Percy Jackson Na Arena
63 Bônus - O símbolo da revolução
Notas iniciais
Paula estava começando a se irritar.
Obviamente fora um golpe de sorte quando acertou o olho do ciclope com aquele arco roubado do museu, então ela não tinha do que reclamar. Mas, fala sério! O cara precisava mesmo se recompor e ressuscitar parecendo mais alto e, definitivamente, mais furioso? Não podia dar ao menos alguns segundos de vantagem?
Ela correu, o arco em mãos, o mais rápido que pode sem ousar olhar para trás. Realmente não entendia como milhares de nova-iorquinos continuavam suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Quando entrara no museu, ela havia gritado, irritada “EEi! Tem uma adolescente indefesa aqui sendo atacada por um ciclope gigante! Alguém pode lagar suas panquecas e ajudar?”. Mas ninguém ligara para o que dizia e olhavam para ela como se fosse louca, ignorando completamente um ciclope raivoso atrás dela que gritava “Morra, semideusa!”.
Ele sempre dizia essa palavra. Semideusa. E, convenhamos, se ela era mesmo uma semideusa, onde estão os poderes? Quando que começa a parte que ela pode parar de correr, fecha os olhos e lança uma bola de fogo no gigante caolho?
Semideusa... Francamente.
Paula finalmente decidiu parar, não aguentando dar mais nenhum passo. Talvez tivesse sido uma má ideia matar todas as aulas de Ed. Física. O ciclope estava a 50m de distancia, chegando cada vez mais perto em uma velocidade impressionante. Paula ergueu o arco, sem saber o que fazer. Antes dessa manhã, nunca havia atirado com um arco, mas agora ele parecia muito familiar em suas mãos, como se fosse uma parte dela.
Paula também não entendia.
Mas agora não era tempo para questionamento. Se aquelas flechas matassem o monstro, o que menos importava era isso. Ela ergueu o arco e preparou uma flecha. Analisando bem, percebeu que a ponta, como pensara anteriormente, não era de ferro, mas de um material brilhante que parecia bronze. Maravilha! Era uma ladra também, roubara um arco precioso que provavelmente pertencera a algum rei romano.
Ela atirou e a flecha passou raspando no lado esquerdo do rosto do monstro. Paula procurou mais uma flecha na aljava e, apavorada, percebeu que só tinha mais uma.
É agora ou nunca, Borges.
O ciclope agora estava a apenas dez metros de distancia. Paula, de alguma forma, sabia que nunca erraria um tiro desses. Ela fez cálculos rápidos na mente e preparou o arco em posição de 105°, mirando no olho do gigante. Sabia que era o momento, mas, quando ia soltar a flecha, algo passou zunindo ao lado de sua cabeça e ela soltou a flecha surpresa, que acabou caindo bem longe do gigante. Apesar disso, outra flecha se cravara no olho do ciclope a agora ele ruía em uma montanha de areia, gritando de dor.
Paula olhou para trás, procurando a origem do tiro e encontrou um garoto loiro — muito bonito por sinal — em cima da colina acenando alegremente. Sem saber o que fazer, ela correu até ele, morrendo de cansaço ao chegar aos seus pés.
— Calma aí, novata. Respira. — quando Paula finalmente recuperou o fôlego, o garoto bonito perguntou — Qual é seu nome?
— Paula... Borges.
— Bom Paula, você tinha um belo espécime atrás de você hein? Mas apesar de aquela ser uma flecha especial, não vai durar muito. Logo, logo ele vai voltar. É melhor corrermos.
O garoto se virou e começou a correr, sem ao menos olhar para trás para verificar se Paula o seguia. Ela correu, tentando alcançá-lo, mas o garoto era rápido. Corria em direção a um pinheiro enorme que se destacava no meio da floresta, onde um tipo de pano dourado pendia em um dos galhos. O garoto parou ali e, quando finalmente Paula parou ao seu lado, ela pode distinguir uma placa de madeira com letras douradas onde se lia: Acampamento meio-sangue.
Paula observou as letras com cuidado e, surpresa, percebeu que não estava escrito em inglês. Aquilo era grego! Então, como ela conseguira ler tão facilmente? Paula começou a se arrepender por ter acordado aquela manha, se é que tinha acordado. Aquilo parecia um sonho, ou melhor, pesadelo.
— Paula — o garoto bonito começou, dando um passo à frente e ultrapassando a placa — Bem-vinda ao acampamento meio-sangue, o único lugar seguro para pessoas como nós.
— Pessoas como nós?
— Sim. Meios-sangues. Semideuses. Consequências das paixões perigosas dos deuses. Adolescentes especiais com expectativa de vida de 20 anos. O que preferir.
— Certo. Você é bonitinho, mas maluco. Eu vou dar o fora.
O garoto riu, como se já estivesse acostumado a chamarem-no de maluco. O que só o tornava mais maluco ainda, pensou Paula.
— Eu sou Will Solace, filho de Apolo, conselheiro-chefe do chalé 7, instrutor de arco-e-flecha, galã do acampamento e estrela do time de vôlei. Não necessariamente nessa ordem.
Maluco e convencido. Paula já não o achava tão bonito assim.
Will balançou a franja e piscou um dos olhos azuis. Okay, ele era bonito. Não adiantava negar.
— Vem, tenho uma hora até meu turno do arco-e-flecha. Vou dar um tour rápido no acampamento. Esse é o pinheiro de Thalia, apesar de ela já ter ressuscitado e virado caçadora. A história é longa, talvez eu peça para alguém contar na fogueira hoje à noite. Esse é o Velocino de ouro, que, junto com o pinheiro, protege as barreiras do acampamento. Outra longa história. Essa é bem divertida. Annabeth e Per... — Will parou e, pela primeira vez, seu sorriso sumiu do rosto — Annabeth pode te contar essa depois. Ou talvez Clarisse. É bem engraçado ver os dois lados da história. Eu sempre fico imaginando o Grover de vestido de noiva e... — ele parou — Bom, vamos continuar. Está vendo aquela casa ali? É a casa grande, depois eu te levo para lá. Quíron, o instrutor, vai querer te conhecer. O diretor do acampamento, o Sr. D, não está aqui. Zeus o chamou de volta para o Olimpo. Os deuses não dão sinal de vida há três meses.
— Opa, opa. Espere ai. Velocino? O Velocino? Zeus? O carinha maluco dos raios e trovoes? E Sr. D? O diretor do acampamento é um deus?
— Por favor, não use a palavra com M para descrever o Senhor dos céus. Não queremos incidentes. Ainda mais agora que o Leo conseguiu finalmente ter algum progresso significante no Argo II. E sim, o Sr. D é o velho Dionísio. Ele perseguiu uma ninfa proibida e o seu pai Zeus o exilou aqui, para cuidar do acampamento. Agora, continuemos.
Will continuou a andar, mostrando a arena de batalha, a quadra de vôlei e, quando chegaram à parede de escalada que derramava lava, Paula começou a considerar suas opções de fuga daquele lugar.
— Os dois chalés maiores pertencem a Zeus e Hera. No de Zeus, apenas Jason dorme ali, apesar de Thalia aparecer de vez em quando. O de Hera é apenas honorário, ela não tem filhos semideuses. Deusa do casamento e da família e tals. Aquele azul é de Poseidon, há apenas um campista — Will parou de novo, pressionando os lábios — Percy Jackson. Ele está desaparecido, é o namorado de Annabeth. Por isso sugiro que não a irrite, ela está bem perigosa esses tempos.
— Vocês sabem onde ele está?
— Temos algumas ideias, todas muito perigosas. Infelizmente, só teremos as respostas quando Leo terminar o Argo II.
— Quem é esse Leo de quem você fala tanto?
— Conselheiro-chefe do chalé de Hefesto. Tem poder do fogo e é um cara bem legal. Chalé 4, Deméter. Nunca destrua alguma planta perto das irmãs Gardner. Chalé 5, Ares. Aquela lá na arena é Clarisse, outra que você não quer irritar. Mas eu acho que lá no fundo, bem no fundo no fundo mesmo, ela é legal. A única pessoa que consegue controlá-la é o Chris, o namorado dela. Bom, chalé 6, Atena. Annabeth é a conselheira. Chalé 7, o mais foda, perfeito e divoso do acampamento, Apolo. Você daria uma boa filha de Apolo. Chalé 8, Ártemis, outro chalé honorário. Ela jurou ser virgem então, sem filhos, apesar de que quando as caçadoras aparecem elas podem usar o chalé. Chalé 9, Hefesto. Você dificilmente vai encontrar alguém ali, estão todos empenhados em construir o barco. Chalé 10, Afrodite. Pode parecer meio intimidador tanto rosa e brilho, mas a conselheira, Piper, é bem legal. Chalé 11, Hermes, onde você provavelmente ficará até seu pai ou mãe te reclamar. O conselheiro é o Travis, mas tente não confundir com o irmão dele, Connor. Se você alguma vez esbarrar em um filho de Hermes, verifique imediatamente seus bolsos para ver se não foi roupado nada. Chalé 12 só tem dois campistas, Pólux, o conselheiro e um garoto novo que apareceu semana passada. Dionísio. O chalé 13 é de Hades, que também só tem um campista. Nico di Ângelo, um cara bem assustador. Ele nunca fica muito tempo no acampamento, apesar de também não aparecer desde que Percy sumiu.
Paula não sabia o que pensar. Ser reclamada? Quer dizer que seu pai era um deus? Por isso sua mãe nunca o mencionava? E quem seria seu pai? Certamente não Zeus e muito menos Poseidon. Talvez Ares? Não, definitivamente não se parecia com Clarisse. Apolo seria uma boa ideia. Ele era o deus dos arqueiros, não? Talvez Hefesto, Hermes, Hades ou, até mesmo, Hipnos.
Tem coisa melhor do que dormir?
— Will! — uma garota gritou, correndo na direção dos dois — estão te esperando na aula de arco-e-flecha. Quem é essa, é novata?
A garota examinou Paula com intimidadores olhos cinzas. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo e seu rosto estava sujo de graxa. Parecia ter dezesseis, talvez dezessete anos.
— Paula, essa é Annabeth.
— A namorada do cara sumido?
Annabeth riu.
— Os boatos correm rápido. Vem, eu te levo para Quíron. E é melhor você ir logo Will, antes que fique com a louça do jantar.
Will arregalou os olhos e correu em uma velocidade impressionante, certamente imaginando a possibilidade de ficar com a louça.
— Seu nome é Paula, certo? — Paula assentiu e começou a seguir a filha de Atena em direção à casa azul no topo da colina. Meu Deus — ou seriam deuses? — ela precisava descansar.
— Suponho que Will já tenha te informado das atividades do acampamento. Você já foi reclamada?
— Não.
— Pai ou mãe?
— Pai.
— Hum... Eu diria Apolo, se não fosse arriscar demais. E esse arco, de onde surgiu? — Paula corou, constrangida.
— Peguei no museu. Tenho que devolver. — Annabeth riu, pegando o arco nas mãos.
— Devolver? Provavelmente foi seu pai que mandou para você. Eles não estão mais falando conosco desde que Zeus fechou o Olimpo, mas ainda dão uma mãozinha de vez em quando. — ela analisou o objeto — É, certamente não é um arco qualquer. Tem entalhes em grego e em bronze celestial. Bom, é seu agora. — Ela devolveu o arco para Paula, que o pendurou em suas costas, junto com a aljava vazia. Annabeth continuava a analisá-la. — Você não tem treze anos.
— Não. Tenho quinze. Por quê?
— Você já deveria ter sido reclamada. Esse era o trato. Quanto mais velhos ficamos, mais perigoso é para nós lá fora. Talvez seu pai seja um deus menor, mas não sei. Não depois de Leo e Piper... Venha, vou levá-la a Quíron. E, antes que haja a surpresa inicial, Quíron é um centauro.
— Um... O que?
— Centauro. Da cintura para baixo é um belo corcel branco.
— Ah, claro. Por que não? — Annabeth sorriu mais uma vez, como que se estendesse o que passava.
— Não se preocupe, você se acostuma. Em pouco tempo, esse será o ligar que você chamará de lar. Eu estou aqui desde os sete anos — ela aponta para um colar em seu pescoço, onde há dez contas diferentes. — E esse é o meu lugar preferido no mundo, e para qualquer outro campista. Aqui todo mundo se entende, ninguém se importa se você é disléxico, se arranja problemas ou se já foi expulso de seis escolas diferentes.
Paula deu um suspiro de alívio. Ela não fora expulsa de seis, mas três já era algo que fazia as pessoas olharem diferente para você. E a dislexia... Bom, digamos que ela não era a preferida dos professores. E sua mãe já não sabia o que fazer com ela, apesar de ela jurar que realmente não sabia como a garrafinha do professor de matemática explodira em sua mão e os cacos deixaram um colega cego de um olho e nem como o balanço da praça havia caído enquanto ela se balançava, machucando uma criança que brincava por perto e, definitivamente não fazia ideia de com começara um incêndio na sala de espera da delegacia, o que deve ter ajudado na decisão final de mandá-la ara um reformatório. Ela nem ao menos possuía fósforos, isqueiro ou cigarros!
Elas continuaram a caminhar em direção à casa grande, mas algo no caminho a chamou atenção. Era uma lojinha onde se via todo tipo de coisa. Desde camisetas do acampamento a potinhos com alguma coisa verde se remexendo dentro. Paula tinha medo de perguntar o que era.
— Podemos parar ali? — perguntou para uma Annabeth distraída, que apenas assentiu. Paula entrou no estabelecimento, onde dois garotos, certamente irmãos, brigavam por alguma coisa.
— Eu sei que foi você quem pegou, Travis! Admita! — um gritou. O outro negou com a cabeça.
— Nunca! Não vou ficar com a louça novamente por algo que certamente você fez!
A louça. Era a segunda vez que ouvia sobre ela. Talvez lavar a louça do jantar fosse algo mais assustador que enfrentar monstros. Paula tinha medo de descobriu o porquê.
Passeou com o olhar os objetos estranhos das prateleiras, analisando tudo cuidadosamente. Os irmãos ainda brigavam sem notar sua presença. Algo chamou sua atenção em uma prateleira no fundo. Era um broche de bronze reluzente, com uma espécie de pássaro no centro de um circulo. Paula sempre fora fissurada por pássaros, e não demorou para que identificasse a espécie: era um tordo. Uma espécie rara hoje em dia.
— Quanto custa? — ela perguntou em voz alta. Os irmãos pararam imediatamente de brigar e a encararam confusos.
—Nunca vi isso aí antes — comentou o mais alto.
—Nem eu. 10 dracmas — o outro disse. Paula abaixou a cabeça. Não tinha nem mesmo dólares, quanto mais dracmas, seja lá o que fosse isso.
— Você está maluco, Connor? — o suposto Travis perguntou — Provavelmente algum deus deixou para ela aí, você não pode extorquir a garota. Além do mais, ela é novata.
Paula não gostou do tom que ele usou nessa última frase.
— Hum... Novata — o irmão confirmou — Então é. Acho que você pode ficar. Mas cuidado com seus pertences a noite, principalmente se acabar ficando no chalé 11. As coisas tendem a sumir por lá.
Travis deu um tapa no garoto.
— Você não precisa avisá-la!
— Da mesma forma que você não avisou Quíron?
— Pare com isso, todo mundo já sabe que foi você!
Paula saiu da loja deixando os garotos que voltaram a brigar para trás. Analisou o broche com as mãos e o guardou no bolso, voltando a seguir Annabeth que já caminhava em direção à casa grande.
Enquanto ele retinia em seu bolso, brilhante como nunca, mal sabia Paula que, ao passá-lo para sua filha que o passaria adiante, o broche sobreviveria a maior guerra da humanidade e acabaria parando nos pertences de uma velha senhora que vendia ilegalmente para sobreviver. Mal sabia Paula que um dia, uma garota órfã e pobre o acharia e o passaria para sua irmã mais nova, esta que o devolveria para a garota, porque ela teria que lutar até a morte em um jogo egoísta.
Mal sabia Paula que um dia, aquele broche seria o símbolo de uma revolução.
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