Pequenos Trechos 2
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Notas iniciais
Você pode passar a noite toda a setenta ou a dois centímetros de distância. Você pode colocar sua língua dentro da boca dela. Você pode tirar a roupa ou não tirar nada. Pode fazer sexo anal ou apenas massageá-la. O que importa é que você se relaciona com ela. Em vez beijo e sexo, há incontáveis modos de relacionamento, interfaces de contato, profundidades de toque.
Pegá-la no colo, beijá-la na boca, conversar, massagear, fazer um 69 em pé, penetrá-la por trás, acariciá-la, respirá-la, lamber seu suor, escrever para ela… É tudo a mesma coisa! Se colocar fronteiras entre olhar, conversar, tocar, beijar e transar, vai ter de ultrapassá-las uma a uma, de modo previsível. Se não enxergar fronteiras, nem ela nem você vai entender como foram parar nessa posição exótica no chão da sala.
Inspire o ar pela boca quando for beijá-la. Puxe lentamente como se quisesse respirá-la para dentro. Não foque a boca dela, relacione-se com ela inteira. Em vez de tentar fazer algo com os lábios e a língua, mova todo o corpo. O beijo acontece por si só. E, quando acontece, ele nunca é um beijo.
Para transar, não use o corpo, penetre o quarto inteiro. Você ouve “Stop this train”, sente o cheiro de baunilha que ficou da barra de massagem, agarra o quadril dela, olha para a janela aberta e mete em tudo isso. Movimenta, invade, faz tremer. De alguma forma, na sua mente, pelos seus cinco sentidos, pelos cinco sentidos dela, a cidade inteira goza.
Por fim, não estranhe se ela também não souber o que acabou de acontecer:
“Nossa, o que foi isso?”
Silêncio sepulcral.
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