Percy Jackson e as alianças de Ouro
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Chegar dentro da jaula tinha sido cansativo. Depois de contornar as seis jaulas diferentes tive entrar por uma porta no final de um corredor, lá duas veterinárias conversavam sobre os animais de uma determinada ala ocupando o espaço por gaiolas. Me escondi dentro do armário do zelador e esperei que elas passassem, corri até uma porta de ferro que dava á uma sala aberta de acesso á um portão de grades. De lá dava para ver a escada que descia em diferentes níveis até o gramado onde viviam os ursos pardos.
Depois que estava dentro do viveiro dos ursos, tomei cuidado ao me aproximar da garota. Ela parecia inofensiva, mas depois de muito me surpreender em missões que fiz quando jovem, passei a tomar cuidado com as aparências.
Contracorrente estava empunhada, mantendo cautela, dei alguns passos em sua direção, até ela se virar para me ver.
Era uma garota bonita de pelo menos dezessete anos. Seus cabelos avermelhados desciam por uma trança até as costas, palha e flores secas estavam espalhados por todo o comprimento, como se ela tivesse dormido sobre um canteiro e feito o penteado assim que acordou. Apesar de se parecer com uma adolescente comum, o lado direito de seu rosto fora terrivelmente desfigurado por uma cicatriz feita por garras muito grandes e largas, como as de ursos.
Quando a garota me viu sua primeira reação foi esconder a mão com a joia. Me observou enquanto me aproximava, apertando os pulsos como se pudessem fugir.
–Olá- cumprimentei. Queria que tudo ocorresse amigavelmente, que não precisássemos usar a força ou qualquer outro meio de violência para acabarmos com aquilo.
–Não vou entregar a maldita aliança.
Sua voz era como um rosnado- ou melhor, como um rugido de um urso.
–Sabe que Zeus está procurando por isso, não sabe?
–Sei exatamente o que está acontecendo naquele maldito Olimpo com aqueles malditos deuses!- Ela sorriu com desdém, se divertindo com as próprias falas- Espero que se divirtam enquanto procuram por esse anel insignificante...
– Deve ser muito insignificante- Apertei o punhal de contracorrente- Pra você ficar admirando enquanto ela brilha no seu dedo.
A garota mostrou os dentes
–Quem é você?- Rugas se formaram em sua testa
–Sou um amigo, só preciso que você me entregue a aliança de Zeus e vou embora.
A garota se aproximou, sorrateira e leve como um animal selvagem. Observei enquanto dava círculos em minha volta, fungando o ar por onde passava.
–Filho de Poseidon? Senti cheiro de peixe...
–Vai me devolver a aliança?- Dei de ombros
A garota sorriu e me mostrou o anel em sua mão.
–Você quer? Então vai ter que tira-lo do meu dedo.
Queria evitar o inevitável. Mas fugir de lutar não era da minha natureza, principalmente depois dela ter dito que fedia a peixe, a coisa tomou um rumo meio pessoal. Ela não sairia impune, e se estava procurando uma briga fácil, finalmente encontrou.
–Acho que estamos em desvantagem- provoquei
A garota sorriu, suas presas formaram o que eu chamaria de sorriso da morte, se já tivesse visto a morte sorrir.
–Concordo.
Uma aura negra se formou em sua volta, como nuvens de tempestades, carregadas de água e raios, deixando-a escura e densa. Quando a nuvem se dissipou, onde havia uma garota com sorriso intimidador, havia um urso três vezes maior que os outros, com pelo avermelhado e olhos redondos tão escuros quanto jabuticabas.
O urso rugiu, e acompanhando seu chamado o restante dos ursos do viveiro rugiram com ele, correndo em minha direção.
–Que se dane os ursos
Minha promessa de deixar os animais do zoológico viverem estava fora de questão.Quando sua vida está em jogo, pouco importa. Tudo o que eu precisava era pegar a aliança e sair vivo.
Deixei que eles se aproximassem. No canto inferior, descendo em formato de montanha, uma linda cachoeira abastecia o lago artificial e mantinha a água em movimento. Puxei uma onda em direção aos ursos, que escorregaram na lama, mas continuaram correndo.
Construí uma parede d’água entre mim e a família de ursos, deixando apenas a garota livre para me movimentar.
O urso rugiu, deixando á mostra seus dentes pontudos, e suas garras aranhavam o ar como um afronto, um convite para eu ser seu sushi de carne de semideus.
–Então você quer brincar?- Brandi contracorrente- Não tenho tempo para crianças que precisam de atenção...
O urso se ergueu nas patas traseiras e rugiu mais uma vez antes de avançar. A garota tentou me acertar com uma patada, mas desviei desferindo um golpe de espada em seu ombro.
O urso choramingou mas continuou me atacando. Cai para trás e rolei, bem na hora que o urso se jogou onde a segundos eu estava.
Enquanto me recuperava de quase ter sido esmagado por um urso gigante, dei uma olhada na família de ursos que tentava descontroladamente quebrar a barreira que nos separava e se juntar a briga.
Os olhos dos animais não estavam normais, pareciam estar hipnotizados.
A garota em forma de urso avançou, mostrando as garras tentando acertar meu rosto. Abaixei a cabeça e ele caiu para a frente, sobre as quatro patas. Ele se virou, olhando por cima do ombro e rosnou, da mesma maneira que a garota fizera.
–Porque não me entrega a aliança e acabamos logo com isso?
Deixei a frase no ar, por um momento achei que tivesse funcionado, mas o urso votou a rosnar e sibilar entre os dentes. Levei como um sorriso irônico, então a chamei para mais uma apresentação de Percy Jackson, o domador de ursos.
Ele correu em minha direção dando patadas no ar, deixei que ela se aproximasse antes de dar uma cambalhota por baixo de suas pernas e correr em direção ao lago, onde eu sabia que seria impossível dela me vencer.
Quando cheguei à margem, vi o reflexo do urso pronto para me acertar pelas costas. Com um giro cheio de classe deixei que ele escorregasse e caísse dentro do lago, onde criei redemoinhos que o manteve preso e girando.
Ele urrou, com olhos suplicantes. Quando deixei que saísse ele cambaleou e chacoalhou a cabeça e seu corpo,me molhando. Ele sorriu, sínico.
Joguei mais água sobre ele, e dessa vez deixei que ficasse envolto por uma camada de água, como cilindros de plástico bolha envolta de uma mercadoria. Ele rosnou e choramingou, então ficou quieto, se transformando na garota com a cicatriz em forma de garras.
Não a libertei antes de tirar o anel de seus dedos. Ela rosnou e mostrou os dentes. Eu apenas a encarei, demonstrando indiferença.
–As vezes é bom ser filho de Poseidon- Sorri em deboche e a soltei. Ela caiu de joelhos em minha frente.
–Vou me vingar, Percy Jackson.
–Vai ter que entrar na fila.
Deixei que falasse sozinha. Quando estava na metade da escadaria desfiz a parede de água e libertei a família de ursos. Girei a aliança de Zeus e dei uma olhada de perto. O nome de Hera brilhava como fogo grego, junto com desenhos de raios no lado de dentro. Era uma aliança simples, grossa e pesada, além de ser grande como uma tampa de garrafa de refrigerante.
Guardei no bolso em tempo de ver a equipe do EPAM atravessar o corredor. Dessa vez não tinha pra onde fugir, eu teria que enfrenta-los.
Reconheci como os caras da jaula dos unicórnios. Eles não pareciam entusiasmados em me ver, principalmente o cara moreno que eu derrubara para trás.
Eles sorriram maliciosamente e o que usava uma braçadeira, o chefe, puxou um radio comunicador da cintura.
–Encontrei o invasor. Recebo autorização para mata-lo caso resista?OK.
Saquei contracorrente e brandi em sua direção. O cara tentou me acertar com seu equipamento de raio X, mas eu o parei ainda no ar. Com uma rasteira entre as pernas ele fiz com que ele caísse bem em frente aos amigos, que pegaram cordas e como piões de rodeio, tentaram me acertar com o nó na ponta da corda, mas contracorrente as cortou antes que chegassem á meio metro de distância.
Eles me olharam de olhos arregalados, um deles ameaçou a correr.
–Ainda estou esperando. Quando é que vocês vão me capturar e me colocar para fora?
Eles levantaram o chefe.
–Vamos voltar com reforço.
–Não vai ser preciso. Já estou de saída.
Ao passar pelos caras do EPAM seus equipamentos apitaram. Quando atravessei a porta meu sorriso dava para ver da Estratosfera.
Eles ficaram meio encabulados quando passei, checando o equipamento tentando detectar algum defeito. Aproveitei para sair o quanto antes.
Corri em direção á saída de emergência, que cortava todo o parque por tuneis subterrâneos. Em poucos minutos eu estava no estacionamento.
Agora precisava encontrar um automóvel que me levasse até a prefeitura onde eu pudesse pegar meu carro e encontrar o gavião de Zeus.
Olhei no relógio digital do estacionamento, que além de indicar as horas mostrava a temperatura e os dias da semana. O relógio marcava duas e trinta e cinco da tarde, logo seriam três horas e se eu não me apreçasse as coisas poderiam ficar feias, e seriam mais meses de espera antes que eu pudesse comprar alianças novas.
Corri até a vã do EPAM que se encontrava trancada numa vaga para deficientes. Com contracorrente cutuquei o fecho da maçaneta. Eu estava quase desistindo, eles deviam estar preparados para esse tipo de arrombamento.
Tomei distancia e chutei o vidro da janela até que quebrasse. Puxei o pino da trava e abri a porta. Dei a volta até a parte da frente do carro e desconectei os fios do motor e o liguei em outros, fazendo o carro ligar.
Nunca os filmes vieram tanto a calhar.
Dei a partida e deixei o estacionamento. Luzes se acenderam no interior da vã, mas eu estava sozinho. Eram apenas as luzes dos equipamentos. O pisca-pisca do painel começou a me irritar, joguei uma toalha por cima do GPS embutido e dos alarmes enquanto dirigia.
Cortei pelas ruas onde eu sabia que seria a melhor e mais rápida forma de se chegar à prefeitura. O horário era bom para transitar, já que a maioria das pessoas estavam em horário de serviço, não havia muito movimento nas ruas.
Pisei fundo olhando constantemente para o relógio, fiz duas curvas que teriam me custado cinco pontos na carteira, continuei com os ponteiros do acelerador marcando cento e vinte quilômetros por hora, até que algo me obrigou a parar.
Uma BMW azul surgiu ao meu lado, olhei pelo retrovisor, eu não parara na placa de pare, e com o carro me ultrapassando não tinha como frear.Assenti o faróis mas o cara não conseguiu parar á tempo. A vã colidiu com a traseira de seu carro, levando uma de suas luzes traseiras e amassando parte de seu porta malas.
Quando o cara loiro com cara de ator de cinema saiu do carro tive vontade de me abaixar e esperar que fosse embora, mas ele já tinha me visto.
Abri a porta da vã e desci, encarando meu bom e velho amigo Jason, usando terno e gravata combinando, sapatos lustrados e o cabelo milimetricamente penteado.
–Cara, você está bem?-perguntei
–Eu estou- ele olhou para a traseira de seu carro com cara de azedo- O que aconteceu? E que vã é essa?
–Seu pai me botou em problemas...
–As alianças- Jason pareceu entender- Mas essa vã... É do EPAM?O grupo de busca?
–Peguei emprestado por um tempo- Assenti- tudo o que fizeram até agora foram atrapalhar minha missão.
Jason não respondeu, apenas balançou a cabeça.
–Não viu a placa de pare?
–Ah cara...- Sua sombra mudou de posição. As três horas da tarde estava cada vez mais próxima, e se eu quisesse ter minhas alianças de volta e devolver a de Zeus, teria que deixar a conversa com Jason para depois- Você sabe onde eu moro. Passe por lá mais tarde pra resolvermos o que vamos fazer com o carro... Leve Piper com você. Ela e Annabeth vão gostar de conversar.
Ele não pareceu satisfeito, mas assentiu.
–Tudo bem. Ligo avisando.
Subi na vã e parei ao seu lado- Vamos jantar fora hoje, acho que vou finalmente fazer uma coisa que queria fazer a muito tempo.
Jason sorriu, entendendo o que queria dizer.
–Eu fui mais rápido, cara, me casei antes que você- ele riu- Boa sorte.
Sorri em resposta e pisei fundo.
Eu nunca engolira a história de Piper e Jason terem se casado antes de mim e Annabeth, e isso nos rendia durante o jantar muitas risadas, mas eu sabia que Annabeth também se sentia desconfortável. Mas por sermos amigos eu deixava o assunto de lado. Não importava agora. Se tudo desse certo, se eu conseguisse entregar a aliança de Zeus em tempo, a festa de casamento de Jason ficaria no chinelo perto da minha. Isso se eu conseguisse chegar na hora marcada.
Estava quase na frente da prefeitura quando encontrei mais integrantes do EPAM. Vi Sandra e sua equipe, eles vasculhavam dentro da bolsa de algumas pessoas, alguns reconheci como amigos de trabalho.
Tentei passar despercebido, agachando atrás dos arbustos do jardim em frente á prefeitura, mas ela já tinha me visto.
Meu celular tocou.
Sandra vinha em minha direção com calma, não parecia que ia me fazer ameaças de morte como o cara no zoológico, então achei melhor me levantar para não levantar suspeitas.
–Annabeth?- Atendi. Sempre era uma boa hora para falar com ela, mas agora não era um momento apropriado.
–Desculpa ligar de novo, mas é que achei que seria importante dizer...
–Percy!- Sandra se aproximou com um sorriso no rosto- É uma pena que não tenha nos acompanhado. Não entendi o motivo porque quis sair da vã e nos deixar. Não acredita na capacidade da equipe?
Annabeth parou de falar.
–Quem está ai?- Sua voz era a mesma de antes, preocupada e com ciúmes.
–É a Sandra, uma amiga- Fiz sinal para Sandra esperar.
–Você disse que estava sozinho.
Engoli em seco
–Eu estava, mas...
–Depois nos falamos, vou ficar perto da escada esperando. Tenho umas coisas que você vai gostar de saber- Sandra se despediu e se juntou ao grupo perto das escadas.
–Depois nos falamos!- Annabeth falou alto, afastei o celular do ouvido- Vocês devem ter muito assunto! E coisas que você vai gostar de saber?Que história é essa?!!
–Não deve ser nada muito importante- tentei acalma-la- Nada mais importante do que você tem á me contar.
Ela ficou em silêncio.
–Annabeth?
–Não deixe sua amiga esperando- Ela voltou a dizer, quase berrando no telefone. Ouvi barulho de copos caindo- Quando chegar em casa nós vamos conversar, Percy Jackson, convide sua amiga Sandra também.
Ela desligou.
Definitivamente não tinha como aquele dia ficar melhor.
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