Perdas e Ganhos
14 O olho do furacão
Notas iniciais
Reade alcançou Tasha em instantes e algemou Kyle enquanto lia seus direitos. Assim que tinham a situação sob controle, olharam em direção ao casal de amigos, distante a poucos metros dele.
Kurt vasculhava o corpo de Remi procurando quantificar os ferimentos e sua gravidade. Zapata conhecia as reações do amigo e sabia que a forma como ele se movia demonstrava o quanto uma tensão imensa estava ponto de explodir. Isso bastou para coloca-la em alerta máximo e correr para perto dos dois.
Ao se aproximar ouviu as tossidas de Remi e suas repetidas tentativas de puxar o ar para encher seus pulmões.
— Eu estou aqui, Remi._ ele dizia enquanto vasculhava todo o tórax dela_ Tente não se mexer. Logo os paramédicos estarão aqui.
Mais um curta crise de tosse e uma longa aspiração de ar e Remi foi capaz de falar:
— O bebê está bem, Kurt..._ mais tosse_ o tiro pegou no colete_ E ela se esforçou em levantar sendo imediatamente impedida por ele.
— Por favor, Remi, não tente se esforçar. Fiquei deitada, só mais um pouco._ e levou a mão até a testa dela.
O toque de Kurt era tão suave e, ao mesmo tempo, tão firme, quente e seguro. Por um breve momento ela se aquietou, mas uma nova crise de tosse a fez perceber que o melhor era se levantar.
— Eu já disse, o bebê está bem. Ela disse rompendo as restrições que a mão dele impunham impedindo que ela se levantasse.
Tasha percebeu o quanto Weller estava ainda em choque por aquela situação e resolveu intervir:
— Weller, ela está bem. Estava usando o colete que passei pra ela. Deixe-a se sentar para tirar isso e respirar melhor. O chão está gelado e ela está quase sem roupas. Vai congelar.
Ainda sem total auto-controle, ele ajudou Remi a se sentar e a retirar o colete, aproveitando para olhar novamente ao redor de todo o seu tórax para se certificar que realmente não havia sangramento. Feito isso, a puxou contra seu peito para um abraço.
Zapata jamais esqueceria a expressão de surpresa de Remi ao receber aquela demonstração de carinho. Ela parecia tão confusa, como se não fosse capaz de entender as reações de Kurt.
— Meu Deus, você está muito gelada._ ele disse tirando a jaqueta e colocando sobre os ombros dela_ Vou te levar lá pra dentro._ e já passou a mão embaixo dos joelhos dela para carrega-la no colo.
Remi pareceu ainda mais confusa e recuou:
— Não! Não precisa me carregar. Eu posso andar.
Tasha se aproximou e colocou a mão sobre a dela e apertou suavemente:
— Acredite em mim, é melhor você deixá-lo te carregar se não quer problemas.
Kurt desceu as escadas com Remi nos braços. Ela tentou se adaptar àquela situação e envolveu os braços ao redor do pescoço dele. De volta ao quarto, ele parou procurando um lugar para acomodá-la. A cama seria o lugar óbvio, mas ainda estava latente na imaginação dele ela algemada ali e totalmente à mercê daquele assassino. Então, resolveu colocá-la na espreguiçadeira do outro lado do quarto. Sentou junto dela e manteve os braços ao seu redor.
Reade se aproximou da cama e tocou a barra da cabeceira deslocada da madeira.
— Hei, você arrebentou isso?_ perguntou a Remi.
— Eu não teria deixado Kyle me algemar aí se não soubesse que era capaz de me soltar._ e olhou para cima para fazer contato visual com Weller que continuou olhando fixamente para cama.
— Nós quase enlouquecemos lá embaixo, pensando que você estava indefesa. _ Reade completou já que Weller permaneceu calado.
— Eu sinto muito. Pensei que esperavam que eu fizesse o que fosse preciso para pegar Kyle...
— Remi, sabemos que imprevistos podem acontecer, mas nessa equipe a vida de cada um de nós vale mais do que qualquer missão. _ Reade falou com determinação deixando claro como esperava que ela agisse.
— E depois você perseguiu Kyle desarmada. E depois ainda entrou na linha de fogo dele._ Kurt finalmente rosnou ainda sem olhar para ela.
— Eu estava com o colete. E a vida de Tasha estava em risco._ Remi contrapôs à fala dele._ Deu tudo certo. E seu filho está bem._ os argumentos deles pareciam incompreensíveis à ela e isso já a estava irritando.
Normalmente ela se afastaria imediatamente dele para demonstrar seu descontentamento com a forma como ele tinha reagido a tudo isso. Mas ela se sentia tão bem ali entre seus braços. E o fato dele, apesar de parecer muito irritado com ela, ainda mantê-la junto dele fez Remi considerar que isso era importante para Kurt. Então, ela não lhe negaria isso.
— Olha, se você parar de rosnar, faço o que você quer. Fico fora das missões em campo pra proteger o bebê._ ela bufou.
Kurt estreitou o abraço em torno dela e não disse nada. Qualquer palavra romperia o controle que ele se esforçava em manter para evitar lágrimas.
Zapata abaixou o rosto e sorriu discretamente. Céus, esses dois não percebiam o essencial afogados como estavam em sua teimosia pessoal. Ela se aproximou do casal e se agachou ao lado de Remi, levando a mão até o braço da amiga:
— Remi, obrigada por se preocupar comigo. Nós entendemos suas decisões aqui hoje. Teríamos feito o mesmo no seu lugar. Mas também precisamos que você entenda que nos importamos com você, não só com o bebê.
Então, Zapata se afastou para dar um pouco de privacidade a eles. Ela esperava que suas palavras ajudassem os dois a se entenderem.
Remi ficou paralisada por um minuto absorvendo as palavras da amiga. Tudo aquilo era tão estranho à ela. Depois se afundou contra o peito dele e fechou os olhos, se entregando à presença dele. Ele, então, sussurrou:
— Eu não posso te perder de novo, Remi.
— Onde está a striper mais sexy de toda NYC? _ Rich disse espalhafatosamente entrando na suíte._ Eu trouxe o sobretudo para cobrir a oitava maravilha do mundo e mantê-la como um privilégio só nosso.
Reade e Tasha o seguraram antes de se aproximar do casal. Mas os paramédicos entraram em seguida, rompendo o momento da mesma forma. Tudo estava bem com Remi e com o bebê.
— Weller, nós resolveremos tudo com Kyle. Leve Remi pra casa, ela merece descansar.
Apartamento dos Wellers – pouco depois
Assim que entraram no apartamento, Remi tirou o sobretudo e se jogou no sofá com cara de poucos amigos. Os dois tinham trocado poucas palavras pelo caminho.
— Tome um banho quente e fique mais confortável enquanto preparo algo pra comermos._ Kurt sugeriu tentando quebrar o gelo enquanto abria o refrigerador a procura de algo possibilidades para o jantar.
— Eu já te disse no caminho que não estou com fome...
— Você precisa se alimentar. Foi um longo dia. Depois do banho você vai querer comer._ ele respondeu ainda vasculhando a geladeira.
— Eu não vou tomar banho agora, Weller. Nem vou comer até conversarmos.
Kurt fechou a porta do refrigerador e respirou fundo. A teimosia de Remi era muito mais afrontosa que de Jane. Ela tinha passado horas sob forte tensão e ficou claro que não compreendia o quanto ele se preocupava com ela. Era preciso ter paciência. Mas ela era adulta e precisava entender que haviam limites para o que ela podia ou não se opor.
— Sua teimosia já te colocou em riscos demais por hoje...
— E também já me mostrou mais sobre o que vivi como Jane do que você está disposto a me dizer. Foi lindo o discurso de Tasha de que se preocupam comigo e a forma como você me carregou e manteve o contato até os médicos me examinarem. Mas agora, me explica: é tudo para que eu não me lembre de que?
Kurt abriu a porta do refrigerador novamente e pegou uma cerveja. Veio até a sala, se jogou no sofá ao lado dela, abriu a garrafa e tomou um gole olhando para o nada.
— Do que exatamente você se lembrou?
— Da raiva nos seus olhos. De que você não me deixou te explicar. De você me algemando e ... o resto são sensações horríveis que me causam náusea.
Kurt tomou um novo gole da cerveja apenas para descobrir que isso não o ajudava em nada.
— Já te contei que meu pai me contou ter matado Taylor Shaw e onde o corpo dela estava enterrado. O que não te disse é que viajei até Clearfield para verificar pessoalmente se o corpo dela estava realmente lá. Eu não queria aceitar que você não fosse Taylor, você tinha me contado sobre momentos que tive com ela na infância. Então, eu mesmo cavei o local tentando provar que o único a mentir foi meu pai. Mas encontrei os ossos dela. Naquele mesmo dia, mais cedo, eu tinha te ligado dizendo o quanto você era importante pra mim. Se Taylor estava morta, você estava mentindo...
— Você me prendeu por mentir sobre uma lembrança?
— Quando eu sai de Clearfield para ir atrás de você em NYC, eu não tinha a intenção de te prender. Eu só queria que você me desse uma explicação que mostrasse que você mentiu por um bom motivo. E me abraçasse e ajudasse a mandar toda aquela merda de dor que eu estava sentindo embora. Mas quanto mais eu dirigia, mas claro ficava pra mim que havia algo de podre em tudo aquilo: sua mentira e o desaparecimento de Mayfair. Eu cheguei a sua casa e você não estava. Esperei por horas e você não aparecia. Então eu bebi, bebi e bebi, me sentido um idiota manipulado por você. E me deixei levar pela raiva, decidindo que eu te trataria como se trata o pior dos suspeitos.
— Eu fiquei presa por quanto tempo?
Kurt relutou em dizer números exatos por temer que isso despertasse lembranças ainda mais dolorosas num dia que já tinha exigido demais dos dois:
— Mais de dois meses. Depois com as informações que você nos passou sobre a Sandstorm, fizemos um acordo para que você se tornasse um agente triplo e com isso, reconquistasse a sua liberdade.
_ E você confiou em mim para isso?
— Você era nossa única chance real._ ele riu triste_ Foi complicado, um processo lento, mas voltamos a confiar um no outro.
— Se tudo foi tão difícil, como terminamos casados?
— Mesmo quando não confiávamos totalmente um no outro, o amor estava lá, impulsionando cada passo que nos aproximava.
— Eu queria enxergar essa luz no final do túnel agora porque eu estou com muita raiva de você...
Kurt carregou o olhar de compreensão e se virou para ela:
— Tome o tempo que precisar para lidar com essa nova informação sobre nós, Remi. Eu estarei aqui para o que você precisar. Se está sentindo raiva é porque ainda há uma esperança. Esse é o único caminho que você aprendeu a percorrer para lidar com tudo que se lembra na sua vida. Você está tentando e ainda está aqui, na nossa casa...
_ É pra você ver que o bebê está bem.
— Eu sei que o bebê está bem, Remi. Os paramédicos nos garantiram isso. Mesmo assim, eu teria insistido pra você vir pra cá porque estou preocupado com você. Tudo sobre você é importante pra mim. Sua saúde, sua segurança importam. Seus sentimentos importam.
Remi levantou nitidamente abalada por aquelas palavras. Havia um leve tremor no queixo dela quando começou a falar:
— Eu vou tomar um banho e comer o que você preparar.
Ele respirou aliviado. Era o bastante por aquela noite.
Dois meses antes – numa cafeteria do Brooklyn
— Será que você pode ser rápido. Temos muito serviço no SIOC.
— Vamos lá, Zapata, eu não preciso te lembrar que seu trabalho verdadeiro é aqui, comigo.
— Eu me desliguei da CIA assim que Crawford caiu, Keaton.
— Eu não quero discutir agora. Tenho uma missão importante pra você. Desconfiamos que os negócios de Crawford estejam progredindo sem ele. Precisamos infiltrar alguém lá para obter informações.
— E você pensou em mim?
— Na verdade não. Roman é a melhor pessoa para fazer isso. A filha do Crawford parecia apaixonada por ele. Preciso que você proponha um acordo à ele pra trabalhar pra gente.
— Você está louco? É muito arriscado. Eles podem saber da traição de Roman e mata-lo. O FBI nunca vai aceitar isso.
— É por isso que estou falando com você. Não quero que o FBI saiba. Você fecha o acordo e tira ele de lá.
— Esqueça, não farei isso. Encontre outra forma.
— Estamos lidando com uma organização monstruosa, Zapata. Derrotá-los tem um custo.
— A vida de Roman não é brinquedo com o qual você pode jogar.
— Você se refere à ele como uma pessoa comum. Se esqueceu que ele não passa de um monstro criado por Crawford e Shepherd?
— Ele está se esforçando para superar tudo isso, Keaton.
— Será mesmo? Ele foi criado por lobos. Lembra-se?
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