Pensamentos de uma Garota Vazia
19 Bola de neve
Notas iniciais
É que eu não suporto as pessoas. Achei que fosse algo normal, mas hoje posso dizer que é estranho. Eu não consigo ficar muito perto de alguém sem que eu acabe com tudo. Foda-se o drama; é essa a verdade. Quando digo acabar, eu digo que depois de certo período, meu sorriso não se sustenta. Meu riso faz um eco na minha mente e questiona-me tantas coisas. Os abraços parecem mortos. Eu começo a achar tudo falso e o que você faz quando isso acontece?
Há sempre um medo grande em começar algo. Todos já sentiram. Acho que até o imaginar algo me leva a sentir um frio na barriga. Às vezes, acompanhado do entusiamo. Outras de mera angústia. Terminar também é conflituoso, porque... É tão difícil desapegar, tão difícil!
Mas eu nunca senti nenhuma dificuldade. Isso me faz pensar que sou insensível. Completamente sem sentimentos. E claro, com a quantidade de exemplos que tenho, o drama aparece. Aquele discurso vou-ficar-sozinha-pra-sempre passa pela minha cabeça constantemente.
E o que me assusta nele não é a solidão. É o abandono. Sabe, naquelas histórias em que um cachorrinho é chutado na rua? Eu sou aquela que chuta. A que pisa, grita e fala para ele nunca mais voltar porque eu o odeio. Eu escolhi ficar sozinha e eu já machuquei tantas pessoas com isso... Eu fui insensível para todo mundo.
É que eu não suporto as pessoas. Achei que fosse algo normal, mas hoje posso dizer que é estranho. Eu não consigo ficar muito perto de alguém sem que eu acabe com tudo. Foda-se o drama; é essa a verdade. Quando digo acabar, eu digo que depois de certo período, meu sorriso não se sustenta. Meu riso faz um eco na minha mente e questiona-me tantas coisas. Os abraços parecem mortos. Eu começo a achar tudo falso e o que você faz quando isso acontece?
Eu tento fugir. Eu me isolo. A sete chaves, como se houvesse segredos demais. O único que eu não conto é que eu me sinto culpada por tudo. E aí, eu fico muito triste. Eu tento consertar, peço desculpas, mas as cicatrizes não se apagam.
Eu me sinto tão estúpida escrevendo isso. Porque não faz diferença. Todos fogem de mim e eu fujo deles também. E quando estou sozinha, tento fugir de mim mesma. Idiotice. Estou presa. Foi então que descobri que a pior parte é continuar.
Se eu fecho os olhos agora, imagino-me em uma montanha. Branca, cheia de neve, e eu estou no chão, encarando a imensidão com que ela se ergue. Lá no alto, bem de repente, eu vejo uma bola de neve enorme e não é nenhuma surpresa que metaforicamente ela represente os meus problemas. Aí, ela caí. Eu grito, choro, corro e ela é mais rápida. Mais cruel. Ela me vence, passa por cima de mim e some da minha vista.
Eu estou deitada no chão duro. Com tudo doendo, porque os problemas machucam de verdade. Mas, na minha imaginação, é como os desenhos animados. Eu estou igual; sem cortes, sem vermelhidões, sem nada aparente que diga: "Olhe para ela, ela está se sentindo muito mal". Eu fico parada ali. Sozinha em uma vasto lugar branco, com um chiadinho de vento, com aquele frio.
Fico assim por muito tempo e quando esse finalmente parece acabar, quando a bola de neve está lá em cima de novo — elas nunca acabam para ninguém — eu a olho e ela caí. Eu grito, mas dessa vez não choro. Continuo a correr e ela, como sempre, não tarda a me esmagar. Novamente estou no chão, despedaçada por dentro e exatamente igual por fora.
O continuar pra mim é a próxima cena e ela não termina. Sou eu sentada na neve branca, fazendo desenhos no chão, suspirando de cansaço. Estou, como sempre, sozinha e meu olhar paira sobre a enorme montanha a minha frente. Olho para o topo, procurando aquela bola de neve. Não essas que lhe relatei, cuja dor é suportável — e esse é o problema: eu posso senti-la o tempo inteiro. Ela me machuca, mas eu continuo de pé. Eu consigo viver com ela. Meus olhos procuram aquela, agora você já sabe, que determine o meu fim. A que me destrua, já que há essa altura continuar está sendo difícil demais.
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