermelhos de tanto chorar. E bem ali, no meio da avenida, eu caí de joelhos no chão, desmoronando junto de tudo aquilo que eu era. Minha vida estava acabada.
A chuva caía sobre o meu corpo, molhando toda a minha roupa, me lembrando que aquilo não era um pesadelo. Porque mesmo os pesadelos sendo ruins, não se comparavam ao que estava acontecendo comigo.
Notas finais
Ah, e antes que eu esqueça, Lana obrigado por recomendar a história. Fiquei muito emocionada. Foi muita gentiliza sua. Que Deus te abençoe. Beijos flor.
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