Perdi Minha Cabeça?
22 E Ainda
Notas iniciais
E o mundo lá fora continuava o mesmo.
Mas sei lá, não era como antes. Quer dizer, eu continuava fazendo as mesmas coisas, indo nos mesmos lugares, falando com as mesmas pessoas. Mas as coisas estavam diferentes. Ou vai ver, nem estavam, e eu que tinha mudado.
E sabe, se eu fosse pensar sobre isso, as pessoas mudaram também: Freddie, é claro, não falava mais comigo e o Will começou a ser mais honesto, só dizer o que passava pela sua cabeça, mesmo que eu não gostasse muito do que fosse. A gente continuou amigo, só que é diferente. Agora ta tudo diferente.
Claro, depois de duas semanas o rumor se espalhou: A sem coração, Samantha Puckett e o pobre Freddie, enganado e traído. Sim, mais uma vez eu era a “sem coração” da história, a diferença agora é que eu concordava com essa reputação.
“Deixa eles falarem, um dia eles vão esquecer, mais cedo ou mais tarde, né?.”
Falou o Will pra mim, um dia depois da Carly colocar o iCarly em “pausa” (ela disse que não ia mais fazer o programa até eu e o Freddie nos falemos de novo, por isso acho que o mais certo é dizer que não vai mais ter webshow) e a história se espalhar pela internet.
Mas eu nunca tive uma sorte boa, mesmo. Não é porque agora todo mundo sabe o que eu fiz que eu vou ficar o dia todo de cama. Cara, eu já fui presa mais de três vezes, tenho tios na cadeia e uma prima que pegou prisão pra cinquenta anos. E tentou escapar. E pegou prisão pra vida toda. A verdade é que depois da sua primeira condicional, as coisas ficam mais fáceis. Quer dizer, não pra prima Marney, mas mesmo assim.
- Panqueca.
Sorrio quando escuto a voz do Will do outro lado da porta. Comida: sempre é uma boa hora pra isso. Eu descobri que tudo na vida tem um lado bom, depois do que aconteceu.
- Pode entrar!
E o lado bom de ter agido como uma verdadeira vadia é que agora meu amigo (eu considero ele meu amigo, independente do que aconteceu) faz de tudo pra que eu esqueça. E isso inclui receber comida na minha cama. Sim, meu corpo sente a maciez do lençol enquanto minha boca sente maciez da panqueca. Isso é tão bom. Na verdade, isso é melhor que bom.
Enquanto reflito sobre as vantagens de comer na cama, o Will vai se sentando do meu lado e me dando o prato. Olho pra montanha de panquecas e sinto a felicidade me preencher por dentro. Tem até mel por cima, e fica comprovado que o paraíso é um lugar na terra*! Fecho meus olhos pra dar a primeira mordida e suspiro satisfeita com o sabor. Escuto o Will rir, provavelmente da minha empolgação, e olho pra ele.
- Cara, a humanidade sofreu uma perda terrível com o seu pai sendo militar.
- Por quê? Pelos menos ele não deixa terroristas entrarem no país e saírem explodindo, sei lá, a PeraStore.
Dou mais uma mordida na panqueca e penso sobre isso. Bem, fodam-se os terroristas. Todo mundo sabe que comida é o mais importante. Quer ver? Você não precisa de terrorista pra viver, de comida sim.
- Hum, perder a PeraStore ou perder panquecas como essa a venda? Eu escolho a PeraStore.
Ele deu sorriso bobo no canto dos lábios.
- Uma pena que meu pai escolheu salvar a PeraStore, então.
Sorrio enquanto engulo outra panqueca na minha boca, ele sorri de volta e pega o controle. Ele liga a TV e vai passando os canais. Até que para em um filme que eu conheço, mas não lembro o nome. Ele muda de canal e eu cuspo a panqueca. Ele vira pra mim e olha pro prato.
- Que nojo, Sam.
- Deixa lá! – ele continuou olhando pro prato, rolei os olhos – É, eu sei. Agora, volta naquele canal!
Ele olha pra TV de novo e volta no canal que tava antes. Olho pra tela concentrada, uma garota morena passa pela rua cantarolando uma música, até que cobre a boca porque percebe que alguém pode ter ouvido. Ai a câmera muda pra um cara de casaco rindo e eu me lembro do filme. E consequentemente, sinto meus olhos ardendo. Mas que merda, eu não devia ter pedido pra ele voltar o canal!
- Sam, ta tudo bem?
Olho pra baixo sentindo as lágrimas se formarem, não gosto quando as pessoas me vem chorando, me sinto idiota.
- Ei, Sam. Sam.
Ele mexe meu ombro tentando fazer com que eu olhe pra ele, quando ele percebe que eu não vou fazer isso, em vez de me deixar em paz, só mexe meu ombro com mais força. Que sacanagem, Will. Olho pra cima pra fazer ele parar.
- Que foi?
Ouço minha voz. Engulo o choro e enxugo as lágrimas com força. Ele olha pra mim, acho que um pouco triste também. Ele se vira e desliga a TV. E continua sem olhar pra mim, mesmo com a TV desligada. Então aquele silêncio constrangedor aparece e eu começo a ficar nervosa. Simplesmente odeio esses silêncios, a gente nunca sabe o quer dizer.
- Will, Eu to bem. Tanto faz, é só um filme...idiota.
“É só...um filme, Samantha.”
A voz ecoa na minha mente.
Minha frase não era pro filme, muito menos pro Will. Era pra quem tinha falado isso. Ele se vira pra me encarar com um olhar que quer dizer alguma coisa.
- É ele, não é?
Eu fico quieta e não respondo. Eu poderia só dizer “não” e desconversar, mas nem tem pra que. Eu sei que ele ia ver através da minha mentira mesmo. Então só olho pra baixo e não respondo.
- Eu sei que é difícil pra você, mas já faz quase um mês. Se as coisas fossem mudar, ele já teria ligado pra você, Sam.
E essas palavras doem. Doem mais do que os olhares acusadores que eu recebo diariamente. Elas doem porque eu não gosto de pensar nessa possibilidade. É só que quando penso em nunca mais falar com ele por causa de um erro meu machuca (muito).
- Pode levar as panquecas pra cozinha.
Ele suspira e pega o prato. Ouço a porta abrir e fechar antes de me jogar na cama e deixar a dor crescer. O único jeito de lutar contra isso, é fingindo que não existe. Então é isso que eu vou fazer. Deixo as lágrimas escorrerem, porque vai ser pior se elas só explodirem na frente de outras pessoas.
Porque diabos eu me sinto assim? E justo com ele? Não é justo. Eu odiei ele por muito tempo. Porque ele? Eu poderia gostar de qualquer outra pessoa, qualquer outra que não fosse ele e as coisas não seriam tão complicadas. Agora essa traição me transformou em uma vadia, acabou com a com a nossa amizade e o iCarly.
Sim, por mais que eu odiasse ele, essa é a verdade. Nós éramos amigos antes disso tudo. Se não, porque a gente conviveria por tanto tempo? Vai ver eu já gostava dele e não sabia. Mas porque? Eu odeio toneladas de pessoas: professores, parentes, outros alunos, o Gibby. Mas eu não fiquei chateada assim com nenhum deles.
E nem eles ficavam chateados assim comigo depois de fazer alguma coisa errada com eles. Eles só ignoravam e diziam alguma coisa como “ela não tem jeito mesmo” mas ninguém parou de falar comigo. Nem meus professores. Eles só me odeiam e continuam me dizendo como eu sou uma pessoa ruim e blá, blá, blá...
Passo a mão no meu rosto e vejo que as lágrimas ficaram secas. Os rastros que elas deixaram coçam e eu sinto meu rosto pesado. Resolvo ir tomar banho e colocar a primeira roupa que acho no guarda roupa e sair, afinal não quero conversar com o Will agora.
Depois de alguns minutos, chego no Bushwell. Ignoro o Lewbert e quase automaticamente subo até o oitavo andar, pensando que ficaria mais otimista quando conversasse com a Carly, porque ela com certeza iria me apoiar.
- Você o quê?!
Aparentemente, eu estava errada.
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