Notas iniciais
Comentar não cai o dedo, não machuca e me faz muito feliz. Então, deixe seu comentário e faça meu dia mais feliz! :)

Três semanas.

Três semanas, deitada, sentada e completamente congelada.

Três semanas esperando. Eu levanto algumas vezes por dia, uma pra tomar banho, algumas para realizar coisas que ninguém pode fazer por mim, mas vão diminuindo a freqüência conforme eu paro de comer. Sem comida, sem ter o que expelir. Simples.

Eu espero. Eu sei que não devia, mas eu espero mesmo assim. Eu sei que ela não vai me ligar, não mais.

Ela, religiosamente, me ligava aos domingos à noite, eu dizia o que estava me incomodando, o que eu havia feito e coisas assim, ela me ouvia... Apenas isso, não questionava, não dizia que a errada da história era eu, mesmo que fosse, mas agora ela se foi.

Eu recebi a noticia de forma razoável, não bati, não mordi, não gritei ou esbravejei, eu apenas... Apenas quis saber como:

– Como?

– Como o que? – Observei os cachos ruivos desvairados cobrindo boa parte do rosto pálido de Cass e pelo seu estado deplorável a desculpei pela burrice repentina.

– Como ela foi morta, Cass?

Seus lábios abriram e fecharam algumas vezes, enquanto, eu, apreensiva esperava pela resposta e sem perceber levava meu corpo para frente em sua direção a fazendo se encolher tremula.

– Bem... Eu preferia não ter que te dizer... Eu acho que...

– Cass!

A menção de seu nome em forma de grito fez com que Cassandra se encolhesse mais ainda espremendo seu magro e frágil corpo contra a poltrona. Certo, talvez, nesse ponto da conversa eu tenha perdido o controle, por alguns segundos, ainda sim fui uma ótima receptora.

– Bem, ela foi morta... Um assalto mal sucedido...

Sua voz amargurada e dolorida não perecia acreditar em si mesma, eu não acreditava. Detector de mentiras portátil. Olá.

– Você acredita nisso?

Ela balançou a cabeça como se fosse um barco sendo levado pelo vento, era engraçado até, eu provavelmente riria disso se não estivesse praticamente entrando em colapso enquanto meu alter ego estúpido me dizia que eu sou estúpida.

Agora eu espero e pelo terceiro domingo seguido, inquieta, espremo o celular em minhas mãos como se o aparelho fosse feito de massinha de modelar, o horário mercado é sinalizado com badaladas do sino da igreja do meio da cidade e nada.

Então, o telefone vibra, apenas uma vez, uma mensagem, o que não me faz feliz. A abro com desgosto, a observo e algo dentro de mim remexe como se dançasse feliz, mas eu não estou feliz.

Eles precisam de você. Ele precisa de você.

Essas Uma, duas seis palavras me deixam fora do meu eixo de orbita, me sinto tonta e nauseante como se estivesse num brinquedo dum parque de diversões, odeio esses lugares

– Alô?

A voz calma e ainda chorosa de Cass chega ao quarto abafada logo depois de ela atender o telefone cessando o toque tirou a minha atenção da mensagem para a conversa.

– Eu não gostaria de fazer isso agor... Eu sei, mas — Ela respira fundo, fundo de mais como se perdesse todo seu folego e loucamente tentasse o caçar de volta — Você acha que isso ira adiantar de algo, quero dizer, será que isso vai ajudar em alguma coisa, ou talvez, ela continue assim? Você não faz ideia, eu não aguento mais, ela não pode.... Eu não posso deixar isso continuar

– É, não pode

Sussurro para mim mesma e balanço a cabeça de um lado para o outro tediosa, o celular estala levemente e percebo a força que exerci sobre ele, respiro fundo liberando o aparelho do meu aperto e o jogando para longe que cai numa pilha de roupas ao fundo do comodo, a bagunça é um monstro que comeu boa parte da mobília e do piso, mas eu não me importo.

No momento eu não estou me importando com muita coisa.

– Ela precisa de você... Precisa.

Pulo para fora da cama e abro a porta com certa violência, o que é justificado pela importância do assunto, analiso as feições engraçadas de Cassie que no momento não são nem um pouco hilarias e espero por alguma fala arqueando minhas sobrancelhas como sinal de minhas intenções. Gosto de deixar minhas intenções claras logo de cara, límpida feito o mar do caribe.

– Cassie?

– É sobre o testamento — Mente. Mente descaradamente. Além de mar do caribe, é possível usar detector de mentiras, como já disse, como adjetivo para minha pessoa, eu sou uma caixinha de surpresas. — Eles querem que...Precisamos assinar alguns documentos e receber os tais bens.

Ela não mente, bem, mente, mas ela omite principalmente. Foco em não focar nisso no momento.

– E isso quer dizer que temos que ir pra Aquela cidade?

É claro meu tom de sarcasmo, mas ela parece não se importar, ou, pelo menos finge não se importar. Ela é a rainha do fingir.

– É, temos, mas Vamos agora. Vamos o mais rápido possível. — Seu tom é firme, o que me faz remexer incomodada, a muito tempo ela não usa esse tom comigo. Não a veste bem, quero dizer, ser firme não faz a cara de Cassandra, é como uma espinha protuberante no meio da testa- Vou vender essa casa, porque não aguento mais esse carpete — Semicerro os olhos tentando não rir dos motivos fúteis e me apoio no batente da porta me sentindo cansada, como uma idosa sedentária, me sinto horrível.

– Vou fazer minhas malas.

– Está bem — Ela brinca com o fio do telefone surpresa pela minha reação, tanto quanto eu, devo dizer, um pequeno sorriso ilumina seu rosto por alguns segundos, mas logo se transforma em uma expressão estranha de preocupação. — Querida, você não está tramando algo... Está?

Ela fica na ponta dos pés, exercendo seus dotes de bailarina aposentada, e se inclina para frente segurando no batente da porta do banheiro, para qual eu me arrastei com preguiça e dor em meus membros superiores. Sou uma gelatina com pernas.

– Se eu estivesse.. Acha que te contaria?

Arqueio minhas sobrancelhas, novamente com o intuito de lhe demonstrar minhas intenções, e ela assume uma feição confusa, jogo a toalha que pesquei no meio da caminho por cima de meu ombro e sorrio ao escutar sua resposta:

– Não. É, você não me diria.

– Posso tomar meu banho agora?