Notas iniciais
< amei este capítulo, espero que gostem também3

Estudar era quase impossível.

Tinha o barulho dos carros no estacionamento e nas ruas, as crianças brincando no parquinho e na piscina. O som da batedeira na cozinha, a TV e o aspirador ligado no apartamento do lado, do outro lado da minha parede.

Para alguém com défice de atenção essas eram as combinações perfeitas para te desconcentrar. Até mesmo Annabeth estava tendo problemas em manter o controle, ela apertava os olhos para os meus livros tentando lê-los antes de me explicar. Por várias vezes já a peguei olhando para o porta retrato ao lado da cama e para as fitas de times de baseball na parede.

Era difícil se concentrar com esses sons lá fora, mas o pior de tudo era tentar prestar atenção no que Annabeth dizia, não em seu rosto iluminado pela luz do sol e de como seu cabelo ficava reluzente, e como seu brilho labial formava manchinhas de reflexo em certos pontos de sua boca. Era difícil não a beijar.

–Preste- A beijei mais uma vez- atenção.

–Estou tentando- admiti

–Sei que está sendo difícil, mas tente se esforçar- Ela virou a página do livro sem olhar para ela. Annabeth estava de frente para mim, sentada de pernas cruzadas com os livros e cadernos no colo- Falta pouco, depois te dou uma folga.

Faziam duas horas que estávamos tentando estudar. Confesso que não estava com a mínima vontade disso, mas eu tentava a agradar de todas as maneiras, mesmo se isso significasse passar à tarde dentro de um quarto fechado tendo que suportar a barulheira do vizinho.

–Annabeth, podemos fazer isso outro dia- peguei o livro de seu colo e o fechei. Me aproximei dela e continuei:

– Está fazendo muito calor para ficarmos aqui dentro- Tirei a camisa.

Não estava com segundas intenções, até porque seria muito arriscado, mas podíamos namorar um pouco, aproveitar que estávamos sozinhos.

Ela fechou o restante dos livros e os colocou no chão, ao pé da cama.

Annabeth não parecia muito animada para continuar me ensinando, esticou suas pernas bronzeadas e se deitou, tirou o cabelos de trás da nuca e se espreguiçou.

–Tem razão- ela me cutucou com o pé- Mas vamos continuar estudando qualquer dia desses, antes das suas provas.

Concordei. Me deitei ao lado dela, nossos pés virados para o lado contrário da cama. Passei meu braço ao seu redor, ela se aconchegou e beijou meu ombro.

Ficamos em silencio, ela apoiada em meu braço olhando pela janela. Seus olhos estavam perdidos naquele céu azul. De hora em hora o sol era tapado por uma nuvem e voltava á aparecer por entre ela.

–Já notou que há muitas nuvens no céu hoje?

Annabeth estava tranquila e serena, sua voz era quase um sussurro. Suave e delicado.

–Imagine quantas nuvens existem no céu do mundo todo, não só aqui, passando na frente da janela... Há milhares de nuvens, diferentes formas e tamanhos, mas todas são nuvens.

Olhei pela janela também, elas tinham muitas formas e cores, algumas mais brancas do que as outras, umas escuras, indicando que choveria mais tarde. Tentei olha-las da mesma maneira que Annabeth. Uma forma ingênua e sonhadora, sensível. O olhar dela era o mesmo de quando nos deitamos sob as estrela na noite em que lhe dei a aliança que me dera tanto trabalho de recuperar e mantê-la segura. Eram os olhos de uma garota forte, inteligente e resistente, mas que nutriam sentimentos infantis e afetuosos, como toda garota.

Eu nunca conseguiria olhar para as nuvens da mesma forma que ela, á menos que eu enxergue por seu ponto de vista.

–Porque acha que não possa existir apenas algumas nuvens que o vento as empurra para todo canto do planeta? As nuvens que passam por nova Iorque agora podem ser a mesma que vão cortar o céu de Londres em algumas horas...

Um sorriso surgiu em seus lábios. A luz do sol entrou pelo quarto e fez o contorno do seu rosto brilhar,junto com seu cabelo louro e seu batom. A aliança em seu dedo refletiu seu brilho prateado e fez as pedras azuis cintilarem.

–As pessoas não podem estar em dois lugares, Percy- Disse sem tirar os olhos da janela. Ela fez uma pausa antes de continuar- Assim como as nuvens.

–Você nunca encontrará alguém como eu na China, assim como nunca vou encontrar alguém como você em outro canto do mundo. E é isso que tornam as nuvens tão especiais. É o que nos torna especiais.

O vento se espalhou pelo quarto e respirei fundo.

Annabeth tinha tido coisas tão bonitas na noite em que nos deitamos debaixo de uma arvore na praça, tinha tido tanto sobre as estrelas e o universo como uma poeta, se os filósofos dos livros que eu era obrigado á ler na escola fossem como ela, filosofia seria minha matéria predileta.

Achei que era a minha fez de ser romântico. Dizer coisas bonitas que á fizessem suspirar. Pensei em meu professor de literatura e Filosofia e nos diversos filmes que ele passara durante suas aulas e as discussões que tínhamos sobre eles. Alguns livros também eram debatidos, e um deles ainda me lembro. Eu não havia lido o livro mas adorei o debate, a forma com que o professor recitava os versos de uma maneira espontânea, como se viesse de dentro dele. Tínhamos discutido Shakespeare, um clássico entre tantos outros Poetas, mas esse cara era sem duvidas o melhor, por isso o mais famoso. Ele sabia como usar as palavras para tocar o seu intimo, mesmo que você não perceba.

Procurei algum verso que se encaixe perfeitamente neste momento.

–"Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...- comecei. Annabeth me olhou curiosa.

–Não precisamos da paixão desmedida...-continuei

Ela virou o rosto, me olhando nos olhos.

–Não queremos beijo na boca- Ela continuou, recitando a continuação do mesmo verso que eu- E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama...

–Há certas horas, que só queremos a mão no ombro, o abraço apertado ou mesmo estar ali, quietinho, ao lado.Sem nada dizer- terminei

–William Shakespeare.

Assim como no verso, permanecemos em silêncio. Annabeth fechou os olhos e enterrou seu rosto em meu pescoço.A abracei forte e disse em seu ouvido um dos poemas que mais gostava de Shakespeare:

–“Duvide que as estrelas sejam fogo,duvide que o sol se mova,duvide que a verdade seja mentira, mas nunca duvide de que te amo”.

Ela não se mexeu, tão pouco disse alguma coisa. Cheguei a achar que ela tinha dormido encostada em meu pescoço, mas quando tentei olha-la, Annabeth escondeu o rosto. Ela limpou os olhos com a manga de sua camisa xadrez disfarçadamente. Ela estava chorando.

Não disse nada sobre ter a emocionado. Era exatamente a emoção que eu queria causar. Também estava mexido com o clima que estávamos, então eu apenas a apertei com carinho e beijei seu cabelo. Continuei a citar alguns versos conhecidos e os que eu lembrava das aulas de literatura em seu ouvido, com a voz calma e baixa, deixei que ela sentisse o que eu sentia, no simples ato de me ouvir.

Eu sabia que ela sabia, que podia ver o quanto eu a amava, mas eu nunca me cansaria de dizer. Eu a amaria assim como Romeu amou Julieta, mesmo que isso significasse a minha morte.

Senti sua respiração ofegante em minha pele, suas lagrimas quentes e seu peito subindo e descendo com a respiração falha. Continuei sem dizer nada, sabia o quanto Annabeth se esforçava para não chorar com alguém por perto, respeitei sua escolha de derramar suas lágrimas silenciosas e apaixonadas escondidas ao lado do meu rosto, no pé da minha orelha.

Annabeth tinha razão sobre não encontrarmos alguém como nós em outro lugar do mundo. Mesmo com a teoria dos clones, eu duvidava que pudesse encontrar alguém como ela. Uma garota que sabe se virar, é independente, cheia de sonhos e vontades, mas que continua sendo encantadora, tanto na beleza como em tudo o que faz. Annabeth não é só minha namorada, a mulher que quero ter ao meu lado á vida toda, mas também é minha melhor amiga. E nunca existirá alguém como ela, Annabeth Chase é única, e seu coração pertence á mim.

Fechei os olhos, a luz do sol fora bloqueada por uma enorme nuvem carregada que cobria Nova Iorque. As gotas de chuva molharam o asfalto quente, e atravessaram minha janela. O chão estava ficando coberto de água, mas eu estava me lixando pra ele. Que ficasse ali, olhando para mim,esperando que eu o secasse. Esperaria para sempre, porque eu nunca tiraria Annabeth dos meus braços. Jamais.

Notas finais
Acho que o Percy não odeia mais filosofia... comentem, BIG BEIJOS BRASIL