Notas iniciais
Obrigada aos comentários e favoritações no último capítulo! Espero que gostem desse e continuem acompanhando!

Fora do museu estava frio, e chovia. Minha blusa – na verdade, regata. – não me ajudava nem um pouco. Cruzei os braços sobre o peito tentando espantar um pouco do frio. Nancy Bobofit estava em um canto ainda encharcada pelo banho que havia levado no chafariz, Percy saiu de dentro do museu com a caneta em mãos.

– Espero que a Sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro. – Disse Nancy à Percy. Sra. Kerr? Quem seria Sra. Kerr?

–Quem? – Perguntou Percy como se tivesse lido meus pensamentos.

–Nossa professora. Dãa!

Não tínhamos nenhuma professora chamada Sra. Kerr, Percy perguntou a Nancy de quem ela estava falando. Ela simplesmente revirou os olhos e o deu as costas. Percy se aproximou do Sr. Brunner e o entregou a caneta perguntou, provavelmente, sobre a Sra. Dodds. Mas foi como se ela nunca houvesse existido.

* * *

Eu já estava me acostumando com a ideia da Sra. Kerr como professora, Sra. Kerr era uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão. Às vezes eu tinha pesadelos com a Sra. Dodds, tinha pesadelos dela com suas garras e asas de morcego tentando estralhaçar Percy.

O tempo não andava dos melhores, era como se o mar e o céu estivessem brigando. Eu andava distraída – mais do que o comum. – e minhas notas que eu considerava boas, caíram de B para D. Eu continuava “excluída”, era muito na minha. Não gosto de pessoas.

Durante a apresentação de um trabalho de Geografia a professora perguntou por que eu não falava mais alto e eu respondi no mesmo tom de voz dela: “Não é minha culpa se você é uma velha caduca e surda.”, e eu acho que isso não foi lá muito legal de minha parte.

O diretor mandou uma carta para os meus pais nessa mesma semana. Então conclui, eu não seria convidada para voltar à academia Yancy ainda nesse semestre se brincar. Ótimo, eu não sou lá muito fã da Academia Yancy, mas eu preferia mil vezes ficar na academia Yancy a ficar em casa com meus pais maníacos.

Os dias se passaram rápido, eu estudava cada vez mais para as provas. Mas as palavras pareciam pular para fora dos livros, era tudo muito estranho. Os dias passaram voando, as aulas haviam acabado e era hora de voltar para casa. Minha mãe realmente surtaria ao me ver. Ela odiava ter uma filha “anormal” e só para irritar ela eu resolvi usar o meu estilo.

Em um ano, eu cortara o cabelo e o pintara – o que não fez muita diferença, afinal, meus cabelos já eram castanho médio quase castanho escuro. E eu só tingi de preto. -, eu já tinha vários furos na orelha e ainda coloquei um alargador. Ela iria surtar. É, eu tenho um alargador, 12 mm. Que alegria!

No final do dia eu havia acabado de jogar e socar minhas coisas na mala — sim, era só uma mala. Porém, grande. – Eu saí arrastando a mala pelo corredor até um dos ajudantes pegá-la e coloca-la junto com as outras, no porta-malas do ônibus. Como sempre o nono ano foi junto ao sétimo e o sexto junto ao oitavo.

Durante toda a viagem no ônibus os garotos e garotas faziam piadas e comentavam para onde iam durante as férias. E eu como sempre no meu canto ouvindo uma música qualquer de uma banda pouco conhecida, mas ainda sim minha favorita, Hopes Die Last. Some Like It Cold era o nome da música se não me engano. Por incrível que pareça músicas agitadas e screamo me acalmam.

Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo de meus pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e o levou com dificuldade até o acostamento.

Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento de motor, o motorista anunciou que teríamos de descer. Saí em fila com todos os outros.

Estávamos em um trecho de estrada rural. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos de lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.

As coisas à venda pareciam realmente boas: caixas transbordando cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em forma de patas, cheia de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço à sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.

As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com leno branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.

Uma das velhas fixou o seu olhar em algum lugar, o qual eu não vi por estar olhando para a imensa tesoura dourada que ela pegou. Ela levantou a tesoura e cortou um fio de lã. Ela estava olhando para Percy. Isso significava algo? Não sei, provavelmente.

A maioria dos alunos já tinha descido quando o ônibus chegou no centro. E foi lá que eu desci. Caminhei pelas ruas tão conhecidas por mim até achar o prédio luxuoso – que em minha opinião mais parecia um hotel. – de 30 andares, que eu tão bem conhecia.

Entrei e o porteiro me cumprimentou com um aceno de cabeça. Entrei no elevador e apertei o andar 17. Esperei e sai apressada do elevador. Hesitei um pouco antes de tocar a campainha, o que eu diria? Ou pior, o que ela diria? Respirei fundo e apertei a campainha.

A porta foi aberta e reconheci a figura na minha frente. Minha mãe estava lá, parada na minha frente. Era incrível como dois anos não fizeram diferença nenhuma a sua aparência. Merida Thompson era o seu nome. Nunca a chamei de mãe, apenas de Merida. Merida tinha a pele alva como a minha, os olhos azuis e era morena, com cabelos que caiam como cascatas pelas costas, dona de belas curvas usava um vestido vermelho – considerado vulgar.

Eu era bem diferente de Merida, pele alva, magra, baixa, sem muitas curvas, olhos cinza azulados e os cabelos agora pretos. Ninguém acreditaria se eu dissesse que ela é minha mãe, achariam mais provável ela ser minha irmã.

– Doces ou travessura? – Falei pra ela.

– Nicole? Mas que diabos aconteceu com você menina! – Falou me puxando pra dentro pelos cabelos.

– Ai! Calma aí, eu só adquiri certo estilo. Nada demais. – Respondi calma. Merida arrastou minha mala para dentro e me fuzilou com os olhos. Sorri pra ela. – Não ficou feliz em rever sua querida filhinha?

– O que é isso na sua orelha? Meu Deus, não posso acreditar. Daqui alguns dias estará vendendo drogas! – Falou estressada.

– Quer saber? Vou para o meu quarto! – Peguei minha mala e fui diretamente para o último quarto do corredor. Na porta tinha escrito “Don’t Open Dead Inside” lembro-me muito bem de quando escrevi, foi na época do começo de The Walking Dead. Abri a porta e percebi que nada havia mudado ali.

A cama bagunçada ao lado de uma penteadeira estilo medieval, as paredes cobertas por posters, uma pilha de CD’s no canto e o guarda roupa preto e velho. Deixei a mala em um canto e me joguei na cama.

É, lar doce lar.