Penumbra

1 Capítulo 1


Notas iniciais
"Não há qualquer indícios do que é verdade e do que não é. Não há sinais no carro, no banco, ou mesmo naqueles olhos frios que volta e meia me olham com repulsa."

SOCORRO.

-Alguma pista detetive?

- Por enquanto nada, mas tenha a certeza que será a primeira a saber caso algo apareça.

- Algum suspeito?

- Não se preocupe senhorita, ele não está longe.

Bip!

Deitada de costas no chão de meu apartamento, eu lamuriava sozinha entre as gotas de suor que deslizavam pelo rosto. O ar úmido do verão parecia invadir minhas entranhas, cada poro de minha pele, dando-a um aspecto viscoso. Fechei os olhos.

Eu queria dormir mas não ousei me mover.

Uma imagem sórdida e doentia parecia permear todos os meus pensamentos nos últimos três dias e tinha sido fonte de preocupações pela casa. Talvez fosse uma mísera alucinação, um delírio, mas o temor que me preenchia era genuíno, aterrador. Eu suava frio, amedrontada, incapaz de negá-la ou desfazer-me dela.

PARASITA.

Duas batidas no vidro. Me levantei sobressaltada e apontei para a janela a arma que carregava. Não havia nada além do céu escuro e nenhum sinal da causa do som.

- Só estou estressada. Foi uma semana exaustiva, confusa.- Engoli em seco. Olhei para a arma em minha mão e suspirei. — Preciso de água.

A cozinha, mergulhada num melancólico silêncio, cheirava a ovos queimados. Minhas filhas têm cozinhado as refeições preocupadas com meu estado mental. Em todo o meu constrangimento, com as crianças a cuidar de mim, nem notei que sequer tinham jogado o lixo.

- São boas meninas. Também tem sofrido com toda esta loucura. — Pensei, enquanto enchia um copo de água. — Muito mais do que eu. Tenho que voltar ao normal logo, por elas. Por nós.

Meu marido desaparecera fazia três dias, depois do expediente, numa noite tempestuosa. Não tinha deixado mensagens alarmantes ou qualquer sinal de desvio da rotina, o que levou a polícia a acreditar que fora um crime premeditado. Um rapto, talvez, no melhor dos casos, já que era um homem rico. Ele não desapareceria sem nos avisar.

Não era minha culpa.

Francisco e eu namorávamos há três meses quando me pediu em casamento. Um grande abismo de duas décadas separava nossas idades e mesmo em seus quarenta anos, tinha pressa para casar-se novamente. A família era contra; eu era mais nova, pobre, pensavam que eu só queria me aproveitar de seu amor mas logo fui capaz de provar o contrário.

Ele era um bom homem, gentil nas palavras e se expressava através gestos corteses. Os olhos eram grandes e cintilavam um caráter benevolente. A barba estava sempre aparada, assim como os cabelos castanhos, sempre rentes a raiz.

Ele que sempre fora tão cuidadoso...

Do lado de fora, escutei o vento uivar ameaçador, num tom que anunciava uma tempestade. As janelas e portas escancararam com sua força, seguidas de um trovão alto, próximo. Escondi meu rosto do vento e escutei, estranhamente, o silêncio. Já não havia mais vento. Uma outra ilusão? Encarei meu copo agora cheio e fui certificar-me de fechar todas as portas.

Possuía duas lindas filhas de sua falecida esposa, que naturalmente passei a amar. Eram completos opostos. Clara, a mais velha, estava sempre alegre e rapidamente simpatizou-se comigo. Acordava sempre com o raiar do Sol, serelepe a dançar e cantar pela casa. Seu cabelo negro e liso cintilava como se lindo sorriso enquanto arrancava risada de todos por onde passava. Éramos grandes amigas e, se pudesse dar a luz, gostaria de ter um filho tão carismático e singelo como ela.

Anelise, por outro lado, era quieta, mórbida e dificilmente trocava palavras comigo. Estava sempre a perambular pela casa, murmurando o que parecia trechos de poesias, usando longos vestidos negros que contrastavam com seus cachos loiros. Ela andava como uma madame, com sua aura, postura, voz e gestos. Seus olhos compenetrados, sobre escuras olheiras, eram desafiadores e frios.

Ela sempre foi verdadeira com seus sentimentos.

VERME.

Era aniversário de Anelise na noite em que desapareceu, O céu negro anunciava a tempestade enquanto eu corria pelas ruas desertas da cidade, com uma carga importantíssima. Tínhamos planejado de nos encontrarmos, em frente ao seu trabalho, como de costume, para retornarmos juntos para casa.

As árvores envergavam seus juncos com o vento, alguns de seus ramos eram despedaçados e espalhavam folhas para todos os lados. O volume d'água no meu para-brisa tornava a vista enevoada como um vidro fosco e fui forçada a ligar o farol alto. Até os pneus novos ameaçavam derrapar a cada nova virada, a cada parada brusca que eu realizava.

EU QUERO QUE VOCÊ MORRA.

Francisco me ligou, queria saber onde estava. A chuva engrossava e ele tinha pressa, queria chegar o mais cedo possível em casa. Eu também estava estressada, vinha recebendo mensagens estranhas no trabalho e discuti com ele.

Eu só queria que aquele dia acabasse, então eu acelerei.

AGONIZE.

Um estalo. Assustada, virei-me para o corredor sombrio que levava para o quarto das meninas. Não havia nada. Eram os nervos, minha imaginação fértil e descontrolada, o sono que atordoava minhas pestanas. Eu estava cansada e aquelas mensagens inúteis estavam me afetando. Com as minhas mãos na cintura, os olhos a encarar o chão, a respiração destoante, pensei na entrada para o quarto das meninas, vazia. Estremeci com a idéia.

Lembro-me de minhas mãos no volante, seguras, a estrada que seguia até o vale quando avistei o escritório de Francisco. Eu perdi momentaneamente o controle da direção, o carro correu para o lado esquerdo, ameaçando entrar em choque com um poste. Reduzi a marcha e tentei frear quando a parte traseira, com a força da virada brusca, derrapou na direção contrária e o carro acabou por rodopiar rua abaixo. Puxei o freio de mão e torci o volante o máximo que pude na direção contrária. Eu deslizei e rodei pela rua alagada até, poucos segundos antes de parar, ouvir um baque seco na lataria da frente.

Senti meu sangue congelar. A adrenalina corria pelo meu corpo que tinha enrijecido ao ouvir o som. Eu tinha batido em alguma coisa.

Ou alguém.

Tomei dois goles de água quando senti minha garganta queimar. Cuspi no chão e percebi que algo estava preso, me impedia de falar, de respirar. Arranhei meu pescoço freneticamente. Eu estava engasgada com algo pesado. Enfiei minha mão no fundo de minha garganta e puxei uma massa escura.

- Cabelo? — Eu murmurei, de joelhos no chão. — Isto é um bolo de cabelo?

Eu vomitei, repugnada. Outra ilusão, desejei. Quando abri meus olhos, já não estava mais ali. É loucura? Estou enlouquecendo?

O farol alto de meu carro não mostrava coisa alguma a minha frente e também não me lembrava de ter visto nenhum obstáculo. Onde estaria Francisco? Tentei abrir a porta de meu carro mas algo pesado parecia impedir-me de abrir a porta. Puxei com mais força, irritada com a chuva que encharcava meu banco até parar, estonteada, ao ver o que atrapalhava minha saída.

Meu marido, meu pobre marido, jazia na rua todo enlamaçado, com o sangue fresco ainda a sair por suas feridas. Eu cobri a boca para conter um grito de horror ao perceber o que eu eu acabara de fazer. Me joguei de joelhos na rua e abracei seu corpo débil enquanto balbuciava pedidos de desculpas e lamúrias de amor. O que eu tinha feito?

Francisco estava tão surpreso quanto eu mas mantinha-se calmo. Ele não tinha sucumbido a dor enquanto eu, pranteava uma dor inenarrável que preenchia o meu peito. Com movimentos lentos, ele tentava me tranquilizar, mas a força com que me agarrava e altura de sua voz me amedrontavam mais e mais.

Disse a mim que não tínhamos muito dinheiro, que de modo algum a polícia poderia descobrir que eu fora o responsável pela tragédia. A justiça de meu país condenava a morte todo aquele que a provocava. Eu tentava prestar atenção em seus lábios mas tantas emoções preenchiam meu pensamento de uma hora para outra que estava atordoada, perdida. Tinha de levá-lo para o hospital. Quando eu o levantei, ele gemeu e com a mão, empurrou seu corpo para longe do carro. Murmurou com voz resignada que não podia ir ao hospital porque morreria no trajeto, ele sentia nos ossos. Eu o beijei e o beijei enquanto erguia-o novamente tentando colocá-lo no carro. “Por favor Francisco, por favor...” Eu grunhia entre um beijo e outro. “Por favor, me deixe tentar!” E ele, pela primeira vez demonstrando o medo que o possuía, pediu com uma voz firme que era estranha ao seu caráter. “Estou quase perdendo a minha consciência, me escute.” Eu tentei colocá-lo novamente no banco mas agora minhas pernas falharam e nossos dois corpos foram de encontro no chão. Ia erguê-lo novamente quando sua mão me puxou com uma força anormal.

- Cuide... – ele murmurou outras coisas que não consegui entender. Ele retirou uma arma de seu terno. Seus olhos se fecharam momentaneamente e pareceram abrir novamente com muito esforço. — ...Anelise.

Num suspiro, suas mãos soltaram de minhas roupas e descansaram no chão. Seus olhos entreabertos pareciam vívidos ainda, embora encarassem vagos o céu nublado. Conferi seu pulso, sua respiração, imóveis. Tentei me lembrar das aulas de primeiros socorros da autoescola e desajeitadamente massageei seu coração, para que voltasse a bater. Tentei e tentei por vinte minutos, intercalando com respiração boca a boca até meus braços já não mais aguentarem. Com uma dor imensurável, distribuí beijos por todo o seu rosto e pescoço, lamuriando: “Eu te amo, eu te amo, eu te amo”. Eu ainda chorava quando finalmente descansei seu corpo imóvel no banco traseiro. Limpei seu rosto da lama com minha camisa, incapaz de raciocinar o que eu deveria fazer. Foi então que eu ouvi.

A imagem que tanto me atordoara a semana inteira, que preenchia meus sonhos com pesadelos, indagações, dúvidas do que era real ou não. Eu nem sequer sei se o que vivenciei naquela noite é real ou não, se minha mente doente não está cedendo a delírios, a loucura que corre em meu sangue e que um dia levara minha mãe de mim.

Duas batidas no vidro. O céu relampejou e por breves instantes visualizei o rosto pálido e transfigurado de Anelise na janela de passageiro. A frieza habitual fora substituída por um medo, um pavor e divertimento que fizeram minha espinha estremecer. Ela saiu em disparada para o vale. Eu gritei por seu nome e fui atrás dela. “Anelise, Anelise!” Eu exclamava enquanto percorria pelo matagal do vale a sua procura. Os galhos arranhavam minha pele como lâminas mas por mais que a procurasse, eu não via nem mesmo a sua sombra. Os arbustos pareciam avançar sobre mim, riam e desprezavam minha fraqueza, meu coração despedaçado que ardia agora por machucar minha menina, minha sensível Anelise.

Retornei para o carro a procura de meu celular para chamá-la. Mal abri a porta e eu notei, meus olhos de imediato perceberam. Soltei um grito apavorado. Eu não conseguia mais, era demais para mim, era inacreditável demais. Meu peito queimava, a boca seca, gritei e gritei da dor mais pungente. Cai de joelhos.

O corpo de Francisco tinha desaparecido. Não havia sequer sinal do sangue, nem mesmo da lama nos bancos traseiros. Com as minhas mãos na cabeça, continuei a gritar e a gritar coisas intangíveis, grunhidos que soavam de um animal ferido. O que estava acontecendo?

....

Todo o resto daquela noite parece um mero borrão. Me recordo de acordar no sofá, com roupas limpas em meu corpo e os olhos preocupados das duas meninas a me encarar. Era m pesadelo? Disseram-me que acordei no meio da noite, que eu passara mal e vomitara muito. Parecia que eu estava delirando. Não podia ser verdade. Eu encarei Anelise a procura de qualquer sinal de que aquela loucura não era verdade, que a dor que eu sentira era real e palpável. Mas ao contrário da noite anterior, seus olhos dourados refletiam a mais sútil das preocupações, medo talvez. Sua postura elegante, agasalhada até o tornozelo, ainda se mantinha mas havia algo desconcertante que a aproximava-a de mim, algo diferente de desprezo.

Francisco realmente desaparecera mas não havia qualquer evidência de que eu o matara. A lataria do carro estava intacta, o banco de meu carro, impecável, minha pele não estava marcada com os rastros dos galhos. Minha mãe sofrera de loucura e talvez eu tivera o infortúnio de herdá-la. Eu não sei, eu não sei. Só sei que quando retornei ao meu quarto, a arma de Francisco estava em meu cofre, com pequenas digitais de sangue.

O que eu fiz?

Retornei a cozinha. Eu precisava jogar o lixo do jantar, pelo menos. A comida que me preparavam estava sempre tostada por conta da inexperiência das duas no fogão, um gosto amargo mas suportável pelo carinho que representava. O telefone começou a tocar, insistentemente, quando algo peculiar chamou minha atenção. Frascos de vidro amarelados que lembravam a remédios, jaziam no fundo da lixeira e exalavam um cheiro atordoante. Eu peguei um antes de atender o telefone:

- Alô? — ligeiramente virei a garrafa para ler seu rótulo.

- Aqui é o detetive Lindt senhora. Sinto que tenho péssimas notícias.

“Metilmercúrio... alucinógeno que possui a capacidade de atravessar as barreiras placentária e hematoencefálica, representando uma neurotoxina poderosa que pode afetar negativamente o cérebro em desenvolvimento”

Por que algo como aquilo estava ali?

PARASITA!

- Preciso que fique calma e preste muita atenção nas minhas direções.

Outro. Agarrei outro recipiente.

“Chumbo. Ministério da Saúde adverte: intoxicação por chumbo pode causar uma série de sintomas, de diarreia a distúrbios neurológicos”

VERME!

- Ouça, encontramos seu marido. Ele está morto.

Não, não, não. Isto não pode ser verdade. Meus dedos agora trêmulos agarraram outro pacote que parecia o mais recente.

“Arsênico pode causar fortes convulsões, induzir coma e, por fim, matar; em concentrações menores, consumido de modo contínuo, pode levar ao desenvolvimento de câncer, diabetes e doenças cardíacas. “

EU QUERO QUE VOCÊ MORRA!

- Ele estava dentro de um carro que suspeitamos ser de sua filha mais nova, Anelise.

O ar em meus pulmões escapou num sussurro assim como o último pote, o menor de todos, o mais próximo de meus omeletes amargos e queimados onde em letras garrafais se lia: “Brodifacoum”. O vidro estilhaçou no chão e o som dos cacos ecoou pelo apartamento.

AGONIZE!

- Eu preciso que pegue a sua arma e saia o mais rápido que puder daí. Estamos chegando.

Eu finalmente entendi. As mensagens no trabalho, a noite em que Francisco desaparecera, as refeições que ela preparava, a mudança na frieza de seu olhar em algo interessado, assustado. Não há qualquer indícios do que é verdade ou não, não há sinais no carro, no banco, ou mesmo naqueles olhos frios que volta e meia me olham com repulsa.

Era seu aniversário. Eu estava lá, eu vi tudo. Nós dois estávamos esperando que ela chegasse quando o carro avançou para cima de nós. Para cima de mim.

- Mãe?

Ela chorava, estávamos desesperadas. Eu queria levá-lo para o hospital mas ele não quis incriminar a própria filha. Disse que ficaria tudo bem, que éramos pobres demais para pagar um advogado e Anelise acabaria morta no tribunal.

-Cuide-se, minha querida. — Ele me entregara a arma. — Preciso que tome cuidado com Anelise.

Eu não entendera o motivo da arma, nem mesmo o significado de suas palavras. Fora um acidente, o carro escorregou, não havia perigo nela...

Meu doce amor, meu querido marido morrera em meus braços. E não era minha culpa.

- Você está na cozinha?

Eu não sabia o que fazer, mas sabia que precisava enterrá-lo com dignidade. Eu o deitei no banco traseiro quando ouvi duas batidas no vidro. Anelise tinha quebrado a janela e me nocauteado. Eu lembro de ter acordado e que um gosto metálico angustiava minha boca. Eu vi seu vulto correr em direção ao vale. “Anelise, Anelise!”

Estava escuro demais e retornei para o carro atrás de meu celular quando percebi, atordoada, que o corpo de Francisco já não estava mais no banco traseiro. Aquele gosto metálico, amargo, ainda presente em meus lábios já havia impregnado todo a minha consciência. Eu desmaiei novamente.

- Aí está você. Por que não me respondeu?

- Anelise. — Eu balbuciei. Eu soluçava em descontrole, as lágrimas ardentes assim como o catarro teimavam em escapar. Tínhamos a mera diferença de três anos de diferença e éramos quase irmãs. Agora o elo que nos unia dissipou-se completamente. — Por quê?

Seus olhos impassíveis arregalaram-se por breves instantes ao visualizar os cacos de vidro e as embalagens em minhas mãos. Silêncio. Eu taquei todas as garrafas no chão e a questionei novamente “Por que?” A voz doce oscilou ao responder:

- Você é louca, mãe. Herdou isto da vó. — Ela avançou tenebrosamente pelo corredor em minha direção. — Nos últimos dias seus nervos não aguentaram o estresse de ter perdido o pai e acabou tendo ataques, vômitos, convulsões espontâneas. Pediu licença no trabalho e estava tão delicada que tivemos de cozinhar para você, sair do trabalhado para nos dedicarmos a sua saúde. Isto são os seus remédios.

- Anelise, — eu chorava desesperada enquanto recuava a sua aproximação. — como pôde? Você me envenenou! Era você que me mandava aquelas mensagens! Eu, eu quis ajudá-la, quis protegê-la naquela noite!

- Mãe, eu não sei do que está falando...

- Mas três dias foram demais para você. — Ela passou delicadamente entre os estilhaços de vidro com uma enorme faca em sua mão. Eu recuei até minhas costas encostarem na janela da sacada. — Não conseguia dormir, teve um ataque de raiva no meio da cozinha e se jogou do vigésimo andar num acidente.

- Eu sei que foi um acidente. Eu sei, eu tinha visto em seus olhos, assim como Francisco. Eu amava você como se fosse uma filha minha, uma irmã!

- Mãe, você está me assustando, se acalme.

Ela ergueu a faca e eu empunhei a minha arma. Foi a vez dela recuar, o mesmo olhar preocupado daquela sexta-feira estava em seu semblante. Outra Anelise?

- Eu gostava de você. Eu tentei tirá-la da confusão ao nocauteá-la, assustá-la com aquelas mensagens. E cuidei de você quando adoeceu! Não gostava quando eu lia poesias?

Nossos olhares se cruzaram e por um momento, um breve segundo, visualizei a culpa mais singela expressa em seus olhos, uma dor agonizante que quebrara seu senso de ética e fora substituído por um egoísta senso de sobrevivência. Eu entendo agora, olhando para trás, que ela também deve ter sofrido.

Ao ver que eu hesitava, Anelise me empurrou com força pela sacada, ameaçando cortar minha garganta enquanto aproximávamos perigosamente da borda. Senti uma fraqueza inimaginável, uma sensação de leveza que não se deve sentir quando se está vivo. Era o veneno.

Anelise. Você sempre foi uma menina sensível, murmurava coisas intangíveis pela casa, quieta, antissocial, fria, de vez em quando violenta. Sempre com um jeito superior, solitário, como de uma rainha.

Era você a louca o tempo todo, não era?

Notas finais
GRAND FINALE no próximo capítulo deste thriller.

Afinal leitores, qual é a verdade desta história? O que é real, quem perdeu a sanidade e quem está louco?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.