Pensamentos Voadores

7 As paredes tem ouvidos


— Ele estava parado no meio da sala, olhando atentamente pela milésima e última vez o quadro da mulher que mudou toda a sua vida. Ela estava sensual, o vestido presto dava valor os seios, as pernas cruzadas mostrava o poder que possuía e a face séria demonstrava um mistério peculiar. Os cabelos estavam brilhosos e toda a perfeição daquele quadro ainda era pouca para a realidade.

O homem foi até o bar, serviu-se de um Whisky, e tocou a mala de couro de cobra. A mulher era linda, mas uma vadia de primeira. Pelo menos ficou com a riqueza que ela possuía. Será que um dia alguma palavra prometida foi verdadeira? Não, o homem riu seco ao pensar. Como fui estúpido. Decidindo apreciar outro copo da bebida, ele sentou-se na cadeira e começou a relembrar de tudo.

Uns cinco anos atrás ele conheceu aquele inferno de pessoa — que o proporcionou o paraíso — em uma viagem de navio que estava os levando a Fernando de Noronha. Ele caiu na lábia daquela diaba como um peixe cai na rede, mas sem lutar contra. As férias foram maravilhosas, com a presença dela ainda mais. Ele estava totalmente enlaçado. Começaram a namorar, noivaram e casaram. Tudo estava perfeito, até que ouviu uma conversa da mulher com uma… comparsa.

- Tudo bem — ela dizia — já esta acabando. Consegui o que queria, darei um fim nisto… Sim, seu sei… Não! Apaix… Não! Não venha me dizer que estou demorando muito nisto… Escute, ficarei com tudo. Ele não tem filhos, é sozinho, tudo ficará para mim. Tenho contatos na polícia, na perícia, na criminalística, vou contratar meus amigos que trabalham no ramo e dar uma boa quantia para eles deixaram tudo em silêncio, como sempre… Esta tudo sobre controle, okay? Tudo. Vou desligar. Boa noite, amor.

Ele soube de tudo desde que ouviu aquele telefonema. Ela tinha outro. Ela iria matá-lo. Mas foi mais rápido. Agora quem estava a sete palmos debaixo da terra era ela, e a filha (ele descobriu que não era um amante e sim uma filha) se encontrava presa. Foi ele quem pagou para os comparsas da ex-mulher deixar tudo abafado. Ficou surpreso ao saber o quanto de dinheiro ela tinha com golpes e a quantidade de assassinatos que ela foi a responsável. Mas ele — eu - seria seu troféu, seu topo, seu melhor caso. O erro dela foi não lembrar do velho ditado: ‘As paredes tem ouvidos’.

Levantando-se, pegando a mala, e deixando o copo do balcão, ele olha pela última vez o palco de tantas mentiras. Abrindo a porta, entra no carro, ajeita o terno Chanel e se encaminha para sua lua-de-mel com sua mais nova esposa. Fernando de Noronha. Ótimo lugar para recomeçar.