Perdas e Ganhos
3 Entre razões e emoções
Era uma manhã nublada, como quase todos os dias em Nova Iorque. Mas esse não era um dia qualquer, pelo menos não para aquele passageiro especial.
Roman desce do carro, algemado e com os olhos fixos naquele prédio que ele conhecia muito bem. Ele finalmente depois de tanto tempo tinha voltado aquele lugar que, de alguma forma estranha, lhe trazia paz e um aconchego diferente.
— Pelo menos dessa vez é tudo real. — susurra para si mesmo.
Ele começa a andar devagar escoltado pelos agentes da operação especial. Ainda um pouco atormentado com os últimos acontecimentos, ele não espera nem fecharem a cela — sim, a mesma cela que tinha ficado a uns meses atrás — e pergunta:
— Eu gostaria de falar com o agente encarregado
— Na hora certa o senhor será chamado. Até lá se contente com a companhia das paredes
O guarda termina de trancar a cela e sai.
— Eu tinha esquecido o quão agradável é a polícia daqui. — resmungou.
Ele então resolveu sentar-se e meditar. Poderia parecer engraçado agora, mas a meditação há pouco tempo lhe trouxe muita coisa boa, tinha aprendido a controlar mais as suas patológicas emoções. Foi quando então escutou passos.
— Eu já entendi, senhor... senhor... bom, eu já entendi que tenho que conversar com as paredes
— Olá, Roman. Como vai?
Ele se levanta e fixa o olhar naquele rosto angelical.
— Não sou uma parede e prometo que a minha companhia será menos fria
Roman se aproxima da grade.
— Estou surpreso. Para falar a verdade, eu não esperava ver ninguém mesmo.
— Soube da sua chegada e resolvi vir aqui oferecer minha ajuda. Apesar de tudo você ainda é o irmão de Jane... Olha, é complicado. Precisamos conversar. O importante agora é você ficar bem, ok?
— Obrigado, agente...
Ele nem tinha terminado quando aquela voz, que ele não sabia como nem porque mexia tanto com ele, continuou:
— Patterson, somente Patterson. Digamos que a sua protetora aqui. Porém, Roman, preciso que me ajude com a sua irmã. Ela sofreu um acidente e desde então não lembra da vida que teve aqui, para ela só existem as lembranças de Remi. Eu preciso mesmo da sua ajuda, Remi pode ser muito perigosa se souber do confronto que vocês tiveram quando ainda era Jane, você não pode falar, eu estou te pedindo. Por favor, Roman me ajude. Tenho que ir, voltarei mais tarde se não precisar de nada no momento. Pense nisso que eu te falei.
— Estou bem. Obrigado. Quanto a Jane... Bem, agora é Remi. E temos muito que conversar sobre isso.
Patterson se vira e volta a sua sala.
Sozinho, Roman pensa em tudo que tinha escutado. Era muita coisa para assimilar em tão pouco tempo. Apesar de tudo estava bem.
Na verdade, não estava apenas bem. Estava ótimo! Aquela sem dúvida era uma pessoa que o fazia se sentir diferente e que pela primeira vez, talvez, fizesse dele uma pessoa boa de fato.
Naquela mesma tarde, Roman estava pensativo sentado no canto esquerdo da cela. O que Patterson acabava de propor ia muito além de uma simples e inusitada parceria.
“Jane é Remi novamente?” pensava ele.
Passou anos querendo isso e quando finalmente aconteceu ele simplesmente não estava feliz. Não feliz pelo todo.
Ele então se levantou e começou a andar inquieto de um lado para o outro. Sabia que precisava se unir a Patterson e impedir que a irmã fizesse algo inesperado, mais ao mesmo tempo desejava retomar aquela união que só ele e Remi tinham.
O que fazer?
Foi interrompido ao escutar som de passos vindo ao seu encontro.
— Ora, ora quem resolveu aparecer e rever os velhos amigos.
A voz sarcástica soou em frente a ele. Roman sabia bem que aquela visita iria aparecer a qualquer hora.
— Agente Zapata, é sempre um prazer...
Ele nem tinha terminado de falar quando ela o interrompeu:
— Vamos ser diretos e sem rodeios, Roman. Faria bem se nos poupasse desse floreio todo e ... bom, poderíamos ir direto ao ponto, ao que de fato interessa .
— Não imagino algo que possa despertar nosso interesse em comum, mas fale, tenho todo tempo do mundo. Estou trancafiado nessa cela e como você pode ver eu não irei a lugar nenhum.
— Roman, eu sei que Patterson já veio aqui. Deve ter sido doce e compreensiva como sempre. Não é o meu caso. As regras do jogo comigo são outras.
— Isso sem dúvidas, agente Zapata. Com você sempre foi na base do tiro, da porrada e bombas, certo?
— Sou direta, por isso vou logo ao ponto. A questão é, se não quiser ajudar com a sua irmã, faça o favor de não atrapalhar. Já temos problemas demais.
— Então é isso, eu me resumo agora a atrapalhar os outros? Muito bem, se é só isso, posso negociar com você e então não causarei nenhum problema.
Tasha se aproxima da grade e tem um pequeno ataque de fúria, cravando os dedos nas grades e olhando fixamente para ele:
— Negociar? Posso eu confiar no homem que quase matou a equipe inteira com seus mirabolantes planos? Ah! Roman, saiba que eu estarei vigiando todos os seus passos, e pode apostar que dessa vez você não vai estragar tudo.
Tasha se vira e começa a andar em direção a saída.
— Agente Zapata, não deveria desconfiar tanto das pessoas. Eu só preciso de alguém que converse um pouco comigo sobre isso. É solitário aqui sabia? A recuperação da Jane/ Remi não vale esse preço? Além disso, nunca se sabe quando um gesto solidário da sua parte poderia me convencer a um dia salvar a sua vida.
Tasha nem se vira, apenas segue andando e fala:
— Então faremos assim: salve minha vida e, nesse dia, talvez você mereça que eu o trate melhor. Até mais, Roman.
Ela seguia andando e pensando se não havia sido dura demais. Acostumada a ir falando e não pensar nas consequências ela tinha certeza de que precisava mudar de estratégia:
“Da próxima vez levo um jornal ou falo de baseball. Pronto.”
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