Pensamentos Voadores

32 Meu jeito de ser feliz


Acho que se alguém me perguntasse nesse momento o que eu queria da vida, eu não saberia responder. Talvez por que nunca pensei muito sobre o assunto, ou até porque não queria ter uma vida planejada, como todas as criancinhas fazem.

Nunca entendi o porquê das pessoas ficarem pensando no futuro, ou escrevendo uma rotina que deverá ser seguida ao extremo quando chegar à fase adulta. Patético, até. Todos nós sabemos que o improvável é o mais provável da vida – que nada deve ser seguido como uma linha onde não se permite erros, sempre vai aparecer um obstáculo, nada sairá do jeito que gostaríamos. Nada.

Muitos me acham sem noção, sem futuro, uma louca. Mas só quero curtir o agora, amanhã pode ser tarde demais.

Sou viciada em adrenalina. Minha mãe me disse que esse “desejo” por perigo começou a se manifestar ainda na minha infância. Ela diz que eu gostava de ficar assistindo as pessoas pulando de pára-quedas na tevê, e que sempre sonhei em fazer o mesmo. E vou fazer; hoje. Claro quê; quando ela soube quase teve um ataque, me chamou de louca e suicida, me acusou que queria matá-la do coração, tirar o que era mais importante na vida – eu. Tive que acalmá-la e explicar tudo umas trinta vezes. Agradeço a Deus, por ela sempre ter compreendido o meu jeito de ser e aceitar como sou – mesmo ficando magoada com a reação dela, entendo que a proteção é quem fala mais alto. Coisa de mãe.

Pensando melhor, tudo o que sempre fiz na vida – esportes radicais, na maioria – me tornou uma pessoa mais forte e independente. Hoje, ao auge de meus dezoito anos, já passei por muita coisa que gente de cinqüenta não experimentou. E me sinto realizada com isso.

Mesmo com todo esse meu jeito de rebelde, nunca abandonei meus estudos ou criei problemas para mamãe e papai. Pelo contrário, sempre fui uma ótima aluna e filha. Exemplar, se ouso dizer.

O vento zumbia alto em meus ouvidos. A sua força estonteante fazia meu cabelo bater contra meu rosto, causando-me uma leve ardência no mesmo. O céu estava de um azul celeste perfeito, limpo, totalmente livre de nuvens a não ser por uma ou duas, o que deixava tudo ainda mais belo. O sol incidia exatamente no centro — acima ou até mesmo na minha frente — proporcionando á minha pele um calor agradável. Sentada de pernas descruzadas, olhava uma bela e ao mesmo tempo assustadora paisagem. Literalmente á beira de um precipício, era onde eu estava no momento. O enorme e montanhoso penhasco se abria á minha frente. Abaixo de mim, o mar infinitamente cristalino ia de encontro ao horizonte, totalmente calmo e perigoso. As ondas chocavam-se contra as pedras, proporcionando-me um acústico ambiente, calmante, reconfortante. Eu já podia até sentir a adrenalina correndo por entre minhas veias, fazendo meu coração acelerar e a ansiedade se alastrar rapidamente pelo meu corpo. Perto de mim, já estava tudo preparado, as cordas e equipamentos de segurança e o aviãzinho que me levaria. Eu já estava toda “acorrentada” com aquelas roupas e fivelas. Indispensável, claro.

Morrer de medo nunca fez parte de meu vocabulário, eu sempre procurei perigo – e sei que se alguma coisa der errado, é irracional culpar alguém por isso.

Contemplei mais uma vez a paisagem na minha frente, já formando planos para pular daquele penhasco gigantesco. Ok, eu não sou suicida então, plano descartado.

Respirei fundo, não queria adiar o momento.

Minha mãe esta lá embaixo, na praia, me olhando. Sorri, mesmo sabendo que não dava para ela ver. Agradeci novamente a Deus por ter uma mãe como a minha. Queria poder dizer para ela se acalmar, se sentar, e até mesmo, se fosse possível, sentir o que eu certamente sentiria – a paz de fazer o que gosta.

Sabia que eu estava pálida, mas adorava aquela sensação pré-adrenalina ou... sei lá.

Rezei rapidamente para tudo dar certo, não era nada legal começar a tremer, sendo que já fiz coisas como àquelas milhares de vezes.

Levantei-me e andei até Mike, ele era a pessoa que cuidava de toda a segurança dos equipamentos.

– Esta tudo certo? – perguntei

– Tudinho. Pode subir no avião agora se quiser – ele respondeu.

– Ótimo!

Fui até a beira do precipício novamente e dei um tchau para mamãe, ela imitou o gesto.

Abri uma fivela que ficava perto da cintura e apertei-a novamente. Mike bateu no meu ombro em um gesto amigável, me dando força.

Fiquei feliz por não ter tropeçado muito. Tenho um probleminha de ficar nervosa e acabar caindo – mas raramente acontecia.

Tonteei as minhas costas o máximo que pude para ver se tudo estava em perfeitas condições.

– Esta tudo pronto. Revisei cada mínimo detalhe – respondeu Mike, como se lesse a minha mente.

Entrei no avião e esperei ele chegar à altura necessária.

Contei mentalmente, me preparando para saltar. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... Olhei para a praia, onde minha mãe estava, mas não consegui vê-la na areia, mesmo assim sorri.

“Eu te amo, mamãe” – pensei.

E saltei.

Não tonteei nem uma vez, mas gritei. Um grito de alegria e esperança. Pois eu sabia, ali, aquela vida, era a minha vida, era a minha escolha. Sempre, sempre e para sempre. O meu jeito de viver, e nunca, ninguém vai mudar isso. A minha maneira de ser feliz. Única.

Sonho realizado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.