Notas iniciais
Estou tentando voltar então espero que gostem

Ao chegar ao acampamento, penso que não poderia ficar pior, mas vejo uma cena que nunca imaginaria na vida: a garota que o guardião salvou está agarrada a ele, enquanto gritava e xingava as caçadoras, incluindo a minha tenente Thalia. O Guardião estava tentando acalmar todas, e não parecia incomodado com a garota se segurando a ele, mesmo tentando retirá-la para evitar confusão, mas sem nenhum sucesso. Quanto mais ele tentava se soltar dela, mais ela se prendia a ele, piorando a situação junto das minhas caçadoras. Chego mais perto e digo a ele:

— Se por acaso não tivesse tentado seduzi-la, nem tivesse se agarrado a ela, nada disso teria acontecido. — Sei que estou dizendo mentiras, e, por algum motivo, isso me dói no peito. Mas não sei por qual motivo algo me fez dizer isso, depois de vê-lo agarrado com ela, o que é meio ilógico, já que os dois afirmavam ser irmãos.

Com isso, a menina se desprende dele imediatamente e vem em minha direção como se fosse um estouro de cavalos bravios, o que me deixa surpresa, e já ia me defender, quando o Guardião se adianta, prendendo-a por trás e apertando-a contra o seu peito, impedindo que ela avançasse. Depois, disse, tanto para mim quanto para ela:

— Parem com isso! — E falou ao ouvido da garota: — Não se preocupe, eu sei o que elas dizem, isso não me afeta, e, mesmo que afetasse, não faria diferença, pois o mais importante agora para mim é te proteger.

E, para reforçar essa afirmação, ele evocou a sua aura, uma aura que se iguala à dos Três Grandes, podendo até mesmo ultrapassá-los. Isso fez com que eu recuasse, temendo a morte, o que para mim era inimaginável, pois eu era uma deusa, uma das mais poderosas do Olimpo. Além disso, segundo o que ele mesmo afirmava, era humano, mas aquela aura nunca seria a aura de um humano. Somente naquela pequena demonstração de poder, eu sabia que ele poderia muito bem me matar, e não somente a mim. Se aquela pequena parcela já era maior do que a dos Três Grandes juntos, então certamente ele poderia, se quisesse, matá-los, e, nesse momento, entendi o porquê de o meu tio Hades não querer esperar uma reunião do conselho para poder apresentá-lo aos outros deuses. Assim que vissem o seu poder, certamente meu pai tentaria matá-lo na hora. Mas, mesmo que isso fizesse sentido, não explicava de quem ele poderia ser filho, e, pelo seu poder, a única explicação era que fosse filho de um titã — e não de um titã qualquer, mas sim do próprio rei titã, Cronos, o que faria ainda menos sentido, já que Cronos não tinha nenhum filho semititã. Então, quem realmente era o seu pai, ou mãe, divino?

A garota se virou para ele e disse:

— Mesmo que não te afete, essas são mentiras descaradas, que elas estão falando. Não posso permitir que essas palavras fiquem impunes, e, se depender de mim, todas elas morrem hoje. — Depois de dizer isso, virou-se com os olhos cheios de intenção de matar. — Você não pode matá-las — ele respondeu — mesmo que seja do seu agrado, elas ainda são importantes. — Para mim, elas não são nada — ela respondeu, virando-se para ele. — Eu sei disso — ele respondeu, tranquilamente, enquanto olhava profundamente em seus olhos — mesmo assim, você não pode matá-las. Só confie em mim e deixe isso de lado. — Só deixarei porque é você que está pedindo — ela respondeu, encolhendo-se e agarrando-se ao seu peito. — Afinal, eu sempre vou confiar em você, meu irmão.

Olhando aquela cena, eu não podia deixar de ficar perplexa. Aquela garota era, no mínimo, bipolar, para não dizer louca. Em um momento, estava morrendo de medo por causa dos monstros; no outro, estava mais nervosa do que o mar no seu dia mais bravio; e, logo em seguida, estava serena, tranquila e amorosa, quanto o dia mais calmo no mar. Se havia alguma dúvida de que ela era filha de Poseidon, essa dúvida se desfez na hora, pois ver o humor daquela menina era a mesma coisa que ver o mar em pessoa. Além disso, tanto eu quanto minhas caçadoras ficamos desconfortáveis com aquela situação, pois os dois pareciam mais namorados do que irmãos, e, se ela era filha de Poseidon, isso queria dizer que ele também era? Mas, pela idade, ele só poderia ser o Perseus. Mas como? Ele estava preso no Tártaro! Seria possível que tivesse escapado e estivesse à nossa frente? Não, por mais que eu quisesse acreditar, isso seria impossível; do jeito que ele fora preso, só algum poder acima dos titãs poderia libertá-lo, e os únicos seres com esse tipo de poder não estavam olhando para o mundo hoje, e os que estavam eram inimigos de Perseus. Pensar que ele tinha fugido seria impossível, então quem seria aquele Guardião?

Não aguentando mais a cena diante de mim, pelo desconforto e por algo a mais que não conseguia definir, digo na mesma hora:

— Já chega disso! Já cumprimos a missão que nos foi dada, vamos voltar imediatamente para a floresta e armar acampamento, sem contar que possivelmente teremos que retornar ao Acampamento Meio-Sangue, para deixar a garota lá. — Se me permite, Lady Ártemis — fui interrompida pelo Guardião — não acho que seja uma boa ideia deixá-la no acampamento, pois, além de eu não confiar em ninguém de lá, tenho certeza de que, quando o primeiro idiota mexer com ela, vai acabar morto, além de que ela mesma acabaria destruindo o acampamento, por ainda não conhecer a sua força. Pelo menos aqui, na caçada, eu vou conseguir evitar que ela mate alguém. — Ei — a garota protestou na hora — quem disse que você pode me controlar? Eu sou como os oceanos: ninguém me controla. Além do mais, eu não quero ficar com elas, umas idiotas que não sabem reconhecer quando uma pessoa é boa e só quer ajudar. — Eu nunca disse que te controlaria — respondeu o Guardião — eu disse que evitaria que você matasse alguém, e ainda posso te ajudar a controlar o seu poder, já que faz pouco tempo que aprendi a controlar o meu, sem contar que eu não poderei ficar no acampamento, pois tenho que protegê-las. — Sério que você não pode ficar lá comigo? — a garota perguntou, quase chorando. — Infelizmente, sim — respondeu o Guardião — e, se eu pudesse escolher, preferiria nem ir para lá — finalizou ele, sombrio, o que deixou as caçadoras e a mim intrigadas, pois, que nos soubéssemos, ele nunca tinha ido para lá, mas, por algum motivo, estava com ódio mortal do lugar. — Então, nesse caso, ficarei aqui — respondeu a garota — mas não seguirei ela — afirmou, apontando para mim. — Só ficarei para poder estar perto de você, irmão.

É sério, eu já não estava aguentando aqueles dois, aquela melação toda já estava me dando nos nervos, e, além do mais, aquela sensação estranha no meu peito me incomodava, então resolvi acabar com tudo aquilo:

— Já chega, vamos voltar para o acampamento, caçadoras. — E concluo, dizendo: — Façam como quiserem, contanto que não atrapalhem o acampamento, eu não me importo.

Depois disso, saio sob os olhares incrédulos deles, pois já não aguentava mais ficar ali; por algum motivo, meu peito doía ao ver a interação do Guardião com aquela garota. Apressei-me em sair dali e segui direto para o acampamento, sem olhar para trás. Percebi que as caçadoras me seguiam, mesmo sem saber exatamente o que tinha acontecido ali, e, atrás delas, mesmo que relutantes, a garota e o Guardião.

Pov. Percy

Eu não estava conseguindo entender mais nada sobre o destino, nem sobre aquele dia. Do nada, recebemos uma missão para acabar com um grupo de monstros e salvar uma meio-sangue, para depois perceber que era uma garota que estava prestes a ser morta pelo chifrudo do Minotauro, e, quando parei o golpe e olhei para a garota, vi que era uma filha de Poseidon, minha irmã, mesmo que eu não goste de lembrar que ele é meu pai verdadeiro. Por incrível que pareça, pensei na maior ironia da história, afinal, que eu saiba, esse era, no mínimo, o terceiro filho de Poseidon atacado por ele. E, sinceramente, já estava me arrependendo de tê-la salvado, já que o último que salvei desse chifrudo me apunhalou pelas costas. Só que, ao olhar no fundo dos olhos dela, percebi tudo o que ela já tinha passado, o que já havia sofrido, o que já havia vivido, e, mesmo que tenha sido pouco, era a mesma coisa que eu tinha vivido.

Eu não podia deixá-la morrer ali, afinal, o meu defeito mortal ainda é a lealdade, e eu sabia que ela não me trairia. Então, simplesmente, acabei com todos os monstros, e, no final, acabei também com os idiotas que queriam fazer mal a ela. Depois disso, voltei para onde as caçadoras estavam, levando a minha irmã comigo, e acabou acontecendo a maior confusão. Elas me acusaram de aliciar a minha própria irmã, chamando-me de porco, entre outras coisas. Nisso, minha irmã ficou furiosa, fazendo com que o chão começasse a tremer, e partiu para cima das caçadoras. Minha prima Thalia se colocou na frente para lutar contra ela, e, no final, fui obrigado a intervir, puxando-a contra o meu peito e evitando uma briga desnecessária entre elas, e ameaçando todas as caçadoras, inclusive a própria deusa da caça, para evitar maiores confusões. Não importa quem tente mexer com ela; se a minha missão é protegê-las, ninguém mexe com a minha irmã.

(Depois disso, Ártemis resolveu dar um chilique — não sei mais como chamar aquilo — e decidiu sair dali, deixando todo mundo sem saber o que fazer, a não ser ir atrás dela. Sério mesmo, por que ela deu chilique? Será que estava de TPM? Quando eu estava no mundo humano, com meus amigos, e, do nada, a Larissa tinha TPM, era um deus nos acuda, e eu preferiria enfrentar um monstro a encará-la. Imagina ter que encarar uma deusa com TPM? Mas espera, deusas têm TPM? Sinceramente, não quero descobrir.)

Vou seguindo a deusa da caça e as suas caçadoras, de volta para o acampamento caçador, para poder arranjar uma barraca para a minha irmã, além de cuidar de seus ferimentos. Ártemis continua de cara fechada, e as caçadoras seguem sem nenhum comentário. Ao chegarmos a determinado ponto na floresta, montamos um acampamento para passar a noite. Cada caçadora cuidou de montar a sua, e Ártemis tratou de ficar longe de mim. Afastei-me um pouco mais, ficando praticamente na borda do acampamento caçador, e comecei a montar a minha própria barraca, só que estava fazendo isso para que a minha irmã pudesse ficar lá; eu iria dormir ao relento mesmo, afinal, estava uma noite linda para isso. Mas, antes que eu terminasse de arrumar a minha barraca, ouço Febe, uma das caçadoras de Ártemis, dizer:

— O que você pensa que está fazendo? Você não vai montar a sua barraca aqui, seu... — Se você não percebeu, a minha irmã não tem barraca — interrompo-a, antes mesmo que a minha irmã comece a briga novamente. — E, como tenho certeza de que ela não vai querer usar uma de vocês, e nem que vocês devem estar dispostas a ceder uma para ela, eu vou montar a minha própria para ela, enquanto eu vou dormir ao relento. — Ah, mas não vai, não — respondeu a minha irmã, antes que qualquer um falasse alguma coisa — você vai dormir aqui comigo, e não ao relento, afinal, esta é a sua barraca, e eu quero ficar perto de você. — Não vai, mesmo — já respondeu Febe — afinal, quem disse que vocês realmente vão dormir à noite?

Tive que, na mesma hora, segurar a minha irmã, que foi imediatamente bater em Febe, e a mesma foi segurada por Thalia, o que agradeci mentalmente. Nesse exato momento, Ártemis chega e questiona o que está acontecendo, e, depois de muita gritaria e várias pessoas falando ao mesmo tempo, ela perde a paciência, manda todas se calarem, deixando todas as garotas perplexas novamente e fazendo com que ninguém proteste por nada, e se vira para mim, que estava quieto até então, e pergunta:

— O que aconteceu aqui exatamente? — Eu estava montando a minha barraca aqui no limite do acampamento, para que a minha irmã pudesse dormir sem incomodar ninguém, enquanto eu iria dormir ao relento, a uma distância de cinquenta metros do acampamento, como sempre. Mas uma das suas caçadoras, se não me engano a Febe, começou a dizer que eu não a montaria, pois não iria dormir aqui, e, depois que expliquei o motivo de estar montando, a minha irmã resolveu dizer que eu dormiria aqui sim, para ficar perto dela, por ser a minha barraca. Febe afirmou que eu não dormiria, pois quem poderia assegurar que nós dormiríamos e não ficaríamos acordados. A minha irmã avançou contra ela por não ter gostado da insinuação que fizera, e eu tive que segurá-la, assim como a sua tenente teve que segurar Febe, e, no final, chegamos ao estado em que vossa senhoria nos viu no momento em que chegou. — Entendido — respondeu Ártemis. — Monte a sua barraca ao lado da minha, no meio do acampamento, enquanto as caçadoras montarão as suas em volta, formando um círculo. Você e a sua irmã podem dormir nela, mas a entrada da tenda tem que ficar em frente à minha, e tem que ficar aberta, para que eu possa ver o que quer que aconteça lá dentro. Ficarei vigiando a noite toda, e não quero reclamação de ninguém — terminou ela, dizendo isso e indo para a sua barraca, deixando bem claro que o assunto estava encerrado, e sem abertura para discussão, fazendo com que todos ficassem perplexos, inclusive eu mesmo. Sinceramente, que droga está acontecendo hoje? Nem vou perguntar se o dia pode piorar, porque, com a minha sorte, com certeza vai. Então, a única coisa que posso fazer, depois disso, é obedecer à ordem de Ártemis, desmontar a barraca que eu já estava quase terminando de montar, e ir até o centro do acampamento, sob os olhares de protesto das caçadoras, que não puderam dizer nada, e montar a barraca para que a minha irmã pudesse dormir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.