Percy Jackson Na Arena
57 Ilusão
Notas iniciais
POV Annabeth
Dor.
É a única coisa que sinto. A única coisa que consigo identificar na confusão em que minha mente se encontra.
E um par de olhos verdes.
Sei que estou deitada, mas não faço ideia de onde. Desde que recobrei a consciência meu olhos ainda não abriram. Eu tentei, mas era como se minhas pálpebras tivessem sido coladas com Super Bonder. Tudo o que eu vejo são imagens, cenas. Pessoas me dizendo que me odiavam. Conversas em que eu e minha estupidez somos os assuntos principais. Eu sei que conheço essas pessoas. Forço minha mente a pensar. Tento me concentrar, mas os gritos em minha mente se tornam mais altos, tornando ainda mais difícil a minha falha tentativa de controlar minhas próprias lembranças e pensamentos. Mas eu não desisto.
Aos poucos, consigo discernir os rostos das pessoas que dizem que me odeiam e logo lembro seus nomes.
Kate.
“Você se acha demais, mas não é nada, Annabeth.”
Will.
“Você nunca será uma líder de verdade.”
Os gêmeos Stoll.
“Você é chata.” “Arrogante.” “Ignorante.”
Katniss.
“Você não merece o Percy.”
Chris.
“Quem você pensa que é? Todo mundo te odeia, Annabeth.”
Lou.
“Tem medo de aranhas? Que ridícula.”
Jake.
“Qualquer um é mais inteligente que você.”
Clarisse.
“Você é só uma garotinha idiota e imprestável que não sabe fazer nada.”
Nico.
“Nem o submundo te quer, Annabeth, e esse é o único motivo do porque você ainda não está morta”
Thalia.
“Você só atrapalha minha vida.”
E Percy. O meu Percy.
“Eu te odeio.”
As palavras machucam, mas de algum modo me parecem falsas. Erradas. Como se nunca tivessem sido pronunciadas. Minha cabeça lateja quando começo a me obrigar a relembrar a verdade. Os gritos se tornam ainda mais ensurdecedores, mas ao invés de piorarem minha situação, me dá ainda mais vontade de lutar contra isso.
“Eu te odeio.”
É a voz dele saindo da boca dele, mas eu sei que não é ele. Os seus olhos dizem outra coisa.
“Eu te amo.”
E, dessa vez, as palavras me convencem. Quando ele volta a dizer que me odeia, eu não acredito. As palavras não fazem nada comigo. A única coisa que eu presto atenção são os olhos. Verdes. Azuis. Castanhos. Pretos. Eles desmentem o que suas bocas pronunciam. De repente, uma voz que nunca ouvi na vida entra na minha mente. Ela é real e está próxima de mim.
— Estamos perdendo o controle!
Tento mais uma vez abrir os olhos e dessa vez tenho sucesso. Assim que me acostumo com a claridade do espaço, o observo com minha visão periférica. Estou em uma espécie de quarto de hospital. Uma mulher que parece médica está a minha direito, olhando para uma tela onde imagens da minha vida aparecem, mas logo somem.
— Perdemos o controle! — A mulher diz numa espécie de Walkie Talkie, a voz parecendo desesperada. Ouço passos no corredor e fecho os olhos quando a porta é aberta. Um cheiro nauseante de rosas misturado com mais alguma coisa invade o local e eu tenho que me esforçar para não vomitar.
— O que está acontecendo? — É a voz do Presidente.
— Perdemos o controle. — A mulher diz alarmada. — Ela não está reagindo como o previsto. Toda vez que tentamos distorcer alguma lembrança, ela impõe outra ainda mais forte.
— Isso não é possível! Continue tentando. Ela é apenas uma garota.
— Uma garota muito forte, por sinal. Isso não vai mais funcionar.
— Então tente outra coisa. Ela precisa saber a verdade sobre quem são seus amigos.
— Sim, senhor.
A porta é aberta novamente e o presidente sai. Infelizmente, o cheiro permanece. Ainda estou com os olhos fechados quando a mulher volta a falar.
— Preciso de dois pacificadores para levarem a garota. Agora.
Poucos minutos depois, os pacificadores entram e começam a me tirar da maca. Eu não luto contra eles, sabendo que é inútil. Eles me levam para fora e respiro fundo quando o cheiro do presidente fica para trás. Andamos por vários corredores e mudamos de direção tantas vezes que desisto de tentar lembrar o caminho. Finalmente, eles entram em uma sala. Pelos ecos dos passos dos pacificadores, percebo que a sala é grande. Eles me colocam de pé, segurando minha cintura e prendem meus braços acima da cabeça. Prendem também meus pés no chão e deixam a sala em seguida.
Abro os olhos aos poucos e percebo que estou sozinha. A sala é tão escura que não vejo nem meus pés, quanto mais onde fica a porta. Mesmo sabendo que é inútil, tento me libertar das amarras, mas elas parecem de ferro. Sou interrompida por uma claridade à minha direita. A porta foi aberta, revelando uma mulher que suponho ser a mesma da outra sala.
— Não adianta tentar. Isso só vai cansá-la mais. — Como sei que é verdade, desisto de lutar. Preciso pensar.
— O que vão fazer comigo? Eu sei que estão colocando mentiras na minha mente. — A mulher fecha a porta fazendo com que a sala mergulhe na escuridão novamente. Seus passos são abafados quando se aproxima de mim.
— Não são mentiras. Eles colocaram mentiras na sua mente, estamos tentando fazer com que você veja a verdade.
Eu rio.
— Não acredito.
— Mas vai. E é melhor que você facilite as coisas pra você. Eu não me importo nadinha de como é que mais ficar esse seu rostinho lindo. Quanto mais rápido você aceitar a verdade, menos danos causará a si mesma.
Eu abro a boca para retrucar, mas sinto uma dor excruciante no braço esquerdo e sei que ela injetou algo em mim. Não demora muito e eu volto ao meu estado de estupor. Minha cabeça volta a doer e as cenas voltam a se projetar em minha mente, parecendo ainda mais reais. Tenho que me lembrar que não são.
“Você não é nada, Annabeth.”
A voz de Thalia grita em minha mente. Eu me obrigo a retrucar:
—Isso não é real.
“E isso, é real?” Ela me pergunta dando um tapa em meu rosto. A dor é real.
— Não é você. Eu sei que não é.
Ela me bate novamente.
“Eu te odeio, Annabeth. Você é ridícula, sempre foi. Quando nós éramos crianças tudo o que eu queria era matá-la logo.”
— MENTIRA! — Grito para ela, recebendo outro tapa. Lagrimas inundam meus olhos. A imagem de Thalia desaparece e eu suspiro aliviada. Mas logo outra imagem está a minha frente. Percy. Eu levanto o braço para tocá-lo.
— Percy...
Mas ele me encara furioso e desvia meu toque.
“Não me toque” Ele diz, com nojo. As lágrimas agora embaçam meus olhos.
— Não! Percy, não! Eu te amo!
Ele me dá um tapa. Machuca não só física, mas emocionalmente também.
“Você não me ama, e eu também não. Você não é ninguém.”
— Você me ama, Percy. Eu sei que me ama e ninguém me fará esquecer disto.
Outro tapa, dessa vez ainda mais forte.
“Ninguém te ama. Você não merece o amor de ninguém.”
— Por favor, não.
Mais um tapa.
“Eu te odeio”
— Pare!
Um soco dessa vez, no meu olho esquerdo.
“Eu te odeio”
— PARE COM ISSO!
Ele bate minha cabeça contra a parede.
“EU TE ODEIO, ANNABETH.”
—Eu também te odeio, Percy Jackson.
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