Percy Jackson e as alianças de prata.
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Não demorou muito pra que eu estivesse dormindo. Depois de tomar banho e passar algum tempo com minha mãe e padrasto na sala, fui para o quarto e me deitei. Estava cansado, mesmo que eu não tenha feito nada mais desgastante, acordar e estar vivo era uma boa forma de gastar energia. Ir aquela festa da associação não fora uma boa ideia, além de ser estressante. Mas eu não culpava George de verdade. Ele sempre fora um bom amigo. Quando íamos aos jogos do Giants junto com os outros torcedores do condomínio, nós sempre nos sentávamos um ao lado do outro e riamos dos desfalques ou péssimos arremessos dos jogadores adversários. Eu sempre o alertava sobre aquele seu impulso impensado de flertar com garotas comprometidas, principalmente com aquelas que estavam acompanhadas. Mas ele achava tão normal quanto tomar coca de canudinho.
Seu irmão Tommy dizia que sua família levaria George á um médico, mas até hoje nunca ouvira falar de alguma consulta que ele já tenha ido.
Mas quando vi o modo com que ele estava se comportando em relação á Annabeth, esqueci de todos os seus problemas e tomei partido. Onde estava a consideração e respeito que ele tinha por mim? Não importa se ela era minha namorada? Pra mim, não interessa que tipo de problema ele tenha, não importa. Não se deve flertar com garotas comprometidas, principalmente as comprometidas comigo.
E o modo com que ele á puxou, mesmo sabendo que ela não queria... Aquilo me lembrou do tempo em que minha mãe era casada com aquele monstro. Vi minha mãe apanhar, ser humilhada, e aliciada mesmo na minha presença. Tudo aquilo me fez ferver o sangue. Se alguém jogasse frango e batatas em mim, essa pessoa teria frango frito e batatas fritas em pouco tempo. Seria possível até se fritar um ovo nas minhas costas de tão quente que meu sangue estava.
Fora as coisas que tornaram aquela festa um desastre, como os “amigos” de Greb, a falta de espaço e o cheiro de bebida e erva, estar com meus amigos do prédio fora legal. Jogar meia partida de Banco Imobiliário e baralho com a turma toda foi um dos melhores momentos da comemoração aos Giants. Reuniões simples como aquela deviam ser feitas com mais frequência. Só nós, os torcedores do condomínio, e as namoradas. Sem aquele amontoado de pessoas estranhas.
O resto do dia também fora bom. Mesmo que muito cedo para falar sobre filhos, eu já tinha falado, mesmo que indiretamente, todos os meus planos para Annabeth quando nos encontramos depois de meses no Argo dois. Ela ficou surpresa na hora, mas depois aceitou bem a ideia de irmos para Nova Roma, um lugar onde teríamos uma chance de ter uma vida normal, sem a interferência maldosa dos deuses e macacos azuis de Hermes roubando nossas coisas. Lá poderíamos fazer faculdade, passear de mãos dadas nas ruas sem nos preocupar com caduceus ou raios perdidos, profecias e monstros. Poderíamos trabalhar no que gostávamos e juntar uma grana para comprar uma casa, onde nossos filhos cresceriam. Sem esquecer dos cachorros.
Aquele sim era um plano perfeito, um plano que eu apostaria todas as minhas fichas.
Uma das coisas que Annabeth mais gostava da ideia, além de estar numa cidade protegida, projetada por semideuses para semideuses, eram as esculturas e estátuas espalhadas por Nova Roma, além dos jardins coloridos e das flores.
Mas uma das coisas que também á atraía era a proximidade com a casa de seu pai. Como cresceu do outro lado dos Estados Unidos, longe da família e do próprio estado onde nascera, ela queria depois de adulta recompensar o tempo perdido. As praias próximas da casa dos Chase eram limpas e tranquilas, um ótimo lugar para um passeio no final de semana.
Eu não fazia ideia do que estudar na faculdade. Até pouco tempo queria montar uma escola de surf e ensinar a garotada de Nova Roma, mas Annabeth me fez desistir da ideia. Fiquei grato depois de pensar direito. Nova Roma não tinha mar, e todos os campistas do Acampamento Júpiter não gostavam do mar, só sabiam nadar por causa do rio que cortava o acampamento e porque fazia parte do treinamento. Então uma escola de surf numa cidade sem mar não daria certo, só se eu fizesse ondas no rio, mas isso não seria uma boa ideia.
Conversamos sobre o assunto certa vez, Annabeth me ajudou a escolher o que queria fazer. Aproveitar do meu dom de falar com animais marinhos seria útil se eu quisesse ser veterinário de algum aquário, mas duvidávamos que Nova Roma teria coisa do tipo.
Depois de conversarmos com alguns campistas romanos, descobrimos que na cidade havia uma empresa que investia em projetos ambientas, como limpeza de rios e mares, inclusive de proteção á toda biologia marinha. Eles contratavam qualquer biólogo, já que não se formavam muitos nessa área por lá. Foi assim que decidi ser biólogo marinho.
Annabeth ainda nutria sua ideia de ser arquiteta. E eu achava isso ótimo. Desde pequena ela se interessava por construções históricas, rústicas e modernas. Minha mãe lhe deu como presente de natal, um livro de um tal de Oscar Niemeyer, pelo o que sei, esse cara era um famoso arquiteto brasileiro, que construiu diversas esculturas por todo o país, uma mais bela e contemporânea que a outra. Esse foi um dos livros que eu já vira Annabeth ler sobre o assunto. Ela era viciada em estudar, mas depois que começamos a namorar eu meio que a desvirtuei. Ela passa mais tempo em casa sentada ao meu lado comendo porcarias e assistindo filmes do que com um livro na mão. E é bem pior quando saímos, o que acontece com frequência.
Ensinei Annabeth sobre as maravilhas de se morar em um apartamento. Entre essas maravilhas se incluía apertar a campainha e sair correndo, brincar no parquinho mesmo com a placa de “Crianças até doze anos” sobre sua cabeça, colocar musica alta e apostar corrida com um de nós na escada de incêndio e o outro no elevador, para sabermos quem chega mais rápido.
Ela se negava na maioria das brincadeiras, mas quando me via fazer da primeira vez, se juntava a mim e caia na gargalhada. Depois ela me acusava de ser uma péssima influencia.
A moradora do apartamento ao lado, a senhora Twen, uma senhora de setenta anos que reclamava de qualquer barulho fora do normal, como batedeiras, liquidificadores e aspiradores de pó. Mostrei á Annabeth como irrita-la e ainda fingir que não tínhamos nada haver com isso. Pagava um rádio e colocava o som no último, em frente á porta da senhora Twen. Quando as chaves faziam barulho na fechadura, desligava o radio e nos escondíamos. Assistíamos a confusão da senhora e riamos em silencio. Depois que ela entrava e passava as chaves de novo, o som continuava.
Annabeth aprendeu á ser má em pouco tempo. Eu era uma péssima influencia, ela repetia.
E eu realmente era. Uma vez, quando nós tínhamos acabado de comemorar nosso aniversário de um ano e seis meses, eu a levei para jantar no Bobs. Desafiei que ela chegasse para a moça do balcão e pedisse um Big Mac. A moça fez cara feia e disse que se ela continuasse a fazer gracinhas teria que se retirar, pois eles tinham mais pessoas para atender. Foi ai que eu entrei. Pedi desculpas para a moça do caixa e expliquei que minha namorada sofria de sérios problemas mentais, e que mesmo assim faríamos o pedido. Pedi um McChicken.
A mulher chamou o gerente, e nós saímos correndo antes dele chegar.
Mais tare fomos jantar no McDonalds.
Eu tinha amadurecido muito desde que nos conhecemos, mas mesmo depois de grande eu continuava a fazer piadas. Esse era um dos meus trijeitos. Mas isso mudou quando Annabeth pulou no meu pescoço á algum tempo atrás. Ela rodou meu rosto para todos os lados, olhando minhas maçãs do rosto, bochechas e queixo, até o pé do meu cabelo.Perguntei o que tinha de errado, ela tinha um enorme sorriso no rosto, então disse as palavras que eu queria adiar o dia que eu tivesse que ouvir. Eu estava começando a ter barba. Foi Annabeth quem me deu a noticia que eu teria que acordar meia hora mais cedo para fazê-la.
Aquele foi assunto por toda a semana. Minha mãe dizia que agora minhas brincadeiras teriam que ser deixadas de lado, porque agora eu era um homem barbado. Já podia começar a arrumar a casa, porque já era homem barbado. O fato da minha barba começar a apontar servia de motivo para tudo.
Mas o que mais me incomodava não era o fato deu ter que acordar mais cedo para fazê-la. Era saber que meu pai tinha barba até na testa, e eu tinha medo de ter tanta barba quanto ele. Eu seria um escravo da gilete, e nunca mais poderia acordar sem ter meu rosto pinicando, ou escutar as reclamações de Annabeth sobre minha barba estar a machucando.
Mesmo assim, quando me olhava no espelho, não via o mesmo Percy Jackson de antes. Depois que ela finalmente cresceu de verdade e já podia ser notada de longe, eu me parecia com Taylor Lautner quando deixava a barba crescer. Ou talvez não. Mas eu estava diferente. Mais velho, mais homem.
Minhas paixões além de tocar a campainha e sair correndo, arranhar Annabeth com minha nova preocupação- Minha barba- e comer bobeira, era sem duvidas o skate.
Saiamos nos fins de semana para dar uma volta na praça perto de casa. Annabeth levava um livro e se sentava num banco, enquanto eu me arrebentava em cima de uma prancha de madeira com rodinhas. As vezes ela tentava ficar parada sobre o Skate, mas nunca tentou dar mais do que duas voltas. Ela tinha equilíbrio, daria uma ótima skatista, mas nunca insisti para que ela fosse mais longe e passasse a frequentar as pistas comigo. Os caras já olhavam para ela mesmo metida num livro, seria dez vezes pior se ela tentasse se enturmar.
Eu não era nenhum Tony Hawk, mas não era de se jogar fora.
Comecei a andar de Skate aos dez anos de idade, depois disso nunca parei. Mesmo frequentando o acampamento e tendo que sair naquele monte de missões e profecias, quando tinha um momento de folga, pegava meu skate e treinava no estacionamento de casa. Aprendi todo tipo de manobra, das mais fáceis ás mais difíceis.
Mas o que eu era bom nesse esporte tinha de ruim em musica.
Certo dia, durante uma das nossas visitas á São Francisco, o pai de Annabeth tentara sem sucesso me ensinar a tocar violão. Aprendi alguns acordes, mas a única coisa que sei tocar é Parabéns á Você.
O resto das aulas eram dadas pelos irmãos menores de Annabeth. Dois gêmeos que adoravam fazer piadas sobre o outro irmão, além de tirar sarro da irmã mais velha. Eles eram muito legais, nos dávamos muito bem, mas eu tinha um pouco de receio em ser o motivo da piada, o que acontecia muito pouco, mas acontecia.
Minha relação com a madrasta de Annabeth, Jenny Chase, era consideravelmente melhor do que a relação dela com a enteada. As duas mesmo depois de terem superado á época em que Annie fugiu de casa, continuavam a se tratar forçadamente, se esforçando para não se contrariarem, tentando ser agradável. O que não acontecia comigo. Pude notar que a forma que Jenny me tratava era mais espontânea, como se realmente gostasse de mim.
Isso me deixava feliz, mas mesmo que as duas agissem com certa insegurança, era bom saber que estavam se esforçando.
Uma das relações que também me agradavam era a de enteado e padrasto que eu tinha em casa. Paul praticamente me adotara. Além de ser meu professor, era também meu segundo pai. Ele era claramente apaixonado pela minha mãe, e isso não me incomodava. Saber que Sally tinha superado Gabe e agora estava vivendo um casamento de verdade me deixava aliviado. Tinha medo que por minha causa ela não pudesse ser feliz. Paul era uma pessoa legal, fazia de tudo para nos agradar, e às vezes eu até me esquecia que não era filho dele.
Um dos dias que eu nunca me esqueceria foi o dia em que minha mãe e Paul conheceram a família de Annabeth. Frederick insistiu para que eles viessem conhecer a Califórnia, e nas férias de verão fomos todos para lá.
Fiquei meio envergonhado quando nos encontramos, mas o acanhamento passou quando Frederick quis jogar Poker. Eu nunca tinha visto o pai de Annabeth bêbado. Ele era tão engraçado fora de si que acabei bebendo também. Foi meu primeiro porre. Na casa do pai da minha namorada, ao lado da minha mãe e do resto da família.
Depois que fiquei bom de novo fiquei envergonhado por ter bebido e feito sabe-se deuses o quê. Mas ai os garotos, Bob e Matthew, contaram que a única coisa que eu fizera era rir loucamente das bobagens que o pai deles dizia e fazia. Eles disseram que nós nos olhávamos e riamos, mesmo sem ter dito nada.
Naquela noite saímos para jogar bilhar. Então tive meu segundo e último porre.
Era impressionante a maneira como nós nos entendíamos. Não era apenas a mim e o pai de Annabeth. Ela e minha mãe também pareciam se conhecer de outras vidas. Eram inseparáveis. E isso era um dos fatores que me davam esperança de que tudo daria certo. Se dependesse de nossas famílias nós ficaríamos juntos para sempre. E era exatamente isso o que eu queria. Pegar as crianças e fazer um piquenique na praia perto da casa do vovô Chase, encher o porta malas das três irmãs e irmos até Nova Iorque de Taxi mágico, e comer o melhor bolo de chocolate do mundo, feito pela vovó Jackson.
E seria assim, por mim e por Annabeth, nossas famílias seriam uma só. Planejávamos juntas os Jackson e os Chase em breve.
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