Notas iniciais
Um cap ligeiramente maior (mesmo que ninguém se importe) porque eu sou legal :) Gostaria de agradecer, a maior amante de ameixa desse país, por ser diva e comentar em todos os meus caps S2

Eu esqueci completamente de desligar meu celular, parada em frente a grade da ponte ferroviária eu observo o visor acender e apagar sinuosamente… É ele, mas não me faz querer atender de qualquer forma. Ele precisa de você. Abro a mensagem e a observo… respiro fundo e sorrindo cansada jogo o aparelho com toda raiva reprimida, ele faz um barulho engraçado na agua “Plopt”. A correnteza o leva para longe, tenho certeza. Me sento na grade, é como a beira de um precipício, o vento bagunça meus cabelos bagunçados e me lembro que tenho de ir ao Precipício antes de escurecer.

As árvores são escuras e seus filamentos parecem caminhos obscuros de alguma passagem secreta para um castelo do mal, elas dançam com o vento e os tons de vermelho, marrom e âmbar de suas folhas se misturam criando algo muito bonito, mas, levemente, macabro.

Enfio minhas mãos em meus bolsos e de um deles tiro um papel amassado, balanço minhas pernas enquanto o leio, “ … Direito aos bens de Anne Mary…” o jogo na água para que faça companhia ao celular.

Fechei meus olhos com força e apertei a minhas mãos na barra de proteção como se minha vida dependesse desse pequeno ato, e talvez eu só esteja viva nesse momento graças a isso, enquanto ele tentava não rir de mim; se minhas mãos não estivessem ocupadas teria dado um jeito nisso, teria dado adeus ao sorriso sádico.

– Porque eu deixo você me induzir a fazer essas coisas?!

Eu gritei o mais alto que eu podia, estávamos no ponto mais alto do brinquedo esperando por alguém arrumar a desgraça do motor emperrado pra que pudéssemos descer de lá, então, ninguém me escutava ou ao menos se importava.

– Ei! Calma, vai ficar tudo bem... Hay, eu estou aqui. Não vou deixar você cair, está bem?

Respirei fundo absorvendo as palavras calmas e tentando fazer com que elas me acalmassem também, se ao menos tivesse funcionado.

– Você disse que não ia me deixar fazer coisas estúpidas. Agora me diz... Porque eu estou presa nessa droga de brinquedo?! Por sua causa! Eu te odeio!

– Não, você não me odeia. – Ele tocou a ponta do meu nariz com a ponta de seu dedo e me fez abrir os olhos, e sorriu de orelha a orelha sob o casaco de meia estação puxado por cima de sua boca, por causa do frio. – Hayley...

O vento forte anuncia uma chuva forte e eu corro para longe daqui, afastando as lembranças engraçadas. Me sinto meio… velha, com todo esse negocio de lembrança, como se me arrependesse das coisas que fiz e não das que não fiz. Lembro de ver um filme sobre uma garota na segunda guerra, lembro de não entender o porque de ela se martirizar com as memorias, mas agora eu sei.

Sou uma velha amargurada.

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Fui traída pelo meu senso de caminhos secretos e acabei por não conseguir alcançar nem metade da trilha de terra até o Precipício antes que os primeiros pingos de chuva começassem a despontar do céu. Utilizei todos os xingamentos conhecidos em três línguas diferentes enquanto caminhava de volta para o café, torcendo pra não ficar gripada, completamente irritada por ter esquecido coisas importantes, como por exemplo o atalho até o Precipício.

Ao chegar no estacionamento respiro fundo umas dez vezes ao ver o carro de Cass estacionado de qualquer jeito na vaga em frente a porta dubla de vidro e talvez todo esse oxigênio extra tenha me deixado tonta. Penso em algumas desculpas, algumas absurdas de mais para passarem como verdadeiras, mas desisto de tentar me apoiar em alguma justificativa besta quando percebo que não vai fazer diferença nenhuma, vou continuar com uma “aparência” de adolescente-delinquente-que-precisa-voltar-pra-reabilitação, eu não me importo, afinal, sou a diva da clinica de reabilitação de Saragota Springs.

– Hayley!

Evito sorrir por mais que eu realmente queira e muito, irritar Cassie pode ser considerado um esporte por mim, ao me sentar no banco de estofado vermelho e rachado do Coffee Rivers deixo um rastro de água por onde passei e uma poça onde me largo. O cheiro de canela forte e o calor que emana da cozinha e das xícaras de bebidas quentes aquece o ambiente e logo minhas bochechas estão rosadas como se tivessem sendo assadas.

– Onde você estava?…

Sussurro extremamente baixo comigo mesma tombando minha cabeça para trás com preguiça, enquanto Cassandra atravessa meio café bufando e exclama:

– Onde você estava?

A maior parte de nossas discussões poderiam terminar mais rápido ou nem começar pelo fato de Cassie ser extremamente previsível e cliché, mas eu gosto da adrenalina, então, deixo as coisas rolarem. Reprimo outro sorriso e me volto a ela com preguiça, seus olhos verdes parecem felinos, mesmo na luz amarela do café, mas mesmo assim, felino de gato não de tigre.

– Dando uma volta, já que vamos embora, achei uma boa ideia… Sabe, caminhar por ai.

Controlando um grito ela se senta a minha frente, enterra seu rosto em suas mãos cheias de sardas enquanto eu observo as poucas pessoas nas outras mesas, elas não parecem se importar, continuam a fazer o que lhe cabe, algumas reclamam da chuva, mas fora isso, nada. Me volto a Cass, as vezes ela parece ser mais velha do que realmente é e vice versa, como se mudasse a idade conforme o humor.

– O que está acontecendo?

Percebo que não notei Joe chegar e que acabei de ter um de meus atrasos, são pequenos momentos que eu apago totalmente da minha mente, como se não tivessem existido e por consequência aparento ser meio desligada até mesmo burra em algumas ocasiões. Tento não pensar nisso no momento, mesmo que isso seja uma das coisas que mais me irrita em mim mesma, é capaz de chegar a ponto de eu me tornar um peixe de Procurando Nemo.

– Cass, vamos falar sobre o real motivo de estarmos aqui… — Tento ao máximo manter o tom de minha voz constante e calmo, eu sou a rainha do tentar, conseguir já é outra história. — É só dizer que a assinatura do testamento foi apenas uma desculpa, e que a proposta não é grande coisa, sem ofender Joe…

– Que isso. — Ele pede com um aceno que eu pule para o lado e se senta no banco de courino ao meu lado se apóia na mesa com os cotovelos inclinado levemente para frente casual e tranquilo, mas Cass nota que tenho apoio moral por aqui e que é melhor não discutir, não mais.

– Eu quero voltar a morar aqui… — Respira calmamente, como se dizer em voz alta o que quer lhe cause dor física, e pisca rapidamente encarando Joe logo em seguida. — … Não posso fugir mais, mesmo que ela possa…

O ela reforçado com um tom de voz ligeiramente mais agressivo faz com que meu estomago pinique de um pequeno sinal de sua existência. Joe parece estar bem convencido com as poucas palavras de Cass e percebo que perdi meu aliado, o campo de batalha é feroz.

– Era só dizer. — O casal apaixonado se volta a mim, ambos surpresos e obviamente felizes, como adolescentes no colegial dos filmes dos anos 80. — Eu tento, tento ficar aqui, só não… Não use a terceira pessoa, eu ainda estou aqui, Cassandra.

Escuto um Plopt dentro de mim.

As coisas estão caindo por aqui.