Ela sentiu a alça da mochila da filha cair de sua mão enquanto se erguia do chão. Seu coração batia tão rápido que parecia querer saltar do seu peito. Suas mãos tremiam e tudo que ela conseguia fazer era olhá-lo, completamente chocada.

Depois de tantos anos.

Os olhos dele tinham um brilho diferente. Ela percebia mais maturidade mas ainda via aquela leve indiferença que ele carregava na expressão. No entanto, agora essa indiferença estava coberta por completa incredulidade.

Não era possível que ela estivesse ali.

Percy agradeceu a si mesmo por estar sentado, pois tinha certeza que seus joelhos fraquejariam se ele estivesse de pé. Ele deixava todas as suas emoções transparecerem, sem se preocupar. Estava ocupado demais olhando pra ela, reparando em todas as pequenas coisas que haviam mudado.

Ela estava mais alta. O cabelo estava comprido agora e os cachos batiam em sua cintura. Estava com um batom vermelho e um vestido florido da mesma cor, que lhe batia nos joelhos. Ela continuava magra mas com um pouco mais de quadril e tudo que Percy mais queria era passar os braços pela sua cintura fina e puxá-la para si, esconder aquela boca vermelha sob a sua.

Ficaram se olhando assim por algum tempo, meio boquiabertos sem saber o que falar. O senso de Annabeth piscou em sua mente e várias vezes ela abriu e fechou a boca, procurando algo pra dizer. Sua filha puxou o vestido dela chamando-lhe a atenção, entediada, e tudo que Annabeth pôde fazer foi uma tentativa de aceno de mão. Ela abaixou-a no mesmo instante, pensando o quão estúpido seria fazer aquilo. Mordendo o lábio inferior e puxando a filha pela mão, virou as costas e foi embora virando a esquina.

E aquilo machucou Percy de um jeito que nunca sentira antes

***

Talvez ele devesse segui-la. Talvez devesse chamá-la, gritar o seu nome até ficar rouco, mas tudo que conseguiu fazer foi ficar parado ali, sentado na mureta, alheio a todas as crianças correndo em sua volta, sem conseguir se mexer.

Só foi retirado dos seus próprios pensamentos quando uma mão pousou em seu ombro. Instintivamente ele se afastou mas seus ombros relaxaram quando ele viu que era só o Nico.

–Ei cara. O que você tá fazendo aqui? — Perguntou. O garoto loiro, Will, ainda estava com ele, pairando como uma sobra sorridente. Percy sentia que não ia com a cara dele e que teria que ter uma grande reserva de Paciência aquela noite, quando Nico falou: — Will sabe de um lugar em que podemos jantar.

–Ahn. Tá. Vamos lá.

A noite toda se passou como um borrão. Nele, Nico se divertia rindo das piadas de Will (muitas internas, as quais Percy não entendia ou sequer ligava), enquanto ele se fechava numa bolha, sem nem mesmo sentir fome.

–Sabe. — Nico começou. Tinha tomado umas cerveja, seu rosto estava meio corado e a fala um pouco embaralhada. -E- Esquecemos de procurar um hotel... Percy, o que vamos fazer?

Ele apoiou a cabeça nas mãos, esperando uma resposta. Tinham saído da praça no final da tarde, e agora já passava das dez. Conseguir um quarto em um hotel no centro àquela hora da noite seria como ganhar na loteria.

–Eu não sei. — Percy deu de ombros.

–Sabe... A gente podia passar a noite na rua. Dar um... rolê. — Nico começou a rir com a palavra. Will o acompanhou, um pouco tonto também. — Ou então debaixo da ponte. Ter uma festa com os mendigos.

–Eu tenho um lugar pra vocês. — Will colocou um braço sobre os ombros de Nico, que, Percy não sabia se era por conta da bebida ou por outra coisa, corou novamente. — Sabem, eu tenho uma mansão num bairro chique nos arredores da cidade. Não, pera.... São dos meus pais, não minha! Mas enfim... Tem tipo uns vinte quartos, tem espaço o suficiente.

–Obrigado mas não é necessário. — Percy se esquivou.

–Que isso! Você vao dormir aonde, no banco da praça? — Will ergueu os braços. Percy iria dizer que isso seria preferível, mas ele continuou. — Não tem problema nenhum pra mim. Meus pais estão dando uma volta ao mundo, tenho certeza que vocês podem ficar.... Se fizer vocês se sentirem melhor, podem me pagar 10 euros por dia, como em um hotel.

–Um hotel de liquidação, só pode. — Nico riu, e Will o acompanhou.

–Enfim... — O loiro continuou. Estendeu a mão por cima da mesa em direção à Percy. — Aceita?

Ele relutou um pouco, mas pensando que realmente não tinham mais onde ficar, até que uma mansão parecia uma boa ideia. Apertou rapidamente a mão de Will, que comemorou.

–Ótimo! Agora que tal irmos pra casa? Acho que o diAgelo aqui já bebeu demais. — O loiro sorriu. Nico jogou a cabeça pra trás, numa risada contagiante. Logo Percy estava sorrindo também e quase tinha se esquecido do incidente na escola.

Quase.

Até encontrá-la de novo depois.

* * *

O taxi parou em frente à um muro de pedra, com um portão cor de areia no meio, altamente seguro. Por cima do muro podia-se ver uma mansão de três andares branca, com paredes em vidro e arquitetura moderna. Assim que desceram do carro, Percy notou que era o único que sequer reparava em como era o lugar. Nico e Will estavam ocupados rindo de nada.

O loiro procurava as chaves no bolso da calça, despreocupado. Nico se apoiava com as mãos nos joelhos, repentinamente sério.

–Não estou me sentindo bem, cara.

–Espere só até amanhã. — Percy murmurou, sorrindo.

–Onde está essa merda de chav... Ah! Achei. — Will tirou um dispositivo do bolso, e assim que o apertou, o portão começou a se erguer para eles entrarem.
Estavam prestes a ir, quando uma voz feminina chamou na casa vizinha.

–Oi Will! Precisa de ajuda aí?

–Não Chase! — Will acenou alegremente pra a vizinha no escuro. — Estou só um pouco... Risonho.

–Risonho hã... Aposto que vai precisar de ajuda até pra subir as escadas, de novo. É a mesma coisa todo final de semana. — A sombra da vizinha cruzou os braços, numa posição de responsável. Will colocou a mão na nuca, constrangido. -Quem são seus amigos?

Não era possível. De todos os lugares da frança, escolhera ir ali naquela noite, na mansão da melhor amiga savannah, ao lado da casa de Will solace, seu colega de faculdade. Podia ter ficado em seu apartamento no meio da cidade, cuidando de Louise, sem ter que deixá-la na vizinha sra. Cosette. Podia estar vendo tevê tranquila em sua sala de estar enquanto bebia um vinho. Mas naquela noite, aparentemente, o destino resolveu fazê-los se encontrar de novo. Resolveu armar mais um encontro inusitado que fizesse ela roer suas unhas, indecisa. Resolveu complicar mais ainda sua vida, justo quanto tivera um tempo de tranquilidade.

Quem falou o nome dela primeiro foi Nico, o garoto do qual ela morrera de medo e agora já tinha virado um rapaz.

–Annabeth?

Agora ela tinha que responder. Pelo mínimo que restava de sua dignidade, ela não podia simplesmente sair correndo.

–Oi, Nico. — suspirou. Sentia as palmas das suas mãos suadas. -Há quanto tempo.

–Vocês se conhecem? — Will perguntou, confuso com a expressão petrificada de todos.

–Sim. Muito. — Ele ergueu as mãos dos joelhos e olhou um tanto friamente para Percy e Annabeth. — Aparentemente vocês dois resolveram sumir do mapa na mesma época.

Annabeth mantinha os olhares fixos nele, pois se olhasse para Percy sentia que iria sair correndo.

–Sim. — Respondeu, com a voz firme. — Aparentemente nós dois seguimos em frente com nossos.. Hã, objetivos.

Nico a encarou como se sentisse a tensão no ar. Colocou uma das mãos no ombro de Will e o empurrou para dentro da casa, prevendo uma discussão entre os dois.

–Boa noite pra vocês. — Falou, antes de fechar a porta da frente da mansão e deixá-los a sós.

Annabeth sentiu o frio da noite contra as alças de seu vestido e abraçou o próprio corpo. Não conseguia encará-lo.

– Bom. — Ele começou a falar, sua voz saindo rouca e meio ressentida. — Pela primeira vez, não sei qual de nós dois está certo.

– Como assim? — Murmurou ela, sem encará-lo.

– Bom. Eu fui preso. Cometi um crime inumano e passei anos na cadeia. Você seguiu em frente, saiu do país e criou uma família.

Annabeth não pode deixar de sorrir.

–Bom. Pra mim parece claro quem está certo. — Finalmente criou coragem e o olhou nos olhos. Se arrependeu logo depois.

–Pra mim não. — Murmurou ele. Annabeth nunca vira tanta mágoa nos seus olhos e ressentimento em sua voz, que era tão baixa que só ela poderia ouvir. — Eu sempre estive com você. Fiz tudo que eu tinha em meu alcance pra protegê-la e fazê-la feliz. Sempre.

Annabeth engoliu em seco enquanto continuava, aguardando pelo pior.

–E você, — Percy sorriu, tristemente. — Na primeira oportunidade que teve, me abandonou. Se esqueceu de mim, como eu tinha dito que fizesse. Estou contente por você, de verdade. Contente por que, mesmo que desse jeito, você fez o que eu pedi e agora pra mim você parece feliz.

Annabeth sentia como se tivesse um nó em sua garganta. Por mais que quisesse explodir, ficou em silêncio, com o coração tão pesado que parecia que ela ia despencar junto a ele.

–Você não tem nada a dizer. — Ele observou, suspirando. — Eu devo estar certo.
Foi se encaminhando para o portão, mas ela o puxou pelo braço.

–Espere! — Ele se virou pra ela em expectativa. — Eu... Eu preciso de alguém pra me levar pra casa. Minha amiga.. Está um pouco mal. — Ele ergueu uma sobrancelha e caminhou até a mansão, deixando-a pra trás.

Por um segundo, Annabeth achou que ele tinha ido embora, mas logo ele voltou, rodando uma chave de carro nos dedos. Abriu a porta do Mercedes que tinha na garagem e ela entrou. Logo depois ele subiu ao seu lado, no banco do motorista.

–Onde é? — Perguntou.

–Eu te guio. Só pegue a avenida principal.
* * *

Notas finais
Eu sei que demorei, então venho dar de presente p vcs esse capítulo gigantesco, 2 bjs REVIEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEWS? próximo capítulo terá feelings e hot