Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

12 Capítulo onze - Escola nova. Vida nova.


Notas iniciais
Nossa, eu escrevi quatro capítulo inteiros em menos de 48 horas! Estou super feliz. Tudo isso graças a Lana.
Vou postar dois hoje e mais dois amanhã.
Desculpem os erros.
Beijos.

Capítulo onze – Escola nova. Vida nova.

Quando chegamos ao Rio, já era madrugada. Arrastamos nossas malas pela casa e fomos cada um para o seu quarto.

– Você vai querer jantar? – Perguntei. Minhas costas doíam e meus olhos ardiam.

– Não, obrigado.

– Então boa noite Lucas.

– Boa noite... – E entrou no quarto dele.

Ele havia dormido a metade da viagem e imagino que esteja louco para continuar a soneca na própria cama.

Liguei a luz, tranquei a porta, coloquei a minha mala no canto do meu quarto e comecei a tirar a roupa, ficando apenas de causinha e sutiã. Enrolei a minha toalha no corpo e saí do quarto, indo para o banheiro. A porta do quarto do Lucas estava fechada. Tomei um banho demorado para relaxar e escovei os dentes. Depois voltei para o meu quarto e vesti o meu pijama. Como não sentia fome, simplesmente deitei na minha cama e dormi, enquanto escutava o barulho da chuva caindo lá fora.

Logo pela manhã, após acordar com o despertador tocando, fui para o banheiro, escovei os dentes e penteei os meus cabelos, prendendo-os em um rapo de cavalo alto. Desci as escadas e escutei o barulho da televisão ligada.

– Ué. Não conseguiu dormir? – Perguntei para o menino esticado no meu sofá. Ele estava usando uma calça moletom e uma blusa complica.

– Consegui, mas tive um pesadelo e decidi descer para assistir televisão.

– Hn... É, mas agora você não vai mais precisar fazer isso. Vou colocar a sua TV no seu quarto hoje mesmo. – Falei, me aproximando do sofá. Ele continuou olhando para a televisão. Perguntei a mim mesma como um menino de NOVE anos poderia ficar tão concentrado assistindo um documentário. – Acho que vou comprar pão no mercadinho dessa esquina... Você vai querer alguma coisa?

– Você pode trazer presunto?

– Claro. – Subi as escadas e voltei para o meu quarto. Vesti uma calça jeans, um tênis e uma blusa de frio por cima da blusa do pijama. Peguei a minha carteira e desci. Encontrei com ele subindo as escadas. – Você sabe que horas são?

– Cinco e quarenta... Eu acho.

– Bom, acho que o ‘mercadinho’ não vai estar aberto. Então eu vou de carro até o super mercado mesmo, ta?

– Tudo bem.

– Você quer ir junto? – Ele simplesmente me olhou desanimado. Eu sorri. – Ok, ok. Não precisa ir. – Continuei descendo as escadas. – Eu te chamo quando eu chegar.

– Eu vou tomar um banho... – Disse.

– Ta bom.

Fui até a garagem, entrei no carro e dei partida. Estava muito escuro e não tinha ninguém na rua. Voltei depois de trinta minutos. Entrei dentro de casa, e escutei um barulho de fritura na cozinha.

– O que você está fazendo? – Perguntei assustada. Ele estava fritando alguma coisa no fogão.

– Bolinhos de chuva. – Respondeu sem me olhar. – É que você demorou.

Coloquei a sacola em cima da mesa.

– Hey, você sabe cozinhar? Mas você só tem nove anos! – Mesmo chocada, eu sentia vontade de rir. Que tipo de garoto é esse? Será o filho do super-homem?

Ele sorriu e meu coração acelerou.

– Minha mãe que me ensinou.

Cheguei perto do fogão. E ainda mais espantada, notei que os bolinhos realmente tinham cara de bolinhos.

– Nossa... – Sussurrei, mas então me dei conta do perigo. – Bom, Lucas, eu adoro que você goste de cozinhar. Sério mesmo. Mas por favor, não faça isso sem eu estar aqui. É muito perigoso.

Ele me olhou, parecendo um pouco envergonhado.

– Desculpe, eu não havia pensado nisso.

– Eu sei. – O olhei com ternura. – Bom, se eu soubesse disso não teria ido até o mercado... Como você achou os ingredientes?

– Eu só procurei no armário. – Falou calmamente, virando os bolinhos com uma colher.

– Você quer ajuda?

– Não precisa. Obrigado.

Olhei para a pia.

– Uau. Sabe, sempre quando eu preparo alguma massa, eu sempre sujo a cozinha inteira, mas você não sujou nada...

Ele sorriu, me deixando ainda mais espantada.

(...)

– Eu vou voltar depois do almoço. Tenho que ir até a nova escola dele e vou aproveitar para lhe mostrar o colégio. – Falei para a Karol, depois de deixar o Lucas na casa dela. Eu iria trabalhar e obviamente não iria deixá-lo sozinho.

– Você vai matriculá-lo em qual colégio? – Ela perguntou.

Ele estava assistindo televisão na sala, enquanto ela me levava até a porta.

– Ai, Karol, acredita que eu não lembro o nome? É o colégio onde a filha da Noemia estuda. Aquele depois da praça, sabe?

Ele refletiu.

– Sei sim. É o Franzolin. Dizem que é muito bom. – Aprovou.

– Eu sei. Agora só preciso ver se tem vaga.

– Então você vai sair mais cedo de novo do serviço? A sua patroa não liga não?

– Claro que liga né. Mas eu não tenho escolha. Além do mais, eu troquei de turno com uma amiga, por isso vou ter que voltar e trabalhar até as dez da noite.

– E você vai querer que eu cuide dele, não é? – Ela perguntou com um sorriso.

– Bom...

– Relaxa, eu adoro o Lúh. Não tem problema nenhuma para mim.

– Você adora quem? – Perguntei rindo.

Ela corou.

– Esse é o apelido que eu dei para ele. — Gargalhei. – Hey, não tem graça. – Falou nervosa.

– Claro que tem! – Disse rindo.

– Ai, quer saber? Vai logo trabalhar e me deixa em paz! – Ela também ria – Você é uma mala!

– Ta bom “Káh”. – Zombei. Ela sorriu.

– Sua boba.

– Ah. Isso me lembrou: O Felipe já chegou?

– Sim, mas ele está dormindo.

– Hn. Diz para ele se comportar na frente do Lucas, está bem? Não quero que ele dê um mau exemplo para o menino...

Ela gargalhou.

– É até bom que o Lucas faça companhia para o Felipe, assim quem sabe, ele não aprende bons modos com ele...

Eu sorri.

– Ok, maluca, já está na minha hora. Até logo.

– Até.

Voltei para o meu carro.

Estava um céu bonito, azul sem nuvens, não chovia e o Sol ameaçava sair mais tarde. Meu corpo estava cansado e minha garganta doía, por causa do começo da gripe. Passei o dia todo tossindo uma tosse seca e alta, parecia que eu ia colocar os meus pulmões para fora a qualquer momento.

– Calma, fia. – Disse Claudia, minha colega de trabalho. Ela estava me ajudando a enfileirar as tintas. – Desse jeito você vai acabar machucando a sua garganta...

– Eu odeio ficar gripada... – Falei com a voz rouca. Ela me olhou com pena.

– Toma um xarope, quem sabe não melhora.

Tossi.

– Quando eu saí daqui, vou passar na farmácia.

– Aham. – Concordou. – Mas se essa tosse não passar, vai ao médico. Com essas coisas não pode dar mole não.

– Eu sei. Obrigado pela preocupação.

Ela sorriu e voltou ao serviço.

Saí do serviço meio dia em ponto, e depois de comprar um remédio de tosse na farmácia, dirigi até chegar à casa da Karol, uma hora depois, por causa do trânsito. Ela me convidou para almoçar e eu aceitei.

– Nossa, Felipe, você viu o acidente na televisão? Que coisa horrível. Bem no meio da avenida, para todo mundo ver...

Estávamos todos – Karol, Felipe, Lucas e eu — sentados à mesa, comendo a deliciosa e bem temperada comida baiana da futura mamãe.

– Eu vi, passou no jornal. Foram três carros que bateram, não foi? – Ele perguntou, depois de tomar um gole do seu suco de maracujá.

– Não sei. Eu não consegui ver. Estava muito chocada com os corpos esticados no meio da aveni-...

– Ai, por favor, será que da pra mudarmos de assunto? Esse papo está me dando indigestão. – Disse Karol, colocando a mão na barriga. Ela estava muito branca.

– Amor, você está bem? – Ele perguntou, segurando o seu cotovelo.

Ela não conseguiu responder, mas ficou muito claro para mim a resposta. Com a mão tampando a boca, ela levantou da mesa e foi correndo para o banheiro. Felipe foi atrás dela.

Fiz uma careta.

– Grávidas... – Revirei os olhos.

– Ela está bem? – Perguntou Lucas preocupado, seus olhos arregalados.

Eu sorri.

– Está sim. Ela só está um pouco enjoada. Isso é normal na gravidez. – Ele suspirou aliviado.

– Mas se ela está grávida... Vomitar não seria um mau sinal? – Ele me encarou com aqueles olhos curiosos, que somente crianças conseguiam ter.

– Na verdade não. Essa é só uma reação do corpo dela á gravidez. O corpo dela ainda está de adaptando ao pequeno “parasita” crescendo lá dentro. Ela vomitar é um bom sinal, porque quer dizer que a criança está se desenvolvendo normalmente.

– O corpo dela está se adaptando ao quê? – Sua voz estava tremula e ele segurava o garfo cheio de comida no meio do ar, como se tivesse esquecido de levá-lo até a boca. Eu quase gargalhei da sua expressão.

– Ao bebe. Ele está se adaptando ao bebe. – Corrigi. Ele continuou me encarando chocado por alguns instantes, mas parou quando o Felipe voltou. – Cadê ela? – Perguntei.

– Foi para o quarto. Ela não está se sentido bem. – Falou, dando de ombros. Ele se sentou à mesa novamente.

– Quer que eu vá conversar com ela? – Questionei.

– Acho melhor não... Acho que ela vai dormir agora. Além disso, ela está um pouco irritada, dizendo que a culpa é minha...

– Bom, isso é normal Felipe. As grávidas são assim mesmo. São os hormônios. – Ele deu de ombro novamente, sem me olhar e voltou a comer. Ele parecia cansado. “Hora essa, quem mandou colocar o pãozinho no formo? Agora agüente as conseqüências!” pensei comigo mesma.

Depois de almoçarmos, eu lavei a louça, enquanto eles assistindo um filme na televisão. Quando eu já estava quase acabando, Karol entrou na cozinha. Ela parecia bem melhor.

– Eu não acredito que o Felipe deixou você lavar tudo sozinha... – Ela disse com aquele tom desaprovador que somente ela conseguia ter. “Coitado desta criança. Vai ter a educação de um soltado Iraquiano.”

– Coitado, ele está cansado. – Falei. Ela me encarou com ironia. – Ah, que foi? Ele é seu marido, o que você quer que eu diga? – Ela sorriu.

– Esse bebe está me matando. Passei o final de semana todo vomitando... Nem posso sentir o cheiro de fritura que já passo mal na mesma hora.

– Ah, por isso você fez frango cozido... Agora eu entendi.

Ela se sentou na cadeira, seus olhos encarando a toalha da mesa.

– Você nem sabe. Eu estava andando pela rua ontem, quando passei na frente de um carrinho de pipoca... Foi só sentir aquele cheiro que eu não agüentei e vomitei. Acho que o pipoqueiro deve ter me achado uma doente...

– Nossa...

– Estou até com medo. Como posso engordar, se tudo que eu como eu vomito?

– Bom, eu não sei. Você já passou no médico?

– Eu marquei uma consulta para essa semana.

– Pior que eu nem sei o que te dizer, Karol. Sou tão inexperiente nesse quesito quanto você.

Ela suspirou. Pegou uma maça na fruteira e mordeu, sem nem ao menos lavar antes. Sequei as minhas mãos no pano de prato e andei até ela, havia terminado de lavar a louça.

– Mas quer um conselho? – Perguntei. Ela me olhou e assentiu. – Tenta pegar mais leve com o Felipe, está bem? Essa gravidez não tem nem um mês, e ele já parece exausto. – Ela sorriu pesadamente. Sentei na cadeira em frente à dela.

– Eu sei. Mas não consigo evitar. Tudo que ele faz me irrita...

– É a gravidez. Ela está te deixando assim. Mas tenta se controlar, ok? Se você perder esse homem, vai ser difícil encontrar outro que te queira...

Ela me lançou um olhar mortal, mesmo que seus lábios estivessem sorrindo. Sabia que eu só estava brincando.

– Você está querendo me desanimar ou animar?

– Só estou dizendo que se você ama mesmo ele... Então controle esse seu temperamento.

Ela fez um barulho estranho.

– Eu acho que... – A sua mão subiu automaticamente para a boca. Ela se levantou e correu para o banheiro, largando a metade da maçã na mesa. Revirei os olhos.

Levantei-me da cadeira e fui até a sala.

– Ela está melhor. – Falei para o Felipe. – Pelo menos, está mais calma. – Completei. Olhei para o Lucas. – Bom, acho melhor irmos... – Ele se levantou.

– Eu levo vocês até a porta... – Falou o futuro papai, se levantando do sofá.

– Cuida dela, ok? – Eu disse, já na porta. Ele sorriu.

– Pode deixar.

– Você não vai trabalhar hoje, não é? – Questionei.

– Não. Estou de folga. – Ele encarou o Lucas – Te vejo mais tarde então rapaz.

– É... – O Lucas sussurrou.

– Tchau. – Falei.

– Tchau. – Ele falou.

Fomos para o carro.

– Lucas, coloca o sinto. – Falei já dentro do carro. Ele obedeceu. Liguei o carro e dei partida. – O que você fez de bom hoje?

– O Felipe e eu jogamos vídeo game. – Ele falou animado.

– Ah é? E você gosta de vídeo game?

– Mais ou menos. Prefiro pintar, mas é bom porque também me distrai.

– Vocês não jogaram nenhum jogo violento, né?

– Não. A maioria só foram jogos de aventura.

– Hn. Isso é bom. Eu detesto violência. – Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ele começou a desenhar com o dedo rabiscos no vidro do carro, enquanto eu cantarolava uma música. Depois de um tempo, decidi ligar o rádio. – Você gosta desse tipo de música? – Perguntei, me referindo a uma música do Chris Brown. Ele negou com a cabeça.

– Na verdade, eu prefiro os clássicos. – Murmurou.

– Como os Beatles, por exemplo? – Questionei, trocando de estação.

– Eu gosto. Mas prefiro os Rolling Stones e o U2.

– Hn.

– E você?

– Eu prefiro bandas internacionais e atuais. Como o Muse e o Green Day. Mas de bandas clássicas eu gosto do Nirvana e até mesmo de algumas músicas do Bon Jovi. Mas não tenho nada contra bandas Nacionais, se você quer saber. Por exemplo, eu adoro Legião Urbana e já gostei muito de Titãns.

– Sério?

– Sim. Por quê?

– Por nada... É que você me surpreendeu. Não pensava que você escutasse esse tipo de música.

– Ah é? E que tipo de música você achava que eu escutava?

– Não sei... Algo como Roberto Carlos ou Roupa Nova.

– Hey, está me chamando de velha? – O encarei.

– Não! É que achei que essas músicas combinavam mais com você... Sabe, elas são mais calmas e... – Ele não continuou.

– “E...” o que?

– Nada. Só achei que combinavam mais com você.

Eu sorri.

– Tudo bem. Eu não ligo. Eu gosto sim de Roberto Carlos e Roupa Nova. Apenas não os tenho como grandes ídolos, só isso. – Ele ficou quieto. – Está tudo bem com você?

Ele me olhou nos olhos.

– Sim. É que eu lembrei de uma coisa, mas não é nada importante. – E com isso, voltou a desenhar no vidro. Respirei fundo.

– Bom, é aqui... – Disse, encostando o carro perto da portaria. – Viu? Não é longe de casa. Dá para você vir andando. – Ele encarou o grande muro azul marinho do colégio e não disse nada, parecia muito concentrado nos próprios pensamentos. Peguei a minha bolsa e destranquei o carro. – Então, está pronto? – Ele fez que sim com a cabeça, e saímos do veículo. Assim que senti o vento frio soprar contra o meu rosto, tossi.

– Você está bem? – Ele devolveu a pergunta.

Caminhamos até a secretária.

– Só um pouco – (tossi) — gripada. – Me aproximei da portaria, olhei pela pequena janela protegida com grades. – Olá... – Falei, procurando por alguém. Um rapaz se aproximou.

– Oi. No que posso ajudá-la? – Ele perguntou, sorrindo simpático.

– Eu preciso de informações sobre matriculas de novos alunos.

Ele olhou para o Lucas e voltou a olhar novamente para mim.

– Ele é seu filho?

Hesitei – Pode-se dizer que sim. – Falei com um sorriso envergonhado. Ele franziu a testa. – Eu sou a tutora dele. – Expliquei.

– Ah. – Ele sorriu novamente, mostrando-me duas fileiras de dentes cintilantes. – Quantos anos ele tem?

– Nove.

– Está em que ano?

– Quarto ano, terceira série.

– Hn. Aguarde só um minuto. – Disse, se afastando. Olhei para o Lucas, ele fitava um cachorro sem raça que caminhava solto pela rua, sem prestar atenção em mais nada, além disso. – Bom – Falou o rapaz, surgindo com um livro na mão. – Temos apenas vagas na terceira série de tarde. Tudo bem? – Perguntou, lendo algo no livro. Voltei a olhar para ele.

– Tudo.

– Ele está sendo transferido de qual escola?

Peguei um papel de dentro da bolsa e o entreguei.

– Desta escola.

Ele leu o que estava escrito.

– Hn. Então vocês são paulistas? – Questionou.

– Eu não, mas ele era.

– Entendi. – uma pausa. – Eu vou abrir a porta para vocês entrarem. Espere só um minuto.

– Tá.

Ele abriu a porta da secretária e nós entramos. Havia mais duas pessoas naquela sala, todas muito concentradas com o próprio serviço. Ninguém olhou para nós.

– Sentem-se, por favor. – Disse, apontando para duas cadeiras. Ele contornou a mesa e também se sentou em uma cadeira. Havia um notebook fechado na sua frente. Lucas e eu nos sentamos. – Bom, desculpe os meus maus modos, eu me chamo Cícero. – Informou.

– Eu me chamo Susan e este é o Lucas. – Ele sorriu para o menino ao meu lado. Lucas não disse nada.

– Então é você quem quer se matricular aqui no Franzolin, não é Lucas? – Mas o garoto nem olhou para ele. Cícero pareceu um pouco envergonhado pela falta de atenção, mas sua expressão continuou a mesma. – Bom, vocês tiveram muita sorte. Não é normal conseguirmos encontrar vagas para novos alunos, mas como estamos no meio do ano letivo, muitos alunos mudaram de cidade ou de bairro, e consequentemente mudaram de escola também. Mesmo assim, vocês tiveram sorte. Essa é uma ótima escola, os professores são muito competentes e os alunos na maioria, são maravilhosos.

– Sim, eu já ouvi coisas muito boas a respeito deste colégio. – Comentei.

– Tenho certeza que sim. – E sorriu. Respirei fundo, não gostava do jeito que ele me olhava. – Bom, a senhorita pode me passar os documentos dele e os seus? – Disse, abrindo o notebook. Retirei da minha bolsa uma pasta e a entreguei para ele.

– Está tudo aqui dentro. – Falei. Ele abriu a pasta e retirou os documentos que precisava, em seguida começou a digitar no computador.

– Aguardem só um momento... – Murmurou, sem tirar os olhos da tela do computador. Ele digitava tudo muito rápido, parecendo muito experiente.

– Tudo bem.

Avaliei a sua postura por de trás do computador. Ele deveria ser mais velho que eu, mas não muitos anos. Estava vestindo uma camisa social azul, da cor do muro da escola, e uma calça social preta. Seus cabelos castanhos estavam penteados para trás com gel, ele usava óculos e usava uma colônia amadeirada, que tomou minha atenção por um momento. Não era muito alto, mas tinha uma fisionomia madura, que me passava confiança.

Senti dedos gelados tocaram o meu cotovelo, me fazendo voltar à realidade. Olhei para o lado.

– O que foi? – Perguntei para o Lucas. Ele me encarava com uma expressão estranha. Suas sobrancelhas estavam únicas e sua boca formava uma linha reta no rosto. Era como se ele estivesse nervoso por algum motivo. – O que foi? – Como ele não me respondeu, repeti a pergunta. Ele suspirou.

– Nada. – Respondeu com a voz dura, desviando o olhar de mim.

Senti-me incomodada com aquela mudança brusca de tratamento. O que havia acontecido? Porque ele está nervoso? Continuei encarando-o, mas ele não olhou mais para mim.

– Bom, senhorita, você pode me passar o seu endereço? – Perguntou o rapaz sentado do outro lado da mesa. Olhei para ele confusa. Tinha até esquecido que ele estava ali.

– O que?

– O seu endereço...? A senhorita pode me passar?

– Ah, sim, claro. Eu moro na Rua Pedra Preciosa, número 196.

– Em qual bairro?

– Neste bairro mesmo.

– Hn. – E voltou a digitar no computador.

Olhei para o Lucas.

– Aconteceu alguma coisa? – Sussurrei.

– Não. – Sua voz estava fria.

– Então por que...? – Comecei, mas fui interrompida.

– Você pode me passar o seu RG? – Ele perguntou.

– Sim. – Peguei o meu RG da bolsa e entreguei para ele.

– Você não tem uma cópia?

– Não. Só o original. Por quê? Tem algum problema?

– É que eu preciso de uma cópia para ficar na escola, mas não tem problema, tem uma copiadora aqui.

– Você precisa de cópia do documento dele também?

– Sim.

Peguei o RG do Lucas da bolsa, e entreguei para ele.

– Na verdade, dele eu também preciso da Certidão de Nascimento, você está com ela?

– Sim... – Procurei na bolsa mais não encontrei. – Não está nesta pasta que eu te entreguei? – Perguntei. Ele procurou.

– Está sim. – E se levantou. – Eu vou tirar uma cópia, só um minuto.

– Ta bom. – Ele saiu da sala.

Levei minha mão para a minha garganta dolorida. Ela estava muito pior do que de manhã, mas pelo menos eu não tossia mais.

– Acho melhor você passar no médico, antes que isso piore. – Disse ele, como se pudesse ler os meus pensamentos. O encarei, ele não parecia mais nervoso. Achei estranho, mas me forcei a agir normalmente. Ele deveria estar apenas desconfortável com a presença daquele desconhecido.

– Na verdade eu já comprei um remédio. – Falei.

– Hn. – Ele bocejou.

– Está cansado? – Perguntei.

– Não. Só entediado.

– Eu acho que não vai demorar muito para irmos embora. – Ele concordou. – Você está com sede?

– Não.

Respirei fundo.

– Pior é saber que eu ainda terei que ir trabalhar... – Resmunguei para mim mesma.

– Quando eu irei começar a estudar? – Questionou.

– Não sei. Tenho que perguntar isso para ele... – Uma pausa – Por quê? Está com medo?

– Não. É que eu não quero perder muita matéria. Depois fica difícil para recuperar.

Eu deveria esperar uma resposta como essa.

– Ah, claro. – Olhei para o relógio de parede. – Uau. Já são três horas. Como o tempo passou rápido...

– Que horas você tem que voltar para o serviço?

– Seis horas.

– Ah. E você vai chegar que horas?

– Não sei. Depende do transito. Eu vou sair de lá dez horas da noite... Então devo chegar em casa dez e meia ou onze horas.

– Entendi.

– Você não se incomoda de ficar com a Karol e o Felipe, não é?

– Não. Eles são legais.

– Verdade.

Escutei passos na nossa direção, era o Cícero. Ele contornou novamente a mesa, se sentou e me entregou os papeis.

– Pronto. Você fica com os originais e eu com as cópias.

– Obrigado. Quanto eu te devo?

– Não deve nada. – Ele sorriu para mim. Corei automaticamente, virando meu rosto para o outro lado, tentando disfarçar. Lucas me encarava com os olhos apertados, parecendo incomodado. Sorri educadamente para ele, mas ele não retribuiu o sorriso, continuando a avaliar meu rosto com seus grandes olhos.

– O que foi? – Perguntei pela terceira vez.

– Nada. – A resposta foi dura como das outras vezes.

Cícero voltou a digitar no computador, sem nos dar atenção. Incomodada com aquele olhar desaprovador, tentei me distrair encarando a roupa da funcionaria do outro lado da sala. Fiz isso por longos minutos, uns vinte, eu acho, até que ele, o Cícero, voltou-se novamente para mim.

– Bem, terminei. – Ele olhou para o Lucas – Agora você já é oficialmente um aluno do Franzolin, Lucas. – Mas o menino retribuiu o olhar alegre do rapaz, com um olhar zangado que fez até eu me arrepiar. Jamais havia visto uma criança com aquela expressão assassina, era quase assustador. Cícero pareceu engasgar, ficando ainda mais pálido do que o normal. – Bo-bom... – Disse olhando para mim, tentando se recompor. Estava visivelmente perturbado. – Assine aqui, por favor. – Pediu, pegando duas folhas que a impressora havia acabado de imprimir. Ele me entregou uma caneta. Li rapidamente e em seguida assinei. – Assine as duas folhas, por favor. – Explicou. Obedeci e depois entreguei para ele. Ele apertou um botão no computador e outro papel foi impresso – A escola abre á uma hora da tarde. Não se atrase, por favor. Você vai estar na terceira série “D”, o número da sua sala é o número 15, mas não se preocupe, quando você chegar é só perguntar para algum funcionário que ele te mostra onde fica a sala. Você irá ter sete matérias e duas professoras eventuais. A aula termina ás seis horas... – Ele olhou para mim – Você irá buscá-lo ou ele voltará sozinho para casa?

– Vou buscá-lo. – Falei. Ele assentiu e continuou.

– Esse papel, você mostra para as professoras quando chegar na sala, está bem? Elas saberão o que fazer – Disse, pegando o pequeno papel da impressora e me entregando.

– Qual é o nome das professoras? – Perguntei.

– Senhorita Márcia e senhorita Vilma.

– Aham. E quando ele começa? Quer dizer, ele pode começar amanhã mesmo?

– Sim, é claro.

– Nossa. Que boa notícia. – Aprovei. – É... Bem, acho que é só isso então, não é?

– Sim, acho que só. Eu te devolvi os documentos?

– Os que estavam na pasta não...

Ele colocou os documentos na pasta novamente e me entregou. Sorri agradecida.

– Bom, foi um prazer conhecê-la. – Lucas fez um barulho com a boca – E você também, Lucas! – Completou.

Me levantei.

– Obrigado pela ajuda senhor Cícero...

Lucas e ele também se levantaram.

– O Senhor está no céu, para você eu sou só Cícero. – Disse me olhando com aquele olhar estranho, que tanto me incomodava. Não consegui evitar e corei.

– É... Então, tchau. – Falei constrangida, estendendo a mão para ele. Ao invés de apertá-la, ele a segurou carinhosamente com a mão e se curvando, e deu um leve selinho nas costas da mesma. Fiquei chocada.

– Tchau. – Disse sorrindo maliciosamente.

Ainda um pouco zonza, virei de costas e fui embora, com o Lucas andando em silêncio atrás de mim.

(...)

Mais tarde naquele dia, meia noite mais ou menos, eu estava deitada no sofá, assistindo um filme no DVD, quando ouvi passos descerem as escadas. Olhei e vi que era o Lucas. Seus cabelos estavam molhados por causa do banho. Dei espaço para ele se sentar, mas ele preferiu ficar de pé.

– Pensei que você fosse dormi. – Comentei, sem tirar os olhos da televisão. Ele ficou quieto, até que de repente disse com a voz esganiçada:

– Eu ia, mas antes quero te fazer uma pergunta.

Olhei para ele.

– Pode fazer.

– Sabe, é que eu reparei o jeito que você olhava para aquele cara da escola...

– O Cícero? – Questionei, franzindo o cenho.

– É. – Respondeu friamente. Hesitou por um momento e então continuou. – Eu só queria saber... Você gosta dele?

Fiquei confusa. Mas que tipo de pergunta é essa?

– Não sei... Eu nem o conheço direito, não tem como saber. Mas porque está me perguntando isso, Lucas? – Ele virou de costas e começou a subir a escada.

– Por nada. – Falou por fim, me deixando sozinha.


Eu não consegui dormir direito à noite por causa disso.


Notas finais
Estou começando a acreditar que essa fic eu vou terminar (eu sou o tipo de autora que escreve mil histórias, mas que nunca termina elas). Mas estou vendo que com essa vai ser diferente. Eu realmente quero termina-la.
Beijos.