O restaurante estava quase vazio por ser dia de quarta-feira, não passava de sete da noite, mas estava perto disso. Ludovico e Guilherme estavam sentados numa mesa isolada no canto do estabelecimento. Discutiam assuntos indiscutíveis, adoravam isso.


- Caro amigo Ludovico – riu Guilherme enquanto bebia seu café sem açúcar – não seja tão descrente. Abra um pouco sua mente, sim? O destino… o destino não é para ser compreendido, mas ele está lá, guiando toda alma viva deste mundo grandioso.


- Temo que se sinta ofendido, meu amigo, mas isso é uma coisa que não acredito. Ah, a capacidade humana! Tão inúteis, e me sinto pequeno por fazer parte desta medíocre espécie. Não falarei da violência e de tantas outras situações que nos fazem pensar no ponto que chegamos, mas entregar nosso futuro nas mãos de… do quê? Destino? O que espera que ele faça? Acredita mesmo que se posso me tornar um grande músico, por exemplo, o destino me fará ser isso, mesmo que eu não tenha lutado, me esforçado? Desculpe-me, mas isso é uma tolice.


- Não disse isso – Guilherme realmente sentiu-se ofendido -, acredito, pois acho que nada é por acaso. Se uma moeda de cinco centavos cai à frente de uma pessoa ignorante, ela poderá usá-la para algo supérfluo. Se essa mesma moeda, depois de ter passado por esta pessoa, ir parar nas mãos de um coração bondoso, poderá, quem sabe, ir cair na frente de um necessitado, que estaria precisando exatamente de cinco centavos para completar a quantia de comprar o pão para os filhos.


- No que a sua concepção de destino entraria nessa situação?


- Se não fosse pela pessoa mesquinha, a moeda nunca teria chegado à outra, que por sua vez nunca teria sido doado ao mendigo.


- Isso não é destino.


- Nada é por acaso, Ludovico. Isso é o destino.


Levantaram-se, pagando a conta e seguiram rumo à porta.


- Entendo seu ponto de vista, mesmo não concordando.


Ludovico tropeçou numa peça pequena, mais ou menos de quatro centímetros, não sendo totalmente quadrada, como se tivesse sido quebrada. Indo de encontro ao chão, Ludovico soltou maldições.
Rindo, Guilherme ajudou o amigo a se levantar e pegou a peça.


- Ah, veja só, o que temos aqui?


- Não sei – resmungou, limpando a roupa e ignorando os risos dos que passavam – que azar!


- É o destino! – riu Guilherme, colocando a peça dentro do bolso interno do casaco do rapaz.


- Tire isso daqui – retirou, percebendo que era pesada e parecia resistente — não a quero, porque iria querer?


- Ora, quem sabe? Guarde, talvez seja útil. Deve ter caído de algum carro, ou foi arrancado.


Ludovico, de expressão fechada, colocou dentro do bolso da blusa, que ficava no peito.


- Vou indo por aqui, nos encontramos depois.


- Até amanhã.


Foram andando, calmos, cada um por seu caminho. Qual não foi a surpresa de Ludovico, ao ver que estava sendo prensado bruscamente contra a parede, alguma coisa fria apertada contra a costela.


- Devagar – uma voz se fez presente – passe tudo, tudinho.


Tremendo, tirou a carteira do bolso da calça, o casaco de marca e o relógio.


- Ótimo, ótimo. Agora, ande, e não olhe para trás.


Fez isso. Ao dar alguns passos cometeu um erro e virou-se para ver se já tinham ido, depois sentiu um aperto do peito.


…


Guilherme corria até a sala do hospital, e respirou aliviado ao ver o amigo assobiando na cama com lençóis azuis.


- É, esse troço de destino pode até existir.


- O que?


- Aquela peça lá. Amorteceu o tiro. Por pouco não estou morto. É claro que necessitei de uns pontos, mas não chegou tão fundo.


Guilherme riu nervoso e novamente, aliviado.


- Eu disse. Cadê?


- Destruída.


- Foi o destino, meu amigo, foi o destino.


Ludovico riu.


- Considero-me um pouco mais religioso. Hmm, foi sorte.

Notas finais
Não reproduza sem créditos