Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
23 Capítulo vinte e dois - A acompanhante inesperada.
Notas iniciais
Capítulo vinte e dois. – A acompanhante inesperada.
Tudo aconteceu rápido demais para eu entender. Um dia, ele era uma pessoa e no outro, havia se transformado em outra completamente diferente. Ele estava mudado, não só fisicamente, como também mentalmente. Não lembro quantas vezes ao certo, mas me cansei de sair do serviço para ir até a sua escola resolver alguma das suas novas confusões. Ele entrava em brigas, desacatava professores, praticava bulling com os outros alunos, era mal educado com todos e irresponsável com seus deveres de aluno, não fazendo trabalhos e não terminando provas. Mas naquele dia em especial, ele tinha passado dos limites.
Estávamos em outubro de 2005 e o quarto bimestre estava quase acabando, e ainda assim ele não dava a mínima importância para a escola.
– Eu não acredito que você fez isso, Lucas. DUAS SEMANAS? Você cabulou DUAS semanas inteiras?! – Gritei. Ele me olhou, parecendo me avaliar. – Como você teve coragem de fazer isso? Está tentando se sabotar? Duas semanas de aula? Isso é tão... Tão irresponsável!! Isso não combina com você! Meu Deus, o que está acontecendo com você? Está ficando louco?
– Talvez.
– Não diga bobagem! Você não pode dizer essas coisas! Você não pode FAZER essas coisas! Isso é coisa de moleque! Faltar aulas? Isso é burrice garoto! Muita burrice! Você não é burro! É? – Levei minhas mãos aos meus cabelos, eu estava quase explodindo. – Você não entende como a escola é importante para você! Você não entende! – Uma pausa – Será que você não vê? Você precisa passar de ano! Está ficando louco por acaso? O que você quer ser? Um catador de lixo? Você não tem ambição não? Não quer ser independente, não quer ter uma família? Então, para isso você precisa estudar, PRECISA DE UM DIPLOMA! Se não, VOCÊ NÃO VAI SER NADA NA VIDA! Vai ser um bosta! Um traste, um parasita da sociedade! Você quer isso para você? Tem certeza? Você não quer ter futuro?
– Eu só faltei duas semanas, não é como se eu tivesse desistido de estudar. Você está fazendo drama.
Como ele podia ficar tão calmo com essa situação.
– Você “SÓ” FALTOU DUAS SEMANAS? “SÓ”? Você acha isso pouco? – Respirei fundo, tentando me controlar. – Você não imagina o que eu senti quando recebi o telefonema da sua diretora... Foi tão humilhante. Como se já não bastasse as brigas, as suspensões... Agora isso. Eu não sei o que está acontecendo com você. Você não era assim. Você gostava de estudar. Eu não sei o está acontecendo, Lucas. Eu não sei o que fazer, só sei que eu estou ficando muito cansada dessa situação. Estou de mãos atadas, assistindo você se alto sabotar. Isso é doloroso. Você tem que me dizer o que eu tenho que fazer para te ajudar, porque eu não sei mais.
– Você não precisa fazer nada. Eu não pedi a sua ajuda. – Ele se levantou do sofá e ficou de frente para mim. Eu estava me esforçando para não chorar.
Suspirei.
– A vida não é assim, menino. Legalmente, eu sou responsável por você. Eu tenho a sua guarda. E consequentemente, quando você faz essas bobagens, sendo menor de idade, a culpa vem toda para mim! Você não vê, mas quando você tenta se sabotar, acaba me levando junto para o buraco também! – Minhas mãos começaram a tremer de raiva. Ele me encarou.
– Apenas ignore então. – Como tudo para ele podia ser tão simples?
– COMO VOCÊ QUER QUE EU IGNORE ISSO? Toda semana, uma mulher liga para o meu serviço e pede para falar comigo sobre o seu “comportamento”! Você acha que eu gosto disso? Você acha que eu vejo graça nisso? Acha que eu curto ver você acabando com a sua vida desse jeito? Que eu gosto de chegar em casa e encontrar você de olhou roxo, porque se meteu com a namorada de um moleque do terceiro ano?! Você deve achar que eu acho isso lindo, não é? MAS EU NÃO ACHO! Isso é coisa de criança! Eu esperaria isso de um pivete de dose anos, NÃO DE VOCÊ!
– Eu... Não pedi a sua ajuda.
– E nem eu pedi para você ter problemas, mas você tem, não é? A verdade é que todos tem, Lucas. Todo mundo tem problemas, ninguém está livre disso, mas você precisa aprender a conviver com isso. Não pode se meter em brigas toda vez que algo der errado, toda vez que algo não sair do jeito que você quer. Você é tão jovem... Tem tanto para viver ainda. Precisa respeitar os outros... Aprender a conviver com as outras pessoas, se não você nunca fará amigos.
– Eu tenho amigos. – Afirmou irritado, como se eu estivesse tentando prejudicá-lo.
– Estou falando de amigos de verdade.
– Eu tenho amigos de verdade. Eles não são pessoas invisíveis, não são bonecos, animais... São de verdade.
– Lucas, amigos de verdade não são aqueles que entram em uma briga com você ou que te mete em uma briga. Não, amigos de verdade são aqueles que tentam ao máximo manter você longe de brigas, porque eles se importam com você. Porque um soco que você leva no rosto, dói neles também. São pessoas como a Karol, o Felipe, o Vitor. Pessoas que se importam de verdade... Não apenas pessoas que andam junto de você. Agora me diz, os seus amigos são assim? O Fabio, por exemplo, na festa que você deu aqui em casa, ele não pensou nem duas vezes antes de te entregar, tentando limpar o próprio lado. Essas pessoas não são suas amigas. “Pessoas que mentem por você”. Elas não são, porque elas não gostam de você, Lucas, elas só te usam. Você é um menino bonito, gracioso, inteligente... Elas gostam de ficar com você, porque é conveniente. Você é popular... Elas só estão te usando, garoto. Mas quando você passar por um momento difícil, duvido que alguma delas te dê algum apoio ou ofereça a casa para você morar. Pois para elas, tanto faz se você está bem ou não. Você não significa nada para elas, só um instrumento para se conseguir popularidade.
– Você não conhece eles.
– Ah, acredite, eu conheço sim. Eu já fui adolescente, sei como funciona a cabeça dessas pessoas. Me escute, Lucas. Eu sou sua amiga, eu me importo com você, me importo mesmo, de verdade, não estou tentando te prejudicar, jamais faria isso. Você é como um filho para... – Seus olhos de arregalaram e ele deu um passo para trás.
– VOCÊ NÃO É MINHA MÃE! – Seu grito me assustou.
– E-eu sei, não quis dizer...
– Você não é minha mãe! Minha mãe está MORTA!! ELA ESTÁ MORTA!! ENTERRADA EM UM CEMITÉRIO, A SETE PALMOS DO CHÃO! – Aquilo me chocou.
– Lucas, eu não quis dizer...
– Você. Jamais. Será. A. Minha. Mãe!
– Eu sei, e eu não quero ser. – Ele me olhou atordoado, como se estivesse em choque. O que estava acontecendo? – Eu nunca quis tomar o lugar da Anabela, Lucas. Eu só quis dizer que você é importante para mim. Sua dor é a minha dor. Sua felicidade é a minha felicidade. Porque eu amo você. – Aquela fora a primeira vez que eu disse aquilo e a sua reação não podia ser pior. Parecia que eu o havia dado um soco na cara ou um tiro no peito. Sua expressão se contorceu, seu corpo tremeu e por um momento eu vislumbrei o brilho voltar ao seu olhar, como quando ele era pequeno. E então eu enxerguei o meu Lucas, o Lucas doce, calmo, que adorava saber do meu passado e que se importava com a natureza e pessoas. O Lucas de anos atrás, de nove anos, que queria mudar o mundo, que fazia minha alma tremer com apenas um olhar, aquele que tanto me fazia falta.
Ele olhou para os lados, procurando por alguma coisa.
– Acho melhor conversarmos depois. – E saiu, subindo as escadas para o segundo andar, como se estivesse fugindo de mim, me deixando ali, parada, sem entender nada.
(...)
Quando as aulas acabaram, fiquei aliviada ao constatar que ele não havia repetido de ano, pelo menos nesse aspecto estava tudo bem. No final do ano, inesperadamente, recebi o telefonema da minha mãe, pedindo para que o Lucas passasse o final do ano na casa dela, e por coincidência ou não, a mala dele já estava pronta, o que não me dava escolha a não ser concordar com a viagem. Aproveitei a sua ausência para passar a dormir na casa do meu namorado, como já era de se esperar. Passamos o Natal na casa da Karol, o Felipe estava viajando a trabalho, e ela não podia estar mais nervosa. Pelo menos, com a nossa companhia, ela se acalmava um pouco. Fazia apenas alguns meses que eu não via o pequeno Fernando, mas fiquei espantada quando me deparei com o seu tamanho.
– Tia, olha o meu desenho! – Disse correndo pelo corredor molhado para me cumprimentar, levantando uma folha de sulfite no ar. Sorri para ele. A Karol estava bem atrás, esbanjando sua barriga de cinco meses de gravidez.
– Fernando toma cuidado, o chão está molhado. – Ela falou.
– Nossa, querido, que desenho lindo. – Admirei os bonequinhos feitos com giz de cera. – Quem são?
Ele respirou fundo, enchendo os pulmões de ar.
– A ‘vemeia’ é a minha mamãe, o azul é o papai e eu sou o ‘marelo’. – Disse orgulhoso da sua obra de arte.
– E quem é essa coisinha marrom? – Perguntei.
– É o Pirulito. – Pirulito era o Labrador da família, um filhote de três meses que só sabia dormir.
– Nossa, que lindo. – Disse o Daniel. A Karol sorriu.
– Olá Daniel. – Ela o abraçou com um pouco de dificuldade, por causa da barriga.
– Olá.
Ela me encarou.
– Você está com um barrigão, hem! Para quando é esse bebe? – Ela colocou a mão na cintura.
– Eu espero que para março.
Nos abraçamos.
– Você está muito bonita. – Elogiou o meu namorado, muito educado. Ela sorriu com ternura.
– Obrigado por mentir, querido. – Respondeu, me fazendo sorrir.
Passei a mão na cabeça do meu afilhado, bagunçando seus fios castanhos.
– E esse garotão, já está com quantos anos?
– Fala para ela, Fê. – Disse a mãe. Ele me mostrou cinco dedos da mão.
– Cinco. – Murmurou, como se estivesse treinado para fazer isso.
– Uau, tudo isso? Credo, Fernando, como você é velho! – Ele gargalhou.
– Eu não sou não, tia.
Eu ri.
– É sim, muito, muito velho. – Ele riu, adorando aquela brincadeira.
– Para de amolar o meu filho, vai deixá-lo paranóico! Venham, entrem logo, saiam desse frio, não quero ninguém gripado por minha culpa.
Começamos a caminhar. O Fernando agarrou a minha perna.
– Tia, cadê o “Luca”?
– Ah, querido, o Lucas está viajando...
Ele fez bico e cruzou os braços.
– Ele vai voltar?
– Claro que vai, Fê. Não diga besteira. – Disse a Karol.
– Mês que vem ele volta.
Entramos dentro da casa.
– Tia, você ‘sabia’ o que o Lucas fez para mim da última vez que ele veio na minha casa?
– O que querido?
– Ele me ensinou a jogar vídeo game, acredita?
– É, obrigado Lucas. – Resmungou a mãe.
Abri a boca e ergui as sobrancelhas, fingindo surpresa.
– Uau.
– E você joga bem? – Perguntou o Daniel, rodeando com o braço a minha cintura.
– Mais ou menos... Só o dos carrinhos. – Ele colocou a mão na cintura e virou um pouco o rosto para o lado, igual como a sua mãe costumava fazer. – Você quer jogar comigo tio?
O Daniel olhou para mim, eu dei de ombros.
– Vai, é bom que ai as “comadres” colocam o papo em dia. – Disse a Karol.
– Tudo bem então, Fernando, mas você vai ter que ter paciência comigo.
– Tá, eu ensino você a jogar.
Meu namorado riu, depois olhou para mim.
– Você ouviu isso? Ele vai me ensinar... – Falou saindo da sala, sendo puxado pela mão pelo pequeno. Eu sorri.
A Karol ficou me encarando por alguns segundos, com uma cara que fazia o meu estomago revirar de temor.
– O que foi? Porque está me encarando desse jeito? — Ela sorriu. – Que foi Karol? Está maluca?
Ela balançou a cabeça.
– Ah, não vem me dizer que você não reparou que o Daniel tem o maior jeito com crianças...? – Ela mordeu o lábio – Eu não ficaria surpresa se – ela caminhou até mim e colocou a mão na minha barriga – se ele já tivesse coloca a ‘sementinha no forno’. – Abri a boca e depois fechei, espantada demais para responde-la – Ah, que é? Pode me contar. Somos amigas ou não somos?
– Karol, eu não estou grávida. – Afirmei o óbvio.
Ela deu de ombros e se afastou.
– Tudo bem, se você não quer me contar eu respeito. – E sorriu com malicia – Mas fique sabendo que EU terei que ser a madrinha! – Ela riu sonhadoramente, caminhando até o forno.
– Eu já disse, eu não estou grávida.
Sentei-me à mesa.
– Não está agora. Mas do jeito que as coisas estão indo com você e o Daniel, é questão de meses.
Sorri, achando graça naquilo.
– Eu não sei... Eu e ele nunca falamos sobre isso. Acho que ele se acha novo para ter filhos...
Ela me encarou.
– Querida, ele está com você há meses, é claro que ele pensa em constituir família com você, se não ele te diria. Homens não têm vergonha de falar sobre essas coisas, acredite.
– Eu não sei... O Daniel é tão diferente dos outros. Talvez seja isso que eu goste tanto nele.
– Claro.– Ela abriu o forno e retirou a forma com o frango, colocando-o na pia para ver se já estava pronto. – O que estou querendo dizer é que... Um dia vocês vão ter que falar sobre isso e você precisa estar preparada. Todo homem quer ser pai.
– O Dani é diferente, Karol. O nosso relacionamento é diferente. Sabe, nós nos gostamos e estamos aproveitando o momento, não quero estragar tudo com esse assunto de maternidade... Isso pode assustar ele.
– Mesmo assim querida, vocês não vão ficar nesse “relacionamento sem cobranças” para o resto da vida, vão?
– Não...
– Então, é óbvio que se ele gosta realmente de você, vai querer casar, ter filhos, morar junto e etc. Você precisa se preparar.
– Você acha mesmo?
– Com toda certeza. – Ela sorriu para mim – O Daniel é um bom rapaz, gosta de você, isso está na cara dele garota... Ele te ama.
– Eu sei, ele já me disse, na verdade, ele diz todos os dias. – Ri.
– Viu, mais uma prova que esse rapaz não está te enrolando.
Mordi meus lábios, perguntando a mim mesma como seria a minha vida daqui cinco anos. Imaginei-me casada, sentada à mesa com o meu marido, filhos e brigando com o nosso cachorro. Para mim, esse futuro era perfeito.
– Eu não sei não... – Murmurei.
(...) 2006 (...)
O que eu não esperava mesmo, era que outra pessoa também quisesse se envolver em relacionamentos.
18/06/2006
Daniel e eu estávamos sentados à mesa, esperando ele chegar para que pudéssemos jantar juntos. Eu não havia preparado nada de especial para a data, apenas um jantar formal para comemorar os seus dezesseis anos, como ele havia me pedido.
Porém, quando ele chegou, tomei um susto ao ver que ele estava acompanhado por uma loirinha sem graça, de vestido curto e salto alto demais para ela. No inicio, não entendi nada.
– Susan, Daniel, essa é a Raquel, a minha namorada. – Ele a apresentou. Tive que me segurar para não rir. Que palhaçada era aquela?
Notas finais
Eu ainda não escrevi o próximo capítulo, então não tenho muita coisa pra prometer... Apenas, que posto logo.
Beijos.
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