Percy Jackson e a Trilogia Da Pedra
80 30 - Um Alento
Notas iniciais
30 — Um Alento
Percy depositou o corpo da filha de Atena no gelado chão de mármore branco. As engrenagens do “elevador” Olimpiano eram o único som desde a descida ao coração da montanha tessaliana.
A segunda viagem ao abismo para ver Orion havia sido proveitosa por final. Percy esboçou um agradecimento em grego ao gigante, ainda que desconfiasse dele.
Thalia se mexeu ao lado de Percy. Ela se sentou e aninhou Annabeth em seu colo. A pele da garota estava branca como o mármore, seu peito mal subia e descia. A respiração estava entrecortada.
—Não tenho ambrósia, perdi minha mochila lá em cima — a voz de Thalia estava embargada.
Percy não disse nada. Quisera ele ter algum néctar ou comida divina para ajudar Annabeth. Ele praguejou e se levantou chutando um pedaço do mármore quebrado nas explosões.
Perseu e os outros dois semideuses discutiam algo aos pés da estátua de Zeus, ou o que havia sobrado dela. Apenas a imagem dos pés do rei dos Olimpianos e o pedestal permaneciam em seus devidos lugares.
Percy conseguiu ver parte do raio de Zeus quebrado enquanto caminhou na direção da reunião.
—Tártaro pode nos seguir? — ele puxou o ombro de Nico e esbarrou no garoto.
Nico murmurou algo e se foi andando para longe. Beckendorf se virou e postou-se com as mãos atrás da cintura em postura de guarda.
—Escolhido — o sarcasmo na voz de Perseu foi nítido.
Percy não respondeu. Ele olhou para seu mestre como se suplicasse por respostas.
—Não, Tártaro não pode nos seguir — ele disse cauteloso — Porém o lugar para onde estamos indo tampouco é melhor que ser perseguido pelo senhor dos abismos.
—O que tem no fim do túnel? — Percy falou enquanto andava em direção à beirada do elevador, rachaduras estalavam por todo o mármore.
—Algo que me deu poder, alguém — ele se aproximou de Percy e seguiu o olhar do garoto — Ainda estamos longe, descanse meu jovem.
Os dois andaram na direção de Thalia e Annabeth, o brilho das espadas de bronze celestial eram a única luz na escuridão.
Perseu retirou uma tocha da mochila, com um toque do indicador ela se inflou de labaredas brancas.
Os outros semideuses se aproximaram e fizeram um círculo, Perseu se sentou.
Eles se sentaram em um círculo, Perseu se afastou um pouco, como se guardasse lugar para alguém.
—Annabeth, ela... — a voz de Thalia falhava entre suspiros — Ela não tem muito tempo.
Percy engoliu em seco, a voz de Pandora martelava em sua mente.
—Ela não vai morrer — ele rosnou.
—Eu enganei a morte por muito tempo — Perseu olhava na direção da destruída estátua de Zeus. Ele sorriu de canto quando desviou o olhar para a chama da tocha.
Beckendorf sustentou o sorriso.
—Caos me ressuscitou, eu e Luke — ele pareceu triste — Deixei Silena nas Ilhas dos Abençoados por outra estúpida profecia.
—Outra profecia estúpida — Perseu repetiu a frase e eles trocaram um olhar significativo — A mesma que designaram a mim.
“Nós nunca temos escolha, é sempre o mesmo. Monstros, profecias, estupidez dos deuses. E sempre limpamos a bagunça, foi assim que eles me baniram, me chamaram de traidor, e eu lutei por eles, aprisionei Tártaro por eles. Os deuses me tiraram tudo, me tiraram Pandora, e eu nem pude morrer, ela não pode morrer.”
O peso na voz de Perseu deixou o ar carregado, apenas o som das chamas interrompia o silêncio.
O elevador desceu por mais alguns instantes, os semideuses dividiram um dos últimos cubos de ambrósia, Thalia despejou pouco néctar por entres os lábios imóveis de Annabeth.
Percy se levantou desconfortável e virou-se de costas.
—Você a trouxe de volta uma vez — a voz de Thalia cortou o silêncio.
Percy foi levado ao instante em que o gigante Órion havia lhe mostrado visões no braseiro acima do palácio de Nix.
A cena parecia se repetir. Annabeth deitava imóvel nos braços de Thalia.
—O sopro de vida.
O estalar das chamas incendiaram os olhos de Percy quando ele se virou.
Ele não fazia ideia de como repetir o feito, ainda mais com o peso do mundo nas costas. Talvez ele houvesse sentido o mesmo peso na visão, talvez salvar Annabeth significasse mais do que salvar o próprio Olimpo.
—Eu não sei como realizá-lo — Percy disse por fim — E mesmo que eu o realize, ela ainda estaria tomada pelo veneno.
—Mas ela ainda estaria aqui — a súplica na voz de Thalia fez o coração de Percy falhar uma batida.
Ele não respondeu, Percy se virou de costas e se sentou no pedestal em meio aos restos da estátua de Zeus. Ele sentiu movimento ao lado.
O brilho esmeralda iluminou fracamente as roupas de Percy.
—Você precisa ter esperança.
A voz de Pandora foi como música para os ouvidos de Percy. Os outros ainda não haviam percebido a presença de Pandora. Pandora estava diferente, a deusa usava um vestido de linho branco, seus pés estavam descalços no chão frio. Os cabelos brancos e a expressão da deusa demonstravam cansaço.
—Eu não tenho muito tempo restando aqui — Percy a encarou, o olhar da deusa estampava expectativa.
A deusa fechou os olhos e cerrou um dos punhos. O brilho esmeralda projetou uma pequena aura contornando o corpo dela.
—Poseidon fez bem em te dar minha espada, estenda a mão.
Percy obedeceu. Ele sentiu cheiro de brisa marinha e terra molhada.
Um pequeno hexágono azul marinho deslizou pelos dedos de Pandora e caiu na palma da mão de Percy. Ele olhou para a pequena pedra lapidada e subiu o olhar para a deusa.
—Use-a bem — ela disse — Não diga a Perseu que estive aqui, ele ficaria frustrado em saber que não disse um “olá”.
Pandora olhou para Percy sorrindo, ela o analisou como se fosse a última vez que se encontrariam.
—Vocês se parecem muito, são obstinados, determinados e leais. Quando a hora chegar, não tema pelos deuses, o tempo deles também não é longo.
O brilho esverdeado de Pandora começou a diminuir e a esvanecer, junto com a presença da deusa. Ela olhou para Annabeth uma última vez antes de desaparecer.
—Salve a garota, o papel dela é importante, diria que mais importante que o seu. Não perca a esperança Percy, a esperança em si mesmo, vocês meio-sangues são criaturas incomuns. Capazes de coisas que nem os deuses conseguem realizar.
Pandora desapareceu com um pequeno açoite que eriçou os pelos da nuca de Percy.
Ninguém havia notado sua breve presença. Percy cerrou os punhos com força. O hexágono roxo se encaixou na palma de sua mão.
Instintivamente ele sentiu o olhar de Perseu pairar sob seu ombro. O velho mestre não disse nada. Ele permaneceu sentado e calado. O hexágono azul se encaixava perfeitamente nos músculos da mão direita. Ele sentiu cheio de brisa marinha tomar conta de seu olfato.
Percy respirou fundo e engoliu em seco. Ele observou Annabeth nos braços de Thalia. A filha de Zeus aninhava a amiga como se ela fosse desfalecer a qualquer momento.
O garoto se levantou vagarosamente. Ele se pôs a caminhar na direção das semideusas. Perseu se movimentou e se virou na direção do pupilo “perdido”
Perseu se postou a frente das garotas. Nico e Beckendorf se limitaram a observar a cena.
—Não faça isso, Percy — o notável tom de súplica não fez Percy titubear.
Ele se postou em frente ao mestre.
—Eu irei salvá-la — ele se manteve firme — A deusa me orientou a fazê-lo.
—Dora.
Perseu descreveu um passo à direita, abrindo caminho para seu pupilo arriscar tudo pelo pescoço da amiga. Amiga esta ainda dominada pelo Veneno.
Ele sentiu a mão de Perseu sobre seu ombro. A mente do garoto estava a mil, ele pensou nos Olimpianos, nos Titãs e na Centelha.
Percy não se sentia mais digno de usar do poder da mãe terra. Ele havia colocado tudo a perder por mera vaidade, pelo gosto em humilhar seus inimigos. E ele não cometeria o mesmo erro novamente. O herói obstinado havia buscado o livro, descoberto o segredo do rei dos Olimpianos. Ainda assim podia sentir lá no fundo o verdadeiro poder. Sua força de vontade, sua determinação inabalável, incorruptível.
Ele avançou na direção de Thalia. A garota não fez menção de se afastar.
—Filha de Zeus, Thalia.
“Eu preciso fazer isso, as Parcas podem cortar meu fio. Mas eu manterei o fio de Annabeth intacto. O veneno pode ter tomado seu coração e sua mente, mas jamais tomará sua essência. Eu a trarei de volta, junto com todos os meio-sangues cativos pelo poder de Tártaro.”
Thalia se afastou e repousou a cabeça de Annabeth em sua mochila. O coração da garota batia fracamente, e os pulmões quase não se movimentavam.
O hexágono azul começava a formigar em sua mão direita. Percy se ajoelhou e pousou o olhar sob o rosto da filha de Atena.
Ela estava pálida. Gelada. Imóvel.
Ele não titubeou. Instintivamente Percy levou sua mão esquerda ao peito. Ele sentiu o próprio coração bater fracamente, como se imitasse a velocidade e o ritmo do coração de Annabeth.
O hexágono estava fumegando. Fumaça branca desprendia de sua mão direita. Ele cerrou o punho com força. Se deixou guiar-se pelo poder que possuía em seus amigos. Em sua família. Pela confiança que tinha em Luke. Em Beckendorf. Em Perseu. Em si mesmo.
Confiança.
O sentimento de vaidade havia sido tomado pelo de vergonha. Percy jamais colocaria a vida de qualquer semideus em risco por gosto ao poder que sequer era seu. Ele era um receptáculo do espírito da mãe terra. Antes dele Perseu havia cometido muitos erros, e como todo mestre não queria ver o pupilo se destruir.
Ele sentiu água morna tomar sua mão. A fumaça fumegante estava aumentando e inebriando as narinas de Percy com o cheio do mar. Ele sentiu saudades do mar.
Uma pequena aura azul-esverdeada
começou a se formar em volta de sua mão direita. Ele não sentiu o hexágono. Sua mão estava encharcada. Ele dirigiu os olhos ao rosto de Annabeth.
A aura azul estava se alastrando para seu pulso, para o antebraço. Com pouco tempo tomou todo o braço direito. Ele sentiu o coração de Annabeth pulsar, como se clamasse por ajuda.
A garota descreveu um suspiro fraco. Annabeth permanecia imóvel no chão de mármore gelado. Thalia observava tudo como se já tivesse presenciado uma cena parecida.
Os outros semideuses se aproximaram e fizeram um círculo contornando os filhos de Poseidon e Atena.
A aura azul tomou conta de toda a silhueta de Percy. No fundo de suas veias ele sentiu-se leve, como se o espírito de Gaia estivesse ali, reconectando o coração do garoto com o imensurável poder da Centelha.
Ele levou a mão direita ao peito de Annabeth. Ele repousou seus dedos na parte esquerda do tórax da filha de Atena. Percy fechou os olhos.
O garoto pensou em tudo que havia visto da cidadela. Annabeth liderando os meio-sangues. Liderando sua própria mãe, Atena. Ela era uma líder nata, motivava, lutava, caía e se levantava. Ela jamais desistia. Era obstinada como Percy, líder como Atena, forte como Héracles, esperançosa como Pandora é determinada como o senhor dos Céus.
A líder do acampamento meio-sangue não morreria nas mãos de Percy.
Percy manteve-se firme. Os dedos dele se fixaram no tórax da garota.
O coração dela batia fracamente, Percy encarou seu rosto pálido. Ela estava totalmente imóvel, como se sua alma tivesse abandonado o corpo no mundo.
A aura azul começou a envolver Annabeth a partir do peito. O cheiro de brisa marinha fez a respiração dela falhar um pouco, como se as narinas estivessem se inebriando e bagunçando suas memórias.
O brilho iluminou a escuridão enquanto o elevador descia vagarosamente rumo ao coração da montanha tessaliana. Percy pensou em Luke, em Beckendorf. Sua mente viajou até a cidadela de Caos, o espelho de bronze que ilustrava o acampamento dos semideuses em NY. Eles estavam distantes, sem fé. Perdidos.
Percy sentiu o corpo esquentar e formigar. Suas mãos estavam cobertas de água salgada, o mar parecia responder ao chamado do filho de Poseidon.
Ele sentiu o corpo de Annabeth estremecer. A aura azul envolvia os dois, como um só ser.
O filho de Poseidon cerrou e fechou os olhos. Ele se concentrou na liderança de Annabeth. Em sua capacidade de mediar os deuses e semideuses. Nas suas habilidades de batalha, mesmo que ela sempre tentasse matá-lo quando o via.
O brilho da aura projetou sombras luminosas nos semideuses restantes. Eles descreveram um círculo contornando Percy e Annabeth. Thalia prendia a respiração. Nico e Beckendorf mantinham os olhos fechados, as bocas se mexiam em sinal de prece.
Perseu estava quieto. Os braços estavam cruzados atrás da cintura. Ele observava a cena como se já tivesse a presenciado anteriormente.
Percy não se moveu. A mão continuava firme no tórax de Annabeth. Ele se concentrou nas memórias que não tinha. Uma brisa leve cortou os pelos de sua nuca, provocando ondas de eletricidade que desciam até a base da coluna.
—Eu vou salvá-la – ele soou firme, ninguém respondeu — Eu irei cumprir meu destino.
Ele apertou firmemente o tórax da filha de Atena. O coração dela começou a acelerar. Seu corpo estava esquentando e desprendendo fumaça.
Percy sentiu gosto de pasta de dente e maçã na boca. Nostalgia. Saudade. Lembranças.
Ele continuou com firmeza na mão.
De repente ele se viu embaixo d’água. Submerso em uma bolha de ar. Annabeth estava junto, dentro do bolsão de ar. Ela se aproximava e o beijava.
Ele se viu no alto da Colina Meio-Sangue. O dragão Peleu guardando a pele do Velo de Ouro, ele bufava fumaça aos céus.
Percy se aproximou dos galhos da árvore e prendeu um pequeno anel prateado em um deles.
Os rostos estavam retornando. Quíron. Grover. Rachel. Miranda. Sally. Poseidon. Perseu Jackson.
O filho do Deus do mar.
As lembranças começaram a surgir como um turbilhão. Ele não desgrudou a mão de Annabeth. A garota estava suando frio, ela estava trêmula. Seu corpo estava esquentando rapidamente.
De repente ele sentiu movimento. A mão da garota estava estendida, o braço levantado em noventa graus.
Instintivamente ele levou sua mão direita ao encontro da mão de Annabeth.
Quando as mãos se encontraram sua visão turvou e ele perdeu a visão.
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