Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
15 Capítulo 14 - Aproveitando o resto do meu sábado.
Capítulo quatorze. – Aproveitando o resto do meu sábado.
Fiquei trancada dentro do meu quarto por uma hora e quando saí, estava vestindo um vestido bege e um biquíni por debaixo. Caminhei até o quarto do Lucas e bati três vezes na porta. Houve um momento de silêncio, até que ele abriu. Seus olhos se arregalaram quando me viu.
- E então, já está pronto? – Perguntei sorrindo.
- Pronto para que? – Ele perguntou confuso.
- Como “para que”? Não combinamos de ir à praia?
- Você ainda vai me levar? – Perguntou animado.
- Claro. Porque eu não levaria? – Ele não respondeu. – Bom, eu vou te dar cinco minutos para se arrumar. Veste um short antigo, está bem? E não precisa levar toalha, eu já estou levanto. Ah, e toma. – entreguei o protetor solar para ele. – Passa isso no corpo. Como você é branquinho, esse Sol pode ser igual veneno para você. Está bem? – Ele sorriu. – Vou aceitar isso como sendo um sim. Bom, estou te esperando na garagem, não demora. Temos que ser rápidos, se não iremos perder o Sol, e praia sem Sol não tem graça. – Virei de costas e fui embora. Não sabia o que ele podia estar achando de mim, mas também não me importava. Queria somente relaxar por um dia. Somente por um dia.
Desci as escadas. Era bom saber que pela primeira vez na minha vida, minha mãe me obedeceu. Talvez ela nem tivesse voltado para São Paulo. Talvez ela só tivesse ido para um Hotel. De qualquer jeito, eu ficava feliz de não ter que olhar para a cara dela naquele momento. Isso me relaxava. Com a minha rasteirinha devidamente calçada, caminhei até a garagem, entrei no carro e dei partida. Estacionei-o no meio fio, sai do carro e fiquei esperando encostada na porta, observando a movimentação da rua. O Sol machucava as minhas bochechas e eu gostava disso, pelo menos, me distraia. Peguei o meu óculos escuro da bolsa e coloquei. Depois de alguns minutos, não muitos, o Lucas apareceu. Ele estava com um sorrido de ponta á ponta no rosto, transbordando felicidade. Só de vê-lo naquele estado, eu já me sentia feliz.
Entramos nos carro ao mesmo tempo.
- Coloca o cinto, Lucas. – O lembrei. Ele obedeceu. Dei partida no carro.
Retirei o meu óculos escuro dos olhos, não fazia sentido ficar com ele dentro do carro. Dirigi por cerca de uma hora e meia, até finalmente chegarmos. Estacionei o carro na frente de um quiosque. Saímos do carro. A primeira coisa que reparei, foi o cheiro salgado da maresia.
- Lucas, te apresento o Mar. Mar, te apresento o Lucas. – Foi tudo que eu falei. Seus olhos encararam aquela imensidão azul, e por um momento pensei que ele fosse chorar.
- É lindo. – Disse, seus pés caminhando inconscientemente em direção à água. Peguei a bolsa de dentro do carro, liguei o alarme e corri para acompanhá-lo.
Senti a areia seca tocar meus pés. A praia estava cheia de pessoas, mas não muito cheia. Na verdade, ela estava perfeita.
Procuramos um lugar para nos ajeitarmos em meio à multidão.
- Acho que aqui está bom. – Falei, esticando a minha tanga na areia. Coloquei uma pedra em cada ponta da tanga, para que ela não voasse, e depois me deitei. O Lucas não tirava os olhos do mar. – Se você quiser, pode entrar. – Falei.
Ele olhou para mim.
- Você não vai?
Fiz que não com a cabeça.
- Agora não. Vou pegar um Solzinho antes, depois eu entro. — Tirei o meu vestido, o guardei na bolsa e depois coloquei o meu óculos escuro. Deitei-me, apoiando-me pelos cotovelos. – Relaxa, o mar não morde. É só água, não precisa ter medo.
- Mas eu não sei nadar. – Ele disse preocupado.
- Não tem problema. É só você não ir no fundo. Fica perto das outras crianças... Não vai acontecer nada. – Ele olhou para o mar.
- Eu não sei...
- Olha, se te faz sentir melhor, está vendo aquele cara de shorts e regata vermelha? Aquele com o apito na boca? – Ele assentiu. – Então, ele é um salva-vidas.
- Se não tem perigo, então porque tem um salva-vidas aqui? – Ele me encarou.
Porque ele sempre tinha que pegar o que eu dizia e contorcer dessa maneira?
- Lucas, relaxa. Ele só está aqui por precaução. Não quer dizer que você vai se afogar. É que ás vezes tem um maluco bêbado que vai para o fundo e eles têm que ajudar. Mas isso não vai acontecer com você, pois você não vai no fundo.
Ele olhou para o mar, e depois encarou as crianças. Havia até bebês brincando no rasinho, acho que isso o fez mudar de idéia.
- Tudo bem... – Ele tirou a blusa e me entregou, depois deixou os chinelos perto da minha tanga.
- Eu vou ficar te olhando daqui. – Falei.
- Tá...
Ele se virou para o mar e começou a caminhar. No começo ele pareceu hesitar, pensando se realmente aquilo era seguro, mas depois de um tempo, já estava brincando como qualquer outra criança da sua idade. Mergulhando, se assustando quando a onda vinha forte ou alta demais e rindo quando era derrubado. Aquela imagem me fazia feliz, ao mesmo tempo em que algo se acendia dentro de mim. Eu poderia o observar pelo resto da minha vida. Ele me trazia paz. A felicidade dele me trazia paz. Era algo entorpecente, que eu nunca senti antes. Era uma sensação única. Uma sensação de dever comprido, junto com uma realização pessoal. Aquela criança me fazia bem, assim como a sua mãe me fazia sentir, mas de um jeito diferente. Por que com ele, não era preciso nenhuma palavra para me fazer feliz, apenas um sorriso. Ao contrário da sua mãe, que sempre me auxiliou com os seus bons conselhos e frases de motivação. Eles me faziam feliz com a mesma intensidade, porém de maneira diferentes.
Depois de quase uma hora, decidi entrar no mar. Pedi para a doce senhora sentada em uma cadeira perto de mim, para dar uma olhadinha nas minhas coisas. Ela aceitou com um sorriso, sendo muito simpática. Era incrível como os brasileiros podiam ser pessoas sorridentes e educadas, isso me fazia ter orgulho do meu país e sentir algo de patriótico crescer dentro de mim.
A água do mar estava gelada. Olhei para o Lucas, ele estava vindo sorridente na minha direção.
- Nossa, ta fria. – Falei, vendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.
- Se molha de uma vez, que você nem vai sentir frio! – Ele falou e depois mergulhou por debaixo de uma onde, como um peixinho.
Caminhei mais para o fundo, até que a água tivesse dois palmos acima dos meus joelhos, e quando a onda se aproximou, mergulhei, sentindo aquela sensação boa de mudança de temperatura. Meu corpo respondeu automaticamente ao frio, fazendo o meu sangue esquentar. Quando voltei para a superfície, ouvi as risadas gostosas das crianças perto de mim. Elas jogavam água uma nas outras.
- Nossa, isso é tão bom! – Ele cantarolou. Eu ri simplesmente. Ele me fazia lembrar da minha infância, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez para conhecer o mar, se não fosse ele, talvez eu nem tivesse essa experiência, já que a minha mãe jamais perderia seu tempo me trazendo para a praia, no máximo, ela mandaria uma das minhas empregadas me trazer e ainda mandaria que quando eu estivesse distraída, ela me afogasse e como recompensa, ela receberia um aumento.
- É sim. É ótimo. – Mergulhei novamente.
Ficamos assim pelo resto da tarde, até que senti o meu estomago roncar.
- Lucas, vamos?
Ele fez uma careta.
- Ainda está sedo.
- Sim, mas o mar não vai sair daqui, podemos voltar outro dia.
Ele refletiu.
- Só mais dez minutos... – Pediu.
Suspirei.
- Tudo bem, mas eu vou sair agora, não demora.
- Certo. – Ele sorriu e mergulhou.
Saí da água e voltei para onde estavam as minhas coisas.
- Obrigado por tomar conta. – Falei para a senhora de cabelos grisalhos. Ela não havia saído dali desde que eu havia entrado no mar. Olhei para o seu lado, parecia que a família dela também havia deixado ela tomando conta das coisas.
- Não agradeça, não tive trabalho nenhum. – Disse com a sua voz arrastada, ela definitivamente não era Carioca, deveria ser mais uma turista.
Sorri para ela e então comecei a guardar as minhas coisas dentro da bolsa de praia. Quando o Lucas saiu do mar, comprei um sorvete para nós dois e fomos comendo até o carro.
- Você se divertiu? – Perguntei para ele meia hora depois.
- Esse foi o melhor dia da minha vida. – Foi a sua resposta.
(...)
No dia seguinte, logo pela manhã, fomos para a igreja. Quando a missa acabou, encontrei uma velha coloca do colégio que eu não via há muito tempo e ficamos conversando, o Lucas logo fez amizade com a filha de seis anos dela. Quando voltamos para a casa, eu fiz o almoço, e pouco depois de tirar o peixe do forno, ouvi a campainha tocar.
- Karol? Veio filar a ‘bóia’ na minha casa? – Perguntei quando abri a porta. Ela sorriu.
- É, eu já estava cansada de ser apenas eu que te alimento, então decidi que está na hora de você retribuir o favor. – Eu ri, e dei passagem para que ela entrasse. Ela estava segurando uma sacola na mão. – Na verdade – ela começou – eu vim ver o Lucas. Faz tempo que eu não o vejo. Queria ter certeza que ele ainda está vivo... – Ela provocou. – Eu vim mais sedo mais não tinha ninguém.
- Ah. – Caminhamos até a cozinha. – É que hoje eu fui para a igreja.
- Jura? Você deveria ter me chamado. Eu até que gosto de ir, mas sem companhia eu fico desanimada.
- Desculpe, da próxima vez eu prometo que te chamo. O Felipe não está em casa? – Perguntei, indo para o fogão para ver se o arroz já estava bom.
Ela se sentou na cadeira.
- E desde quando ele para em casa? – Pela sua voz, conclui que eles haviam brigado.
- Hn. Então você não seguiu o meu conselho, não é? Continua agindo como uma grávida louca? – Me aproximei dela.
- Claro que não! Pelo menos, não o tempo todo... – Eu sorri – Eu só estou cansada, essa fase vai passar. O meu médico falou que é normal.
- Ah é, você foi ao médico essa semana. E então, fez os exames?
- Fiz. Está tudo bem comigo e com o bebê, graças a Deus.
- Que notícia boa. – Toquei a sua mão. Ela que estava grávida, e eu que ficava sentimental. – Você já sabe se eu vou ter uma afilhada ou um afilhado?
- Não... Ainda está cedo. E eu nem sei se eu quero saber... Acho que essas coisas devem ser surpresas.
- Mas e quando você for comprar as coisas do bebe?
- Bom, é só eu não comprar roupas rosas e nem roupinhas com estampas masculinas. Vou optar por roupas de cores neutras, se preferência roupas uni sexy.
- Uau. Essa criança nem nasceu e já está passando por uma crise de identidade... – Me sentei na cadeira à sua frente. Ela sorriu. – Mas o que o Felipe acha disso?
- Ele não tem que achar nada, sou eu que vou ter o bebe e não ele.
- Mas ele é o pai.
- Idaí? E eu sou a mãe. Sou eu que vou entrar em trabalho de parto e vou ter o meu corpo dilacerado pela cabeça do bebe, e não ele. – Eu ri.
- Mas vai ser ele quem estará segurando a sua mão enquanto você grita de dor.
Ela me olhou profundamente e suspirou.
- Eu sei, mas é que...
- Nem precisa falar, eu sei o que você vai dizer: São os “hormônios”, mas mesmo assim, pega leve, ele está tão assustado quanto você.
- Você está começando a fazer eu me arrepender de ter vindo te visitar. – Eu sorri.
- Mentirosa. No fundo, eu sei que você queria que alguém te dissesse isso.
Ela me encarou.
- E como você sabe disso?
Eu dei de ombros.
- Porque é isso que eu também quero que me digam.
Houve um longo momento de silêncio, até que senti minha mão ser apertada com força. Olhei nos seus olhos.
- Susan, pega leve, ele está tão assustado quando você. – Ela disse calmamente. Respirei fundo.
- Eu sei. – Respondi.
Ela sorriu.
- Quer ajuda no almoço? – Disse soltando a minha mão.
Eu me levantei.
- Não precisa, só falta o arroz ficar pronto. – Uma pausa – O que tem dentro da sacola? – Perguntei curiosa.
Caminhei até o fogão.
- Ah, é que eu trouxe um presente para o Lucas...
- E o que é?
Abri a panela do arroz, já estava bom e então desliguei.
- Não é nada demais, apenas uma coisa que eu fiz...
- Hn.
- Espero que ele goste. Falando nisso, onde ele está?
- No quarto estudando. Vai lá, ele vai gostar de te ver. Eu vou fazer a salada enquanto isso.
- Ta bom. O quarto dele é o do final do corredor, né?
- Não, é no porão junto com os ratos. – Faleis sarcasticamente. Onde mais poderia ser?
Ela se levantou.
- Engraçadinha. Você nem tem porão... – E saiu da cozinha.
Peguei a salada na geladeira e comecei a lavar as folhas. Quando terminei, fiz um suco. Poucos minutos depois vejo o Lucas correr para dentro da cozinha, me assustando. Ele segurava alguma coisa nas mãos.
- Susan! Susan! – Gritou animado. Ele parou na minha frente. – Olha o que a Karol me deu! – Seus olhos brilhavam. Encarei o que estava na mão dele, era uma foto, uma foto em um porta-retratos muito bonito.
- Nossa. Que... – Fingi surpresa. – Que porta-retrato bonito. – Elogiei com o melhor dos meus sorrisos.
A Karol estava atrás dele. Ambos me encararam com uma cara enfezada. Ué, o que eles queriam que eu dissesse? Era só um porta-retratos. Não é como se ela tivesse dado para ele uma barra de ouro.
- Não estou falando do porta-retrato – Ele disse meio impaciente – Estou falando da foto. Está vendo? – Ele aproximou mais do meu rosto, ficando na ponta dos pés para conseguir.
Foi então que entendi.
- Ah, nossa, que bonitinho... – olhei para a Karol – Quando você fez esse jardim? – Perguntei.
- Faz alguns meses.
- Hn. Bonito.
O Lucas não parecia satisfeito.
- Não é só bonito. Será que você não vê? É uma obra de arte! É incrível, é maravi-... – Ele disse encarando a foto.
- Ah, não exagera... – Falei.
- Hey, você está falando do meu jardim! – Ela desaprovou.
O menino saiu da cozinha, encarando a foto com os olhos brilhando.
- Ow, aonde você vai? Não vai comer? – Perguntei, ele me olhou.
- Eu já volto. Só vou guardar para não sujar... – E saiu.
Olhei para a Karol.
- Bom, parabéns, agora ele te ama. – Ela sorriu.
- Viu, eu disse que ele ia. – Ela se sentou. – Eu sou ótima com crianças. – Disse toda convencida.
- Não exagera. Você acabou de comprar o amor dele. Não é a mesma coisa...
- O importante é que eu sou boa com criança. – Disse séria. – Portanto... — Ela colocou a mão na barriga, mas não continuou.
Sorri.
- Eu sei que você vai ser uma ótima mãe. – Falei para ela, enquanto levava três copos para a mesa. Ela me encarou.
- Uma boa mãe como você?
- Não é a mesma coisa.
- É sim. Não percebe? Agora você é a mãe ele.
Esse comentário me deixou incomodada.
- Não, a mãe dele é, e sempre será a Anabela. Eu só sou...
- A responsável legal? – Ela completou.
- Não era isso que eu ia dizer. – Falei por fim, não querendo prolongar aquele assunto.
Minutos depois, o Lucas retornou e almoçamos todos juntos.
(...)
Á noite, quando eu estava prestes a dormir, eu pensei sobre isso. Eu não queria ser mãe de ninguém, eu nunca quis. Só estou fazendo um favor á uma amiga. Todos sabem disso. Eu nunca quis ser mãe. Por isso nunca tive filhos...
Então uma lembrança invadiu a minha mente.
Era uma noite de sexta-feira, eu estava sozinha em casa, trancada no banheiro. Era dia treze de maio de mil novecentos e noventa e oito e o tempo não podia estar pior, estava chovendo por toda a metrópole e eu tremia, não pelo frio, mas por causa do medo e ansiedade. Aqueles foram os minutos mais longos da minha vida. Eu estava sentada sobre a tampa do vaso, encolhida, fitando em minhas mãos o resultado do teste de gravidez. Enquanto esperava, milhares de perguntas invadiam a minha cabeça, me impedindo de pensar direito. Aquele era um dos momentos que marcam a vida de uma mulher. A minha vida e o meu futuro dependiam daquele resultado. Eu estava casada há um ano com o homem da minha vida. Ele me amava e eu também o amava. Sentia que não podia estar mais feliz, e ainda assim, o medo tomava conta da minha alma, me levando para a escuridão. Levei uma mão para a minha barriga. “Será?” a pergunta ecoou mais alta do que todas as outras. Um minuto, dois, três se passaram, até que finalmente o resultado: Negativo.
Suspirei, ainda não tinha sido daquela vez.
- Anabela, porque você tinha que morrer? – Perguntei em voz alta para mim mesma, olhando para o teto do quarto.
Notas finais
Esperando comentários. Beijos.
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