Pensamentos Voadores

3 Saia para brincar, criança.


— Clarisse Wise era uma criança adoravelmente angelical em suas feições, mas insuportavelmente desrespeitosa para com a família, regras e costumes. Em pleno século XIX aquela garota poderia ser considerada uma peste. Filha de uma família rica, era mimada e possuía uma triste frieza, consequências de acontecimentos passados.

Certo dia, Clarisse quebrou outra regra ao conversar com um jovem cavalheiro desconhecido na região, de talvez uns dezesseis anos. Os cabelos do rapaz era negro como a mais escura noite, os olhos terrivelmente assustadores e olheiras que lembravam o mais profundo poço.

Os encontros entre os dois aconteciam com uma frequência perigosa. O rapaz saia a noite, entrava no quarto da menina pela janela banhada a ouro puro e sussurrava em seu ouvido:

- Saia para brincar, criança.

E ela ia.

Os pais da garota não percebiam as profundas cicatrizes esquisitas que marcavam o corpo da garota. Na realidade, nem ela mesma percebia as marcas horrorosas em formato dentário em seu pescoço, braços, nuca…

Clarisse cresceu e se tornou sombria. Ela sabia que aquele ser que a acompanhava todas as noites não era humano. Era impossível que ele fosse; e ela estava certa. Mas não importava. Ela o amava. Amava aquele monstro noturno mais do que a si mesma. Por isso vendia-se. Vendia a ele seu corpo, sua alma, seu sangue.

Ao completar dezesseis anos, Clarisse não voltou para casa. Os pais da garota saíram para procurá-la e a encontravam pálida, sem sangue, morta, nua, coberta por rosas vermelhas igualmente sem vida, no meio do bosque, com apenas um bilhete sobre o busto que dizia com uma caligrafia admirável:

“Foi um prazer brincar com você”