Pensão da tia Odete.
40 Capítulo 40
Notas iniciais
Esse mês passou voando. Estou a dois dias de me casar e estou surtando. A casa está cada vez mais perto de estar pronta. Semana passada viramos a laje e essa semana o Djair vai fazer a instalação elétrica. Minha mãe também chega hoje. Ela cismou que quer ajudar com tudo. Eu e a criatura concordamos que teremos apenas três dias de lua de mel num hotel fazenda. Não podemos nos afastar agora. Eu tenho ainda muita coisa para ajeitar e não podemos nos dar ao luxo de aproveitar enquanto nossos amigos trabalham. Eu vou enlouquecer! É muita coisa pra minha cabeça.
–Rogé, vem! –E lá vem o Camilo me arrastar não sei pra onde.
–Que foi, Camilo?
–Vem que a gente precisa terminar de arrumar o seu termo para o grande dia.
–Vão arrumar o vestido da criatura. O destaque do casamento será ela, não eu.
–O dela já está pronto, mas temos que ajeitar a calça do seu terno que está muito comprida. Como quer que a Flávia costure na altura certa se não tem o modelo?
–Preciso mesmo?
–Não... Case com a calça arrastando no chão. Vá maltrapilha no seu casamento.
–Ô drama. Tá, eu vou. Mas que seja rápido. Ainda preciso ir buscar a minha mãe na rodoviária.
–A dona Tetê chega hoje?!
–Chega.
–Ai, que Felicidade! Aquela danada não me falou nada e olha que temos conversado direto pelo zap.
Era só o que me faltava! Minha mãe trocando mensagens com esse... Tenha dó! Deixei ele tendo seus chiliques e fui logo servir de modelo para ajeitar minha calça.
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Uma hora depois e ajustes feitos, eu recebi uma ligação da minha mãe que ela já estava chegando. Tentei sair de mansinho, mas a mariposa do Camilo me viu e ainda chamou a Lívia para completar. Eu mereço! Agora, ao invés de um, terei dois para matracar no carro e, depois que pegar minha mãe, três. Eles ainda irão me enlouquecer. Por causa disso ainda precisei pegar o uno do Jorge para caber todo mundo e dirigir, já que o Camilo não sabia.
–Qual vai ser o nome da minha princesinha? –Mal dei a partida e o Camilo já começou a matracar.
–Sofia! –A Lívia acha, né?
–Esquece, Lívia. Sofia nem pensar.
–Qual o problema da minha princesa se chamar Sofia?
–Eu não gosto do nome e ela não é sua princesa, é minha.
–Começou com os ciúmes... Não liga não, Camilo, é que ele não gosta desse nome porque a avó dele tinha uma porca chamada Sofia.
E lá vem aquela risada estridente dele. Valeu, Lívia. Conte mesmo meus podres de família.
–Tá de brincadeira, Rogé?
–Não, Camilo. Minha vó tinha um casal de porcos: Sofia e Rufino.
–Tem razão, Sofia ficaria meio mal para uma princesinha...
–Finalmente alguém que concorda comigo!
–Se não for Sofia, pode ser Camila, não é?
–É minha segunda opção, Camilo.
–Pode parando os dois. Não vai ser Sofia e muito menos Camila.
–Pois eu acho melhor vocês se apresarem na escolha, vai que a pequena resolve adiantar um pouco.
–Como é que é? Você está bem, não está, Lívia?!
–Estou, amore. Camilo, pare de colocar caraminholas na cabeça dele. Já não sabe como ele é neurótico?
–Desculpe, amiga. É que minha mãe sempre dizia: Prematuros dão a luz para prematuros. E como você nasceu prematura...
–Quê?! Tu nasceu prematura, criatura?
–Nasci, mas isso não é regra e nem tem comprovação científica, não se preocupe.
–Minhas primas que nasceram prematuras tiveram filhos prematuros. Na minha família essa regra vale.
–Camilo, querido, deixe de perturbar o pobre homem. Ele é chatinho e até merece, mas não dá corda. Depois sou eu que vou sofrer. A cada chute que a pequena der que eu gemer ele já vai achar que estou entrando em trabalho de parto.
–Tá bom então, mas quero ajudar a escolher os nomes. O que acham de Estefani? Sempre achei lindo.
–Não! Estefani me lembra uma Drag Queen. –Falei.
–Dessa vez tenho que concordar com ele. –A Lívia me deu razão.
–E que tal Jéssica? Não é feio, vai.
–Não. Eu tenho uma ex com esse nome.
–Quê? Quem é essa Jéssica, Batman? –E lá vem a criatura me cobrar...
–Alguém sem importância, amore. Uma namorada baranga do passado, feliz?
–Não, depois eu vou querer saber dessa história direito.
–Gostei da brincadeira. Será que consigo adivinhar mais nomes de suas exs, Rogé? –Isso, joga mais lenha na fogueira, Camilo.
E depois disso ele foi falando tudo que era nome que vinha na cabeça. Alguns, até admito, eram bons e possíveis de serem pensados como nomes para minha filhota. Outros eram horrorosos e teve dois que eram de ex minhas, mas fiquei quieto. Eu sei que a Lívia já vai querer saber da Jéssica, ela também não precisa saber da Carmem e da Sabrina e nem das outras que tive e que já nem lembro mais os nomes. E fomos nessa brincadeira até chegar na rodoviária.
–Alá, é a dona Tetê! –O Camilo gritou e saiu correndo, fazendo escândalo e me envergonhando para abraçar minha mãe.
–Deus! Por que trouxe ele?
–Sogrinha! –Agora é a Lívia que está gritando e indo até eles.
–Melhor, por que trouxe eles?
Como se não bastasse o mico e todos estarem olhando pra nós, eles ainda começaram a acenar e a gritar o meu nome. Tenho certeza que isso foi proposital. Corri lá para aquele abraço coletivo e para tentar diminuir o mico.
–Mãe, não é muitas malas pra quem só vai passar uns dias? –Perguntei ao ver 3 bagagens na minha frente.
–Não vou ficar uns dias, vou ficar uns meses, esperarei a pequena Camila nascer. Quero ver minha netinha. –Como se já não bastasse o tempo que vai ficar, ainda chamou minha filhota de Camila. Aposto que isso foi coisa daquele louco.
–Tá bom, mãe, mas minha filha não vai ser Camila. –Falei.
–Não? Mas achei Camila tão linda. Sempre gostei desse nome. Se você tivesse nascido mulher, eu teria te chamado assim.
–Que fofo, dona Tetê. E que tal, Rogé? Camila é melhor que Sofia. Ao invés de lembrar de uma porca, se lembrará do seu amigo do coração...
–Sonha, Camilo. Aproveita que está de bobeira e me ajuda com uma mala. Só tenho duas mãos.
Ele pegou a mala e foi rindo para o carro. A minha mãe e a criatura foram abraçadinhas e de cochichos e risinhos. Aposto que estavam falando de mim. Para continuar a fofoca, as duas ainda foram no banco de trás e empurraram o Camilo para o da frente. É, elas estão falando de mim.
–Posso ligar a música, Rogé?
–Se não colocar aquelas porcarias de sertanejo universitário, pode.
–Ricky Martin pode?
–Preferia Alejandro Sanz ou Alejandro Fernandez, mas pode pôr. É melhor que deixar ligado na rádio.
Me arrependi. Ele pegou o pen drive que usava como chaveiro e colocou para tocar. A música era boa, mas o triste era ele tentando cantar junto, mais triste ainda foi ver minha mãe e a criatura embarcando na dele. Por que não trouxe os tapas ouvidos que uso na obra?
E chegamos em casa e eles já foram fofocar com o restante do pessoal e me largaram sozinho para carregar as malas. Joguei elas lá no meu quarto e fui pro meu cantinho no meio fio. Para minha surpresa eu encontrei o Jonas lá. Parecia meio abatido.
–Que foi, amigo? –Perguntei, ao me sentar ao lado dele.
–Que foi que a minha deusa também gosta de outras deusas.
–Oi?! Sua deusa é a Roseni e ela gosta de outras deusas? Que isso? Não é o que estou pensando, é?
–É. A Roseni é homossexual, lésbica, sapatão, ou seja lá o nome que vocês queiram dar...
Não aguentei e comecei a rir. Sei que não deveria, o Jonas é meu amigo, mas isso é hilário.
–Cara, você foi trocado por outra mulher. Mas a Roseni sempre pareceu tão feminina.
–Por fora é, mas, por dentro, ela também gosta de outras deusas. Estou mal, amigo.
–Cara, não sei nem o que te dizer. Só uma coisa me deixa confuso: Se ela gosta de mulher, por que aceitou namorar contigo?
–Pra tentar se reconciliar com a família. Ela me contou tudo há pouco. A família não aceita a opção dela e a rejeita. Eu fui só uma peça reconciliadora.
–Nossa, que família! Mas ela conseguiu se aproximar deles?
–Não, desistiu porque achou uma outra deusa que a fez compreender que eles não a merecem. Que ela não deve renunciar por sua felicidade para fazer sua família feliz e que, se eles realmente a amarem, irão a aceitar como é.
–Então foi por isso que uma vez ela me disse que não se dava bem com a família. Agora entendo. Uma vez até a vi chorando.
–Agora quem chora sou eu. Cara, eu fui trocado por uma mulher! Tem noção do que é isso?
–Deve ser ruim.
–É péssimo! Fui trocado por uma mulher...
–Isso passa. Pelo que vi é só o teu ego que está doendo. Dói ter sido trocado por uma mulher, não é?
–Virou psicólogo agora?
–Não, mas dói mais porque é diferente. Se fosse por um homem, aposto que você até estaria xingando e dizendo que ela perdeu um bom partido.
–Você zomba porque não é contigo. Se fosse a Lívia a te trocar por outra, aposto que estaria por aí, nos bares, chorando... Ri mesmo, quando eu me afogar no meu sofrimento, me jogar da ponte, pular na frente do ônibus, vocês chorarão.
–Quanto drama... Mais tarde, na minha despedida que vocês cismaram em fazer, eu te levo pra beber, afogar suas mágoas. Fechado?
–Que escolha eu tenho? A única coisa que me resta é me afogar na cachaça.
–Depois passa. Isso é só orgulho ferido.
Sai de lá rindo, tá, não deveria, não é certo, mas é a única coisa que posso fazer. Fico triste pelo Jonas, mas feliz pela Roseni ter se assumido e encontrado a felicidade. Ao menos ela foi sincera e falou antes que chegassem a algo mais sério. Não deram certo, mas continuarão sendo meus amigos. Me surpreendeu. Por essa não esperava.
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Depois de minha mãe já acomodada, por sorte tinha um quarto vago e ela não precisou ficar no meu, tomamos um café e juntamos o pessoal pra minha despedida. Não abriria o meu bar hoje e, amanhã, de qualquer forma, eu não abriria mesmo. Na minha lua de mel, o pessoal vai me quebrar o galho e ficar lá pra mim.
–Vamos logo, Batman! -O Djair me gritou.
–Já vou. –Gritei de volta, peguei minha carteira e desci onde encontrei o Djair, o Jonas e o seu Rodolfo.
–Vamos no carro de quem? –O Djair perguntou.
–No seu fusca, né? É o único que cabe todo mundo. –Falei.
–Tá, vou lá pegar. –Ele disse e saiu correndo.
O Jonas conversava, mais afastado, com o seu Rodolfo. Acho que estava desabafando com o pobre velho. A Lívia veio se despedir de mim e a Flávia estava junto.
–Tchau, amore. Se divirtam e não aprontem que depois de amanhã teremos que casar. –Ela me disse com um pequeno selinho no final.
–Obrigado, amore. Vocês também se divirtam.
–Vamos sim, Batman. Já chamamos uns gogo boys pra divertir a festa. –A Flávia disse, rindo.
–O quê?! Isso não é sério, é Lívia? –Perguntei, irritado.
–Não sei de nada, Rogério. Quem está organizando são elas. Não me ponha nisso.
–Flávia...
–Qual foi, Batman? Vocês vão mesmo ver stripers. Acho que podemos fazer um agradinho para sua noiva com uns homens gostosos vestidos de policial, bombeiros...
–Ei, ei, ei. Pode ir parando. Eu não vou ver mulher pelada nenhuma e nem vou deixar que a criatura veja homens pelados, com aquele negócio balançando pra cima dela.... Que nojo!
–Quem de vocês arrumou o bar?
–O seu namorado, o Djair.
–Então vocês irão ver mulher pelada. Mas, avisa pra ele, só ver, hein! Se eu souber que tocou, eu mato ele.
–E eu te mato, Batman. Isso também vale para você. Mesmo estando com esse barrigão, te capo.
–Não vou mais. Não quero ver mulher pelada e nem quero homens pelados perto de você, criatura.
–Ah, mas você vai. Vocês vão e irão se divertir. Mas não façam besteira e não se preocupem que não faremos nada de errado.
–Mas e a Roseni? Ela teria que vir conosco já que ela joga no nosso time.
–Ela vai sair com a namorada, não se preocupe. Podem ir. –A Lívia disse e me empurrou.
Eu fui um pouco receoso. Sei que a Flávia é tão peste quanto o Djair e é bem provável dela contratar uns machos pra se esfregarem na minha mulher e na minha mãe. Era só o que me faltava ter que imaginar isso depois de velho. Ainda tem o Camilo pra jogar mais lenha na fogueira. Sei que ele não poderá fazer nada porque o Jorge vai estar perto, mas isso não vai impedi-lo de empurrar aqueles brutamontes para cima da minha mãe e da criatura. Espero que tenha sido só uma brincadeira da Flávia, espero que...
–Chegamos! –O Djair falou e cortou meus pensamentos.
–Que bar é esse? Não conheço. –Falei.
–É um bar, meu amigo, que faz os homens felizes. -Ele disse rindo.
Saímos do carro e entramos naquele lugar. Era de stripers. Acho que vou chorar! Se ele nos trouxe aqui, imagino o que a Flávia não vai levar lá. Onde fui amarrar meu burro?
–Não estou gostando disso, filho. Já estou velho pra essas coisas. –O seu Rodolfo cochichou.
–Também não estou gostando, seu Rodolfo. O senhor tá muito velho pra essas coisas e eu muito novo para ser capado.
–Não devíamos ter deixado o Djair escolher o lugar.
–Concordo, mas já não tem jeito. Vamos só olhar e aproveitar para beber. Ninguém pode nos obrigar a nada, não é?
E não foi. Tá, não fizemos “nada” muito comprometedor, mas a carne é fraca e os pensamentos pecaminosos. Até tentamos nos comportar, mas com elas pra cá e pra lá nos tentando e se aproveitando de nós, uns pensamentos tentadores surgiram, mas me mantive forte e segurei a vontade. Só pequei no pensamento, O Djair foi um pouco mais abusado, mas também não chegou a tanto. O Jonas já estava meio apagado de tanto beber. Se nós estávamos tendo essa dificuldade em nos controlar, fico imaginando o que aquelas loucas não estarão fazendo. Vou ligar pra criatura e ver se está tudo bem.
–Amor, tá tudo bem? –Ela atendeu.
–Tá, é que fiquei com saudades. Tá tudo bem por aí?
–Aqui tá e aí? Estão se divertindo?
–Um pouco, mas já quero voltar para casa.
–Nem pensar. Podem aparecer só ao amanhecer. É perigoso sair essa hora.
–Quê?! Você me dando permissão para chegar de manhã? O que estão fazendo, Lívia?
–Coisas de mulher que vocês não precisam saber. Agora, divirtam-se.
Ela desligou na minha cara. “Coisas de mulher” imagino quais sejam essas coisas. Pronto, agora fiquei com minhocas na cabeça e nada me fará tirar isso da minha cachola.
–Aconteceu alguma coisa? Parece irritado? –Seu Rodolfo perguntou.
–É que liguei pra criatura e ela me disse que estavam fazendo “coisas de mulher” e que era pra aparecermos só ao amanhecer.
–Elas estão fazendo merda.
–Com certeza. Vamos arrastar o Djair para irmos embora?
–Só estava esperando você pedir.
E fomos nós. Carregamos o Jonas até o carro. O pobre já estava tão bêbado que nem aguentava andar. Depois fomos e arrastamos o Djair. Ele foi o único que não bebeu e o encarregado para dirigir. Reclamou bastante, mas acabou aceitando ao imaginar que poderia ter outros homens se esfregando em sua mulher. Chegamos lá rapidamente e, do lado de fora, já ouvíamos a música alta. Deixamos o Jonas largado no carro e entramos correndo. Para a nossa surpresa, elas só estavam dançando? Agora fiquei confuso.
–Ué, voltaram mais cedo? –A criatura perguntou.
–Voltamos. –Falei enquanto examinava o local à procura de provas.
–Com quem estavam? Aqui tem perfumes além dos de vocês. –O Djair perguntou enquanto farejava o ar como um cão.
–Com ninguém. –A Flávia disse, rindo.
Eu também fiz o mesmo e farejei, só que o pescoço da criatura. Estava com um cheiro diferente. Malditas! Elas contrataram os machos para dançarem!
–Vocês contrataram, não foi? –Perguntei.
–Não. –Ela me disse com certo deboche. –E vocês só foram beber, não é? Nada de verem mulheres peladas?
–Não. –Neguei.
–E nós não contratamos homens para dançar para a gente. Agora, será que podemos dormir? Estou cansada. –Ela foi me arrastando para o quarto e rindo.
–Sei que não...
–Não contratamos do mesmo jeito que vocês não foram num bar de stripers.
Tá, ela me pegou nessa. Só me resta engolir meu orgulho e dormir. Também estou cansado e estressado. Juro que nunca mais me caso se chegar a me separar dela e nunca mais a deixo ir em uma despedida de solteira. Que vida a minha... Esses estresses irão me matar antes do casamento.
Continua.
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