Penumbra

2 Capítulo II


Notas iniciais
Dez visualizações e uma pessoa acompanhando a fic? Obrigada, pessoal. Isso realmente me alegra. Espero que gostem deste capítulo.


A manhã estava cinzenta, com o sol escondido por detrás das densas nuvens. Leão acordou por si só, em plena madrugada. Sagitário roncava baixinho, à esquerda, perto de Áries. Ambos pareciam exaustos, mas sem razão aparente. Talvez tivessem treinado bastante no dia anterior. Enquanto eu namorava, ironizou Leão em sua mente. Sentiu-se inútil por alguns segundos, mas decidiu não se deixar entristecer logo de manhã.
Levantou-se com pressa, mudando de roupa. Não deu tempo de checar se os companheiros ainda estavam dormindo, mas assumiu que era muito cedo para acordarem, até mesmo para Áries, a obcecada por horários e pontualidade. Agora, Leão se sentia o obcecado. Desconhecia para onde estava indo, mas sabia de algo: necessitava pensar, refletir.
O mundo a sua volta, acizentado e enegrecido como carvão, dava voltas e brincava com sua visão. Ao se transformar no imenso lobo ruivo, Leão desejou esquecer de tudo e focar nos instintos naturais, que fluíam em suas veias como fogo, energizando-o com adrenalina pura.
Com sua língua queimando como labaredas, ele parou em um pequeno lago para beber da água cristalina. Leão tomou vários goles, e um reflexo surgiu na água. Levantou o olhar e viu Aquário, um ponto de interrogação estampado no rosto, de tamanha a dúvida. Foi então que Leão percebeu: ele havia adentrado a seção dos signos de Ar, por acidente.
— Por sorte, também acordo cedo, Leão. — Aquário não precisou se abaixar para conversar com o lobo. Ele tinha quase dois metros de altura, era até maior que ela. Leão sentiu-se agradecido por ter sido ela a vê-lo, mas sabia que tinha errado ao vir.
Deu um leve aceno com a cabeça, comunicando-se com Aquário por meio da telepatia. Requeria muito esforço, mas todos os líderes possuíam esse dom. Assim, podem comunicar-se com os outros signos à distância. O sorriso de Aquário se desfez, mas ela permanecia radiante.
Perdoe-me por vir, foi um acidente, pensou Leão, quase com vergonha. Aquário acariciou seu pêlo com os dedos delicados. Eu acho melhor eu ir embora, antes que alguma patrulha do amanhecer venha e nos veja.
Aquário concordou com a cabeça, e sua expressão era incapaz de ser lida ou entendida por Leão. Deu um leve abraço no grande lobo e tomou dois passos para trás, murmurando um adeus antes de avançar floresta adentro em velocidade sobrenatural.
Ao virar-se para voltar à sua seção, Leão flagrou Áries, o fuzilando com o olhar âmbar, que parecia queimá-lo. Sentiu um formigamento nas patas, como se milhões de formigas o tivessem picado ao mesmo tempo.
— O quê ela tem, Leão, de tão bom? Me diga, pois juro que não enxergo. — sua voz era afetada, triste e resfolegada. Abafou um riso irônico.
— Estou disposto a descobrir. — vociferou Leão, com igual ódio. Não sentia um pingo de pena por Áries, pois sabia que ela estava passando dos limites, desta vez. — Peço que saia já da minha frente, ou também juro que não te enxergarei mais. Por motivos muito piores, já sabes quais.
Ela soltou um rosnado alto, e seu corpo inteiro ardia ferozmente, enquanto ela se transformava em uma loba branca de mais ou menos um metro e setenta. Leão rosnou de volta, usufruindo de seu tamanho e autoridade de líder. Áries curvou-se, como se carregasse o mundo nas costas, incapaz de suportar o peso.
Jurastes lealdade ao alfa, ameaçou o líder, dando passos à frente. A cada passo dado por Leão, Áries recuava um. Jurastes lealdade a mim. Pois me obedeça, e mantenha os lábios selados até segunda ordem. Sem reclamações, objeções ou qualquer outra coisa que imaginares tentar.
Áries rosnou mais alto, o focinho no nível do solo, enquanto o peso do juramento a forçava a prostrar-se ao alfa. Satisfeito, Leão rugiu ainda mais alto, rebaixando Áries de vez. Seu focinho raspou na terra úmida com uma violência grave, e seu corpo também ameaçou tombar no chão de tanta a pressão infligida nela. Áries arreganhou as garras, inutilmente.
Ninguém se oporia ao alfa.
Áries sabia muito bem disso.


[ ... ]


A advertência com Áries o custou forças, e Leão precisou caçar após enfrentá-la. Mandou-a de volta para o centro da seção, ainda aos rosnados. Ele sentia-se fraco, faminto, sedento.
Sagitário viera, chamado por Leão. Ainda não sabia do problema com Áries, mas o alfa desconfiava que ela o contaria na primeira oportunidade.
O inverno está chegando, os cervos estão escassos. Tens certeza que não queres comer alimentos mesmo, Leão? perguntou, curioso, Sagitário. Seus olhos azuis estavam em foco, os músculos tensos debaixo da pelagem negra como a noite. Leão negou com a cabeça, ganindo ao pensar no gosto dos alimentos que comiam normalmente. Os instintos os aboliam, e o leonino desejava carne fresca no momento — algo que quase nunca ingeria, por falta de tempo para a caça apropriada de tal.
Sagitário o obedeceu, indo procurar pelos últimos cervos da estação. Leão partiu para o oeste, e Sagitário foi para o sudeste, onde afirmava vir o cheiro das presas que sentiam de longe. Era delicioso, tão tentador que deixou Leão selvagem, louco tanto por sangue, quanto por carne. Precisava desabafar, e esse era o melhor jeito que tinha. Destruir algo. Como o belo pescoço de um animal.
Ao engatinhar até alguns cervos, o imenso lobo farejou o ar. O vento não estava a seu favor, mas os arredores o camuflavam bem. Em um único golpe mortal, apanhou um cervo, enquanto o resto corria para longe.
A carne estava cheirosa, o cervo era bem alimentado e rechonchudo. O lobisomem abocanhou a perna do animal morto, enquanto rasgava pele e tendões com suas garras. Pela primeira vez em dias, se via como um animal. Mas nunca se sentiu tão vivo.
Chamou Sagitário mentalmente, e o mesmo veio acompanhá-lo no mero banquete. Em silêncio, ambos aproveitaram o alimento, até que Leão sentiu um cheiro peculiar, mas bem familiar. Era Áries, também em forma de lobo. Caminhou até ambos, a cauda entre as pernas, e a cabeça abaixada em sinal de submissão.
Olá, cumprimentou ela, com o pensamento cabisbaixo. Poderia me juntar a vocês?
Leão acenou com a cabeça, autorizando. Ela piscou os olhos âmbar e mordeu a perna do cervo, a parte mais magra do animal. No momento, se sentia uma ômega, já que o alfa tinha a punido.
Ao finalizar o alimento, os três lobos retornaram à parte central da seção, transformando-se em humanos de novo, para melhor comunicação.
Áries se isolou com Leão no templo dos planetas — lugar onde orações e profecias vinham para informar os astrológicos —, enquanto Sagitário preferiu patrulhar o perímetro da seção. Leão já sabia o assunto que Áries trataria, mas não esperava tanta frieza vinda dela, ainda mais depois do sermão de alfa que ele dera para ela, quase como um banimento.
— Não penses que me cansarei disso, — raspou Áries, diferente da loba que se curvou para ele apenas algumas horas antes. Encostou-se em uma das pedras de mármore. — Meus instintos fizeram eu me prostrar, mas precisarás mais do que isso para me fazer curvar diante de ti enquanto eu tiver minha consciência humana.
Leão soltou um suspiro abafado, estupefato pelas palavras de Áries. Respirou algumas vezes antes de falar, reunindo as forças necessárias.
— Sem exageros, Áries — Leão soltou um suspiro cansado. — Pelo amor dos astros, sem exageros.
Ela bufou, ainda mais irritada com ele. Leão passou a mão pela testa suada, piscando os frios olhos verdes com certa indignação. Se Áries continuasse com as ameaças, ele daria um jeito de calá-la de uma vez.
— Exagero, dizes? Pois saibas que não será exagero quando vires o estrago que fará. Os astros sairão de ordem, por uma traição vinda de um guerreiro cuja lealdade nunca fora questionada antes! — ela arremessou bravamente, os braços pendendo ao lado do corpo esguio. Leão a fitou, e não foi capaz de evitar a pressão.
Se Áries estava tão incomodada, por quê não o denunciava ao rei Sol, logo? Ela se livraria de sua sujeira.
Mas foi então que Leão percebeu: Áries não o denunciava porque ainda o amava. Ela estava em fúria por meros ciúmes? Talvez a palavra certa fosse inveja. Áries tinha inveja de Aquário por ter supostamente roubado e conseguido Leão para ela.
Tudo passou em questão de segundos, e Leão elevou o tom.
— Saia já daqui! — urrou, autoritário. — Saia, Áries, ou juro que acabo com você. — agora, as ameaças vinham de Leão. O feitiço virou-se contra o feiticeiro.. E era a única maneira de fazer Áries se calar—usando o mesmo artifício, com igual rancor.
Ela não pareceu ter medo ou se sentir intimidada, mas bateu o pé no chão e virou-se, murmurando algo que Leão não pôde compreender, mas também não fazia questão.
Sagitário foi empurrado por Áries, enquanto voltava da patrulha. Mal sentiu o baque, por ser maior e mais forte que Áries, mas notou que a mesma estava claramente irritada.
— O quê ela tem, Leão? — ele questionou, indo sentar-se em um banco de madeira, ao lado de Leão, que estava de pé e apoiado na parede de mármore. — Está uma pilha de nervos, e acho que isso tem a ver contigo. Ela ainda não superou.
Leão gargalhou, a mistura de um ronco e um rosnado. Sagitário não reagiu nem se mexeu, os músculos já tencionados pela reação do líder.
— Com todo o respeito, mas se fosse você, Leão, não riria. Conheces Áries tanto quanto eu. — sussurrou ele, os olhos fixos nos de Leão. O mesmo rosnou, cruzando os braços fortes.
— Eu não tenho medo dela.
Sagitário encarou o chão, e o silêncio que pairava no ar respondia por ele. Leão rosnou mais uma vez, baixo, apertando os punhos com força. Virou-se com raiva e avançou para a floresta. Precisava ficar sozinho desta vez—nem mesmo Sagitário, com toda a sua experiência, o ajudaria numa hora dessas. Leão transformou-se e acelerou, cravando as longas garras no solo. Até que um alto som ecoou em toda a seção, como uma sirene. Seus ouvidos doíam, e Leão sentiu uma gota de sangue pingar do lado esquerdo, seguido de uma dor terrível, tanta que ele caiu ao meio da corrida, o corpo imenso tombando no solo com violência. O som intensificou-se.
O que era aquilo? Leão arranhava o chão, desesperado, enquanto jazia em dor, a cabeça latejando. Aquele som era agudo e ensurdecedor.
Uivos saídos de sua garganta rasgaram o ar, e o som parou. Leão levantou-se depois de longos minutos, os músculos fracos, e o pêlo manchado de sangue vindo de sua orelha. Um zumbido ainda o atormentava, e Leão se perguntou se ficara surdo. Mas algo o preocupava mais: o que tinha sido aquele som?

Notas finais
Até a próxima. Algum comentário, talvez? Que tal? Se sintam livres para comentar, e dar opiniões. Postarei o mais cedo possível, também. Miin.