Notas iniciais
"Querida, espero que ainda esteja aqui quando formos. Deixei tudo preparado. Só não esqueça de levar seu casaco e um sapato confortável, pois essa noite, nós vamos dançar..." Sr. Tusspoth para sua namorada. Momento homenagem de hoje vai para Vinicius Negretty e para Yasmim Chung, essa história só existe por causa de vocês!

.

Já fazem algumas luas que espero o senhor T. ir ao encontro de sua amada… Ele estava tão animado e era realmente bom vê-lo feliz. Eu só queria saber qual delas ele iria ver. Se meu calendário não estava errado, a lua entrava em Gêmeos e na Irlanda a lua sangrenta iria acontecer. Eu estava animada também, eu ia ter um dia de folga o que era bem raro. Especialmente agora que não tenho nenhuma exposição agendada na galeria. O que significava poder viajar ou só beber com os meus amigos o dia inteiro depois quem sabe dançar mais um pouco. Amanhã seria um dia especial para mim. Mas hoje, trabalho!

Caminho livremente batendo a neve dos meus cabelos esverdeados por opção na semana, morar em Camden Town era uma aventura, um tanto cara, mas ao menos eu estava no meu ambiente. Infelizmente errei a combinação e meu cabelo ficou horrendo, então até meu couro cabeludo descansar da química pesada, eu iria o esconder na minha velha boina azul de croché.

Eu lançava a chave da loja para cima e para baixo de um jeito feliz. Eu já sentia o gosto da cerveja do “Brew Dog”, meu bar preferido para os começos de noite. Era uma sexta feira, dia de não ser anti-social e descansar do trabalho. Amanhã eu ia sair e beber muito. Amava o senhor T., mas gostava de um pouco de vida real. Minha garganta já sentia o gosto da fumaça descendo do meu cigarro favorito. Com certeza ainda iriamos a algum outro bar ouvir Jazz, ou simplesmente dançar até cair no “K.O.K.O”. Isso ainda com a minha boina azul de croché. Meu cabelo não iria se recuperar tão cedo… Pelo poder superior deste lado do universo, como eu ansiava pelo amanhã…

Assoviei uma musica do Gorillaz assim que passei por uma das milhares lojas de discos usados e vi uma foto do Jake Bugg na parede, nada a ver uma coisa com a outra, mas gostava da música dos dois. Talvez eu descesse até o mercado e parasse para comer algo no Marrakech’s e talvez tomar um chá na volta.

Sr. T estava mais calado que o normal hoje, notei assim que abri a porta.

—Bom dia senhor Tusspoth! -digo firmando terreno, ele esta no topo das escadas.

—Bom dia meu lindo anjo… -ele diz um tanto desanimado.

—O que foi senhor Tusspoth? -coloquei meu casaco no paradouro e vejo a configuração da loja.

—Me sentindo melancólico… -ele desce as escadas devagar com uma rosa na mão- Sinto o perfume dela, mas ainda não posso tocá-la. -ele senta no corrimão e desce cheirando a rosa- Tão distante... E a um passo de mim…

—É senhor T... Amar dever ser bom… -eu sorrio e coloco o avental- Qual delas o senhor verá amanhã a noite?

—Minha primeira amada… Infelizmente a segunda ainda terá que esperar um pouco, ela está mais adiante… -ele suspira- Elas não podem se encontrar...Séria catastrófico… Elas não se toleram, como sapos e escorpiões… -ele dá um arrepio felino- Não que ela seja um sapo, mas com certeza a outra é um escorpião venenoso…

—De que parte do seu país sua amada escorpiana é? — perguntei, por que apesar de não saber muito de sua geografia, ia ligando alguns pontos do país a outro.

—Laurezina… -ele responde sorrindo, porem suando frio- Quase vejo sua cauda me passando a rasteira se eu me atrasar na próxima vez…

—Você é um louco de namorar uma mulher que é um Escopica-draconina… -eu me lembro da Laurezina, pelo menos de seus visitantes assustadores. É uma raça de homens e mulheres metade Escorpião, com um terço humanos e metade dragão, isso segundo o senhor T. Sua calda é de veneno ácido e ainda soltam fogo… Um deles me veio comprar escamas de salamandra e pedras de fogo, e quando se irritou pelas escamas estarem em falta, soltou um bafo de fogo em direção ao teto. De longe a situação mais perigosa que vivi na loja. Simplesmente evito atender outro Escopica-dracon novamente sem a presença do senhor T.

—Pelo amor somos todos loucos! -ele responde e vai buscar mais caixas no andar de cima.

Eu começo a olhar a loja em volta prendendo pequenas mechas rebeldes para trás. O cofre de comida fina foi para trás das escadas hoje, e vou precisar de uma escada para pegar os cajados de madrepérola amaldiçoados, e os totens enfeitiçados… Ele também esta agitado pelo festival, soube que eles fazem um festival onde todas as espécies se encontram e dançam em uma fogueira para homenagear seus antepassados… Ao menos é o que contam os livros do senhor T. Acho que por isso falavam tanto sobre ele. Isso explicaria o movimento tão fraco que ocorreria hoje.

Por várias vezes imaginei ele no festival. Pintei diversos quadros tentando captar como seria o festival da lua de sangue, mas nada de conseguir retratar ela com sua verdadeira forma.

Varro a loja por tédio, não por que realmente precise. Depois volto as escadas móveis tirando o pouco e fino pó das estantes.

—E então seu imprestável! -ouço do topo das escadas- Já abriu sua loja de quinquilharias?

—Seu crápula invejoso! É um antiquário e loja e excentricidades! -Tento descer devagar e ver quem entrou pela loja tão cedo- Eu jurei que na próxima vez que adentrasse meu recinto eu iria lhe quebrar Vinicius! -a voz do senhor T não é nada amigável.

—Você é um velho rancoroso e pretensioso senhor Tusspoth! É assim que gosta de ser chamado não é mesmo?

—Ei! -grito no pé da escada- Sem brigas aqui dentro! -ando até o estranho e o encaro. Era um senhor de cerca de 40 anos, porem tinha o rosto bem liso, ao contrario do senhor T. que tinha uma barba fina e branca com seu bigode de Salvador Dalí. Tinha olhos bem negros, porém com lampejos dourados na íris. Usava um sobretudo e tinha diversos anéis no dedo, ficava o tempo todo arrumando os óculos- O que deseja senhor? -pergunto seca e mal criada.

—Vejo que arrumou um bichinho de estimação senhor T. -ele se portava como um conde, podia sentir um certo ar pedante emanando dele- E ele é bravo! -ele estreita os olhos com um sorriso.

—Sim! -senhor T. me envolve nos braços com um abraço possessivo- E ela é total e completa propriedade minha Vinicius! Não vai tomá-la de mim irmão! Você já fez isso com todos os meus brinquedos do orfanato, com todas as minhas namoradas do colégio, não vai fazer isso com a minha única empregada!

—Irmão? -eu olho para o senhor T. que lança um sorriso ao estranho visitante ao lado da porta.

—O que mais se pode esperar de um irmão mais velho, não é T.? Ainda mais um irmão tão leonino como eu, embora eu odeie leões… -ele adentra a loja andando despreocupado.

—Ele é seu irmão? -eu ainda não acredito- Orfanato? Mais velho?

—Na verdade eu sou o irmão mais novo e Vinicius o mais velho… -ele me larga e eu continuo chocada.

—Sim… Esse gato safado e a grande falcão peregrino aqui, já aprontaram muito na adolescência… -ele suspira retirando o cachecol pesado da garganta- Eu só vim te visitar T. nem parece que faz tanto tempo que não venho aqui…

Fiquei pensando: Falcão peregrino, ar pedante, óculos… Ele com toda a certeza poderia ser Falco-Prince. É uma espécie de seu país conhecida por ter esse ar de príncipe. Porem as pessoas costumam não suportar muito a espécie dele. Vivem na região da Carontida, na parte mais ensolarada das montanhas Spiritus.

—Se não conhece minha empregada então faz um certo tempo mesmo… Ela esta comigo a cerca de cinco anos humanos… -ele da um salto felino e para ao lado do seu irmão.

—Não… Eu te visitei a um certo dia a noite… Acho que ela já tinha saído… -ele me olha ainda tentando me recompor.

—Quando foi isso senhor T.? -pergunto o seguindo.

—Verdade… Acho que nos encontramos a dois anos e meio. -ele para para pensar bem.

—Só vim para dar uma passada rápida e te felicitar pela belíssima empregada, não posso ficar por muito tempo...

—Ah! Que pena, se vir o Giovanne na praça hoje, diga lhe que eu vou aparecer no festival sim… Ele me mandou uma mensagem ontem e não pude responder.

—Esta me ignorando? -eu perguntei transtornada.

—Bom, já que estou na sua lojinha insalubre T. vou levar umas caudas de salamandra para servir na pré-festa em minha casa…

—Catherine! As caudas de salamandra, sim? -ele apenas me olha e eu emburrada vou procurar as caudas de salamandra debaixo das araras de roupa na ala direita da loja.

Eu começo a me irritar com a proximidade do senhor gato e seu irmão mais velho o falcão. Sinto ciumes sim, afinal tenho um carinho especial pelo senhor T. Embora eu ache que meu espanto seja mais por causa do fato de o irmão mais velho de Tusspoth, aparentar ser mais jovem que ele.

Eu entrego a ele dois potes enormes e de caudas de salamandra em conserva. Devia pesar uns doze quilos cada vidro, o que forçava e muito a minha coluna. Eu coloco no balcão e o senhor T, pega cada vidro como se não pesasse nada. Vinicius tira as notas de libra e paga-me.

—Espero voltar mais vezes aqui… Especialmente para descobrir mais sobre essa linda flor. -ele pega minha mão e beija- Perigosamente humana é um fato, mas ainda sim vale a pena…

Me assusto recolhendo a mão no mesmo instante.

—Já disse que esta você nem o Giovanne vão levar, esta me ouvindo! -e o acompanha até a porta.

Eu continuo assustada no meu canto, não consegui sair do balcão.

—E-e-ele… Ele sabe o que e-eu sou? -eu falo assim que sinto a porta se fechar.

—Falcões tem um bom olfato, uma visão ainda mais excelente, mas tudo que ele precisava é ficar um pouco mais próximo a você… -ele explica pegando o cachecol que o irmão esqueceu- Não se preocupe, de todos do meu país ele é o mais inofensivo…

—Não me pareceu… -fico tempestiva- Não gostei da brincadeira…

Ele continua a descer caixas e depois de um tempo de silencio entre nós, eu pergunto encucada com a pergunta que rodava na minha cabeça.

—Senhor Tusspoth… -me ponho a contabilizar as peles de serpente secas na sala de estocagem que ele continua a trazer.

—Sim Catherine meu anjo…

—Como você pode ser o irmão mais novo se ele aparenta ser tão mais jovem que você? -eu pergunto como quem não quer nada. Afinal para mim ele sempre foi um velho idoso cheio de vincos e rugas rejuvenescidas pelo temperamento jovial do mesmo.

—Lembra que eu disse que eu tenho a idade que você quer que eu tenha? -ele responde de longe- Então… Você me vê como alguem mais experiente desde o inicio… Passo certa credibilidade com este visual eu o adotei especialmente para os clientes humanos daqui, porém se você me vir de outro modo, mais jovem vou ser jovem apenas para você…

—Quanto mais jovem o senhor é?

—Não sei o certo dizer, mas no meu mundo eu teria uma idade muito próxima dos trinta, quarenta anos… -ele me confessa.

Realmente adorava o meu jeito de descobrir, levei cinco anos para descobrir sua idade, talvez levasse mais cinco para descobrir o seu nome que ele se se deu, talvez em dez ou quinze anos soubesse o seu verdadeiro nome e de que parte do país dele ele costumava viver… E ai quem sabe quando eu estivesse próximo dos meu setenta e tanto anos iria para o seu país…

Vou me esquecendo do tempo que falta para eu sair e descansar. Aproveitar que amanhã é sábado e não vou precisar trabalhar. Finalmente uma lua de sangue em que eu não vou precisar ficar sozinha na loja. As horas se passam tão preguiçosas que mal me animo. As vezes o fluxo constante de movimento com várias pessoas na loja (condição raríssima, mas que as vezes acontece) é melhor que esses dias de marasmo… Almoço uma salada Natsu com refrigerante diet em uma barraca de comida japonesa do mercado. Volto a porta da loja e espero ao lado, esperando que o senhor T. a abra e me interrompa, mas nada acontece. Fumo três cigarros para passar o tempo e quando me canso da paisagem de Londres entro novamente.

Mais uma hora se passa e eu volto a organizar alguns livros de magia na estante.

—Sinto cheiro de gato… E um gato safado pelo visto! -uma voz voluptuosa se apresenta na loja, ouço o sino da porta vermelha atrás de mim.

Olho para ela, alta, magra, usava roupas de hip-hop com um boné de chifres escrito: “Os Demolidores, grupo de dança” e olhos espertos e fogosos e orientais. Seu cabelo era curtinho e loiro. Usava maquiagem colorida. Nem de longe batia com a descrição de Bellux que o senhor T tinha me feito, mas com a forte magia do lugar, nada parecia mesmo o que era.

—Deve ser Yasmim… Já lhe atendo em um segundo. -senhor Tusspoth diz, com uma calma excepcional ele me ajuda a descer da escada e diz calmamente- Esconda o crânio de Bellux, ela vai ficar irada e muito decepcionada se ver um descendente teu aqui...

—Sim sou eu! -ela responde e eu olho agitada, minha primeira cliente Bellux… Olho para o crânio de uma de suas compatriotas bem no altar de santos de todos os países e desço das escadas como se estivessem pegando fogo para escondê-lo.

—Quer alguma coisa senhorita? -eu pergunto de longe.

—Tenho uns Tunificadores quebrados, queria algo de percussão… -ela olha para mim, seus olhos espertos e perigosos me fitaram- Quem é a garota de cabelo verde? -ela me aponta, como se estivesse interessada em mim.

—Aquela é minha empregada. Ela é um desastre. -eu respirei fundo revirando os olhos nervosa com o senhor T.- Se vier comigo senhorita Bellux… Tenho alguns instrumentos sim… Tenho tambores africanos se quiser… Mas me chegou um Kora novinho ainda ontem a noitinha… Ele tem cordas, acho que já teve contato com um desses.

—Aqueles que fazem barulho quando você os bate no chão? -ela se anima na hora- Noah vai gostar disso… Ele é o nosso percursionista.

—Tem um agogô novinho nesse canto se precisar de algo nesse estilo também. Mas você tem alguma preferência por modelo? Tenho um Kora feito com pele de antílope tradicional… -ele diz e eu vou me desviando do seu olhar com o crânio em minhas mãos atrás das costas até o canto oposto, esperando que ela não olhasse para perto da armadura do século XII no canto direito.

—Meu Santo! -ela grita olhando para o Kora e dando um rasante até a armadura eu congelo, mas vejo um lugar para atirar o crânio rápido. — Era exatamente isso que eu estava precisando! Adorei esse prateado, posso usar algumas partes disso na minha próxima fantasia!

Eu suspiro aliviada e jogo o crânio para trás de um saco de grãos

—Que bom que acha… -digo aliviada olhando para os instrumentos próximos- Tenho alguns instrumentos de outros países… Por exemplo a zabumba… -eu pego o instrumento brasileiro e demonstro como é o seu som.

—Vou levar essa zabumba também! Gostei do som… O nome é um tanto estranho, mas gostei de como soa… Combina com os arranjos de violino que eu fiz… Já posso até imaginar. Pode me trazer mais alguns modelos de Kora senhor T.? -ele acena com a cabeça e sobe as escadas ainda me vigiando.

—Você tem uma companhia de dança não é? -me aproximo dela devagar. Andando de modo cauteloso até ela. Me sentia uma criança roubando doces.

—Sim eu tenho, e sou especialista na dança do solstício e na dança do festival da lua… -ela se aproxima de mim. Me sinto exitada com o perigo, mas ao mesmo tempo cautelosa.

—Cinthia teve aqui ontem e me falou que você viria… -eu engulo o medo- Você é mesmo uma Bellux? Nunca foi apresentada a uma, você é mais bonita que me descreveram…

—Obrigada pelo elogio. -ela ri e dá um longo suspiro- Gostei do seu cabelo… É natural?

—Longe disso, totalmente arruinado pela tintura... -sorrio vermelha e ela puxa uma mecha para fora.

—As vezes as pessoas não gostam muito de mim… Ou de nossa espécie. -ela voa e se senta no balcão.

—Por que elas não gostariam? -ela me olha como se eu fosse idiota.

—Pessoas não gostam muito de nós por causa de estarmos muito perto de Saintmarine… E por que nos tempos antigos nossa região era repleta de prostíbulos onde dançarinas eram escravizadas sem falar que a fama de violentas não ajudava. Então nós eramos todas vistas como alcoviteiras enganadoras… -ela me olha de cima a baixo novamente- Sorte que nossa liderança politica tomou o controle e limpou a escória… Deixou nossa artes milenares intactas e deixou o resto no lixo… Apoiou pessoas como eu que tem projetos sociais e que produzem cultura a todos… As pessoas tem que conhecer a arte através da dança! Você poderia vir na minha apresentação um dia desses...

—É uma pena que eu não posso ir a uma de suas apresentações… O senhor T nunca deixaria. -abaixo a cabeça um pouco triste.

—Você é jovem… -ela sorri- Vai poder fugir para alguns festivais em poucos anos…

—Aqui! -senhor T. quase grita com a sua voz de trovão- Temos esse tambor em ótimo estado… Infelizmente só temos aqueles Koras...

—Quer saber? Vou levar só o Kora de pele e a Zabumba mesmo… -ela voa até o chão e sinto a rajada de ar no meu rosto arrancando minha boina- E seja bonzinho T. Cinthia me falou que você deixa essa menina presa muito tempo… Ela também tem direto a se divertir no festival.

—Um dia eu ainda vou levá-la até lá, mas por enquanto ela esta em treinamento… -ele sorri embrulhando tudo direito em caixas enormes- Se quiser, depois eu te mostro um crânio de seus conterrâneos, sei que gosta de colecionar esse tipo de coisa.

—Ficaria lindo com os enfeites da bandeira da Terra… -ela comenta- Deixe ela ir T. Eu vou fazer uma dança especial para ela… Ela vai adorar os festivais…

—Talvez na próxima “Milenaria”... Até lá ela já terá idade suficiente para isso…

—Entendo… Quando esse tempo chegar eu vou me apresentar a ela do mesmo jeito.

Meu esforço foi inútil. Senhor Tusspoth me sacaneou. Podia ver o lampejo de sorriso em seus lábios. Ele as vezes fazia isso comigo, me assustava, me dizia coisas contrarias como: “Não toque nisso, se não explodirá em você” e então me assustava com elas.

O dia se arrastou depois disso. Não tive muitos clientes, nem mais algum do outro país. Talvez todos estivesse se preparando para a lua de sangue.

Depois da Bellux, ele subiu para sua casa e não desceu até a hora do chá.

—Senhor Tusspoth eu estou naquela época do mês… -digo depois de ver um casal de namorados sair da loja com um berço da virada do século e com alguns móbiles de pedras feitos pelas aracnológicas. Era uma edição bem limitada que elas tinham feito.

—É-época do mês? -ele sorri amarelo trazendo a bandeja de chá- Que tipo de época?

—Sim… -suspirei- Aquela época do mês que eu percebo que eu estou sozinha… E estou com aquele desejo insuportável de… -eu me controlo- Você me entendeu não é? Quero alguem para me apaixonar.

—É isso? -ele suspira aliviado- Quer um namorado então?

—Sim… -pego a vassoura e encosto no canto das escadas- Estou velha demais para ficar apenas… ficando com as pessoas… E sou jovem demais para casar. -eu sorrio- Mas sabe… Sempre fui muito sozinha… Fico pensando…

—Você quer uma pequena versão de você? -ele me dá um sorriso safado.

—Se eu achar a pessoa certa, sim… -eu rio me sentando em cima do balcão- Quem sabe daqui a uns dez anos… Por enquanto um namoro duradouro já me serve.

—Que tal eu te vender um colar da atração bem baratinho? Eles são difíceis de se arrumar, mas eu te arrumo um descontando um pouco do seu salario.

—E funciona? -eu me interesso.

—Claro, eu já te dei algo com defeito? — eu balanço a cabeça em negativa como uma criança- Da sempre certo. Porem Gio não vai gostar, é um sinal de que você esta disposta a atrair todos, mas eu não te entregaria ao Gio nem em um milhão de anos… -ele sorri e tira do bolso um cordão dourado com um coração azul anil na ponta feito de pedra.

—Obrigado senhor Tusspoth! -eu abraço ele rápido.

—Que isso meu anjo. -ele sorri- Sabe que faço tudo por você… Cuidado por que isso é um pouco forte, meu anjo. -ele beija minha testa- Pode esbarrar com o escolhido antes de amanhecer e bem no lugar que nem imagina...

Eu fico admirando o coração azul tomando meu chá inglês.

No final do expediente tranquei a loja e esperei o Midnight de fora da loja. Olho para a lua crescente no céu em sua última fase. "Uma lua" eu penso. Assim que ficasse cheia novamente aquele velhote ia sair para amar novamente. E isso era amanhã.
Suspirei fundo olhando pela última vez para o local pitoresco que era a loja por fora. Era um pequeno paraíso. Sua placa antiga e gasta, porem que se consegue ler o que se esta escrito; suas portas duplas e amarelas nada discretas para um inglês. As chaves da loja em minha mão eram pouco usuais também, pareciam aquelas chaves antigas encrustada de pequenas rosas de metal com uma micro engrenam no corpo e uma mini-caveira de cristal em cima.

Mais um dia se acaba e eu me despeço do senhor T. Encontro Midnight me esperando na porta da loja miando nervoso.
—Desculpe meu atraso... Mas tive um cliente que necessitava de atenção especial... -respondo ao gato negro parado na minha frente.
Começo a trancar a porta e meto o livro na bolsa. Seria uma noite tranquila, não ia sair por hoje... Me lembro do dia da minha entrevista novamente. Quando cheguei aqui a senhora que trabalhava aqui me avisou: “Coisas estranhas sempre vão rondar sua vida a partir de agora." Eu até me sinto confortável com isso. Todos os dias um gato preto com duas bolas brancas na bochecha me espera na porta da loja e me acompanha até em casa. Mesmo que eu saia com os amigos, ele me espera onde quer que eu esteja. Espera eu abrir a porta da casa e então desaparece. Eu o nomeei de Midnight. A senhora que veio antes de mim já disse que o que a seguia era um grande cão negro com duas pintas brancas nas costas. Acho que é o que ele chama de espirito guardião… Ele me convocou um, afinal esta sempre de alguma forma preocupado comigo, mas ele mesmo fala que não fez nada. Quem sabe não seja apenas um ajudante dele, um amigo, seu mensageiro mais fiel.

Porem nem sempre ele me protege, tem dias que ele aparece, mas tem dias que ele não aparece. Nesses dias eu decido sair linda, por que sei que vou me dar bem. Na primeira vez que isso aconteceu foi a 3 anos, eu sai com amigos e conheci um homem estonteante que tinha olhos azuis e uma pinta embaixo do olho. Sim. Um homem perfeito. Tivemos uma longa noite, se é que posso me fazer entender. E não me chateei quando ele sumiu de manhã. Até eu que não acredito em mágica em certas situações do jeito que deveria, sei que tem coisas que só duram até a meia noite. Acho que Midnight tem medo de eu me envolver em más companhias, embora não dê certo, já que eu sou uma garota torta.

O frio de Londres é impressionante tarde da noite, gosto daqui. Desço a rua para pegar o metrô e ele me acompanha, o olho entrar na minha bolsa e me lembro do outro dia em que Midnight desapareceu.

Ela estava na estação, me esperando. Uma pinta próximo a boca, vestido negro, me levou a uma festa no centro. Foi a dois anos… E ela era tão linda...

Pessoas me questionam o tempo todo sobre meus gostos. Muitos criticam os artistas, especialmente aqueles como eu. Sempre fui assim, desde pequena. Outro motivo para meus pais quase me escorraçarem de casa os 14 anos quando minha mãe me pegou no quarto com Annabeth Page. Um ano antes eles me espancaram, mas por beijar um garoto na porta da escola. Disseram que era uma fase e ia passar…

Saio do metrô. Eu voltava agora a minha vida normal e nada mágica cheia de contas para pagar e tintas coloridas no meu bairro de subúrbio.

Ligo para meus amigos, penso em sair amanhã. Ligo para saber se tudo esta de pé. Queria tomar umas cervejas hoje, mas estava um pouco cansada.

“Mas um dia bem vivido" suspirei e entrei. É uma vida monótona, mas ainda sim é uma aventura. Subo as escadas do velho prédio da rua e abro a porta com a chave normal do meu apartamento novo que batalhei para comprar. Nada que dois anos de vida sem gastar muito não compensassem depois.
"Mais uma aventura todos os dias”.

Logo que abri a porta Midnight não estava mais lá. Tentei desenhar algo interessante no quadro, um homem coruja, ou um Tigrurso... Mas decidi ler. Devo ter lido nove capítulos direto até sentir sono. Ler sabendo a língua sempre era mais fácil, mas aprender era algo que eu gostava bastante. Devo ter dormido as duas e trinta e cinco da manhã. Mas dormi pensando no festival, meu dia livre, como aquele homem o Vinicius me apavorou, como Yasmim de Bellux me encantou, e em como eu gostaria de já estar no país do senhor Tusspoth.

Notas finais
Comentem se gostarem.