Per Amore

1 Capítulo único


Notas iniciais
Música: Andrea Bocelli - Per Amore: (https://www.youtube.com/watch?v=Zic37uJDpyc)Fonte da Tradução: (http://letras.mus.br/andrea-bocelli/4864/traducao.html)Boa leitura

Per Amore

A noite caia lá fora gelada e úmida, porém acolhedora. Da janela da elegante suíte de um dos Hotéis mais caros daquela região, Shura encarava a beleza das movimentadas ruas de Mercês, admirando toda a sua grandeza.

Aquela era sua amada terra, a que tanto se orgulhava. Não importava quanto tempo passasse longe dela, nunca se cansava de admirá-la, tudo em Mercês o encantava. Ele que já havia viajado por tantos países a fora, que conhecera lugares belíssimos do mundo, nunca encontrara nada que se comprasse a ela.

Mas o que mais lhe encantava naquela esplêndida cidade era assistir na noite as luzes ofuscantes das casas em conjunto do céu imenso e estrelado, Shura se perdia em lembranças de sua infância diante daquela imagem. Contudo, nada daquilo realmente importava naquele momento, sua mente vagava bem longe daquela beleza toda e o seu olhar nostálgico não deixava dúvidas disso.

Não era a admirável grandeza de Mercês que preenchia seus pensamentos e fazia seus olhos brilharem, a causa disso tinha outro nome: Enrico Geovanelli! Esse era o nome, o nome de homem que abalava suas estruturas e acabava com suas noites de sono, toda sua admiração era unicamente por ele.

— Shura! — Shura desviou os olhos da janela por um momento apenas para atender ao chamado do homem em pé na porta aberta, atrás de si. Girou levemente o pescoço para encará-lo apropriadamente. — O carro está pronto. — avisou Shiryu.

Shura esboçou um pequeno sorriso e respondeu gentilmente:

— Obrigado Shiryu, estou indo num instante. — voltou a encarar as ruas, correndo os olhos pelas pessoas que passavam por ali, ficando um bom tempo naquela posição.

Antes de deixar a suíte foi até a poltrona apanhar seu elegante sobretudo que estava dobrado sobre o encosto da poltrona junto do cachecol cinza.

Há dois anos...

A chuva naquela noite caia furiosamente e não dava trégua para a população de Revenna na Itália. Trovões e raios rasgavam o céu sem brilho.

Shura estava ajoelhado no carpete vermelho de cabeça baixa e os braços jogados ao lado do corpo, desistentes e entregues. Suas vestes estavam rasgadas, molhadas e manchadas de sangue, o rosto ferido fruto de uma recente briga era tampado pela franja úmida que fazia questão de ocultar suas emoções. Fazia mais de trinta minutos que ele estava naquela posição, mantendo-se em absoluto silêncio, apenas ouvindo os barulhos no centro do cômodo.

Ele não estava sozinho naquele recinto que nada mais era que um quarto de hotel vagabundo, localizado numa rua pouco habitada daquela cidade. Havia um médico sentado num banquinho, ao lado da poltrona que se encontrava um dos nomes mais conhecidos e procurados da máfia italiana, Enrico Geovanelli, mais conhecido como Máscara da Morte.

O médico estava terminando de fazer o curativo no braço do mafioso que carregava no rosto uma expressão dura e fechada.

— Felizmente a bala pegou de raspão. — disse o doutor, fechando sua mala e se colocando em pé.

O paciente levantou-se também e apertou sua mão num cumprimento formal.

— Obrigado, doutor.

— Não há de que, caso sinta algo incomum... Não hesite de entrar em contato comigo.

O médico era um senhor idoso e aposentado, mas que costumava fazer alguns bicos para os mafiosos italianos. Era um velho conhecido.

Enrico agradeceu e o acompanhou até porta, eles trocaram mais algumas palavras e o médico foi embora. O mafioso retornou em seguida, calado, parando em frente à imensa janela decorada por uma cortina branca.

— Então é assim? — pronunciou depois de se manter em silêncio por um longo tempo.

Shura levantou a cabeça para olhá-lo, podia não ver seu rosto nitidamente, pois ele estava de costas para si, mas imaginava que ele tinha os olhos estreitados e que expressavam toda sua fúria e decepção diante dos últimos acontecimentos.

— Mais que grande merda, hein! — o riso baixo expressava uma mistura de choque e decepção.

Shura limpou a garganta, nervoso e voltou a baixar a cabeça impossibilitado de sustentar o olhar naquela silhueta tão desamparada do homem cuja força e confiança eram inabaláveis. Nunca pensou que um dia o som do riso daquela pessoa pudesse ferir seus ouvidos como naquele momento, mas também não podia culpá-lo por reagir daquela maneira.

— Você não vai dizer nada para se defender? — aquela pergunta caiu como bomba em cima de seus ombros que já carregavam toneladas de culpa e remorso.

O que ele deveria dizer? Tudo acontecera tão rápido, nada daquilo fora premeditado, ele tinha um plano elaborado, estava tudo nos conformes, mas Dohko tinha que ser um filho da puta e traí-lo.

Lógico que o resultado seria o mesmo independente de qualquer coisa, sabia bem disso, era inevitável, mas mesmo assim não deixava de ser uma traição, porém, a forma como algumas coisas foram reveladas e outras omitidas, trouxe consequências muito mais danosas.

Se Dohko, o novo chefe, tivesse seguido conforme o plano inicial nada daquilo teria acontecido, o impacto seria outro quando a verdade viesse à tona, seria menos doloroso para as partes envolvidas, principalmente para aquele que agora nem o encarava.

Shura abriu a boca e fechou duas vezes, tentando encontrar um modo de se expressar que justificasse ou diminuísse a dor que o estrago de suas decisões causara naquele homem, mas no fim não encontrou palavras que expressassem o que ele realmente sentia e precisava dizer.

Um novo riso rouco cortou seu raciocínio, cutucando a ferida recém-aberta de seu coração.

— Quer saber? Nem precisa dizer nada. — disse o italiano — Suas ações já foram mais que suficientes; palavras são completamente desnecessárias agora.

— Enrico...

— CALA A BOCA! — Shura baixou mais a cabeça e apertou os olhos diante do grito súbito, não por medo de ser atingido fisicamente, não tinha esse medo, mas sim porque o som alto da voz e o sentimento que ela carregava lhe doía o peito. — Nunca diga esse nome novamente! Eu te proíbo de dizê-lo, ouça bem Shura: Eu-te-proíbo! Você, um verme, um crápula, um traidor... Não tem mais esse direito!

— Máscara da Morte...

— EU MANDEI CALAR A BOCA! — Shura mordeu o lábio inferior, desejando do fundo de sua alma que aquele pesadelo terminasse logo.

O silêncio entre os dois chegou e se estendeu por um longo período.

Máscara da Morte caminhou até o estofado velho de veludo vermelho, atirou-se nele exausto, ficando numa pose bastante relaxada. Estava tentando passar um conforto que não sentia naquele momento tão difícil.

Máscara da Morte era famoso por sua excepcional habilidade estratégica em comandar um dos grupos de criminosos mais influentes no submundo do crime. Ao seu lado estava Dohko, seu braço direito e a pessoa em que mais confiava (depois de Shura) e que havia o traído da pior forma possível.

A cada ano os negócios no submundo cresciam e aos poucos se estendiam mundo a fora. Existia uma espécie de intercâmbio que permitia contanto e distribuição com outros dois países—Grécia e França—que colaborava nas exportações das drogas. A famosa e destemida Corrente Dourada. Dentro dessa organização havia outros grandes nomes de criminosos procurados em diversos países. Aiolia que ficava responsável pela exportação e distribuição de mercadorias da Grécia e Camus na França, ou seja, cada país tinha um líder que era responsável pelas negociações e exportações das mercadorias do exterior.

O problema começou quando a Aliança Dourada colocou os olhos no território chinês que estava roubando os holofotes dos dourados com seus métodos rápidos e sigilosos. No começo houve conflito entre os irmãos da Aliança, todos competiam para ver qual grupo seria o primeiro a negociar com os chineses.

Máscara da Morte zombou desafiando os “irmãos dourados” e declarou abertamente que seu grupo seria o primeiro a entrar em contato com os chineses para fechar um acordo. Ele tinha muitos recursos a seu favor e um deles era Dohko.

Bastou uns dias de viagem em território chinês e o italiano conseguira cumprir aquela missão com perfeição. Os chineses (mesmos incertos) aceitaram a união com a Aliança Dourada, no entanto, naquela época houve muito mais contratempos que transformou a já turbulenta relação dos lideres numa guerra fria. Máscara da Morte com seu temperamento descontrolado causou muito descontentamentos entre os irmãos dourados, quase levando o negócio a ruína. Fora que muitos membros arriscaram e perderam suas vidas em confronto com a polícia.

Aiolia que era o segundo com maior número de exportação no negócio, armou um complô para tirá-lo do poder e com isso se juntou a Camus conseguindo fechar um acordo onde todos dentro da organização concordaram com os termos.

O plano era nada mais que assassinar Enrico e colocar Dohko em seu lugar cuidando dos negócios na Itália, pois achavam-no muito mais confiável e talentoso. Dohko que estava por dentro de tudo aquilo, convocou Shura e revelou todo o plano dos dois chefes.

Para proteger Máscara da Morte, Shura se ofereceu para executar o italiano e ao lado de Dohko elaborou um plano que, a princípio, era perfeito e sem chances de falhar. O plano era forjar a morte do italiano, conseguir documentos falsos e enviá-lo ao Brasil deixando-o sob os cuidados de Alderaban (médico e amigo de Shura) apenas por um tempo até os ânimos na Aliança se acalmarem.

Só que Shura não esperava que Dohko fosse dar com a língua nos dentes e traí-los bem em cima da hora. Deu tudo errado! Armaram pra eles, trocaram o dia da execução e mandaram outro assassino para executar o italiano, felizmente Shura descobriu as intenções da organização com antecedência e correu na frente, disparando o tiro primeiro e graças a sua mira excepcional não atingiu num local vital, mas fora o suficiente para convencer que tudo havia saído nos conformes. Teve que dar suborno ao assassino oferecendo o dobro da quantia oferecida pela organização em troca de seu silêncio, o homem que não era burro aceitou de bom grado, afinal não estaria perdendo nada, pelo contrario: ganharia dos dois lados.

Vendo o estrago que suas ações causaram, Dohko pediu perdão e se mostrou verdadeiramente arrependido, prometendo manter o paradeiro do líder em absoluto silêncio, também sugeriu que levassem a diante o plano inicial, já que a Aliança acreditava que a morte do italiano havia sido executada com êxito. Ele permaneceria sucedendo Máscara da Morte, enquanto o mesmo seria enviado ao Brasil e aguardaria até que tudo voltasse a seu devido lugar. Porém, Enrico não aceitou aquela condição, pois acreditava que Dohko e Shura o havia traído e já não conseguia confiar em mais ninguém.

— Tenho que admitir, você é um grande ator. — comentou o italiano zombeteiro interrompendo o silêncio e cruzando uma perna sobre a outra. — Já tentou fazer algum teste para atuar no showbiz?

— Isso não tem graça. — ralhou o espanhol visivelmente ofendido, sem desviar os olhos da figura aborrecida nem por um minuto sequer.

— ‘Tá perdendo dinheiro, disgraziato¹. — mas Mascara da Morte insistiu debochado não se abalando com o tom sério de Shura. — Por um momento quase enganou com toda essa sua conversa fiada.

Shura fechou a mão em punhos.

— Não sei do que você está falando.

— Não sabe? Tem certeza...? — a gargalhada do italiano preencheu as paredes do recinto, causando arrepios no espanhol. — DEVO RELEMBRÁ-LO COM MEUS PUNHOS FECHADOS NA SUA CARA?!

O espanhol fechou os olhos e os apertou com força, sentindo necessidade de por pra fora tudo que estava entalado na garganta desde que chegaram naquele hotel.

Que se danasse se Enrico não fosse acreditar.

— Eu nunca menti pra você. — desabafou sincero.

— Está mentindo agora... — Mascara da Morte interrompeu diminuindo um pouco o tom, retirando do bolso o maço de cigarros.

— Sei o quanto está frustrado com tudo isso, mas eu não planeja-!

— Não diga mais nada Shura, o melhor que você tem a fazer agora é-! — ele disse puxando uma unidade com os dentes, mas foi interrompido pelo grito desesperado do outro.

— MAS EU PRECISO FAZER VOCÊ ENTENDER!! — Gritou Shura assistindo a figura apática acender o cigarro e dar sua primeira tragada.

— Não há nada mais para entender... — murmurou rouco enquanto soprava fazendo uma bola de fumaça. Aquela calma toda desarmava Shura. — Tudo já foi esclarecido.

— NÃO, NÃO FOI!

— Sim, foi...

Shura levantou-se, impulsivo, sendo tomado pelo desespero e pela necessidade de compreensão. Para si era preferível ver o italiano enfurecido, quebrando tudo que via pela frente como um furacão e imbatível como sempre foi, em vez de conformado e desistente.

Não era típico dele.

Definitivamente aquela calma desconcertante não fazia parte de sua personalidade, por isso Shura avançou.

— SE VOCÊ DER MAIS DOIS PASSOS, EU TE MATO AQUI E AGORA. — avisou Enrico. Shura não deu ouvidos e continuou avançando até ficar frente a frente com ele. Ajoelhou-se novamente apoiando as duas mãos nas pernas do outro. — VOCÊ QUER MORRER, SHURA?

— Não era pra ser assim, deu tudo errado. Se me deixar explicar.

— NÃO QUERO OUVIR MAIS SUAS MENTIRAS!

— Eles iam te matar se eu-!

— Some daqui Shura... — murmurou num tom de aviso.

— Não, eu não vou embora, você não pode me mandar embora... Pensa em tudo o que vivemos. Quantas vezes fugimos da morte juntos? — os olhos do espanhol beiravam ao desespero.

Máscara da morte mordeu o lábio inferior chegando a feri-los, encarou o rosto bonito do homem a sua frente e disparou contendo o volume da voz:

— Eu que te pergunto, Shura! Depois de todos esses anos que passamos por todas essas porras juntos, que confiei em você, que dei tudo de mim pra você, valeu a pena me trair? — perguntou esperando realmente uma resposta, mas a falta de palavras calaram Shura. — Espero que tenha valido, porque você nunca mais vai me ver, nunca mais. OUVIU BEM, SEU FILHO DA PUTA, SFORTUNATO²?!!

Shura sentiu uma bola se formar na garganta diante daquela fúria imensurável, o italiano ofegava com o rosto rubro e os cabelos molhados colados na testa.

O espanhol passou a mão furiosamente pelos cabelos, deslizando os dedos na franja farta colocando-a para trás em completo sinal de desespero.

Não tinha como argumentar diante daquilo.

— Vai embora Shura. — murmurou Máscara da Morte num tom raivoso, mas contendo-se o máximo que podia.

Shura sabia que o que havia feito não tinha perdão, nem mesmo se tentasse enumerar seus motivos por trás de seus atos, não tinha como contornar a situação. Máscara da Morte não compreenderia nem se desenhasse num papel, ele precisava ficar sozinho para esfriar a cabeça e clarear as ideias.

— Tudo bem eu vou, mas eu volto! Essa conversa não terminou ainda. Temos muito que conversar, mesmo que você não queira...

— SÓ VÁ EMBORA LOGO!! — gritou enfurecida a voz de Enrico. — SE MANDA!!

Shura respirou fundo mantendo os olhos presos na figura magoada do italiano, mesmo incerto projetou suavemente sua mão em sua maçã facial a fim de senti-lo, mas o toque fora rapidamente repelido por um tapa violento e ágil.

— Não me toca. — cuspiu Máscara da Morte com um olhar hostil, logo em seguida levantou-se dando-lhe as costas rudemente.

Shura se viu estático e desamparado diante daquilo, tamanho era o rancor presente nos olhos e na voz daquele homem. E embora soubesse desde o princípio o que o aguardava, não cogitou que fosse doer tanto.

Machucado, ele apoiou-se no estofado fofinho e com extrema dificuldade levantou-se. Não havia nenhum pertence seu para recolher, sendo assim deu uma última olhada nas costas silenciosas do italiano desejando do fundo de sua alma abraçá-lo, mas se conteve, pois não queria forçar mais as coisas. A situação não lhe era favorável, portanto apenas rumou até a saída em silêncio.

Quando chegou em frente a porta a voz baixa e embargada soou rompendo o silêncio pesado.

— Shura... — o espanhol arregalou os olhos surpreso em ouvir seu nome num tom tão baixo. Deteve a mão na maçaneta e esperou pelo desfecho. — Não ouse me mostrar sua cara nunca mais.

Shura sentiu o peito ser tomado pela angústia, mas manteve-se firme e forte, não era hora de fraquejar, sabia que aquilo tudo era passageiro que quando explicasse suas razões Enrico entenderia... Ao menos assim esperava.

Respirou fundo e firmou a mão na maçaneta girando-a com o coração na mão e quando a porta se abriu, saiu por ela sem mais olhar para trás.

“Amanhã será outro dia, por enquanto vou deixá-lo só para tirar do peito toda essa raiva”.

Contudo Shura não esperava que no dia seguinte quanto voltasse para o hotel encontraria a suíte completamente vazia, sem rastros do italiano.

Enquanto era guiado por Shiryu até o carro, seus pensamentos voam longe mais uma vez naquela lembrança tão dolorosa. Shura mal conseguia aguentar a dor latente dentro do peito, embora em seu rosto sereno não deixasse transparecer seus sentimentos.

Dois meses após aquele evento Máscara da Morte ainda estava desaparecido, havia simplesmente sumido do mapa, ninguém nunca mais ouvira falar dele. Shura chegou a contratar um detetive particular e assim procurou em todos os cantos da Itália, pois sabia que Enrico estava sem dinheiro para se refugiar em outro país, até onde sabia não havia ninguém para ajudá-lo financeiramente, mas sua busca não teve sucesso.

Chegou a cogitar assassinato, porém, recusava-se a aceitar esta opção. Seu instinto dizia que Enrico estava vivo em algum lugar do mundo. Cansado e impaciente de esperar sentado secretamente foi atrás de pistas, com a colaboração de Dohko para que os membros da Aliança não descobrissem.

Correu o mundo em busca do italiano. Cinco meses passaram e nada, mas Shura não perdeu as esperanças e seguiu em sua busca.

Passaram-se seis meses, viajou para os Estados Unidos, mas não havia nada de útil pra ele lá... Depois foi para o México... Nada novamente. Quando veio o início de Agosto recebeu uma ligação de Dohko mandando-o retornar à Itália imediatamente, pois o detetive tinha novidades. Mesmo incerto Shura voltou.

Andrômeda, o detetive, havia viajado para o Japão a fim de visitar a família e, por coincidência, acabou envolvido no trabalho descobrindo o paradeiro de Máscara da Morte. Uma semana após este evento, Shura, enfim, o encontrou numa boate em Tóquio onde só pessoas relacionadas a Yakuza frequentavam.

O espanhol sorriu minimamente e fechou os olhos como se estivesse ouvindo a mais bela das sinfonias diante da lembrança do reencontro...

— Quanto tempo, Enrico... — o sorriso quase imperceptível adornava os lábios gentil do espanhol, enquanto encarava os olhos estreitados do italiano.

Os dois estavam dentro do banheiro, sozinhos. Shura havia se certificado de pedir ao seu pessoal que barrasse a entrada dos cavalheiros que tentasse usar o banheiro.

Entrou na boate e — depois de muito procurá-lo no meio dos corpos dançantes — o encontrou mais afastado da multidão, sentado numa mesa e rodeado de japoneses. Shura passou a segui-lo fielmente com os olhos desde que colocara os olhos nele, apenas no aguardo do momento certo para acercá-lo. Durante todo aquele momento desejou simplesmente se aproximar da maldita mesa, interromper os “negócios” de seu enamorado e arrastá-lo para fora de lá e matar a maldita saudade que não cabia dentro do peito, mas esperou pacientemente até o momento certo.

O momento certo chegou quando o italiano levantou-se e foi para o banheiro. Lugar e hora perfeita.

— Eu disse pra você nunca mais me mostrar essa sua cara de pau, miserable sfortunato...

— Também senti sua falta.

— Como me encontrou?

— Não foi difícil. — mentiu.

— É mesmo? — indagou desconfiado. Shura apenas assentiu. — Que bom pra você, agora diz ‘pro teu pessoal liberar a saída do banheiro, eu tenho negócios a tratar lá fora.

— Sim, eu sei que você está tentado um negócio próprio. — não mentiu, Shura sabia de tudo, havia se informado com a ajuda de Shiryu, seu subordinado e amigo.

— Andou me investigando? — Máscara da Morte ergueu uma sobrancelha.

— Sim, eu precisava saber onde estava pisando antes de tomar qualquer atitude. — respondeu Shura, omitindo suas reais intenções. — Mas... Infelizmente não posso deixá-lo sair daqui...

— Ah é, e por quê? — Enrico cruzou os braços acima do peito esperando esclarecimentos.

— Porque daqui há... — Shura ergueu o pulso a fim de verificar a hora no relógio, sorriu ao constatar o horário. — Dois minutos aqueles japoneses irão morrer, o que significa que não haverá negociação.

Estava blefando. Sua real intenção era tirar Enrico dali, por isso havia inventado aquela mentira.

— Está mentindo!

— Não estou, se quiser ficar pra ver azar é o seu, pois vai morrer junto com eles...

Se o que Shura queria era despertar a fúria do italiano, ele havia conseguido concluir essa missão com êxito. Se caso sua intenção era outra... Fracassou completamente. Em questão de segundos Máscara da Morte havia voado pra cima do espanhol, com as duas mãos fechadas no colarinho da camisa social dele.

— Me diz! Foi aquele filho da puta do Dohko que te mandou aqui pra acabar com os meus negócios, né? Confessa, afinal ele sabe que eu sou melhor que ele, que meu sucesso será um grande problema para a aliança. Sim, isso mesmo foi ele que te mandou, pois sabe que você, um ‘cachorro’ obediente que obedece seu dono cegamente não ia falhar, não é mesmo? — questionou Enrico debochado.

Shura fechou a cara diante do comentário maldoso e principalmente com a leve menção do nome do chefe.

— Não, vim por conta própria. — a gargalhada de Máscara da Morte quase arrebentou seus tímpanos.

— Mentira! Anda pode dizer... Foi Dohko que te mandou aqui.

— Os japoneses vão te matar...

— Acha mesmo que vou acreditar nisso? Você só pode estar louco se acha que sim.

Shura repousou sua mão sobre a dele e acariciou, ignorando completamente a língua afiada, sua saudade e vontade de tê-lo nos braços era maior que qualquer irritação causada pelas provocações dele.

Os olhos de Máscara da Morte demonstraram uma fúria que fez Shura relembrar todos os dias, semanas e meses que esteve buscando-o desesperadamente.

— Senti sua falta, não imagina o inferno que passei nesses últimos meses a sua procura. — O italiano se afastou abruptamente e parou na frente do espelho.

— Não tente nada parecido, nunca mais! — disse Enrico se referindo ao toque ousado em sua mão.

— Você sumiu no dia seguinte nem me deixou explicar... Nós temos tanto que conversar. — o olhar de Shura era de suplica e saudade.

— Não começa... Isso é passado, não me interessa mais, apenas saia do meu caminho!!

— Eles queriam a sua cabeça, se eu não tiv-...

— Cala a boca, Shura. Já disse que não quero mais saber dessa porra.

— Foram suas ações impensadas que nos trouxe até aqui...

— Estou te avisando vou te bater, e não vai ser como daquela vez. — avisou num tom ameaçador. — Aquela vez eu estava ferido. Só que agora é diferente, portanto, não me irrite.

— Aolia reuniu todos os membros insatisfeitos com o seu trabalho, armou um complô. Faz a cabeça de todo mundo...

— É, inclusive a sua!! — ralhou irado. Shura ignorou.

— Você deixou que todas as negociações com a máfia chinesa fossem para o ralo, porque quase matou o irmão do chefe deles...

— FOI ELE QUE COMEÇOU, COLOCOU UMA PORCARIA NA MINHA BEBIDA AQUELA NOITE E ME ARRASTOU PARA UM MOTEL VAGABUNDO!!

— Você devia apenas ter ignorado já que com a minha chegada nada aconteceu naquela noite!!

— COMO EU IA ENCARAR O MEU PESSOAL SE DEIXASSE AQUILO PASSAR?!!

— Camus ficou possesso com você, se uniu a Aiolia, queria a sua morte, então EU pessoalmente me ofereci para te matar...

— E VOCÊ FOI!!!!

— EU FINGI! MEU PLANO ERA POUPAR A SUA VIDA.— gritou desesperado por compreensão. — Era só isso que eu queria, te salvar...

— AH E AGORA QUER QUE EU BEIJE SEUS PÉS E AGRADEÇA?? TUDO BEM, ENTÃO OBRIGADO POR QUASE ME MATAR!!!

— Dohko me passou a perna. Ele mentiu pra mim... Disse que me ajudaria a tirar você do país, arranjamos documentos falsos, você se refugiaria no Brasil por um tempo e quando a poeira baixasse retornaria para ocupar seu lugar no submundo, porém a ganância dele falou mais alto que sua fi-!

— É MENTIRA!!!

— NÃO É MENTIRA. — contestou Shura. — Dohko me enganou. Eu juro pra você que nunca te trai.

Enfurecido por aquela conversa ter vindo a tona e confuso com o relato, Máscara da Morte fechou os punhos e desferiu um soco na parede. Doeu, mas nada se comparava a dor da humilhação e da traição que sofrera a oito meses atrás.

Sua raiva não tinha tamanho, a vontade que tinha era de socar Shura; mas o tempo não estava a seu favor e nem a disposição para fazê-lo, pois naquele momento haviam outras prioridades.

— Eu te odeio!! — cuspiu, farto. — Passei esse tempo todo te odiando, desejando te matar... Foram oito meses de pura frustração... — confessou.

— Eu sinto muito... — disse Shura sentido o peito tomado pela angústia. — Mas... Isso vai passar; se quiser largo tudo de mão e fico do seu lado. Veja bem, juntos nós podemos-!

— E você acha mesmo que vou ignorar tudo o que aconteceu?

— Você precisa fazer isso para vivermos em paz!!

— Então eu prefiro não viver em paz!!! — rebateu imediatamente. — Não seja ingênuo Shura, não dá pra passar uma borracha no passado simplesmente e apagar tudo. Entenda, o ódio que eu sinto por você me mata todos os dias.

Shura suspirou triste. Sabia desde o começo que aquela não seria uma tarefa fácil, mas ele não podia desistir naquelas alturas, ainda mais depois de tudo...

— O que você quer que eu faça então? — perguntou sentindo-se exausto.

— Sinceramente?

— Sinceramente.

— Que suma da minha frente ou me deixe te matar, quero apagar tua existência da minha vida e do mundo.

O espanhol sentiu os olhos arderem e as forças se esvaírem. Amava aquele homem como nunca amou ninguém, o conhecia bem o suficiente para saber que seu perdão era impossível de alcançar, mas mesmo assim... Ele não podia abdicar dele, não tinha forças para abrir mão de seu amor. O que sentia era tão devastador que se achava capaz de suportar tudo, absolutamente tudo... Menos viver longe dele.

— Então me mate. — murmurou desgastado e rendido, pelo simples fato de não poder viver num mundo onde o italiano não existisse.

O som da sonora gargalhada rasgou o silêncio fazendo ecos nas paredes do banheiro.

— O sempre tão orgulhoso Shura Salomon abdicando do próprio orgulho e desistindo da própria vida por causa de um macho? — ele ria a ponto de curvar-se. — Ai, ai essa é boa. Beleza, assim você me poupa de ter que olhar pra essa sua cara deslavada.

Shura apoiou-se na pia de cabeça baixa, ouvindo os passos lentos de seu enamorado cada vez mais próximos de si.

(#)

Lo conosco la tua strada ogni passo che farai

(Conheço o teu caminho. Cada passo que farás.)
Le tue ansie chiusa e ivuoti sassi che allontanerai

(Tua ânsia internas e o teu vazio. Pedras que afastará.)
Senza mai pensare che comme roccia io rittorno in te...

(Sem nunca pensar que, como uma rocha, retorno pra ti.)

(#)

Máscara da Morte tinha um sorriso imenso nos lábios, enquanto encarava seu ex- subordinado e amante.

— Tem certeza, Shura? — o silêncio foi à resposta. — Olha que eu não vou hesitar...

O aviso foi completamente ignorado.

E de repente Enrico descobriu que aquela postura desistente e entregue o deixava furioso, era preferível um Shura orgulhoso empreitando-o em vez daquele homem derrotado.

Indignado, cravou os dedos forte e insensíveis no queixo do espanhol quase lhe rasgando a carne, obrigando-o a encará-lo.

— Responda quando eu falar com você, disgraziato.

Quando os olhos se encontraram, os corações se inquietaram dentro do peito e as respirações se tornaram pesadas e lentas.

(#)

Io conosco Il tuoi respiri tutto quello che non vuoi

(Conheço teu respirar, tudo aquilo que não queres)
Lo sai bene che non vivi. Riconoscerlo non puoi

(Sabe bem que não vives, mas não reconhece isso.)
E sarebbe come se questo cielo in fiamme, ricadesse in me
(Seria como se, este céu em chamas)
Comme scena su un attore …
(Caísse sobre mim, como o teatro sobre o ator.)

(#)

Os dois mantinham os olhos pregados um no outro, buscando ler as emoções que não queriam deixar transparecer em seus atos.

— Maledetto... — sussurrou o italiano hostil encarando a figura cuja expressão era de derrota. Naquele momento ele descobriu que os olhos de Shura possuíam um incrível poder, o poder de lhe tirar do sério completamente, mas aqueles olhos sem brilho não combinavam com um homem tão charmoso como ele.

Shura por sua vez, tentou repelir o toque agressivo sem forças para continuar suportando o peso que os olhos que seu enamorado carregavam, o sentimento que eles transmitiam só servia para abalá-lo cada vez mais, deixando-o a ponto de perder a esperança.

Ele sabia que o italiano não tinha intenção de matá-lo realmente. Apenas... Quem sabe feri-lo um pouco mais com suas palavras ácidas ou talvez partir para violência física e machucá-lo como havia feito naquela noite em que tudo entre eles se despedaçou. Shura esperava tudo dele menos que, furioso do jeito que estava, fosse lhe roubar um ardente beijo.

Sim, Mascara da Morte havia se rendido, sendo completamente domado pela sua insaciável paixão por aquele maldito espanhol. O beijo era de arrancar o fôlego, longo e repleto de saudade. E de repente nada mais importou; nem a traição do passado, nem as mentiras. Nem nada! Ou talvez tudo ainda importasse, mas a saudade e o amor que sentia por Shura aplacava qualquer sentimento odioso que guardava dentro do peito.

Era mais forte que qualquer coisa no mundo.

(#)

Per amore hai mai fatto niente solo?

(Por amor, nunca fez nada?)
Per amore hai sfidato il vento e urlato mai?

(Só por amor. Nunca enfrentou o vento e gritou?)
Diviso il cuore stesso pagato e riscommesso?

(Não dividiu o mesmo coração? Pagou e reapostou? )
Dietro questa mania che resta solo mia

(Atrás desta mania, que continua só minha.)

(#)

Os braços do espanhol envolveram o pescoço de Máscara da Morte, correspondendo o beijo com a mesma fúria, aproximou os corpos, impulsionando sua pélvis com a dele.

O italiano engoliu seco quando a língua quente adentrou sua cavidade, pois não queria ter começado aquilo, agora sentia o arrependimento dar seus primeiros sinais dentro do peito.

— Shura... Chega. — murmurou entre o beijo, arfando, odiava aquele sentimento de vulnerabilidade diante de Shura.

— Te quiero... — o espanhol não deu ouvidos, mordiscou o lábio inferior, inebriado com o cheiro dele.

Os dedos pálidos emaranharam-se nos fios sedosos e perfumados. Shura se agarrava naquele homem desesperadamente, precisava tê-lo, precisava senti-lo... Seu corpo gritava por ele.

(#)

Per amore hai mai corso senza fiato?

(Por amor, já correstes sem fôlego? )
Per amore perso e ricominciato?

(Por amor, perdeu e tentou outra vez? )
E devi dirlo adesso quanto de te ci hai messo

(E deves dizer agora quanto você já se dedicou )
Quanto hai creduto tu in questa bugia

(Quanto você acreditou nesta mentira.)

(#)

Máscara da Morte queria voltar atrás e não ter iniciado aquilo, pois uma vez que provasse o gosto e o sentimento de ter o ser amado nos braços não tinha mais volta. Ele sabia disso, sempre soube e se amaldiçoava por ser tão fraco.

— Shura... — ofegou separando os lábios e afastando o corpo convidativo.

Mas o espanhol não queria realmente se afastar.

Máscara da Morte recuou uns passos para trás não encarando o rosto do espanhol, pois sabia que se o fizesse cometeria o mesmo erro e seria impossível se afastar dele novamente. Porém ele não pôde atender a essa necessidade... Inevitavelmente seus olhos foram direcionados automaticamente aos dele.

“Droga...”

Shura estava lindo.

Máscara da Morte odiava aquela maldita expressão excitada do ex.

O espanhol ofegava com a respiração pesada e a boca entreaberta.

O italiano fechou os olhos e contou pacientemente até três.

— Quer saber?

(#)

E sarebbe come se questo fiume in piena

(Seria como se, todo este rio, )
risalisse a me, comme china al suo pittore
(Viesse em minha direção, como a gravura sobre o seu pintor.)
Per amore hai mai speso tutto quanto la ragione

(Por amor, nunca gastou tudo, até mesmo a razão?)
Il tou orgoglio fino alpianto. lo sai stasera a resto

(O teu orgulho em lagrimas? Sabes que fico esta noite)
No non nessun pretesto

(Não tenho nenhum pretexto.)
Soltanto una mania che è ancora forte e mia

(Apenas uma mania, que continua forte e minha)
Dentro quest'anima che strappi via
(Dentro desta alma que chora a distância. )

(#)

—... Foda-se. — Dito isso Enrico puxou o espanhol pelo braço e prensou-o contra a pia, agarrando-o fortemente pela nuca.

Um novo beijo muito mais intenso aconteceu. Shura mesmo surpreso com aquela ação repentina correspondeu, amando a sensação de estar sendo dominado por aquele homem. Quantas noites durante todos os oito meses desejou tê-lo daquele jeito, faminto... Sedento pelo seu corpo? Cansou de fazer amor sozinho lembrando-se deles juntos. Por deus, amava aquele homem. Tudo o que havia feito, todos os riscos que correu foi por causa daquele amor tão grande que não cabia dentro do peito.

As mãos avidas deslizaram pelas costas, chegando na cintura e em seguida desceram suavemente no traseiro farto. O italiano cravou os dedos nos glúteos deliciando-se com a carne fofa e ao sentir o volume entre as penas se formar mordeu os lábios do ex-amante louco de desejo.

As bocas não se desgrudavam um minuto sequer.

Máscara da Morte teve os botões de sua camisa arrancados impacientemente. Os lábios se separaram para o espanhol poder degustar a vontade o peitoral bronzeado com a língua.

Enrico riu baixinho, um riso meio sacana e rouco, adorando aquela carícia. Suas mãos grandes acariciaram os fios cheirosos de Shura, sentindo sua maciez enquanto a cabeça descia, ficando cada vez mais próxima ao conteúdo no meio das pernas. Então, seu cinto fora retirado de forma apressada, mas o zíper fora aberto lentamente causando arrepios devido à pressão na ereção desperta. Ele gemeu e jogou a cabeça para trás, arfou e involuntariamente puxou os fios do espanhol com força diante da intensa excitação que sentia.

Shura se acabava distribuindo beijos e lambidas na barriga exposta e com poucos pelos, ao mesmo tempo em que baixava a calça do italiano. O volume por baixo da peça íntima era imenso, satisfeito com o que via diante de seus olhos o espanhol beijou aquele local demoradamente.

Máscara da Morte não protestou, também nada dizia, apenas sentia. Sentia seu corpo arder de paixão e seu coração dar saltos involuntários dentro do peito enquanto de olhos fechados sentia as mãos alheias envolta de seu quadril, segurando-o firme como se estivessem impedindo-o de fugir. Sorriu, embora não quisesse admitir nem em pensamento que também sentia uma saudade filha da puta daquele espanhol desgraçado, mas a ferida em seu coração ainda não havia cicatrizado e todas as vezes que o rosto dele invadia seus pensamentos ela fazia questão de latejar e assim relembrá-lo dos motivos pelo qual não deveria ter mais aquele homem em sua vida.

Só que existiam correntes que os mantinham fortemente presos um ao outro. Malditas correntes sempre o relembrando que mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tamanha traição o maldito amor nunca havia sumido. O amor ingrato que fazia lágrimas brotarem nos olhos e sangue escorrer do coração toda vez que a saudade apertava.

Enrico teve seus pensamentos interrompidos pelos dedos de Shura que passeavam na parte íntima por cima do pano. O espanhol se deliciava com os sons contidos que deixavam os lábios do italiano, sorriu sentindo o peito tomado pela saudade, fazia tanto tempo que ele não tocava a pele amada.

Shura sabia que o tempo e o lugar não eram favoráveis e que precisava ser mais rápido, porém, queria tanto degustar os caminhos já muito traçados daquele corpo com calma, só que seu corpo gritava pelo dele, desejando-o tê-lo dentro de si o quanto antes. Diante desses pensamentos ele retirou por completo aquela cueca incomoda e enfiou toda a ereção na boca.

Os gemidos antes contidos passaram a ganhar elevados sons, causando arrepios em Shura, tanto que se viu obrigado a aliviar a sua própria tensão sexual.

Enrico estava em outro mundo com a cabeça apoiada na parede gelada, a respiração densa e os olhos dilatados pelo prazer, suas mãos se fechavam na cabeleira de Shura impulsionando os movimentos.

Shura apesar de sentir um pouco de dor adorou aquilo, adorou saber que estava proporcionando prazer a sua pessoa amada, depois de muitas decepções aquilo era maravilhoso para si, por isso aumentou a velocidade de seus movimentos colocando o máximo de pressão com a língua, desejando que ele atingisse o orgasmo o quanto antes.

— Ain-da... não... Shura... Porra. — grunhiu, não queria atingir o clímax, era cedo demais, Máscara da Morte desejava possuí-lo e derramar sua semente dentro dele, como nos velhos tempos. E o mais importante: queria que juntos chegassem ao limite. Juntou forças que não imaginava possuir num momento tão crítico como aquele e para deter Shura puxou-o pelo braço obrigando-o a levantar-se.

Shura teve o corpo virado e prensado contra a pia, sem sequer ter tempo para assimilar aquela ação repentina. Nesse meio tempo sentiu os dedos frios de Máscara da Morte se fecharem com impaciência nos fios de sua nuca chegando a machucá-lo durante o ato e logo a boca fora tomada num beijo longo, impaciente, molhado e intenso. Aquilo era mais do que Shura podia esperar. Nem em seus sonhos mais eróticos e apaixonados imaginou que seu amado tomaria tal atitude na situação complicada em que eles estavam, ele nem sequer cogitava que as coisas tomariam aquele rumo quando entrou naquela boate.

O beijo se apartou um tempo depois e os olhos se encontraram, apaixonados... Loucos e insanos.

— Io ti amo... Disgraziato.

Shura sentiu o coração vacilar diante daquela declaração, sem mais se conter partiu pra cima do italiano envolvendo seus braços em volta do pescoço dele, voltando a unir as bocas úmidas, dessa vez de forma lenta e carinhosa.

— Te quiero... — declarou no meio beijo. — Te quieto mucho mi amor, mi vida... — Shura foi sentado na pia e teve as calças retiradas junto com a cueca.

Máscara da Morte abandonou os lábios doces que sussurravam declarações de amor, para beijar-lhe o pescoço, sentir o cheiro másculo e único que só Shura tinha, cruzou caminhos do corpo com a ponta da língua até o início da barriga e deixando chupões por onde passava.

Ao chegar onde desejava depositou um longo e molhado beijo na glande do sexo, apertou vagarosamente entre os dedos, ouvindo um suspiro e sentindo o estremecer do corpo.

— Rápido... — pediu Shura não suportando mais aquela tortura toda. — Faça rápi-!

E assim teve as palavras impedidas e substituídas por um gemido lânguido e involuntário. Shura olhou para baixo assistindo seu falo sumir dentro da boca do italiano. Engoliu seco, mordeu o lábio inferior e apertou os olhos. A sucção era forte e rápida, era como se Enrico quisesse sugar tudo que havia dentro de si.

— N-Não... — choramingou observando a cabeça descer repetidas vezes e subir na mesma velocidade, desarrumando a cabeleira farta. Shura sabia que Enrico não ia parar mesmo que implorasse. — E-Eu... Eu vou...-!

Máscara da Morte cessou os movimentos.

— Dessa vez vou entrar sem preparo espanhol... — não havia mais tempo, já havia começado tudo muito rápido. Os japoneses deveriam estar irritados com sua demora, por isso ele não podia perder tempo... Só não ia embora de lá porque seria um desperdício deixar seu espanhol ali naquele estado.

O italiano não esperou uma resposta ou qualquer palavra do outro diante de sua revelação, Shura estava em outro mundo, perdido na própria excitação. Aos olhos de Enrico aquele olhar vago e dilatado de prazer em conjunto da face rubra era um convite para invadi-lo sem preparo, era tentador demais, portanto ele mesmo abriu as pernas do ex-amante deixando-o completamente exposto diante de si.

Shura era mesmo um filho da puta, como podia ser tão perfeito? Máscara da Morte queria matá-lo por ter aparecido e por ter o feito sentir novamente o prazer que era tê-lo nos braços, quando tudo o que mais quis nos últimos meses era esquecê-lo, apagá-lo de sua vida para todo o sempre.

— Mas é um miserable, um sfortunato... — murmurou puxando o ar entre os dentes com desejo. Colocou as duas pernas em volta de sua cintura, entrelaçando-as. — Shura seu maledetto... Que visão mais magnifica... Dio mio.

Guiou-se até o meio das nádegas fartas, cravando os dedos nelas, separando-as para ter mais acesso aquele local que pulsava ansiando recebê-lo.

— Você vai gritar espanhol... — anunciou fechando sua boca faminta no queixo pálido e vagarosamente invadia o corpo do ex-amante sentindo as paredes internas apertá-lo. — Nossa...

Shura deixava seus gemidos de prazer e dor preencher as paredes do banheiro vazio e silencioso, sentia como se seu corpo estivesse se partindo, mas ele estava apreciando a dor causada pela invasão.

Quando sentiu que o italiano havia entrado por completo e se acomodado em seu interior, ele mesmo impulsionou seu quadril para a frente, a fim de senti-lo muito mais, muito mais profundo, muito mais forte, muito mais rápido, muito mais prazeroso e muito mais dolorido. Não importava se ardia e latejava o que importava era que ele estava lá, dentro de si, o sentindo na mesma intensidade que estava sentindo.

As estocadas começaram lentas, pois o corpo do espanhol era muito apertado... O que dificultava os movimentos do italiano, mas conforme a lubrificação do mesmo se espalhava em suas paredes tornando-as escorregadias, a penetração foi ficando mais fácil até Shura acostumar-se completamente com o volume dentro de si.

Shura sentia as costas prensada contra o imenso espelho da pia, pois a força que ele arremetia para dento de seu corpo era bruta, as investidas eram firmes tocavam com frequência seu ponto sensível, levando-o ao delírio. Seu membro cutucava a barriga do italiano sendo praticamente esmagado.

Os sons das peles suadas se encontrando, se debatendo com força em conjunto dos gemidos e respirações produziam ecos nas paredes do silencioso banheiro, fazendo com que o prazer de ambos aumentasse cada vez mais.

Os espasmos foram dando seus primeiros sinais do gozo, os sons dos gemidos se tornaram mais altos. Enrico fechou os dedos no sexo de Shura e não tardou para o orgasmo vir, arqueando as costas do espanhol que não conseguiu conter o grito.

Enrico mordeu seus lábios, chupou-os como se estivesse degustando uma doce fruta e depois o beijou com fúria. Quando o beijo findou-se esperou-o recuperar as forças, sentindo-o deitar a cabeça em seu ombro ofegante.

Os dois ficaram naquela posição, até Shura erguer o rosto e fitar seu enamorado de frente, beijou-lhe os lábios singelamente e encostou as testas sentindo os novos movimentos densos ganharem velocidade, mordeu o próprio lábio com força sentindo o gosto ferroso de sangue e em seguida voltou a encostar-se no espelho para suportar a fúria da excitação do italiano.

Máscara da Morte também estava perto de atingir seu limite, segurava a cintura do espanhol com firmeza não contendo a velocidade que seu falo adentrava e saia do corpo dele. Olhou para baixo a fim de visualizar a conexão dos corpos sentindo o suor escorrer fino e gelado pela espinha, seu membro sumia dentro do corpo amado.

Shura novamente impulsionou o corpo para frente voltando a abraçá-lo e beijá-lo nos lábios. Aproximou a boca do ouvido depositando uma leve mordida no lóbulo da orelha e depois contornou com a ponta da língua toda sua extensão.

— Ahh, Shura... Isso. — Enrico puxou ar com os dentes.

— Te quiero... — sussurrou o espanhol mergulhando as narinas no pescoço alvo. Enrico chegou no limite diante daquela declaração derramando toda sua essência dentro do corpo amado. — Te quiero... Enrico... ¡No te vayas

— Shura... — o espanhol teve os pensamentos interrompidos pela voz serena de Shiryu. Piscou duas vezes desviando-se das lembranças para encará-lo apropriadamente.

— Sim?

— Chegamos. — anunciou.

O espanhol acenou retirando o cinto de segurança. Viu Shiryu descer do carro e fazer a volta para abrir a porta do passageiro e ele poder sair.

— Obrigado, Shiryu. — agradeceu.

Shura sentiu a brisa gelada bater em seu rosto e fechou os olhos para ter melhor proveito daquela sensação tão única.

Shiryu bateu a porta do carro e o guiou até o outro lado da rua, direcionando-o à entrada de um prédio alto e espelhado. Ao adentrarem cumprimentaram a recepcionista e depois se dirigiram aos elevadores.

Shiryu tomou a frente apertando o botão que chamava o elevador. Os dois esperaram em torno de dois minutos, quando o elevador chegou, Shiryu perguntou antes que o companheiro entrasse:

— Quer que eu vá com você?

Shura deteve um passo a frente e ficou um tempo pensando naquela pergunta, imaginava que aquilo levaria um bom tempo e não desejava deixar seu amigo esperando.

— Você deseja ir? Acredito que vai demorar um pouco.

— Sim, eu sei. — Shiryu suspirou. — Perguntei mais para me certificar de que não vai precisar de mim, vá que aconteça algo mais sério lá em cima. Você sabe que estes tipos de ambientes sempre acabam daquele jeito...

Shura riu soprado diante do comentário do outro.

— Não se preocupe, vou ficar bem. Qualquer coisa eu te ligo. — disse mesmo tendo certeza que não o faria, apenas quis deixar o asiático livre de preocupações.

Shiryu hesitou, mas não podia desacatá-lo, por mais que fossem amigos de longa data, Shura ainda era seu superior.

— Tudo bem, vou ficar no carro esperando. — decidiu por si e fez um sutil gesto indicando ao espanhol que entrasse no elevador, pois as horas corriam.

Shura adentrou o elevador, girou para fitar Shiryu que apertava o botão do nono andar, ele deu um singelo sorriso expressando ao amigo tranquilidade e assim as portas se fecharam. Sozinho, o espanhol encostou-se no imenso espelho se perdendo novamente em suas lembranças.

Ele estava sentado no piso frio do banheiro vestindo apenas sua camisa social aberta que deixava parte do peito exposta, a calça em conjunto da roupa íntima estavam jogadas no chão ao seu lado. Seus olhos acompanhavam cada pequeno movimento de Enrico de costas para si, se vestindo em silêncio.

— Aonde você vai? — perguntou interrompendo aquele silêncio incômodo.

— Aonde mais? Vou lá tentar dar uma desculpa aos japoneses pra não acabar com o meu negócio...

— Eles vão te matar.

Máscara da Morte terminou de colocar o cinto e respirou fundo antes de girar o pescoço e encarar o espanhol sentado no chão.

— Sabia que estava blefando quando disse que eles iam morrer você não teria coragem de começar uma guerra com a Yakuza por minha causa. — riu. — Cuide dos seus negócios que dos meus cuido eu, Shura.

— Deja de ser tercou, eles não querem fazer negócios com você, vão te arrastar pra fora daqui e te matar, estão aqui a mando dos chineses. — argumentou Shura — Os chineses descobriram que você está vivo, por isso deixaram a Aliança achando que estavam sendo enganados e com isso se uniram a Yakuza e agora querem sua cabeça, não percebe que isso não passa de uma armação?!

— Chega! — desbravou. — Escuta aqui Shura! — Shura encarou o rosto aborrecido do italiano com atenção, enquanto ele lhe apontava o dedo. — Se você ousar se meter no meu caminho, eu te mato.

Avisou apanhando suas roupas no chão. Vestiu o blazer, mas sem a camisa—já que ela se encontrava com todos botões estourados—, sem olhar para o espanhol, caminhou até o lixo e jogou aquela camisa junto da gravata fora. Depois parou em frente ao espelho e puxou seu telefone do bolso da calça, passando os dedos no aparelho em busca do contato desejado.

— Milo? Sim, sou eu... — Shura ouviu uns ruídos estranhos vindo do telefone, mas não soube identificar o que a pessoa do outro lado dizia. — Eu sei imbecil, estou com um problema enorme aqui. — Houve uma pausa para a resposta — Ah, você estava preocupado? É mesmo? — outra pausa — Então porque não ligou antes?! Hã? — ele ouviu gritos — Vai ‘pro inferno. — Shura sorriu lembrando-se dos velhos tempos quando aquele lugar que agora era ocupado pelo tal Milo foi seu um dia. — Quero que me traga uma nova camisa aqui no banheiro! NÃO SEI PORRA, ARRANJA! ROUBA DE ALGUÉM, COMPRE NUMA LOJA... NÃO SEI, SÓ ME TRAZ UMA CAMISA EM DEZ MINUTOS. — E desligou sem deixar o outro dizer uma palavra a mais.

“Tão típico” pensou Shura.

Enrico encarou seu reflexo no espelho e bufou.

— Pelo amor de Deus, se vista, daqui a pouco Milo estará aqui. — ele pediu abrindo a torneira, enchendo as mãos de água e jogando no rosto. Shura acompanhava tudo em silêncio, ainda sentia um pouco de cansaço e dor, seu corpo não estava completamente recuperado.

— E agora? — sua pergunta interrompeu o silêncio.

— E agora o que? — questionou o italiano olhando-o de canto.

— Como ficamos? — O riso rouco que Máscara da Morte deu, o fez estremecer de nervosismo e medo.

Aquilo não era bom... Tinha um mau pressentimento.

— Não ficamos. — Shura baixou a cabeça e engoliu a aflição a seco.

— Nós-!

— Não existe mais nós, Shura. O que aconteceu aqui foi um erro... Não vai mais acontecer.

— Por favor, não fode comigo, depois do que fizemos aqui...

— Como eu acabei de dizer-...

— Você disse que me ama-!

— Sua memória é curta por acaso?! Esqueceu o que você me fez?!

Shura tremeu, engoliu seco e disparou sem hesitar.

— Eu só quis te salvar, seu cabezota isso por acaso foi um pecado? Salvar seu traseiro foi traição? — Os olhos do italiano se mostraram sérios ouvindo atentamente aquele desabafo inconformado — ME DIZ ONDE EU ERREI? EU SÓ QUIS TE SALVAR, É TÃO DIFÍCIL ASSIM ENTENDER? POR QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE COMPREEN-! — o espanhol teve seu desabafo interrompido por duas batidas fortes e firmes na porta.

— Shura! — os dois olharam para a porta fechada ao ouvirem a voz de Shiryu do lado de fora. — Tem um cara chamado Milo aqui, ele disse que quer falar com Máscara da Morte...

Shura não respondeu de imediato, seus olhos voltaram a encarar o homem a sua frente lacrimejando cheios de tristeza, só queria que ele entendesse.

Enrico colocou as duas mãos na cintura e bufou.

— Eu sinto muito Shura. — disse. — Mas ainda... Não é o bastante.

— O que você quer de mim então?

— Eu já disse antes, não me faça repetir. Vamos acabar logo com isso, diga para o seu cãozinho liberar a porta.

Shura respirou fundo e respondeu a Shiryu num tom firme, porém sem desviar o olhar do italiano.

— Tudo bem, eu permito Shiryu.

— Eu não disse pra você se vestir?! — relembrou italiano incomodado com a nudez de Shura. — Se vista logo, ou se esconda.

Dito isso Enrico caminhou até a porta abrindo apenas um vão.

Shura sentiu um nó incomodo se formar na garganta, não sabia como organizar seus pensamentos depois do recente diálogo, mas tinha consciência de que precisava agir e parar de pensar besteira para recuperar seus sentidos. Até porque o homem que amava estava correndo sérios riscos naquela noite e ele precisava fazer algo para impedir.

Portanto levantou-se do chão apoiando a mão na parede e sentindo cada músculo seu latejar de dor, apanhou seus trajes jogados no chão e fitou sua figura completamente desamparada no espelho.

“E agora Shura o que você vai fazer?” Se perguntou em pensamento ainda encarando-se. Observou que no próprio peitoral havia incontáveis marcas de chupões.

Ouviu o italiano discutir falando num tom elevado com Shiryu na porta impedindo-o de falar com Milo e em seguida fechá-la voltando para o centro do banheiro, parando ao seu lado e de frente para o espelho. Notou que ele trazia algo em mãos, Milo havia conseguido uma nova camisa de cor branca e uma grava negra pra ele.

Enquanto Enrico vestia sua roupa, Shura o encarava pelo reflexo do espelho.

— Não me olhe com essa cara... — chateou-se o italiano colocando a gravata.

Ele deu uma última ajeitada no cabelo e vestiu o blazer, porém, antes de sair encarou o espanhol uma última vez e avisou: — Já sabe... Nem pense em fazer nada para atrapalhar meu negócio...

— Ou? —Shura indagou surpreendendo a si mesmo pelo tom de voz desafiador.

— Te mato.

— Suas ameaças não surtem mais o mesmo efeito, Enrico.

— Não diga esse nome, já falei que você não é digno...

— E eu também não vou desistir depois de ter chego tão longe. Você vai ter que me aturar. — O italiano riu alto. — Eu falo sério.

O espanhol crispou os lábios e prendeu a respiração quando Enrico passou reto rumando à saída, porém Shiryu estava lá em prontidão.

— Saí do meu caminho Shiryu!!!

— Shura?! — Shiryu indagou esperando a ordem do chefe.

O espanhol respirou fundo, sentindo uma imensa vontade de chorar, mas novamente aguentou firme, já tinha passado por coisa pior, não podia fraquejar numa hora como aquela.

— Tudo bem Shiryu deixe-o ir.

Mas antes que Shiryu liberasse a saída, o italiano encarou o moreno de longos cabelos com raiva contida não recebendo nenhuma reação em resposta, depois voltou-se para dentro do banheiro para fitar as costas do espanhol, forçou as sobrancelhas e ralhou num tom aborrecido.

— Porra, mandei você se vestir, não tem pudores, seu espanhol desavergonhado?! — dito isso saiu deixando os dois homens abismados com aquela mudança de comportamento repentina.

Shura riu ao lembrar-se deste fato, Máscara da Morte era tão imprevisível, nunca cansava de surpreendê-lo. Porém, aquela noite não havia acabado ali no banheiro.

Seu pessoal ficou na boate naquela noite sob suas ordens, eles teriam que se manter fora do alcance do italiano, evitando serem vistos e percebidos por ele, mas tinham total autorização para eliminar qualquer ameaça que pudesse prejudicá-lo.

O resultado final foi aquele já previsto por Shura, suas suspeitas haviam sido confirmadas, os Japoneses tinham mesmo intenções de assassinar o italiano e toda a sua tropa. O espanhol acabou envolvido no conflito junto de seu pessoal, felizmente ninguém do seu lado saiu gravemente ferido naquele combate.

E assim tem sido desde então, Enrico se mete em território inimigo e Shura aparece para livrar o traseiro dele, como nos bons e velhos tempos.

O nono andar chegou e lentamente as portas se abriram revelando uma presença forte e masculina em pé no corredor daquele andar, estava em frente ao elevador, trajando um terno fino de cor branca.

Enrico falava ao telefone e parecia extremamente furioso com a pessoa do outro lado da linha, mas não tirava os olhos faiscando do homem a sua frente.

— Va tutto bene, Dohko!! — rosnou. — Já entendi, com quem pensa que está falando, stronzo? — e desligou furioso.

— Boa noite, mi amor. — Shura desejou sorrindo ternamente e dando um passo à frente, ficando perigosamente perto do italiano raivoso.

(#)

E te lo dico adesso sincero con me stesso

(E te digo agora, sincero comigo mesmo)
Quanto mi costa non saperti mia …

(Quanto me custa não seres minha.)

(#)

Como resposta recebeu um olhar reprovador.

— Disgraziato, não aprende mesmo, até quando pretende continuar se metendo no meu caminho? Estava falando com Dohko. Ele está furioso e preocupado com você...

Shura previa que sua chegada fosse revelada pelo amigo, Dohko ficou o dia inteiro ligando inquieto com aquilo, já havia previsto que o chinês fosse entregar seu plano de salvá-lo das mãos dos suecos. O sorriso dissimulado do espanhol se abriu diante daquela falsa revolta.

— Quantas vezes vou ter que pedir para não se meter no meu caminho, maledetto?

— E quantas vezes vou ter que repetir que não vou te deixar em paz até que me aceite de volta? — Shura deu um passo à frente ficando perigosamente perto e levou a mão ao rosto aborrecido do italiano.

Sorriu amorosamente, mesmo depois de tanto tempo longe de Enrico, mesmo entre brigas, recaídas e lembranças dolorosas, a certeza de o amava ainda habitava dentro do peito.

Amava-o com todo o seu coração. Ele era o seu mundo, sua loucura, sua vida, sua morte... Era seu tudo, se fez o que fez foi por amor. E faria tudo de novo se tivesse a oportunidade de voltar no tempo, mesmo sabendo dos riscos.

Shura iria até o inferno por causa daquele amor infinito que não cabia dentro do peito.



(#)

E sarebbe come se tutto questo mare
(E é como se todo este mar)

annegasse in me
(Se escondesse dentro de mim.)

(#)

Notas finais
Espero que tenham apreciado. ^^'Obrigada a quem chegou até aqui, leu e comentou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!