-Ah Percy se concentre mais! – disse Annabeth, me apontando sua espada de esgrima.

Eu e ela estávamos treinando esgrima para o grande campeonato do Acampamento-meio sangue, e os vencedores ficariam dois meses sem ter de lavar a louça ou ajudar em qualquer tipo de coisa que envolva limpeza. Eu queria muito ganhar, porque minhas mãos já começavam a cheirar detergente, por incrível que pareça, os que o Quíron compra, penetram na sua pele. Eca.

Estava muito sol e calor, mas como regras, estávamos com as roupas adequadas. Eu estava transpirando como nunca, e pedi para pararmos um pouco. Pelo menos até eu pegar minha garrafa de agua para me refrescar um pouco.

-O que está acontecendo¿ — ela disse, com um tom de preocupação. – você ainda meio... Estranho.

-Estranho como¿

-Guardado. Nós não conversamos mais, quer dizer, só de vez em quando... Sinto falta do meu namorado.

-Ei, ei! – eu disse me aproximando e tocando em seu rosto. – ele está bem aqui. E te amo muito.

Ela sorriu. Era incrível como um sorriso, apenas um sorriso conseguia mudar tudo. Meu jeito de respirar, de piscar e até de conversar. E essa era a prova mais doce de o quão ela mexia comigo e o quanto eu a amava. De verdade.

Estávamos quase nos beijando, três centímetros de distância, quando uma voz “petulante” surgiu. E está muito fácil adivinhar quem era – aquele que consegue estragar os momentos mais agradáveis, os mais bonitos. E com certeza ele estava tentando me ameaçar, vindo até aqui e pedindo para treinar – lutar – comigo.

Desde o dia em que eu desabei no lago, eu deixei muita gente confusa. Estremeci com a preocupação que Grover e Annabeth sentiam, e desde então jurei para mim mesmo que, se Luke mexesse de novo comigo, iria arrebentá-lo e causar outra cicatriz em seu rosto quase angelical, só que um bem pior.

Todos que estavam na arena de combate, então pararam logo que uma garota do chalé de Hermes gritou:

-Percy e Luke vão lutar agora! – todos deram espaço. Alguns sentaram nas arquibancadas, e outros só ficaram fora do caminho. Tudo isso por causa de uma luta de esgrima.

E então assim começou. Primeiro Luke tentou acertar em mim, mas em um golpe que nem mesmo eu achei que conseguiria, mandei sua espada para longe. Para fora de nossa área de luta.

-Calma amigão – ele disse sorrindo. Aquele era o sorriso mais falso que já vira em toda a minha vida. – eu não vou te matar. – as pessoas que assistiam, pareciam tensas.

“é claro que não vai, assim como também não quer a minha namorada, seu imbecíl”, eu pensei. Ele se recuperou, e então, de raspão, passou perto de minha orelha. Por poucos centímetros, ele poderia ter me acertado. Tentei desviar o quanto pude, mas no final, a vitória fora dele. Talvez eu tivesse sido ruim de propósito, ou talvez não. Mas sabia que ele esfregaria isso na minha cara até outra vitória, que aumentaria mais ainda seus deboches e suas explicações em como tinha sorte.

-Você foi bem, Percy – disse Annabeth tentando me consolar.

Em vez de responder, eu apenas acenei com a cabeça em sinal de conforto. Mesmo me sentindo mal ela conseguia me deixar, de algum modo, confiante, feliz e agradecido. Ela é a única que consegue fazer as minhas pernas tremerem, como se eu fosse cair a qualquer momento.

Todos cantavam a vitória de Luke, todos pareciam amá-lo. Todos ali eram falsos e eu sabia disso como ninguém, porque ele era um grosso, e nunca tratou alguém bem, como merecia. Ele sempre se achou superior, e era isso que me dava forças para lutar com ele, acabar com ele. Derruba-lo do trono. “Pare com isso, Percy, vingança não leva a nada” minha consciência me dizia. Mas dessa vez eu seguiria meus instintos, ou melhor, a minha fúria. Eu não poderia deixa-lo com a imagem de santo, e ainda roubar a minha namorada.

Ele olhava pra mim com um olhar superior. Em um pequeno momento, ele disse “Sou melhor, sou o melhor!” e começou a bater palmas, assim como os outros estavam fazendo. E por mais irônico que fosse, ele não deveria estar comemorando, pois nem fora uma luta de verdade. Ela aconteceria no dia seguinte, e era melhor ele se preparar, pois se não me vencer, ele irá para a enfermaria numa maca. Sim, numa maca.

-Vamos – disse Annabeth me puxando até a praia.

Andamos em silêncio, e devagar. Estávamos longe o suficiente para não ouvir a algazarra do acampamento. Estava fechado, olhando para o nada e pensando na luta de amanhã, e como se Annabeth lesse meus pensamentos, ela começou:

-Você vai conseguir acabar com ele amanhã, sei disso. Você também sabe disso. – ela parecia confiante, ou pelo menos, sua voz estava.

Suspirei. Eu tentava acreditar, ou pelo menos tentava mostrar. Mas aí lembrei que matei um minotauro, e que eu tinha força e coragem, e isso bastava.