Pensamentos Voadores
12 Ignorar
— Não entendo. Você é tão fechada, tão… outra pessoa. Porque usa esta máscara invisível?
— Máscara. Máscara. É uma máscara mesmo. Tenho meus motivos, minhas decepções. É difícil reconstruir o prédio sem algumas imperfeições, entende? Digo, eu fui destruída, querido, para começar novamente foi complicado. Não quero passar por tudo outra vez. Essa minha máscara é um tipo de barreira ao meu redor.
— Eu não entendo. Não seria mais fácil as pessoas saberem de seus sentimentos para não machucá-los? Se elas permanecerem na ignorância podem causar algum dano sem nem perceberem.
— As pessoas são cruéis, meu bem. Eu tenho que ser forte, tenho que demonstrar que não me importo para todos verem que não irão me atingir, mesmo que atinjam. Se eu for sincera, realista, chorar na frente de todos, todo o apoio que terei será falso, inútil; aprendi que haverá gente que ficará feliz com isso e pegará minha fraqueza como razão para continuar a fazer o que deixa-me mal.
— Você pensa tão mal dos seres humanos. Todos temos defeitos. Você não pensou em perdoar ao invés de guardar rancor?
— Eu perdoei. Dezenas de vezes. Perdoei tantas vezes as outras pessoas que elas acharam que eu não guardaria ressentimentos. Mas guardo. É complicado, querido. Podemos conversar sobre isto numa outra hora? Minha cabeça dói.
— Claro, querida. Durma. Eu estarei aqui com você quando o sol nascer outra vez.
Ela permitiu-se fechar os olhos e descansar, mas ainda sentia aquele bolo na garganta e o medo no peito de sofrer uma decepção outra vez. Vou esquecer. Tenho que esquecer — era o que pensava; mas como esquecer algo que mudou toda a sua vida? Sabia que não conversar sobre isso não seria uma saída, mas era a única coisa que poderia fazer no momento. Ignorar. Tudo e todos. Somente ignorar…
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