Pequenos Anjos

1 Minha história


Notas iniciais
Essa é uma oneshot que eu precisava escrever. Talvez eu tenha errado em minha escrita e não esteja perfeita porque é algo extremamente importante para mim. É uma carta de despedida ao meu bichinho que a dois meses foi roubado de mim. É uma declaração de amor e agradecimento à Charlie, meu anjinho. Minha historia é diferente da de Gabrielle, mas Charlie teve a mesma importância que a relatada aqui. Eu chorei enquanto escrevi e espero que possa transmitir um pouco de amor para você. E Charlie, onde quer que esteja, eu te amo e espero que esteja feliz...

Tudo que nasce e morre tem um propósito. Até aquela aranha no canto da parede veio à vida por algum motivo. Todo o destino é traçado de pequenos pontos que, isolados, podem parecer insignificantes, mas unidos formam a mais bela de todas obras de arte.

Porém, algumas vezes, o destino se torna cruel com as pessoas mais puras de coração. E para que elas sobrevivam, são enviados anjos para cuidá-las e consolá-las.

Gabrielle é uma dessas pessoas. A alma dela é branquinha como algodão e seu jeito é mais doce do que milhares de brigadeiros e potes de nutella juntos. Mas ela cometeu um erro que mudou a sina dela e amargaria seus dias. E esse erro foi na forma um homem mau se passando por ovelha. E ela amou aquela máscara e deixou que ele a levasse ao altar.

Ela sofreu no início, mas o caos ainda não tinha tomado conta da vida dela quando surgi. Foi por nuvens ainda mais negras progredirem em rumo à sua direção eu fui enviado para ajudá-la.

Meu nome é Charlie. E eu era o menor da minha ninhada. Minha pelagem é cor de nuvem e tenho olhos da cor do céu. Ah, eu não te contei? Pois é, eu sou um gato. Surpreso? É normal. Alguém, um dia, contou que os anjos possuíam forma humana e fez vocês pensarem que todos eram assim. No entanto, quem disse isso não tinha conhecimento de que os animais que vivem na terra, ao lado dos humanos, são, na verdade, anjos da guarda.

Na terra eu nasci tão frágil, que ao me olhar Gabrielle se viu. O fato de ter sido sempre a mais emotiva de sua família fez com que todos a considerassem a menor, mais fraca e quebradiça. Isso a marcou muito e fez com que ela se afeiçoasse ao bichinho com o qual se identificou e que mal conseguia se alimentar. Quando viu que eu precisava de ajuda, decidiu me levar para sua casa e cuidar do desnutrido filhotinho. Lá era uma casa pequena e muito limpinha, com milhares de tapetes coloridos de crochê espalhados por todo canto.

“Aqui vai ser seu lar, meu bebe! E vou te fazer o gatinho mais feliz do mundo!” Ela prometeu enquanto acariciava meu pêlo com a ponta dos dedos. Naquele momento eu passei a ama-la com todo meu pequeno coração. Eu sequer sabia que nós, anjos, podíamos amar e se apegar dessa forma, mas logo eu senti que podia passar a eternidade em volta dela e seria absolutamente feliz, sem precisar de mais nada além do toque carinhoso de seus dedos ou seu sorriso. Somente tempos depois eu descobri que, na verdade, todos nós, anjinhos de quatro patas, nascemos com a capacidade de sentir o maior e mais puro amor do mundo. Por isso naquele momento foi uma novidade enorme e que me fez sentir toda alegria existente no universo.

Gabrielle me alimentou nos próximos dias com uma seringa até que eu aprendesse tomar leite sozinho. Dei muito trabalho! Achava aquela seringa esquisita e assustadora e muitas vezes me esquivava na hora do mamar. Mas ela sorria e falava com voz de amor para me convencer a tomar, até que eu entendesse que era bom o que ela me dava.

Pouco depois que cheguei lá, conheci o marido dela. Ele era um brutamontes de risada maléfica que cheirava a álcool. E ele me chamava de rato de laboratório! Uma ofensa enorme para qualquer felino! Não fui capaz de entender naquele momento o porquê a mulher mais linda que existia se uniu àquele tipo de pessoa grosseira. Era um verdadeiro monstro casado com uma princesa.

Nos dias que foram se passando, fui ficando elétrico. Faíscas percorriam meu corpo e eu precisava solta-las em forma de saltos e corridas com obstáculos. E para desenvolvimento da minha mente, treinava desenrolamento de papel de banheiro humano e desfazer novelos de lã. Mamãe, como passei a pensar em Gabrielle, ria das minhas travessuras sempre e às vezes ela tentava me esmagar e sufocar com beijos e abraços. Criamos assim a brincadeira “tente fugir do colo da mamãe“, onde meu objetivo era fugir dos braços dela através de contorcionismos cuidadosamente estudados. Eram os momentos mais felizes e riamos juntos os tempo todo.

A maioria dos nossos dias foram tranquilos nos primeiros três meses juntos. As poucas vezes que mamãe ficou triste ela me abraçou até que passasse. E fiz de tudo para que ela risse bastante, aprontei mil e uma travessuras para ver ela gargalhar. Eu sabia que ela ia precisar de um estoque de alegria para o que viria a seguir.

E então esse dia veio. Aquela fera chegou em casa fedendo muito e praguejando pelas mínimas coisa. Mamãe ouviu tudo sem retrucar, mas eu vi lágrimas em seus olhos. Me esfreguei nas pernas dela para acaricia-la antes que ele me tirasse do quarto dos dois é trancasse a porta. Não vi o que aconteceu mas ouvi gritos e choro. Pela primeira vez na vida senti que meu peito rasgava por dentro, doía demais saber que ela estava sofrendo. Desejei poder chorar como os humanos e expelir toda aquela tristeza para fora. Não dormi até que chegasse o outro dia.

Quando o sol raiou, ele se retirou para trabalhar e ela saiu do quarto. O olho roxo denunciava a agressão. Ela foi até mim e me segurou no colo. Chorou como criança. Eu não podia falar com ela, mas ronronei o tempo todo para que ela soubesse que eu queria estar ali, cuidando dela.

“Você e eu ainda vamos ser muito felizes, Charlie. Nós dois juntos, não vamos mais passar por nada disso. Nada vai nos separar meu amor.” Ela disse entre soluços. Era uma promessa para si mesma. Percebi que ela estava começando a criar a força que precisava, e uma pontada de dor me atingiu. Minha missão ao seu lado seria completa muito rápido e então eu teria que partir.

Com o passar dos dias, as coisas foram piorando no casamento dos dois. As agressões eram verbais na maioria das vezes é isso foi destroçando o coração da minha mamãe. Vi o peso dela cair bruscamente, as olheiras surgirem e o sorriso sumir. Ela ainda brincava comigo, mas havia dias em que apenas me abraçava e transbordava lágrimas.

“Você é a única coisa boa que eu ainda tenho, Charlie. É a única coisa que eu tenho para amar. É o que não me deixa desistir da vida.” Tantas vezes mamãe disse isso.

Porém toda aquela dor era um processo de crescimento. Gabrielle tinha uma missão linda no mundo e precisaria ter força. Cada lágrima derramada irrigava um terreno de onde brotaria uma mulher invencível. Eu era o que amenizava a dor e não deixava que ela desistisse de tudo durante esse processo.

Seis meses foram assim. Seis meses ela chorou e cresceu. E no fim desse tempo, pressenti o fim da minha missão também. Eu me tornei o apoio de mamãe, o amor da vida dela, como ela dizia. E se eu continuasse ao seu lado, ela viveria por nós dois, por nossa felicidade. Mas Gabrielle nasceu para mais, nasceu para o propósito de cuidar dos anjos abandonados, dos anjinhos cujo seus protegido os jogaram nas ruas e os impediram de cumprir seu propósito. Os animais que vieram para salvar corações e agora precisavam ser salvos. E eu não tinha o direito de impedir isso, não era certo acabar com uma missão por minha vontade de ficar ao lado dela. Isso era egoísta e o egoismo não faz parte do amor.

Então chegou o dia. Seu amor por mim a mostrou que ela tinha motivos para lutar e buscar a felicidade. Ela pediu o divórcio. A papelada estava a caminho. Era o último dia.

Estávamos em nossa nova casa, uma quitinete que ela alugou com o dinheiro do novo serviço. Era sábado e eu dormia na cama dela. Aquele dia eu a despertei mais cedo do que de costume, com milhares de lambidas. Eu a persegui cada segundo daquela manhã. Enquanto tomava banho, eu aranhava o boxe com as patinhas, como sempre fiz. Enquanto comia, eu roubei um pedaço de seu pão e enviei o fucinho dentro do pote de margarina. Ela me deu leite e um milhão de beijos. Brincamos muito mais do que todas as manhãs. Subi na comoda e joguei seus batons no chão para ela me notar quando parou de me dar atenção. Eu sabia que cada segundo era o último e fiz de tudo para valerem a pena. Até que soube que era a hora. Ela fazia seu almoço e eu iria para fora brincar. Antes, me esfreguei em suas pernas e ronronei bem alto para que ela lembrasse que eu a amava. Cada passo que dei em direção à porta foram como se eu andasse sobre brasas e agulhas. Nunca senti tanto dor. Do lado de fora eu miei bem alto um adeus. E fui recolhido.

Eu assisti o que se seguiu. Quando ela foi me buscar e não me encontrou, procurou por toda a parte chorando. Perguntou para todos os vizinhos, andou por toda quadra banhando a rua com suas lágrimas. Sozinha, a noite ela gritou. Fitou por horas o nada enquanto chovia de seus olhos toda a dor e o sentimento de culpa por ter deixado seu bebê passear. Surtou quando foi tomar banho e eu não arranhava o boxe. Mordeu o travesseiro quando não suportou a dor de eu não dormir ao seu lado. No domingo ela quase enlouqueceu por ter que limpar a caixa de areia suja. Sabia no fundo que eu não ia voltar. Foram dias sofrendo, rios derramados cada vez que abria a porta e ninguém ia correndo recebê-la. Eu vi tudo sofrendo. Eu assistia querendo voltar e consolá-la. Dessa vez eu não enxugaria suas lágrimas.

Mas tudo tem um propósito. Minha vida a deu um motivo para lutar contra o conformismo de seu casamento. O dia que seu marido me bateu ela viu que nao podia passar a vida com alguém assim, que o que sentia não era amor. Me perder a fez ser forte o suficiente para lidar com perdas, ela precisaria disso em sua missão. E foi no semestre seguinte que ela passou em medicina veterinária e chorou por não poder me abraçar quando recebeu o resultado. Logo se tornou voluntária em uma ONG que tirava animais da rua e sei que em alguns anos ela terá a sua própria. Ela acolherá pequenos anjos em sua casa e tratará deles por amor a nossa história, por saber que cada animalzinho é especial. Foi por isso que eu não pude ficar ao lado dela. Era a única forma dela sobreviver a dor e se tornar quem ela nasceu para ser.

Mas eu continuo a vigiando. Comemoro suas vitórias e choro com suas dores. Eu mando meu amor para aquece-la quando ela fraqueja e cuido para que nada a faça perder sua doçura e fé. Ela não sabe, mas eu sempre estarei olhando por ela. Vou cuidar dela até seu último suspiro na terra, até que sua vida finde e todas as lágrimas cessem. E então ela virá ao paraíso, onde estarei esperando por ela. E nada, nunca mais, irá nos separar. Seremos nós dois por toda eternidade, unidos pelo mais forte laço de amor. Mal posso esperar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!