Pensamentos Voadores
17 Sonhando pela Metade - part. III e IV
Sonhando pela Metade — part. III
Trabalho em um Hotel perto da praia e sou recepcionista. Este não era meu grande sonho para minha profissão, mas mesmo assim, eu gostava. Quando era menor e perguntavam-me o que queria ser quando crescer, respondia que seria médica/pediatra. Com o tempo, percebi que não aguentava ver sangue.
Andamos pouco, praticamente nada. Na realidade o Hotel ficava muito longe do Colégio, mas nem percebi isto em meu sonho.
Na rua havia várias pessoas que andavam despreocupadas para lá e para cá. Havia vendedores de doces, pasteis, bolos, e o Hotel reinava como o ponto alto de quem passava por ali. Helena puxou a minha roupa e perguntou se eu podia comprar um doce para ela. Assenti.
— Por favor, dê-me um pirulito, sim? — Helena falou.
— De qual sabor? — perguntou o vendedor.
— De morango! O vermelho! — respondeu.
O homem deu o doce para ela e nem mesmo pediu o dinheiro, nem eu, tampouco, peguei algo para o pagar. Não era real, leitora amiga, não julgue-me!
Entramos no Hotel e o sentimento de reconhecimento preencheu o sonho. Os funcionários estavam ali e nem perceberam quando eu entrei.
— O Thony realmente é legal. — comentou Helena.
Olhei abobalhada para ela. Como…?
— Como sabe sobre Thony?
— Todo mundo vê que você tem uma quedinha por ele, Helena! Mas é uma pena ele ser casado, não é mesmo?
Thony era um dos cozinheiros do Hotel. Alto, moreno, olhos escuros e cabelos castanhos, era lindo. Ele não era casado na vida real. Nem namorava. Mas a onda de decepção foi tão grande no sonho que quase acordei. Eu realmente gostava dele, e — como a maioria das mulheres apaixonadas — tinha uma imensa esperança que ele gostasse de mim também.
— Oh, não fique triste! Olhe, se realmente ama ele, vai aceitar o fato dele ser feliz sem você.
Que Deus me perdoe, mas não aceitei. Senti meus olhos encherem d’água e corri para fora do Hotel, sendo seguida pela peste da garota que me atormentava.
— Olhe, menina, chega, okay? Daqui para frente, me viro sozinha. Aliás, não sei nem o motivo para estar seguindo você. Suma, vá! Suma!
Ela me olhou sem se abalar, mas depois adotou um semblante triste.
— Desculpe-me, Helena. É que… Por favor, leve-me até minha mãe. Quero visitá-la.
Eu a olhei assustada comigo mesma por não ter pensado nisso. Aonde estava a mãe dela? A família… Porque ninguém ia com ela?
— Tudo bem — suspirei derrotada. — Aonde fica?
— Vou te mostrar. Vamos.
E, outra vez, deixei-me levar pela pequena garota que agora usava o meu laço de cabelo, segurava minha antiga boneca e saboreava o doce que entreguei-a.
Fim da part. III
Sonhando pela Metade — part. IV (final)
Eu sentia meus ombros pesarem e parecia que a menina nunca iria chegar, mas quando chegamos, me surpreendi. Fiquei de boca aberta e não soube o que dizer.
— Minha mãe esta aqui — disse a Helena mirim apontando para dentro do cemitério.
— Oh, meu Deus, Helena. Eu… Eu… Sinto Muito.
— Sim, você sente. Vamos, entre.
A garota não demonstrava tristeza nem algo do tipo. Ela estava fria — não literalmente, mas como se nada sentisse. A olhei e me senti mal por tê-la tratado com tanta grosseria um tempo atrás. Nem conhecia os problemas dela. Coitadinha.
Caminhamos um pouco mais e chegamos em frente a uma lápide. Não tinha nenhuma frase, só o ano de nascimento da mulher e da morte, mas quando eu abaixei os olhos para ver o nome e a foto… Paralisei.
Helena Wise SantiagoMeu nome. Minha foto.
Eu.
O ar fugiu de meus pulmões e procurei algo para apoiar-me. O local foi uma outra lápide, desta vez, com o nome de minha mãe.
Helena Wise SantosCorri. Não pensei em nada, somente corri; mas — como em um passe de mágica — Helena, a garotinha, aparece em minha frente.
— Colocar o mesmo nome para filhos e netos é regra em sua família?
— C-como assim?
— Helena Wise Santiago é minha mãe, mamãe.
Fiquei olhando para a garota na minha frente. Eu estava morta? Impossível! Impossível! Se eu estivesse, como ela ela estaria aqui?
— Por isso o homem do carrinho não ligou para você. Por isso os funcionários do seu antigo trabalho nem notaram sua presença. Por isso você começou essa jornada em um Hospital. Foi o último lugar onde esteve.
— Você é louca! — disse tentando sair dali, mas Helena me perseguia.
— Você já viu a prova. Sua lápide. A lápide da vovó. Aliás, mamãe, você quer saber do que morreu?
— Não quero saber de nada! Nada! Nada! — gritei.
E acordei.
Eu estava suada, respirando pesado, bastante assustada e deitada na minha cama, com o coração batendo descompassado, tudo no seu devido lugar.
— Meu Deus! — murmurei — Só um sonho. Somente um sonho ruim.
Um baita de um pesadelo ruim. Que estranho… Levantei-me e fui para a cozinha beber um copo d’água. Passei pelo relógio do corredor e vi que era nove horas da manhã.Droga! Pelo menos hoje não tem trabalho. O celular deve ter descarregado para não tocar.
Na cozinha, a telefone fixo piscava uma luz vermelha, sinal que tinha alguma mensagem de voz. Era a Júlia.
— Olá, Helena! Acho que ainda esta dormindo. Olhe, hoje a noite eu, John e Thony vamos para o cinema, se quiser vir também me liga, okay? Beijos, dorminhoca!
Peguei o telefone e liguei para Júlia. Eu precisava ir a algum lugar, e já tinha idéias para aonde ia.
— Alô? Helena?
— Olá, Lúcia! Eu recebi sua mensagem, mas não vou poder ir. Eu… hmm… acho que irei visitar minha mãe hoje, no cemitério.
- Ah, amiga, tudo bem. Você vai passar pela frente da minha casa, não é? Olhe, traga a minha bolsa que esqueci no seu carro, okay?
— Tudo bem… Tchau.
Arrumei-me e me dirigi para a casa dela. No caminho, passei pelo Colégio que tinha visto no meu sonho. Ele estava vazio (era Domingo), mas muito bem conservado. Da onde eu iria criar aquele sonho maluco?
Entreguei-lhe a bolsa quando cheguei na casa dela e tomei rumo para o cemitério, entrei e sentei-me na lápide de minha mãe. Olhei para o lado, onde no pesadelo estava a minha lápide, e se encontrava vazio. Estremeci.
— Olá, mãe. — comecei a falar sozinha — eu tive um sonho estranho. Sabe, faz tempo que não venho aqui, visitar a senhora… Eu te amo, sabe disso, não sabe? Eu estou com medo. Aquele pesadelo… foi tão… real. Tão, tão… assustador. Nele tudo dava errado. Tudo! E eu estava morta! O homem que amo tinha outra. O Colégio que fui criada estava destruído! O último local da minha vida tinha sido um hospital horrível! Eu queria que estivesse aqui comigo, mãe! Eu daria tudo para você estar aqui comigo! Necessito do seu colo…
— Moça?
Levantei os olhos encharcados pelas lágrimas e vi uma garota de cabelos pretos, uns nove anos, creio eu. Tinha um laço vermelho no cabelo, uma boneca no braço e na mão um perulito.
— Pode me levar até minha mãe? Eu me perdi.
Arregalei os olhos. Será…?
— Como é seu nome, menina?
Fim — Sonhando pela Metade.
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