Saudade, o dicionário é bastante especifico com o seu significado, diz que é uma recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas. Suave? Acredito que o Vinicius de Moraes não pensava assim quando enfadado da mesma se queixou em “Chega de Saudade”, mas se ele não a tivesse, não existiria o grande poeta apaixonado. Esqueceria a caneta, o papel e o violão, e ao invés de com a dor escrever uma canção, se depreciaria bebendo chá enquanto chorava vestido de roupão. Sentimentozinho atrevido, aparece quando não a querem e some quando a necessitam. Canonizadora do que se tem distante, aperfeiçoadora das lembranças e borracha para os erros. Uma ilusionista sádica, crescente na ausência de ação. Um protestante lutando pelo querer e não ter. Maldita inspiradora de sonetos, poemas e declarações. Já consagrou pessoas em poetas, já machucou pequenos amantes. Quando iniciada possa ser que desesperadora, mas chegando seu término é arrebatadora. Amiga da paixão, companheira do amor, amante da ilusão, irmã da dor, companhia para a solidão. Sem ela não haveria ímpeto, distantes apaixonados deixariam de tentar viver um grande amor, o tédio e conformismo prevaleceria, graça a vida não teria, não seria tão completo o amor. Saudade é veneno, pode matar e também dar o antídoto. Há quem reclame, há quem a queira, há quem viva com ela não querendo abandona-la. O mal necessário que intensifica meticulosamente a vida, ironizada pelo destino. Explorada, rejeitada, implorada, escancarada, adjetivada e ainda assim não caracterizada. É bonita em livros, invejada em histórias, quista pelos entediados, interrogada pela memória. Contraditoriamente existente, alivio quando começa ebulir, apertada no peito de quem sente, na felicidade faz contribuir. Loucura não é ter vontade de saudade, mas ficar sem ela e existir por existir.