Perdas e Ganhos
23 Sob a sombra da morte
Notas iniciais
Kurt não disse uma palavra. Se aproximou de Remi com a cara fechada, a pegou nos braços e saiu rumo ao elevador. Zapata os segue preocupada.
Os paramédicos atenderam Remi no térreo e não encontraram nenhuma alteração. Como a queixa dela persistia, orientam o casal a seguir até o hospital para um averiguação obstétrica acompanhada de ultrassonografia.
Kurt permaneceu calado o tempo todo, respondendo apenas aos paramédicos.
— Acho que já estou melhor. Eu preciso ir até Roman. – Remi diz, mas ao se levantar, buscou apoio no braço de Tasha demonstrando que não era totalmente verdade que o que havia dito
— Você vai passar por uma avaliação obstétrica antes, Remi. Ou será que você não pode fazer nada por esse bebê? – Kurt diz visivelmente nervoso.
Ela se calou. Assentiu com a cabeça e o seguiu. Zapata observou tudo em silêncio e decidiu acompanhar o casal. A coisa entre eles estava tensa demais para deixá-los sozinhos.
Já no carro, ela recebeu uma mensagem de Reade e respirou fundo antes de iniciar aquela difícil conversa com os amigos:
— Remi, preciso que você me diga uma coisa. Você se lembra quantas vezes atirou em Blake?
A morena enrijeceu o corpo contra o banco e ficou calada.
— Quantas vezes você atirou, Remi? – Kurt repetiu a pergunta com raiva.
— Acho que três. – ela respondeu rápido, bufando num desabafo.
— Merda! – Kurt soca o volante – Você sabe que isso não é mais legítima defesa, não é?
— Eu não lembro direito, tá bem? Ela disse que me queria viva, mas que o bebê podia morrer. Eu estava com muita raiva e muito medo...
— Você acertou no primeiro tiro? – Tasha tentou fazer a pergunta parecer trivial
— Claro que acertei! – Remi respondeu e sua respiração ficou ofegante novamente.
— Ok. Os miolos da Blake estouraram com dois deles. Um certeiro e outro de raspão. Vamos dizer que eu subimos juntas para detê-la. Vocês se encontraram enquanto eu estava do outro lado. Quando ela apareceu e apontou a arma, você se virou num reflexo e atirou. Esse foi o tiro que não acertou Blake. Em pânico, você mirou novamente e puxou o gatilho mais duas vezes. Entendeu, Remi? Você pode repetir essa versão pra mim?
Remi assentiu trêmula, respirou fundo e repetiu a versão de Zapata.
— Talvez isso amenize a situação.
Kurt balançou a cabeça em concordância e disse:
— Obrigada, Tasha. – sua voz estava firme de novo.
— Obrigada... – a voz de Remi estava trêmula.
Nos hospital, assim que chegaram, a equipe de enfermagem levou Remi para dentro enquanto Kurt ficou para preencher a ficha dela. Tasha aproveitou esse momento para encarar o amigo:
— Kurt, olha pra mim. Eu sei que ela é difícil e que deve estar sendo horrível pra você lidar com isso ainda mais porque tudo envolve a vida do bebê também. Mas acredite em mim, não é o momento de bater de frente com Remi. Kurt, a cena que encontramos ao chegar lá em cima foi horrível. Acho que Roman não sobreviverá. Então, tenha calma com ela.
Ele acenou concordando.
— Ótimo. Vou procurar informações sobre Roman. Ela vai querer saber. Volto assim que puder. – se despediu com um leve aperto no braço do amigo — Vai ficar tudo bem.
Weller respirou fundo absorvendo as palavras de Tasha. Ela tinha razão. Não era o momento para ser tão duro com Remi. Tinha sido um dia difícil e as coisas poderiam ficar ainda piores. Ela reagia da forma que sempre foi treinada para fazer: com raiva. Mudar isso exigiria tempo.
Ele entrou na sala de emergência e seu olhar cruzou com o de Remi imediatamente. Numa reação quase instantânea, ela baixou a cabeça, fugindo dele. Assim que Kurt estava ao lado da cama, ela disse:
— Eu preciso saber como meu irmão está. – sua voz misturava medo e acusação, como se Kurt a estivesse impedindo de fazer o que precisava.
— Eu sei, Remi. Zapata está verificando e logo trará atualizações. Os médicos estão cuidando dele. Você precisa deixar que cuidem de você também. Pelo bebê.
Ela assentiu e continuou olhando para o lado. A médica de plantão chegou, se apresentou e os questionou sobre os acontecimentos que os trouxeram ali. Kurt começou o relato:
— Somo do FBI. O irmão dela foi ferido durante uma operação e Remi acabou atirando na pessoa que atirou nele. Depois disso começou a passar mal.
A médica fez uma expressão visivelmente descontente com o fato de Remi estar nessa operação de campo grávida:
— Sua pressão arterial e batimentos cardíacos estão normais. A glicemia também está normal. O resultado dos outros exames sanguíneos chegarão em pouco tempo. O que você está sentindo?
— Está difícil pra respirar. Minha cabeça fica pesada. A vista escurece...
— Parecem sintomas emocionais.
— Não, não é emocional. Eu controlo bem minhas emoções em campo. Eu já matei outras pessoas antes... tem algo errado comigo... – Remi disparou a falar e só depois percebeu Kurt olhando firmemente para ela e balançando a negativamente a cabeça num sinal para que não relatasse seus hábitos assassinos. Então ela se calou.
— Durante a gestação, seu corpo está sob efeito de altas doses hormonais e isso pode te tornar mais emotiva diante de uma situação familiar delicada ou ao atirar em outra pessoa... – a médica começou dizer. – Vou realizar uma ultrassonografia para vermos como o bebê está. Acho que isso ajudará a te tranquilizar.
O casal agradeceu e acompanhou a médica até a sala ao lado. Remi foi preparada para o exame. Kurt se sentou ao seu lado e pegou sua mão. Imediatamente, ela buscou seu olhar e expirou mais aliviada. Ele não conseguiu conter o sorriso, se aproximou e encostou sua testa na dela:
— Está tudo bem. Eu estou aqui. – e sentiu que ela apertava sua mão em resposta.
Ala cirúrgica – terceiro andar desse mesmo hospital
Zapata entrou na sala de espera e encontrou Patterson completamente vulnerável sentada no sofá, com a cabeça entre as mãos ainda sujas de sangue. Ela se aproximou devagar e se abaixou em frente da amiga:
— E aí?
A loira levantou a cabeça, respirou fundo, seus rosto estava coberto de lágrimas:
— Ele está passando por uma cirurgia... perdeu muito sangue e... – Patterson se jogou nos braços da amiga e deixou o choro aflorar.
Tasha a abraçou e esperou que ela se acalmasse. Minutos depois, quando o choro diminuiu, disse:
— Venha, tem um banheiro aqui. Vamos tirar esse sangue das suas mãos e rosto.
Meia hora depois o médico adentrou a sala. Patterson segurou firme na mão de Tasha. Juntas ouviram que Roman estava bem e que poderiam vê-lo. A felicidade diante da notícia tomou conta de Patterson que arrastou Tasha junto consigo para dentro do sala de recuperação onde o irmão de Jane estava.
Assim que chegaram ao lado da cama dele, Patterson lhe deu um beijo na testa e soltou a mão de Tasha para segurar a de Roman:
— O médico disse que você está bem. Só recuperação agora. – a loira disse empolgada para Roman.
— Oi... – ele respondeu ainda sonolento – Isso é bom. Eu tive um anjo que me socorreu.
Zapata pensou que se não saísse logo dali poderia vomitar por ouvir aquelas frases melosas.
— Na verdade... Dois anjos...- Roman continuou. – Oi, Zapata.
— Oi – ela respondeu desconfortável acenando de forma fria – Bem, eu vou deixar vocês aqui e vou avisar a Jane... quer dizer, a Remi, que está tudo bem.
E saiu da sala.
Assim que chegou ao corredor de acesso aos elevadores, Tasha encontrou Reade:
— Ei, finalmente te encontrei. – ele disse.
— Oi. – ela respondeu rápido e continuou – Reade, presta atenção: Vamos dizer que eu subi com Remi. O primeiro tiro não acertou Blake, então ela entrou em pânico e atirou duas vezes seguidas...
— Céus, eu vou fingir que não ouvi o “vamos dizer” com o qual você começou a frase.
— Roman passou por cirurgia e está bem. A Patterson estava pior que ele, mas agora que o novo crush do mau dela está bem, tá lá ao lado dele suspirando. – e revirou os olhos e continuou falando descontroladamente – Não tem como isso acabar bem. E Remi passou mal. Ela tá abalada. Não sei se o bebê tá bem. E outro que não estava bem era o Weller. Você lembra quando ele ficava irritado quando era contrariado há alguns anos atrás, antes da Jane? Pois é. Tá desse jeito. O que não ajuda em nada a situação. Tive que deixar os dois sozinhos para socorrer a Patterson. Mas agora vou lá ver se está tudo bem e dizer a Jane... droga! Não é mais Jane, é Remi. Vou dizer a Remi que o irmão dela sobreviveu. Espero que já tenham realizado os exames e que o bebê e ela estajam bem...
— Tasha...
— Oi?
— Respire. – Reade olhava diretamente nos olhos dela. Ela obedeceu e respirou. Presa no olhar dele, seu peito foi ficando apertado, um nó se formou na sua garganta e ela o engoliu de volta. – Você criou um álibi para Remi, mediou o conflito do nosso casal favorito, confortou sua melhor amiga mesmo não aprovando esse novo romance dela. Tudo isso foi ótimo. Mas agora, relaxe.
Ela olhou de volta para ele e não foi mais capaz de manter em pé a barragem que segurava a mar de emoções daquele dia. Se jogou nos braços de Reade que a envolveu com carinho. Só pouco depois Tasha percebeu que estava chorando.
Sala de Ultrassonografia
Enquanto a médica ia mostrando o bebê, o casal foi se esquecendo dos problemas e curtindo cada detalhe: mãozinhas, pezinhos, nariz, boca, orelhas. Era tudo tão perfeito! Comentaram cada característica comparando com as suas e com das duas irmãs, Avery e Bethany.
O celular começou a vibrar no bolso de Kurt. Ele tentou ignorar, mas a insistência das chamadas o fez pedir licença e pegar o aparelho para ver do que se tratava. Era Tasha avisando que Roman estava bem. Ele transmitiu a notícia a Remi que ficou ainda mais calma e voltou a sorrir.
Voltaram a se concentrar nas imagens do bebê. Aquele momento era deles e queriam poder curtir um pouco mais essa visão do filho ou filha. De repente, a médica disse:
— Então, como puderam ver, está tudo bem. Batimentos normais. Ela está ativa e confortável aí dentro da barriga da mamãe.
— Ela? – os dois disseram juntos.
A médica ficou desconcertada:
— Sim, ela. É uma menina. Vocês ainda não sabiam? Por favor, me desculpem.
O casal se entreolhou em êxtase. Saber que tinham um filho a caminho era ótimo. Mas agora sabiam mais ainda sobre essa criança tão desejada: era uma menina! Os dois não conseguiram conter o beijo que trocaram. Depois Kurt disse:
— Tudo bem, doutora. Estamos felizes em saber. Muito obrigada.
A médica saiu, deixando o casal sozinhos. Remi se sentou na maca e se virou para Weller:
— Kurt, você está realmente feliz como eu?
Ele a abraçou depois se afastou apenas o suficiente para se conectarem através do olhar e disse:
— Remi, eu passei 25 anos da minha vida procurando por uma garotinha que eu amava e perdi. Durante todo esse tempo, sempre achei que não haveria felicidade pra mim se meu pior pesadelo se confirmasse. Então, você entrou na minha vida e usou isso para me manipular, mentiu, me fez sentir novas formas de dor... Mas desde que se fez presente, todo o vazio que existia e me impedia de ser feliz desapareceu. Minha vida foi totalmente preenchida outras meninas: Jane, Bethany, Avery... e agora essa garotinha aqui. E todas vocês são tão fortes, tão únicas que por mais que eu queira fazer de tudo para protegê-las, eu me sinto seguro porque se eu falhar ou faltar, sei que são capazes de prosseguir. – e riu – acho até que estou mais aliviado em saber que é uma garotinha. Isso me faz ter certeza de que nenhum dos problemas que você enfrentou nessa gestação vai afetá-la porque ela será forte com a mãe dela.
Os dois trocaram alguns beijos suaves e Remi continou:
— Eu sei que já prometi outras vezes e não cumpri. Mas eu te garanto que o maior desejo que existe dentro de mim é fazer tudo para ela nascer bem e para a nossa família dar certo. Mais que tudo. Eu...- e pegou a mão dele e colocou nos seu peito – Eu sei que sou complicada, mas... – e olhou direto nos olhos dele – Eu nunca me senti tão ligada a outra pessoa como me sinto ligada à você...O que eu tô tentando te dizer é... – e o sentimento transbordou pelos olhos dela — Eu te amo, Kurt.
Ele encostou a testa na dela e disse sussurrando:
— Eu também te amo. Mais que tudo. – ficaram assim por um momento. Então ele se afastou e a lembrou – Venha, precisamos ver o resultados dos exames de sangue e depois escolher o nome dessa garotinha.
Analisados os últimos exames, a médica não viu motivo para segurar Remi no hospital e a liberou para ir pra casa, mas pediu que descansasse pelo resto do dia.
O casal estava deixando o hospital quando se viu rodeado por agentes da CIA e da ASN.
— Jane Doe? Precisamos levá-la sob custódia para averiguações.
Weller se colocou imediatamente à frente da esposa enquanto ela olhava desesperada para ele.
— Ela não vai a lugar algum.
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